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Revistas humorísticas da Primeira República

12 de maio de 2020

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A revista humorística foi, na Primeira República, um canal de denúncia e sátira contra os desmandos e as mazelas dos poderosos,  suas disputas eleitorais regidas pelo “voto de cabresto”. Revistas como O Malho, Fon-fon e Careta estamparam em suas capas charges carregadas de ironias sobre temas políticos nacionais, situações do cotidiano,  alta do custo de vida,  e assuntos internacionais que suscitavam questionamentos, protestos e, principalmente, formavam opiniões e mostravam a realidade sob outros aspectos.

O humor é uma forma criativa de analisar criticamente, descobrir e revelar o homem e a vida. O humor é um caminho!”, dizia o  artista Ziraldo, na década de 1970.

Manipulação dos votos, Careta, 1919

O diabo transforma os votos do candidato oposicionista Rui Barbosa em votos para Epitácio Pessoa, candidato governista e vitorioso nas eleições presidenciais. A manipulação dos votos, na Primeira República, era prática comum e sempre denunciada pelos caricaturistas. Careta, 26/4/1919.

As revistas humorísticas na Primeira República

Três revistas humorísticas se destacaram na Primeira República: Careta (circulou de 1908 a 1960) e O Malho (de 1902 a 1954), Fon-Fon (de 1907 a 1958), todas do Rio de Janeiro.  Os nomes das revistas já anunciavam seu caráter satírico e humorístico.

Grandes desenhistas e caricaturistas trabalharam nessas revistas como Ângelo Agostini, J. Carlos, K.Lixto, Raul Pederneiras, Alfredo Storni, Théo entre outros.  Elas contaram também com a colaboração de alguns dos mais afamados literatos da época como Olavo Bilac, Martins Fontes, Lima Barreto, Umberto Peregrino e Olegário Mariano.

As revistas humorísticas da primeira república mantinham, em geral, uma postura independente, mas, em alguns momentos, assumiram posições políticas como foi o caso da Careta que apoiou Rui Barbosa na Campanha Civilista (1910) e fez oposição à propaganda oficial do governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937-1945).

As lavadeiras, Careta, 1921

“Olá! Vocês estão lavando a roupa suja ou sujando a roupa limpa?”. Na roupa que escapa da tina se lê “candidaturas”, nos chapéus das lavadeiras, “política” e “imprensa”. Uma sátira à campanha presidencial de 1921 quando ocorreram denúncias e levantes tenentistas contra o candidato do governo. Não adiantou: a manipulação dos resultados deu vitória ao governista Arthur Bernardes. Careta, n. 676, anoXIV, 4 de junho de 1921.

O humor satírico dessas revistas nem sempre foi tolerado pelos poderosos e autoridades. Durante o estado de sítio de 1914, no governo de Hermes da Fonseca, a revista Careta foi proibida de circular por três semanas e seus diretores foram presos por alguns dias. A revista O Malho teve sua redação destruída e ficou impedida de circular durante a Revolução de 1930.

O Malho foi criado em 1902, inicialmente como jornal, tendo como um de seus fundadores os jornalistas Luís Bartolomeu de Souza e Silva e Crispim do Amaral. Em 1905, O Malho lançou a revista O Tico-Tico, que lançou, em 14 de fevereiro de 1906, o primeiro herói nacional de quadrinhos, o Juquinha e seu ajudante Giby, o primeiro personagem negro brasileiro de quadrinhos, ambos desenhados por J. Carlos.

Careta, fundada por Jorge Schmidt em 1908, tinha um excelente padrão gráfico, com capa colorida onde estampava uma caricatura de seu diretor e ilustrador J. Carlos. Revista semanal que saia aos sábados, trazia muitas ilustrações e fotografias, e possuía um conteúdo diversificado com notícias, crônicas, poesia, piada, concurso, colunismo social etc.

Fon-Fon, fundada em 1907, tinha como um de seus idealizadores o escritor e crítico de arte Gonzaga Duque. O nome da revista fazia alusão ao barulho produzido pela buzina dos automóveis. Entre seus ilustradores estavam o pintor Di Cavalcanti e Nair de Tefé, a primeira caricaturista mulher do mundo e primeira-dama do Brasil (casou-se com o presidente Hermes da Fonseca, em 1913).

Revistas humorísticas da Primeira República

“A vida angustiosa”. JOSÉ: – Tá vendo, Fulorença? O governo para arresorvê a crise, vai taxar os artigos de luxo. FULORENÇA: – Virge do Céu! Mais imposto! Careta, n. 681, ano XIV, 9 de julho de 1921.

