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Seres fantásticos da cultura popular brasileira

3 de julho de 2020

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A cultura popular brasileira é o resultado da mistura não homogênea de tradições indígenas, africanas e europeias, com numerosas variantes, e transmitida oralmente a gerações desde os tempos coloniais. Neste caldo cultural têm lendas portuguesas de raízes medievais, crenças católicas, superstições, narrativas africanas e seres da mitologia indígena que formam aquilo que os antigos chamavam de folclore e hoje se denomina tradições populares.

Criaturas de todo tipo povoam essas tradições: seres monstruosos, figuras sedutoras e perigosas, pessoas que se transformam em feras, almas penadas. Elas vivem nas florestas, nos rios, junto ao mar, nos campos de pastoreio, em cemitérios, rondam as casas e os caminhos dos viajantes. Anunciam sua presença com sons horripilantes, barulhos incomuns e atacam rápido. Raros são aqueles que conseguem escapar.

Quem criou essas tradições? “Alguém fez, em um dia de algum lugar. Mas a sua reprodução ao longo do tempo tende a ser coletivizada, e a autoria cai no chamado domínio público”, afirma Carlos Brandão. As tradições tiveram um dia os seus criadores mas eles foram esquecidos enquanto a sua criação continuou viva, foi transmitida, modificada, retraduzida e às vezes resignificada.

Muitas viajaram quilômetros levadas por seus contadores, atravessaram desertos e oceanos, foram recontadas em outros cenários e em outras línguas, ganhando novas versões. Por isso, as tradições não são monolíticas, intocáveis, mas, ao contrário, elas são dinâmicas, sempre adaptadas a novos contextos.

Contudo, mesmo com tantas modificações, as tradições ainda preservam, por muito tempo, os mesmos elementos dentro de uma mesma estrutura. Isso porque elas são símbolos de uma certa concepção de mundo e de vida. Símbolos que nem sempre entendemos porque já nos distanciamos muito do tempo e do espaço em eles se formaram.

É o caso das treze criaturas que selecionamos abaixo. Hoje, isoladas de seu contexto de origem, elas nos parecem extravagâncias de uma mente imaginativa. Mas elas não devem ser entendidas como figuras pitorescas. Elas falam de um tempo em que a natureza imperava com suas luzes e escuridão, sons e silêncios, em que os homens explicavam o mundo com uma linguagem própria que desconhecemos e que chegou a nós já filtrada e decodificada pela nossa cultura letrada.

São patrimônio da cultura imaterial brasileira e, como tal, devem ser preservados da mesma forma como chegaram até nós: transmitidos oralmente.

O infográfico scima reúne treze criaturas do folclore brasileiro: Boitatá ou Mboitatá, Boi Vaquim, Boiúna, Boto encantado, Curupira, Caipora ou Caapora, Cuca, Corpo-Seco, Lobisomen, Mula-sem-cabeça, Mapinguari, Matinta Pereira ou Matita Perê e Saci Pererê.

As imagens são do artista Rodval Matias e foram feitas especialmente para esse artigo.

Para imprimir o infográfico em tamanho A-4, preencha os campos abaixo.

1. BOITATÁ ou MBOITATÁ

O boitatá ou mboitatá (de mboi, cobra, e tatá, fogo) é um mito indígena tupi-guarani que recebeu, entre os colonizadores diversos nomes: baitatá, bitatá, biatatá, batatão entre outros. Em 1560, Padre José de Anchieta registrava: “Há também outros [fantasmas] que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer “cousa de fogo”… e não se vê outra coisa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza.”

Segundo a tradição, boitatá é a cobra de fogo que reside dentro de rios e lagoas e que sai apenas para assombrar pessoas que incendeiam as matas e elas são mortas, ou ficam cegas e enlouquecidas. Quando ataca só se vê um facho cintilante passando rapidamente.

Com o cristianismo, o boitatá mesclou-se ao fogo fátuo, fogo corredor, João-galafoice ou joão-galafuz, a luz azulada que pode ser avistada em pântanos, várzeas e brejos causada pela decomposição orgânica. No catolicismo, era alma penada pagando os pecados ou a alma de criança morta sem batismo. Em uma variante, o boitatá rasteja durante a noite pela floresta porque é uma alma penada que deve pagar pelos seus pecados, neste corpo, protegendo a floresta.

