Sacara: a necrópole onde o Egito Antigo é mais antigo

15 de fevereiro de 2020

0
compartilhamentos

Para o especialista, o Egito Antigo vai muito além das pirâmides de Gizé e das tumbas do Vale dos Reis que tanto encantam os leigos. É em Sacara, próxima à antiga capital de Mênfis, que se encontram as mais antigas construções funerárias e a maior concentração delas. As escavações arqueológicas ali realizadas estão sempre revelando surpresas aos arqueólogos mostrando que Sacara é uma fonte inesgotável de estudos.

A necrópole de Sacara

Situada cerca de 30 km ao sul da moderna cidade do Cairo, Sacara possui as mais antigas estruturas funerárias do Egito Antigo e serviu como necrópole por quase novecentos anos em uma série ininterrupta de dez dinastias egípcias (2.920-2040 a.C.). Mesmo depois, nunca deixou de ser uma necrópole e teve enterros até 950 d.C. Isso explica porque Sacara, uma área de 6 km de comprimento por 1,5 km na sua maior largura, é o mais atraente e interessante sítio de ruínas do Baixo Egito.

Foi em Sacara que surgiu a primeira estrutura piramidal, construída para o faraó Djoser (2630-2611 a.C., 3ª dinastia). Até então, os túmulos reais eram as mastabas, feitas de tijolos formando um maciço retangular de paredes inclinadas.

Coube a Imnhotep, o arquiteto real, realizar a grande inovação de erguer seis mastabas, umas sobre as outras, com dimensões gradualmente menores que resultaram em uma forma piramidal escalonada. A Pirâmide de Degraus, como ficou conhecida, com 60 metros de altura, foi, também, a primeira feita com blocos de pedra. A estátua de Djoser, de calcário, encontrada em uma sala fechada (serdab) atrás da pirâmide, é a mais antiga estátua de pedra que se conhece do Egito.

Pirâmide de Degraus, de Djoser

Complexo funerário de Djoser, com a Pirâmide de Degraus ao fundo.

O arqueólogo francês Jean-Philippe Lauer (1902-2001) consagrou sua vida à restauração do grandioso complexo funerário de Djoser. Ele demonstrou que as pirâmides não eram obras isoladas mas faziam parte de um conjunto de construções que incluíam templos, capelas, avenidas ou calçadas de acesso, câmaras subterrâneas, pátios além de túmulos de nobres e membros da família real.

O Museu Imnhotep, em Sacara, inaugurado em 2006, dedicou uma galeria em homenagem a Jean-Philippe Lauer exibindo fotografias e anotações de seu trabalho. Lauer começou a trabalhar no complexo de Djoser em 1920, e ali permaneceu o resto de sua carreira, cerca de 75 anos.

Reconstituição do complexo funerário de Djoser com a Pirâmide de Degraus ao centro.

Reconstituição do complexo funerário de Djoser com a Pirâmide de Degraus ao centro.

Outras surpresas de Sacara

O interior das mastabas de Sacara reserva outras surpresas: suas paredes estão cobertas de relevos finamente esculpidos que mostram cenas da vida cotidiana do Egito Antigo: o trabalho agrícola, a pesca, a caça, dançarinas da corte, homens e mulheres levando oferendas aos deuses, figuras de aves, bois, crocodilos, hipopótamos, etc.

Dança acrobática, Sacara.

Dança acrobática, relevo da tumba de Mehu, 2500 a.C., Sacara.

Em Sacara situa-se, também, uma necrópole para os animais sagrados, onde se encontram babuínos, falcões, touros e íbis mumificados. O local foi um centro de devoção à deusa Bastet,  como revelam as milhares de múmias de gatos que foram encontradas ali. A partir do século VII a.C. cresceu a importância religiosa destes animais e ergueram-se templos dedicados ao seu culto, acompanhados de estruturas residenciais para os sacerdotes.

Durante as escavações de 2011, na tumba dedicada a Anubis, em Sacara, uma equipe internacional de egiptólgos descobriram quase oito milhões de múmias de animais mumificados. Além de cachorros, a grande maioria, havia também gatos e mangustos. Estuda-se agora qual a relação desses animais com Anúbis e porque teriam sido enterrados em um local de culto a esse deus.

Escavações recentes continuam revelando outras surpresas. Em julho de 2019, arqueólogos poloneses descobriram dezenas de múmias datadas de 2.000 anos durante escavações na necrópole de Sacara. A maioria das múmias era muito modesta, apenas submetida a tratamentos básicos de embalsamamento, embrulhada em bandagens e colocada diretamente em poços cavados na areia.

Foi em Sacara que se descobriu, em 1881, o mais antigo Texto das Pirâmides conhecido. Trata-se de um texto inscrito no interior da pirâmide destinado a ajudar a alma do faraó em sua viagem para o outro mundo. Os textos encontram-se na pirâmide do faraó Unas (Oenas, Unis ou Wenis), último governante da 5ª dinastia e foram gravados nas colunas, nas paredes do corredor e da antecâmara que leva à câmara funerária.

Outros Textos das Pirâmides foram descobertos nas pirâmides da 6ª dinastia, também em Sacara. Diferente dos posteriores Textos Funerários e Livro dos Mortos, os Textos das Pirâmides eram reservados apenas para o faraó e não tinham figuras. Neles encontramos a mais antiga menção a Osíris que se tornaria a divindade mais importante na religião egípcia associada a vida após a morte.

Texto das Pirâmides, Sacara

Gravações na pirâmide do faraó Unas, em Sacara, o mais antigo Texto das Pirâmides conhecido.

Fragmentos do Texto das Pirâmides de Unas

Levante-se, meu pai, grande rei
para que você possa sentar-se na frente deles.
A ampla caverna do céu está aberta para você
para que você possa caminhar na luz do sol.
Levante-se para mim, Osíris, meu pai.
Eu sou seu filho. Eu sou Hórus.
Eu vim para que eu possa limpar e purificar você,
que eu possa mantê-lo e recolher os seus ossos.
Leve a sua cabeça, recolha seus ossos,

Reúna seus membros, sacode a terra da sua carne!

Leve o seu pão que não apodrece, sua cerveja que não azeda,

Fique nos portões barrando as pessoas comuns!

 

Salve, filha de Anubis, acima das portas do céu,

Parceira de Thoth, acima dos trilhos da escada,

Abra o caminho de Unas, deixa Unas passar!

(Fonte: Wikipedia)

Por sua linguagem poética, carregada de fórmulas mágicas, por vezes, ameaçadoras, os Textos das Pirâmides já foram usados em filmes e músicas. Citações dos Textos das Pirâmides aparecem na ópera Akhenaton (1983), do escritor americano Philip Glass; na canção Unas,assassino dos deuses, da banda americana Nilo; no filme O retorno da múmia (2001), de Stephen Sommers quando Imnhotep assopra um frasco cheio de poeira e cita o Texto das Pirâmides transformando a poeira em múmias guerreiras.

É o Antigo Egito ainda fascinando o mundo tecnológico contemporâneo.

Fonte

MOKHTAR, G. História Geral da África. São Paulo: Ática /UNESCO, 1988, v. 2.

Eight million dog mummies found in Saqqara. Ahram, 2 jan 2013.

Hallan en Saqara dos tumbas de hace 2.500 años. Adn Internacional, 2 jan 2010.

Dozens of mummies dating back 2.000 years found next to world’s oldest pyramid. The first news, 15 fev 2020

 

 

Publicidade

Compartilhe

Comentários

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Outros Artigos

Últimos posts do instagram

Fique por dentro das novidades

Insira seu e-mail abaixo para receber atualizações do blog: