“Terror e misérias no Terceiro Reich”: o nazismo no teatro de Brecht

23 de junho de 2016

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Em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha. Suprimiu as liberdades e as instituições democráticas e instaurou uma ditadura ainda mais violenta que o fascismo da Itália, instalado havia onze anos. O Estado passou a controlar toda a nação e impôs sua presença policial-militar nos meios de comunicação, na economia, no trabalho, nas artes, na educação. Interferiu até no convívio familiar como mostra uma cena da peça Terror e misérias no III Reich, de Bertolt Brecht, em que um professor de História sente a opressão do nazismo na escola e na vida doméstica.

(No final do artigo, texto da peça para download.)

Bertolt Brecht

Bertolt Brecht

Bertolt Brecht em entrevista, 1947.

Desde a década de 1920, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) já era conhecido por seu teatro renovador e marxista com peças como O Casamento do Pequeno BurguêsTambores na Noite e A Ópera dos Três Vinténs. Com a eleição de Hitler, Brecht saiu da Alemanha exilando-se primeiro na Áustria, depois Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia e, finalmente nos Estados Unidos.

No exílio recebia notícias do que acontecia na Alemanha por meio de jornais, rádio ou informações passadas pela resistência alemã. O material coletado inspirou-lhe escrever, entre 1935 e 1938, Terror e Misérias no III Reich, quando Brecht vivia na Dinamarca.

Seus textos e montagens tornaram-no conhecido mundialmente. Brecht é um dos escritores fundamentais deste século: revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação, mudou completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como arma de consciencialização e politização.

A intenção de Brecht é simples e direta: provocar o espectador a refletir e a transformar a realidade.

Terror e misérias no  III Reich: um painel do nazismo

Terror e misérias no III Reich apresenta um painel da repressão e do terror nazista em 24 cenas curtas que denunciam os efeitos desse regime no cotidiano do povo alemão. São cenas de julgamentos, da vida de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas e da vida escolar da juventude hitlerista onde se percebe, em cada diálogo, o medo de uma sociedade sufocada pelo nazismo de Hitler.

As cenas são aparentemente desconexas e independentes, mas cada uma delas mostra uma faceta do nazismo. Foi encenada pela primeira vez em Paris, em 1938. Em seguida em Londres, Estocolmo e Nova York.

O trecho que selecionamos, “O espião” (cena X) abre-se com o narrador alertando para a inversão de papéis na sociedade nazista: o aluno ensina o professor a se alinhar às normas do regime, o filho denuncia o próprio pai. Cada criança é um espião em potencial. (Veja no final do artigo, o link para baixar o texto completo).

Ei-los: os Senhores Professores estão aprendendo a marchar. O nazistinha puxa-lhes as orelhas e lhes ensina a posição de sentido. Cada aluno um espião. Não precisam saber nada do mundo ou do universo. Mas é interessante informar: o que, de quem e quando. Aí vêm as criancinhas. Elas buscam o carrasco e o trazem para casa. Delatam o próprio pai, chamam-no de traidor. E ficam olhando, quando levam o velho de mãos e pés algemados. (BRECHT, 1978)

Inicia-se a cena onde estão pai, mãe, filho e a empregada servindo o café. O casal discute sobre política e o marido faz críticas ao regime insinuando que nele existe corrupção. Dão-se conta, então, que o filho não está mais presente na sala e se apavoram com a possibilidade do garoto denunciá-los.

“MULHER – E se ele for contar? Sabe o que ensinam aos garotos na Juventude Hitlerista? Eles são abertamente estimulados a contar tudo o que ouvem em casa. Não deixa de ser estranho ele ter saio daqui tão de mansinho”. (BRECHT, 1978)

A demora do garoto em aparecer faz aumentar o medo do casal. Eles se lembram do Fiscal de Quarteirão, um agente nazista, a quem os vizinhos adulam com presentes para não serem ameaçados. A empregada é filha do Fiscal e ela também pode denunciá-los.

O telefone toca e eles têm medo de atender. Desesperam-se e correm pela casa para buscar objetos que os identifique como seguidores do nazismo: condecorações militares, retrato de Hitler, etc.

Neste momento a mulher pergunta ao marido se não havia nada contra ele no colégio. É quando sabemos que se trata de um professor de História obrigado a ensinar a História Alemã segundo a versão nazista.

MULHER –Tem certeza de que não há nada contra você no colégio?

HOMEM – Como posso saber? Estou pronto a ensinar tudo o que eles quiserem que eu ensine. Mas o que é que eles querem? Se eu soubesse! Como hei de saber o que eles querem que eu ensine sobre, por exemplo, a figura de Bismarck? Os novos livros didáticos estão saindo tão devagar! Escute, não é melhor dar mais 10 marcos à empregada? Ela vive escutando. (BRECHT, 1978)

O casal escuta passos na escada e batidas na porta. O desespero transforma-se em pavor. É a cena final, cujo clímax nos deixa perplexos e nos incita a refletir sobre os horrores de um regime não democrático que suprime a liberdade de pensamento e expressão, condena a pluralidade de ideias e enquadra a população nos mesmos pensamentos e interesses impostos pelo Estado.

O nazismo no teatro de Brecht

“Terror e miséria no 3º Reich”, por alunos da Escola Yllana de Teatro, Espanha, 2014.

Trabalhando o texto em classe

O trecho selecionado – “O espião”, cena X – passa-se em um mesmo cenário, a sala de estar onde circulam 4 personagens: mulher, marido, filho e empregada. A trama central se limita ao casal.

A fala do narrador, no prefácio do texto, dá o tom da situação e faz uma crítica contundente ao ensino não-crítico voltado só para o mínimo necessário: “[As crianças] Não precisam saber nada do mundo ou do universo. Mas é interessante informar: o que, de quem e quando”. O fragmento já permite uma boa discussão em sala de aula sobre a importância da educação na formação de cidadãos atuantes e conscientes de seu papel na sociedade.

Os diálogos que se seguem estão repletos de insinuações sobre os horrores do regime nazista para a população. Importante lembrar que a peça foi escrita antes da guerra e, portanto, sem o impacto do que ainda estaria para acontecer. Destaque aos alunos que, nesta cena, os personagens que sofrem o jugo nazista são alemães, e não judeus ou outra categoria perseguida pelo nazismo. (A peça aborda a questão judaica em outras cenas.) Isso permite refletir os efeitos nefastos da ditadura totalitária sobre a população em geral e não somente sobre aqueles considerados inimigos.

Para receber o texto da peça e temas para debater com os alunos, inscreva-se abaixo.

 

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Fonte

  • BRECHT, Bertolt. Terror e misérias no III Reich. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 70-83.
  • HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

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