2. BOI VAQUIM

Ser fabuloso do Rio Grande do Sul. É um boi com asas e chifres de ouro que amedronta os campeiros porque chispa fogo pelas pontas do chifre e tem olhos de diamantes. É preciso muita coragem para laçá-lo, braço forte, cavalo bom de pata e de rédeas.

3. BOIÚNA

A boiúna (de mboi, cobra, e una, preta) é o mito mais difundido na Amazônia. É a cobra-grande ou senhora-das-águas, uma gigantesca serpente preta de olhos de fogo capaz de virar as embarcações e de atrair as vítimas para o fundo do rio e devorá-las. Boiúna foi parte de um ciclo mítico cosmogônico do qual participa o mito da origem da noite. Não recebia dos índios nenhuma espécie de rito ou oferendas, mas apenas o pavor pela sua capacidade de fazer o mal, de se disfarçar nas mais diversas formas e figuras (canoas, árvore etc.) e de engolir as pessoas.

Boitatá, a cobra de fogo. Boi vaquim, o boi alado que chispa fogo pelos chifres. Boiúna, a serpente de olhos de fogo. Ilustrações de Rodval Matias.

4. BOTO ENCANTADO

É o uauiará dos índios do Pará e do Amazonas, a figura que seduz as moças ribeirinhas e depois se transforma em boto. Conta-se que, logo após anoitecer, o uauiará se transforma num rapaz bonito, alto, forte, bom dançador e bebedor que aparece nos bailes, seduz as moças. Usa um chapéu que nunca tira da cabeça para esconder o orifício respiratório que conserva do boto. Antes da madrugada, ele pula na água e volta à sua forma de boto. No Pará, é comum chamar a criança sem pai, de “filho do boto”.

No mito do boto ou uauiará convergiu elementos do mito do igupiara ou upupiara, descrito pelos cronistas coloniais Gabriel Soares (Tratado Descritivo do Brasil, 1587) e mestre Fernão Cardim (Tratados da Terra e da Gente do Brasil, 1583 e 1601) como homem-peixe (há também a mulher-peixe) que vivia às margens dos rios e que matava os pescadores com um abraço tão forte que os deixavam aos pedaços. Depois devoravam somente os olhos, narizes, pontos dos dedos dos pés e das mãos, e as genitálias.

Esse mito é tradicional do Norte e Centro-Oeste, onde há grandes fluxos de rios. Provavelmente sua origem está na colonização, como justificativa para o nascimento de crianças cor-de-rosa entre índios (que seriam fruto de relações com brancos europeus).  Em variantes do mito, o boto transformado em rapaz é desmascarado e morto a tiros, facadas e socos. Quando aberta a cabeça da criatura, sente-se um forte cheiro de cachaça.

5. CURUPIRA

Um dos mais populares seres fantásticos das matas brasileiras. De curu (corumi), menino, e pira, corpo. Representado como um índio pequeno, de cabelos vermelhos, pés voltados para trás e calcanhares para frente, e com enorme força física. Ele é o deus que protege as florestas.

Em carta datada de 31 de maio de 1560, o Padre Anchieta registrou o terror que o curupira causava aos índios. Assombrador das matas, causador dos barulhos e sons sem explicação, ele engana os caçadores e viajantes fazendo-os perder o rumo certo, desviando-os para o interior da floresta com assobios, gritos e chamadas que imitam a voz humana e sinais falsos. Mas aceita negociar com os homens em troca de alimento desde que não tenha pimenta nem alho.

Protege os animais e as árvores. Segura os troncos mais velhos durante os ventos fortes e temporais para que não caiam.

Há equivalentes ou derivações do curupira como o Konokokuyuha e o Máguare, de grupos indígenas do rio Orinoco, na Venezuela; o Chudiachaque, representação do diabo dos índios cristianizados no Peru; o Cauá, na Bolívia; o Pocai, dos macuxis, em Roraima; o Iuorôcô, dos pariquis nas cabeceiras do rio Araguaia; o bolaro, dos tucanos, na Colômbia e noroeste do Amazonas (este último, tem uma diferença do curupira, o bolaro chupa o cérebro de suas vítimas).

6. CAIPORA ou CAAPORA

O caipora ou caapora (de caá, mato e pora, habitante), é semelhante ao curupira, mas tendo pés normais. Foi mencionado nos relatos de frei André Thévet e Jean de Léry que vieram com o grupo de colonizadores franceses para a França Antártica (1555-1570,) estabelecida na baía da Guanabara.

