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As viagens de Colombo e a polêmica do descobrimento

11 de outubro de 2019

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As viagens de Cristóvão Colombo se inserem no quadro da expansão marítima e comercial europeia. A Europa do século XV era uma sociedade que ainda sofria perturbações econômicas e sociais causadas pelas devastações da Peste Negra. Era pequena na oferta de mão de obra; as rendas da aristocracia haviam decaído; os monarcas e os nobres competiam por poder e recursos.

“Era também uma sociedade que se sentia ameaçada em suas fronteiras orientais pela presença hostil do Islã e pelo avanço dos turcos otomanos. Era também uma (…) sociedade aquisitiva em seu desejo de objetos de luxo e iguarias exóticas, e de ouro que permitisse comprar esses artigos do Oriente com quem ela tinha um saldo comercial permanentemente desfavorável.” (ELLIOT, 2004)

A Península Ibérica estava geograficamente bem situada para assumir a liderança de um movimento de expansão para o oeste, numa época em que a Europa estava sendo bloqueada em suas fronteiras orientais. Havia ainda, uma tradição marítima ibérica, tanto no Mediterrâneo quanto no Atlântico, que permitiu aos pescadores portugueses, bascos e cantábrios acumular uma rica experiência na construção de navios, nas técnicas de navegação permitindo navegar em águas desconhecidas e sem avistar terra apenas observando os astros e fazendo uso de instrumentos – o astrolábio, o quadrante e a bússola – para medir as distâncias, determinar a latitude e marcar a direção em um mapa.

Canárias: ensaio espanhol para as grandes navegações

O empreendimento marítimo espanhol não começou com Colombo, mas com a ocupação das ilhas Canárias nas décadas de 1480 e 1490. O arquipélago, na costa ocidental africana, era objeto de disputa entre Portugal e Castela. Sua posição geográfica o tornava base tanto para as incursões à costa africana quanto para as viagens de exploração pelo Atlântico.

Em 1478, a Coroa de Castela enviou uma expedição para ocupar a Grande Canária. A essa seguiu-se a expedição de 1482, mais bem-sucedida. No entanto, a forte resistência dos habitantes da ilha impediu uma ocupação efetiva. A ilha de Palma só foi subjugada em 1492, e Tenerife, um ano depois.

A conquista, como aconteceu nos Açores portugueses, foi seguida de exploração. Os genoveses ajudaram a introduzir o cultivo de cana-de-açúcar. Por volta de 1520 já havia doze grandes plantações canavieiras somente na ilha Grande Canária.

Colombo e seu projeto de navegação

O genovês Cristóvão Colombo tinha experiência em navegação: já navegara até a Islândia, a ilha da Madeira e a costa ocidental da África que, então, os portugueses começavam a explorar. Estava convencido de que poderia atingir as Índias navegando em direção a Oeste e, portanto, dando a volta no mundo. Só não calculava que o mundo fosse tão grande.

Em 1483, apresentou seu projeto ao rei D. João II, de Portugal e, no ano seguinte, à Ricardo III, da Inglaterra. Ambos os reis rejeitaram. Em 1486, submeteu o projeto ao Colégio Dominicano de Salamanca que, depois de dois anos de estudos, vetou-o alegando que a Terra era plana.

Colombo voltou a Portugal, em 1488, sendo recebido várias vezes por D. João II. Quando as negociações pareciam bem encaminhadas, Bartolomeu Dias retornou a Lisboa, em dezembro daquele ano, anunciando que conseguira dobrar o Cabo das Tormentas, rebatizando-o de Cabo da Boa Esperança. Estava aberto o caminho para as Índias pela rota do Oriente. Colombo deixou Lisboa.

Quatro anos depois, em 1492, os mouros (muçulmanos) foram finalmente expulsos da Espanha. Nesse mesmo ano, a ilha de Palma, no arquipélago das Canárias foi finalmente subjugada. As conquistas entusiasmaram a rainha que deu sua aprovação para o projeto de Colombo de chegar às Índias a partir do Oeste atravessando o oceano.