Quebra-lampião, O Malho, 1904

A revolta do quebra-lampião (14/11/1904) ou Revolta da Vacina, teve um líder popular – Prata Preta -, apelido de Horácio José da Silva, capoeirista e estivador que com mais de 2 mil pessoas levantou barricada contra o exército. Foi preso e deportado para o Acre. A legenda diz: “Formidável reduto defendido com entrincheiramento de mulambos e carroças quebradas medonhamente artilhado com canhões de canos de barro e lampiões quebrados pintados a pixe. O espantalho do desordeiro Prata Preta era o Stoessel caricato daquela traquitana”. A alusão a Stoessel é irônica: trata-se do militar russo que lutou na guerra russo-japonesa que ocorria então. O Malho, 26/11/1904.

Retratos de uma época

As revistas humorísticas da Primeira República são documentos preciosos para se conhecer facetas do passado. Pelo seu caráter momentâneo – elas falam do assunto mais comentado na semana, diferente do imediatismo dos jornais diários -, as revistas trazem um retrato fresco da sociedade.

Seus anúncios, fotografias e notas sociais fornecem um quadro vivo dos costumes urbanos da época informando como as pessoas se vestiam, o que consumiam, aonde iam, o que liam e o que assistiam no cinema e no teatro.

As ilustrações e caricaturas permitem também observar estereótipos, alguns dos quais se tornaram verdadeiros clichês de certos tipos sociais. Assim, por exemplo, os negros eram representados com olhos saltados e boca grande pintada de branco, enquanto os portugueses eram mostrados com vastos bigodes, camisetas e tamancos.

Luto, O Malho, 1904

O luto podia durar meses e as mulheres elegantes, nessa ocasião, frequentavam lojas especializadas em trajes e acessórios (chapéu, véu, luva, sombrinha etc.) na cor preta. Anúncio da loja Fazendas Pretas, no Rio de Janeiro. O Malho, 22/11/1904.

Acervo digital para consulta

  • Revistas O Malho e Paratodos, entre os anos 1922 e 1931. Coleções digitalizadas pelo Programa Cultural Petrobrás.
  • Revista O Malho, dos anos 1902 a 1911, 1918, 1919, 1935 e 1952.  Coleções digitalizadas pela Fundação Casa Rui Barbosa.
  • Revistas O Malho e Careta (entre outras). Material digitalizado pelo site Memória Viva.
  • Revistas Careta (de 1909 a 1964), Fon-Fon (1907 a 1958) e O Malho (1902 a 1954). Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.

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Edu Tadeu
Edu Tadeu
4 anos atrás

Se me permite, uma correção: o primeiro heroi de quadrinhos nacional é Nhô Quim, de Ângelo Agostini, lançada no dia 30 de janeiro de 1869 pela revista Vida Fluminense, que também tinha como parceiro um negrinho – o “seu fiel Dito” – que não fica claro se era escravo ou forro. Esse marco é tão importante que, a partir de 1984 instituiu-se o 30 de janeiro como o Dia do Quadrinho Nacional. Nhô Quim é a primeira HQ genuinamente brasileira e uma das primeiras do mundo.

Joelza Ester
Joelza Ester
4 anos atrás
Reply to  Edu Tadeu

obrigada pela contribuição! Abr.

Edu Tadeu
Edu Tadeu
4 anos atrás
Reply to  Joelza Ester

Não tem de quê. O prazer foi todo meu. Fora a pequena “comida de barriga” (essa é velha, hein?) a matéria está excelente! Devolvo-lhe o abraço.

Joelza Ester
Joelza Ester
4 anos atrás
Reply to  Edu Tadeu

obrigada pela contribuição! Abr.

Edu Tadeu
Edu Tadeu
4 anos atrás

Se me permite, uma correção: o primeiro heroi de quadrinhos nacional é Nhô Quim, de Ângelo Agostini, lançada no dia 30 de janeiro de 1869 pela revista Vida Fluminense, que também tinha como parceiro um negrinho – o “seu fiel Dito” – que não fica claro se era escravo ou forro. Esse marco é tão importante que, a partir de 1984 instituiu-se o 30 de janeiro como o Dia do Quadrinho Nacional. Nhô Quim é a primeira HQ genuinamente brasileira e uma das primeiras do mundo.

Joelza Ester
Joelza Ester
4 anos atrás

Está certo Tadeu. Insiro dois quadrinhos dessa HQ pioneira. Obrigada pela contribuição!

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