Os índios o temiam e, se precisassem sair à noite, defendiam-se da criatura levando um tição acesso. Defensor das árvores e da caça, protege aqueles que respeitam a natureza utilizando-a apenas para sua sobrevivência. Mas aqueles que derrubam a mata sem necessidade e os que caçam indiscriminadamente têm em Curupira um terrível inimigo. Ele é descrito de diferentes formas. No Maranhão é um indígena baixo, escuro, nu ou usando uma tanga, fumando cachimbo, que gosta de cachaça e é muito ágil. No Ceará tem os cabelos eriçados, olhos de brasa, cavalgando um caititu (porco do mato) e agitando um galho de japecanga. Em outras versões, é um homem coberto de pelos pretos por todo o corpo inclusive no rosto.

Vive no interior das matas, nos troncos de árvores velhas. Engana os caçadores que não lhe trazem fumo e cachaça, surra impiedosamente os cachorros e ressuscita os animais mortos sem sua permissão.

Curupira, com os pés voltados para trás. Boto encantado que se transforma em rapaz sedutor. Caipora cavalgando um porco selvagem. Ilustrações de Rodval Matias

7. CUCA

A Cuca ou Coca é o mais difundido entre os muitos entes amedrontadores das crianças que rouba e devora. É o bicho-papão. A origem desta lenda está num dragão, a “coca” das lendas portuguesas, tradição que foi levada para o Brasil na época da colonização e se difundiu por quase todo país. Na Espanha, a “coca” é a  serpente de papelão que, na Galícia, sai no dia de Corpus Christi ameaçando as crianças.

A cuca não tem características definidas. Câmara Cascudo a descreve como um ser fantástico feminino, que no Brasil ganhou a forma de um jacaré com longos cabelos loiros que aterroriza e planeja transformar as crianças da região em pedras.

A figura assustadora é mencionada pelas mães e babás que, ao anoitecer, indicam na rua uma velha qualquer, desde que magra e feia, como sendo a cuca a rondar a casa para pegar criança chorona e desobediente que não quer dormir. A cuca está na cantiga de ninar: Nana neném / que a cuca vem pegar / papai foi pra roça / mamãe já volta já.

8. CORPO-SECO

Chamado no Paraná de bradador, é a assombração que sai todas as sextas-feiras, depois da meia-noite emitindo berros altos ou gargalhadas, intermitentes e horríveis.  Mito muito difundido no Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais e, segundo Câmara Cascudo, também no Nordeste.

A tradição é europeia. O corpo-seco é a alma penada e amaldiçoada de um homem ou mulher que passou a vida semeando o mal e cometendo tantos pecados que, ao morrer, nem Deus nem o Diabo a quiseram, até a terra repeliu o corpo e se recusou a decompor sua carne. Nenhum bicho, nem os corvos, nem as vespas e as formigas atacavam o cadáver que foi definhando e secando transformando-se em uma múmia seca e assustadora.

9. LOBISOMEM

É um mito importado, segundo Hernâni Donato, que afirma que no Brasil anterior a Cabral não havia nada parecido com o lobisomem. A tradição é europeia, possivelmente de origem grega  o licantropo – o homem que se transformava em lobo nas noites de lua cheia, só voltando à forma humana ao amanhecer.

O mito grego passou para os romanos que o difundiram entre os povos do império. Também existe entre os eslavos, saxões, alemães e russos. Na Idade Moderna, além da perseguição às bruxas, numerosos homens, especialmente pastores, foram levados à justiça e executados sob acusação de serem lobisomens. Há um mito semelhante também na África de homens-hienas.

O mito foi trazido ao Brasil pelos portugueses e difundiu-se por toda colônia. O Lobisomem ou lubisome, é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Sua transformação em lobo ou cachorro selvagem acontece quando chega aos 13 anos de idade, numa terça ou sexta-feira de lua cheia: corpo peludo, presas enormes, olhos de fogo e patas com garras afiadas. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, entre meia-noite e duas da manhã, o Lobisomem percorre cemitérios, vilas, encruzilhadas devorando galinhas, cachorros e até pessoas. Por onde passa, apaga todas as luzes e corre como uma flecha. Seu lugar predileto são as encruzilhadas. Para desencanta-lo basta o menor ferimento que cause sangue, mas sem tocar em seu sangue pois herdará o mesmo destino.

Cuca, a devoradora de criança desobediente. Corpo-seco, alma penada e amaldiçoada. Lobisomem, tradição europeia trazida para o Brasil pelos portugueses. Ilustrações de Rodval Matias.

