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Voz do professor: instrumento de ensino maltratado e doente

20 de setembro de 2016

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Para os professores, de qualquer disciplina, a voz é o principal instrumento de trabalho, utilizado em tempo contínuo e prolongado até o limite da exaustão física. Diferente de outros profissionais como cantores, locutores, executivos e políticos que fazem treinos vocais, o professor raramente recebe orientações de especialistas sobre o uso adequado da voz.

Que curso de licenciatura, secretarias de educação, sindicatos e escolas oferecem aulas de impostação da voz, dicção, articulação e relaxamento vocal? Voz também se educa, tem treino específico para manter-se saudável e resistente. Sem cuidados com a voz, o professor padece de desgaste físico constante que, depois de alguns anos, resulta em nódulos nas cordas vocais, cirurgias e até seu afastamento definitivo.

A voz é o nosso principal meio de comunicação, que nos permite expressar pensamentos, sentimentos e emoções. Uma boa dicção traz clareza e objetividade para a mensagem, facilitando a compreensão. Uma voz agradável transmite segurança e determinação, e é essencial nas relações interpessoais.

Enfim, é o nosso cartão de visita que revela aspectos importantes de nossa natureza pessoal, que pode aproximar ou afastar pessoas. Quem já não se sentiu incomodado com uma voz esganiçada ou com um timbre vocal lúgubre?

Voz: um alerta aos professores

Voz do professor

O aumento no número de professores afastados da sala devido problemas na voz faz parte da realidade brasileira.

Em um estudo realizado pelo Centro de Estudos da Voz (CEV) com o Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP) e com a Universidade de Utah, nos Estados Unidos, 35% dos entrevistados relataram a presença de cinco ou mais problemas vocais, e 63% disseram já ter tido algum problema durante a vida.

Os principais problemas relatados pelos professores foram: cansaço vocal (92%), desconforto para falar (90,4%), esforço para falar (89,2%), garganta seca (83,4%), rouquidão (82,2%), dificuldade para projetar a voz (82,8%), instabilidade ou tremor na voz (79,3%) e dor na garganta (72,7%).

A atividade docente implica, quase sempre, em uma demanda vocal maior que a habitual. A isso se somam alguns fatores inadequados do local de trabalho: acústica e tamanho da sala de aula, uso de aparelhos auxiliares (microfones), quantidade de alunos por sala e a idade dos alunos. Além disso, o professor está mais exposto a condições insalubres como pó de giz, salas mal ventiladas ou com correntes de ar, alunos com gripes, resfriados e outras doenças laríngeas – situações que podem contribuir para o surgimento de alterações vocais.

Usar excessivamente a voz de forma incorreta e em situações de risco podem desencadear problemas relacionados ao trauma constante, como pólipos, nódulos e granulomas, que são lesões de cobertura das pregas vocais.

Mitos da saúde vocal

Desconhecendo os cuidados básicos para preservar a saúde vocal, o professor acaba reproduzindo comportamentos errados, alguns dos quais já se tornaram mitos no meio escolar. Os mais comuns são:

  • Chupar balas e pastilhas para aliviar a garganta irritada. É um equívoco, pois essa prática mascara o sintoma e a pessoa acaba forçando a voz sem perceber.
  • Pigarrear para eliminar a secreção nas pregas vocais. O efeito é exatamente ao contrário pois essa ação provoca um forte atrito nas cordas vocais, irritando-as. Ao sentir vontade de pigarrear ou tossir, respire profundamente pelo nariz e engula a saliva várias vezes, ou beba água.
  • Beber álcool para aquecer a voz. A bebida alcoólica pode até gerar um efeito agradável de relaxamento, mas provoca, também, um efeito anestésico. Com as pregas vocais amortecidas, podemos exagerar no esforço causando um desgaste ainda maior na voz.
  • Tomar café para limpar a garganta. O teor de cafeína e a temperatura elevada da bebida desidratam as cordas vocais e, assim como o cigarro, irritam a mucosa do trato vocal e aumentam a acidez no estômago causando refluxo e ardor na hora de falar.
  • Fazer gargarejos com folhas de romã, limão e vinagre, gengibre etc. – os gargarejos não atingem as pregas vocais e algumas receitas caseiras podem causar mais dano à voz.