Em 17 de abril de 1492, Colombo assinou com os reis espanhóis as Capitulações de Santa Fé, documentos que autorizavam, sem financiamento, a expedição de Cristóvão Colombo e a “descobrir e adquirir ilhas e territórios continentais no Mar Oceano” – na verdade, “conquistar”, isto é, procurar e ocupar terras atrativas.  Colombo ainda recebeu uma série de privilégios e títulos, incluindo: almirante, governador, vice-rei e 10% da riqueza obtida na expedição.

Primeira viagem (1492-1493)

primeira viagem

Roteiro da primeira viagem de Colombo à América.

A expedição de Colombo partiu do porto de Palos em 3 de agosto de 1492 formado pela nau Santa Maria e as caravelas Pinta e Niña. A tripulação era composta por 87 homens.

Foram setenta dias de viagem até, finalmente, na madrugada de sexta-feira, 12 de outubro de 1492, o marinheiro Rodrigo de Triana, da caravela Pinta, gritar “Terra à vista!”.

Colombo registrou em seu diário:

“Às duas horas da madrugada surgiu terra, da qual estariam apenas duas léguas de distância. Arriaram todas as velas e ficaram só com a da popa (…) chegando a uma ilhota que em língua de índios se chamava “Guanahani”. Logo apareceu gente nua, e o Almirante saiu rumo à terra de barco (…) O Almirante empunhou a bandeira real e os comandantes as duas bandeiras da Cruz Verde (…). Ao desembarcar viram árvores muito verdes, muitas águas e frutas de várias espécies. (…) diante de todos, tomava posse da dita ilha em nome de El-Rei e da Rainha, seus soberanos (…). Logo se viram cercados por vários habitantes da ilha.”  (COLOMBO: 1999, p.51-52).

A localização exata da ilha de Guanahani é complexa devido ao fato de o livro de bordo de Colombo ter-se perdido e a única evidência disponível encontrar-se no resumo realizado por Bartolomé de las Casas.

A ilha de Guanahani, batizada de São Salvador, era habitada pelos Tainos. No diário, Colombo refere-se a eles como “índios” – palavra que logo generalizou-se para todos os habitantes da América e que deriva do erro dos navegadores que pensavam ter atingido o continente asiático, isto é, as Índias.

Guanahani

Uma das ilhas marcadas com um círculo podem ter sido a Guanahani avistada por Colombo

Colombo seguiu viagem chegando a uma segunda ilha, batizada com o nome de Juana (atual Cuba) e depois a Hispaniola (atual São Domingo) onde a nau Santa Maria colidiu e danificou-se seriamente. Com o madeiramento do navio, foi construído uma feitoria fortificada chamada “Natal”. Ali foram deixados 40 homens.

Em janeiro de 1493, Colombo voltou à Espanha na caravela Niña, chegando em março sendo recebido com todas as honras. Foi seu momento de maior glória.

Rivalidade entre Portugal e Espanha

A viagem de Colombo, aparentemente bem-sucedida para atingir as Índias, intensificou a disputa entre os reis ibéricos pela conquista de novas terras e caminhos marítimos. Os Reis Católicos pediram a intervenção do complacente papa espanhol Alexandre VI que, em 4 de maio de 1493, outorgou a Bula Inter Caetera.

Pelos seus termos, a bula determinava a divisão de “todas e quaisquer ilhas e continentes encontrados e a encontrar” por meio de um meridiano situado a 100 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde: o que estivesse a oeste do meridiano seria espanhol, e o que estivesse a leste, português.

A bula não agradou Portugal que contestou e exigiu um novo acordo, o que levaria ao Tratado de Tordesilhas assinado em 7 de junho de 1494. A bula, contudo, deu à Espanha, mesmo que por pouco tempo, primazia na arena internacional e foi sob ela que ocorreu a segunda viagem de Colombo.

Segunda viagem (1493-1496)

Segunda viagem

Roteiro da segunda viagem de Colombo à América

O objetivo da segunda viagem era estabelecer a presença espanhola nos territórios descobertos e encontrar o caminho para a Índia e a China.  Colombo recebeu uma frota de 17 navios com 1200 homen, entre eles, soldados, marinheiros, nobres aventureiros, artesãos e agricultores. A ênfase era, então, a colonização das terras.