10. MULA-SEM-CABEÇA

Possivelmente de origem medieval portuguesa, a mula-sem-cabeça é a mulher amaldiçoada por ter tido relações sexuais incestuosas ou com o padre. Daí também ser conhecida como burra-de-padre. Na noite de quinta para sexta-feira, ela se transforma numa mula raivosa que lança fogo pelo pescoço. Em outra versão, o fogo é lançado pelas narinas e pela boca com tamanha intensidade que não se vê sua cabeça. A violência do galope e a estridência do relincho são ouvidas ao longe.

A mula-sem-cabeça corre sete freguesias em cada noite até o terceiro cantar do galo. Se ela encontrar alguém em seu caminho mata-o a coices cortando a vítima com seus cascos afiados como navalhas. A maldição acabará quando alguém tiver coragem de arrancar-lhe o freio de ferro da cabeça. O mito é comum em outros países da América do Sul onde figura com os nomes de Mulánima ou Almamula  (Argentina) e Mujer Mula (Venezuela, Colômbia e Equador).

11. MAPINGUARI

Mito popular da Amazônia, cobrindo os estados do Pará, Acre e Amazonas. Difere das demais criaturas monstruosas por dormir durante a noite e atacar somente durante o dia, na penumbra da floresta. É um terrível matador. Descrito como um enorme macaco peludo com pés de burro virados para trás e uma enorme boca na barriga. Seu corpo é invulnerável à bala, com exceção do umbigo. Para matá-lo, é preciso mirar a bala para seu umbigo.

Quando agarra sua vítima, coloca-a debaixo de seu braço e, enquanto caminha pela floresta, vai arrancando-lhe pedaços com as mãos metendo-os na boca.

12. MATINTA PEREIRA ou MATITA PERÊ

Representada como uma coruja ou uma bruxa velha que se transforma em pássaro feio que pousa sobre os muros e telhados das casas e se põe a assobiar de maneira estridente. Só para quando o morador promete a ela algo para que pare (geralmente tabaco, café, cachaça ou peixe). Assim, a matinta para e voa, mas volta no dia seguinte, transformada em uma velha ou velho para cobrar o combinado. Caso o prometido seja negado, uma desgraça acontece na casa daquele que fez a promessa não cumprida.

Dizem que quando está para morrer, a matinta pergunta: “Quem quer? Quem quer?”. Se alguém desavisado responder “eu quero”, pensando em se tratar de um presente, recebe na verdade, o destino de virar matinta pereira.

Em outra versão, a matinta é confundida com o saci pererê, o curupira e o caipora representada como tendo uma perna só ou com as unhas grandes como de uma ave de rapina.

13. SACI-PERERÊ

Mito de influência portuguesa e recente, pois os primeiros registros de sua presença no Brasil são do século XIX. Negrinho com uma perna só, com um cachimbo na boca e usando na cabeça um gorrinho vermelho que lhe dá poderes mágicos. Se alguém tomar-lhe o gorrinho, tem um desejo atendido.

Aparece como um ser maléfico ou somente brincalhão. Trança as crinas dos cavalos depois de cansá-los em correrias durante à noite. Anuncia-se pelo assobio persistente e assustador. Diverte-se criando dificuldades domésticas, apagando o fogo, queimando alimentos, espantando o gado.

A lenda também diz que o Saci se manifesta como um redemoinho de vento e folhas secas, e pode ser capturado se lançarmos uma peneira ou um rosário sobre o redemoinho.  Se alguém for perseguido por ele, deve jogar cordões cheios de nós em seu caminho, pois o saci vai parar para desatar os nós, permitindo que a pessoa fuja.

As informações sobre esse mito são muito controvertidas: pode surgir como assombração ou visagem, assustando as pessoas. Já foi descrito como uma criatura com grandes chifres e dentes pontudos que serviriam para sugar o sangue de cavalos que passassem por perto. Se alguém o ofendesse, seria morto com cócegas ou a pauladas. Monteiro Lobato publicou, em 1918, o primeiro o livro a tratar  do personagem: O Saci-Pererê, resultado de um Inquérito, que reuniu uma série de depoimentos populares para a construção da narrativa do saci.

Mula-sem-cabeça, a mulher amaldiçoada. Mapinguari, ataca durante o dia e devora suas vítimas. Matinta Pereira, a coruja que traz desgraça a quem não lhe presenteia. Saci-Pererê, o garoto que faz travessuras e maldades. Ilustrações de Rodval Matias.

Para saber mais

 

 

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