Inalação para aliviar a rouquidão

O único elemento externo que consegue chegar às bordas e pregas vocais sem encontrar qualquer empecilho é o vapor d’água, obtido pela fervura de água numa chaleira ou por meio de nebulizadores.

Faça inalação de água fervida com sal e/ou soro fisiológico, antes de dormir, iniciando com alguns minutos (dois a três). Inspire e expire pelo nariz e, com a boca fechada, faça o som HUMMMMMM contínuo, em qualquer tom que seja agradável. Repita por várias vezes.

Cuidado: não aspire pela boca, uma vez que o ar quente pode queimar sua garganta e o excesso de calor resultar em ação contrária, agravando mais ainda o problema.

Cuidados para a saúde vocal

Voz do professor

Falar enquanto escreve na lousa e ainda torcer o corpo – ações demolidoras da saúde vocal do professor.

Para garantir uma voz saudável, a atenção a alguns cuidados básicos ajudará que ela aguente as variações ao final de um dia com muitas aulas. Listamos, abaixo, os principais conselhos dos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos.

1. Sala de aula e sala dos professores

O primeiro conselho é, possivelmente, o mais complicado de executar: não falar em ambientes onde haja barulho. Não se deve competir com o ruído ambiental forçando a voz e falando mais alto. Controle o volume da voz, não grite. O grito é uma agressão às cordas vocais e laringe e pode causar graves danos.

Nas aulas ao ar livre o desgaste da voz é maior; use apitos para chamar atenção, fale perto das crianças para dar ordens, organize antecipadamente a dinâmica para jogos, use megafone ou coloque as mãos em torno da boca. Não se iluda com o microfone: até para usá-lo é preciso conhecer a técnica vocal apropriada.

Planeje bem suas aulas alternando aulas expositivas e atividades de menor uso vocal.

 2. Pó de giz

Tanto o giz como o apagador, ao serem utilizados, soltam muito pó que se espalha pelo ar e acaba sendo inspirado pelo professor e alunos agredindo a mucosa nasal e as cordas vocais. Assim como poeira, mofo e pelos de animais, o pó de giz possui componentes alérgicos que podem sensibilizar quem já tem predisposições a alergias respiratórias, como por exemplo, uma rinite alérgica, provocando espirros e coceira na garganta. Usar giz antialérgico e apagar a lousa com um pano úmido podem minimizar o problema.

3.  Ar condicionado

O ar condicionado pode ser um grande inimigo das cordas vocais, pois ele muda a temperatura e a umidade do ambiente, ressecando as mucosas e modificando a maneira com que as pregas vocais vibram. Além disso, alguns aparelhos são barulhentos o que obriga o professor a falar mais alto.

A melhor opção é evitar ambientes climatizados, mas se isso não for possível, procure manter um copo de água sempre perto de você. Tome bastante líquido para manter seu corpo hidratado.

4. Uso adequado da voz

Fale em intensidade moderada. Evite gritar, falar em excesso ou competir com o ruído ambiental. Usar a voz em tom mais alto ou mais baixo (sussurrar ou cochichar) exigem um maior esforço vocal que pode provocar a formação de nódulos.

Use o intervalo entre as aulas como repouso vocal; fale menos e evite conversas ruidosas na sala dos professores.

Peça para um aluno fazer a chamada no seu lugar.

Articule bem as palavras. A boa dicção permite a clareza da comunicação, poupando a voz e evitando que você tenha que falar alto para ser melhor ouvido. Veja, no final desse artigo, exercícios de articulação e dicção.

5. Atenção à postura

Quando estiver falando, em qualquer situação, mantenha a postura do corpo ereta, sem tensão. Nunca incline a cabeça, inclusive ao falar no telefone e no celular. Não concentre a força no pescoço pois é a pressão na cervical compromete o aparelho fonador.

Quando estiver escrevendo na lousa evite falar olhando para a classe, pois isso provoca mau posicionamento da laringe. Quando for falar, pare de escrever, vire-se e olhe para os alunos.

Uma boa dica é bocejar (antes de entrar na sala de aula, evidentemente), pois isso diminui a tensão na região dos ombros e pescoço e ajuda a aquecer e alongar as cordas vocais. Vale também espreguiçar e fazer alongamento do pescoço.