Colombo percorreu as ilhas do Caribe que já conhecia, Juana (Cuba) e Hispaniola (São Domingo), e atingiu as ilhas de Dominica, Guadalupe, São João Batista (atual Porto Rico) e Santiago (Jamaica).

Em Hispaniola encontrou o Forte Natal destruído e seus homens mortos por um ataque ordenado por Caonabo, chefe do povo Caribe. Ali Colombo fundou, em 1494, La Isabela, a primeira cidade fundada pelos espanhóis na América. Ali os colonos deveriam plantar suas culturas, criariam seu gado e instalariam armazéns bem defendidos para guardar as riquezas a serem enviadas à Espanha.

Contudo, a quantidade de ouro que devia provir do escambo com os indígenas foi desapontadora. Colombo, ansioso por justificar os investimentos a seus soberanos, tentou complementar a insuficiência com outra mercadoria: os próprios indígenas. Enviou tainos para a Espanha para serem vendidos como escravos.

A relação com os indígenas mudou. Os escritos desta viagem registraram, também, violência sexual contra mulheres indígenas.

Terceira viagem (1498-1500)

terceira viagem

Roteiro da terceira viagem de Colombo à América.

Em sua terceira viagem, Colombo navegou as costas da atual Venezuela atingindo a ilha de Trinidad e a foz do rio Orinoco. Chamou toda a região de Terra de Gracias pela bondade dos nativos. Pela primeira vez, Colombo se aproximara do continente propriamente dito.

Retornou à Hispaniola onde foi feito prisioneiro pelos espanhóis descontentes com seu comando e pela falta de riquezas que supostamente encontrariam. Colombo voltou acorrentado à Espanha, onde permaneceu preso em Cádiz por seis semanas, até os reis mandarem libertá-lo. Mas ele perdera prestígio e poderes.

Quarta viagem (1502-1504)

A essa altura, era grande o ceticismo dos reis com relação à Colombo e seu projeto de chegar às Índias pelo Oeste. A quarta e última expedição foi feita com uma série de proibições, como a de Colombo não pisar em Hispaniola.

O objetivo desta viagem era encontrar o Estreito de Málaca, um corredor marítimo que une o Oceano Índico ao mar da China e, pelo qual, ele chegaria às Índias que se acreditava, então, estarem próximas das terras por ele descobertas.

quarta vaigem

Roteiro da quarta viagem de Colombo à América (à esquerda). O objetivo da viagem era encontrar o Estreito de Málaca (à direita), na Ásia, um corredor marítimo que une o Oceano Índico ao mar da China.

Colombo explorou as costas da América Central percorrendo o litoral das atuais Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Regressou a Espanha sem apresentar qualquer esperança de atingir as Índias.

Poucos dias depois de chegar à Espanha, a rainha Isabel morreu. Sem sua última aliada, Colombo ficou desprotegido. Faleceu um ano e meio depois, em maio de 1506 acreditando que havia chegado a regiões periféricas do continente asiático.

Naquela altura, Américo Vespúcio, já havia realizado sua viagem à América e, em 1503, publicou o livro “Mundo Novo” em que afirmava que as terras encontradas por Colombo não faziam parte da Ásia, mas de um continente desconhecido dos europeus. Em abril de 1507, um ano e meio depois da morte de Colombo, o mapa Universalis Cosmographia do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller trazia, pela primeira vez, o nome “América” para chamar as terras descobertas por Colombo.

Mapa de 1507 América

Mapa de Martin Waldseemuller de 1507, o primeiro a incluir o nome América.

A polêmica do “descobrimento” / “descoberta”

A historiografia latino-americana e ibérica emprega os termos “descobrimento” e “descoberta” desde o século XIX para se referir á chegada dos primeiros europeus à América e ao início da colonização desde continente. O termo, contudo, passou a sofrer críticas no fim do século XX por seu caráter eurocêntrico e forte cunho ideológico.