Cervical

A cabeça inclinada pressiona a cervical e compromete o aparelho fonador. Corrija-se ao usar o celular e quando estiver lendo.

6. Hidrate-se a todo momento

Manter-se hidratado é um dos segredos para manter a voz saudável. Traga consigo uma garrafa de água em temperatura ambiente (nunca gelada nem água gasosa) e beba alguns goles sempre que possível, inclusive durante a aula. A água ao passar pelas pregas vocais, hidrata essa região permitindo que elas vibrem com mais facilidade e evitando a boca seca e a rouquidão.

Uma dica para saber se o seu corpo está hidratado é observar a cor da sua urina: amarelo claro é sinal de corpo hidratado, amarelo escuro ou acastanhado é sinal de corpo ressecado e desidratado.

7. Alimente-se adequadamente

Alimente-se de forma saudável regularmente, evite alimentos pesados e muito condimentados que causam azia, má digestão e refluxo de secreções gástricas.

Antes da aula, evite chocolate, achocolatado, leite e seus derivados pois aumentam a secreção na região vocal. A maçã, ao contrário, é adstringente, e limpa o trato vocal trazendo alivio e bem-estar. No intervalo das aulas, comer uma maçã é o maior benefício que você pode dar à sua voz.

Exercícios de articulação para usar bem a voz

Habitue-se a fazer um aquecimento vocal antes das aulas. Há uma série de exercícios respiratórios e vocais cuja finalidade é aquecer a musculatura das pregas vocais antes de uma atividade mais intensa para evitar sobrecarga e a fadiga vocal.  Os mais comuns, mas muito eficientes, são:

  • Alongamento da cabeça, pescoço e ombros.
  • Pronunciar prolongadamente “s” e depois “z” enquanto solta o ar.
  • Mastigar com a boca fechada pronunciando “humm”.
  • Vibração da língua em escala ascendente.
  • Vibração dos lábios (como faz o bebê).
  • Pronunciar “pa-pa-pa” seguidamente
  • Bocejar.
Alongamentos para o professor

Quinze minutos de alongamento, antes e após o dia de trabalho, devem fazer parte da rotina do professor.

Exercícios de dicção para melhorar a sua comunicação

Ler em voz alta, exagerando ou hiperarticulando todas as sílabas é um excelente exercício para aprimorar sua dicção. As frases a seguir estão cheias de encontros consonantais que exigem articulação e movimentos seguidos da língua. Escolha algumas para treinar todo o dia. Não se preocupe com o ritmo ou velocidade de sua leitura, faça o exercício de forma bem consciente e com calma. Se quiser dar uma carga maior ao seu treino vocal, leia as frases abaixo mordendo um lápis.

  1. O prestidigitador prestativo e prestatário está prestes a prestar a prestidigitação prodigiosa e prestigiosa
  2. Branca branqueia as cabras brabas nas barbas das bruacas e bruxas branquejantes.
  3. Trovas e trovões trovejam trocando quadros trocados entre os trovadores esquadrinhados nos quatro cantos.
  4. As pedras pretas da pedreira de Pedro pedreiras são os pedregulhos com que Pedro apedrejou três pretas prenhas .
  5. O grude da gruta gruda a grua da gringa que grita e , gritando , grimpa a grade da grota grandiosa .
  6. No quarto do crato eu cato quatro cravos cravados no crânio da caveira do craveiro.
  7. O lavrador é livre na palavra e na lavra , mas não pode ler o livro que o livreiro quer vender .
  8. Fraga deflagra um drible , franco franqueia o campo , o povo se inflama e enfrenta o preclaro juri , que declara grave o problema .
  9. Quero que o clero preclaro aclare o caso de clara e declare que tecla se engana no que clama e reclama.
  10. A flâmula flexível no florete do flibusteiro flutuava fluorescente na floresta de flandres.
  11. Na réplica a plebe pleiteia planos de pluralidade plausíveis na plataforma do diploma plenipotenciário .
  12. A hidra, a dríade e o dragão ladrões do dromedário do druida foram apedrejados.
  13. O lavrador lavrense estudou as livrilhas e as lavrascas no livro do livreiro de lavras.
  14. O gato cruel cravou as garras no cangote do camundongo que comia crosta de cará na cumbuca quebrada. O cão que cochilava acordou com o conflito e correu com o gato.

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