Isso porque o sentido etimológico dessas palavras refere-se àquilo que está sendo encontrado pela primeira vez, que ninguém nunca encontrou antes. O que, ao ser empregado com relação às conquistas empreendidas pelos europeus, dá a entender que esses tinham direito de estar nesses lugares – a América, a África e a Ásia –, já que teriam sido os primeiros a chegar e, portanto, os termos legitimariam culturalmente o domínio e a colonização daqueles continentes.

O sentido tradicional de “descobrimento” e “descoberta” desconsidera por completo a existência de povos nativos muito anteriores à chegada de Colombo. A América já fora descoberta e povoada pelos primeiros seres humanos que chegaram ao continente há 14 ou 20.000 anos atrás.

Vespúcio desperta a América

Américo Vespúcio desperta a “América”, imagem gravada em 1638 reflete a ideia eurocêntrica de que a América foi “descoberta” pelos europeus.

Além disso, Colombo não teria sido o primeiro europeu a atingir a América. Há evidências de um assentamento viking na ilha de Terra Nova, Canadá, datado do século X d.C. É provável, também, que já houvessem marinheiros europeus na costa do Labrador conforme registros comerciais da produção de óleo de baleia feita por marinheiros bascos.

Segundo relatos escritos do norte da África e a história oral dos djelis do Mali, no século XIV, o mansa (rei) Abubakari, do Império do Mali, teria mandado uma expedição ao Atlântico e alcançado a costa da América. Nesta linha de povos não europeus pioneiros na chegada à América há outras hipóteses que variam entre chineses, polinésios, fenícios, egípcios e marroquinos.

O historiador Tzvetan Todorov dá um sentido inovador àqueles conceitos: o da descoberta do Outro, do choque que é entrar em contato com uma cultura totalmente diferente. Para Todorov, a descoberta e a conquista da América representaram a descoberta dos americanos pelos europeus e vice-versa.

Falar em “encontro de culturas” (dando a ideia de um simpósio entre conquistadores e conquistados) ou “choque de culturas” (transformando algo tão complexo como um acidente de carro) são também eufemismos para disfarçar um dos maiores genocídios e etnocídios da história. A tendência atual da historiografia é um enfoque que ressalte o sentido de conquista e violência impregnados na colonização.

As palavras “povoamento” e “ocupação” são, também criticados por escamotear o grande contingente populacional indígena que habitava a região e estava sendo deslocado ou exterminado para a formação de vilas, fazendas, áreas de extração e mineração.

Seja como for, o feito de Colombo é um dos acontecimentos que definem o início da Era Moderna. Abriu caminho para outras viagens e para um conhecimento geográfico mais amplo do planeta. Marcou um novo capítulo na história da expansão europeia levado a cabo pela guerra de extermínio. Neste sentido, no lugar de “descobrimento” teria ocorrido o “encobrimento” de várias culturas indígenas.

As quatro viagens

Foram quatro viagens durante 12 anos com o mesmo objetivo: atingir as Índias pelo Oeste. Colombo morreu acreditando que chegara na periferia da Ásia. Anos depois, a expedição de Fernão de Magalhães e Sebastião El Cano (1519-1522) conseguiu provar que o projeto de Colombo estava certo mas era, praticamente, inviável.

Fonte

  • COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Porto Alegre: L&PM, 1999.
  • ELLIOT, J. H.  “A conquista espanhola e a colonização da América”. In: BETHEL, Leslie (org.). A América Latina Colonial, v. 1. São Paulo: Edusp; Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 2004.
  • BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. História do Novo Mundo. V. 1: da descoberta à conquista. São Paulo: EDUSP, 1997.
  • BOORSTIN, Daniel J. Os descobridores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.
  • ATALI, Jacques. 1492. Os acontecimentos que marcaram o início da era moderna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
  • DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro. A origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.
  • SILVA , Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.
  • TUCK, James A., GRENIER, Robert. A 16th Century basque whaling station in Labrador. Scientific American, 1981.

 

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