Quanta igreja para um só Cristo! As divisões do cristianismo (parte 1)

4 de novembro de 2020

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Surgido há dois mil anos com as pregações de Jesus e um punhado de seguidores, o cristianismo é hoje a maior religião do mundo com 2,4 bilhões de adeptos (2020), dividido em três grandes igrejas (Católica, Ortodoxa e Protestante) ou em cinco, usando outros critérios, (Católica, Ortodoxa, Protestante, Anglicana e Pentecostal). Cada uma dessas vertentes, subdivide-se em outras tantas denominações que totalizam mais de 300 igrejas cristãs.

Países cristãos

Países onde o cristianismo é a religião predominante: catolicismo (roxo), protestantismo (azul) e ortodoxo (rosa).

Os primeiros seguidores de Jesus não se chamavam cristãos, mas irmãos ou discípulos. Para os judeus, eram os nazarenos ou galileus. O termo “cristão”, cunhado algumas décadas depois dos eventos de Jesus, surgiu provavelmente com um sentido depreciativo.

O termo “cristianismo” (do grego, Χριστιανισμός, Christianismos ) é mencionado pela primeira vez em uma carta do bispo sírio Inácio de Antioquia no século II, época do reinado do imperador romano Trajano, 98-117. De acordo com Atos 11:26, a primeira vez que os seguidores de Jesus se autodenominaram “cristãos” foi na cidade síria de Antioquia, que pertencia ao Império Romano (atual Antáquia, na Turquia).

E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos. Atos 11:26

1. Raízes judaicas do cristianismo

O cristianismo nasceu como uma seita judaica, daí ser considerada uma religião abraâmica monoteísta. Baseia-se na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré, um pregador judeu itinerante que apareceu por volta de 28-30 d.C.

Jesus não renegou os Dez Mandamentos, o conjunto de leis que fundamentam o judaísmo, mas buscou em Levítico, o terceiro livro da Bíblia Hebraica, a base de sua pregação: “Amará a teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18). Para os cristãos, Jesus é o Messias profetizado na Bíblia hebraica, Filho de Deus e o Salvador da humanidade.

O grupo nascente de seguidores manteve-se, inicialmente, alinhado ao Judaísmo. Conforme relata o livro de Atos dos Apóstolos, os primeiros cristãos reuniam-se sob o pórtico do Templo de Salomão, em Jerusalém. As missões do apóstolo Paulo às cidades da Ásia Menor e da Grécia tinham a sinagoga local como principal centro de reuniões.

Jesus pintura mural

Jesus em uma pintura mural do final do século IV. Arte paleocristã,

2. Raízes helenísticas do cristianismo

O judaísmo não foi o único berço do Cristianismo primitivo. Procedente do judaísmo, o cristianismo surgiu e se desenvolveu no contexto do mundo greco-romano, assimilando e reinterpretando tradições, formas de pensamento e elementos socioculturais ali encontrados.

O helenismo dominava, então, a cultura clássica. A língua grega, o modo de vida grego, a cultura e a herança intelectual grega difundiram-se para muito além da Hélade penetrando na sociedade romana e nas províncias do Império incluindo as comunidades judaicas. O grego era a língua falada em todas as sinagogas das cidades do Mediterrâneo e a mais usada na conversão de novos cristãos. Os Evangelhos e os demais livros do Novo Testamento foram escritos em grego.

O cristianismo recebeu influência do helenismo especialmente de cunho religioso como os cultos de mistérios gregos e orientais (Elêusis, Orfeu, Dionísio, Adônis, Mitras etc.) que prometiam uma vida eterna em união com os deuses e de vitória sobre a morte e de vida além da morte. Herdou também elementos da tradição platônica sobre a ideia de transcendência e de transmigração da alma, e do estoicismo que ensinava que todas as pessoas, até mesmo os escravos, são manifestações do espírito único e são igualmente produtos da natureza.

Em sua missão evangelizadora, Paulo fez uso de muitos elementos da cultura helenística. Filho de judeus e nascido em Tarso, capital da província da Cilícia, Paulo recebeu a cidadania romana por nascimento. Teve sua formação inicial em Tarso, centro de cultura, filosofia e educação helenística, e, quando homem jovem, completou seus estudos em Jerusalém, centro do judaísmo helenista. Portanto, reunia em si uma variedade de influências culturais (DU TOIT, 2000).

Cristo imberbe

Cristo imberbe entrega a Pedro a mensagem do Evangelho. Arte paleocristã, mausoléu de Santa Constança, Roma, ano 340.

3. Denominações e limites cronológicos do cristianismo inicial

Como chamar esse cristianismo inicial? Os especialistas divergem entre variadas denominações: Cristianismo Originário, Proto-Cristianismo, Paleocristianismo, Cristianismo Primitivo, Cristianismo Antigo, Novo Testamento, além das variações no plural (Cristianismos Originários).

Não há consenso, também, sobre quando o cristianismo passou a ser visto como uma religião independente do Judaísmo. Inexistem marcos cronológicos e ideológicos. Alguns apontam que a conversão de Paulo acelerou a definição da doutrina e deixou clara a orientação universalista da fé cristã. Outros lembram a queda de Jerusalém, em 70, que acabou com o judaísmo baseado no Templo, como marco da separação do cristianismo do judaísmo.

Antes disso, contudo, o concílio de Jerusalém, em cerca de 50, ao reconhecer a universalidade da nova fé levou ao desligamento do judaísmo. O concílio, presidido por Tiago e Pedro, teve uma acalorada disputa entre as diferentes facções, uma que queria impor a lei mosaica (lei de Moisés) aos pagãos convertidos e outra que considerava isso um “jugo” injusto relembrando que Jesus não fazia nenhuma distinção de pessoas.

Discute-se, também, até quando vão as origens, isto é, em que momento se encerrou o processo de consolidação do cristianismo. Alguns estudiosos sugerem como referência o ano de 313, com o Edito de Milão, do imperador Constantino, que reconheceu o cristianismo pondo fim às perseguições e condenações. A partir de então os bispos cristãos passaram a gozar de crescente prestígio social, poder político e influência.

Outros preferem o concílio de Éfeso, realizado em 431 pelo imperador romano Teodósio I, no qual ocorreu a primeira divisão do cristianismo com o nestorianismo abraçado pela Igreja Assíria do Oriente e a Antiga Igreja do Oriente.

4. Disputas doutrinais no início do cristianismo

Uma série de disputas doutrinais, a começar entre os apóstolos (em especial Paulo e Pedro) marcaram o período inicial do cristianismo. Elas provocaram as primeiras crises internas desdobrando-se em movimentos intelectuais considerados divergentes da doutrina oficial. Foi em meio a essas discussões que a Igreja foi constituindo sua hierarquia, fortalecendo seu poder e influência na sociedade.

As principais correntes divergentes do cristianismo inicial foram:

  • Gnosticismo, termo de origem grega, derivado da palavra gnose (“conhecimento”), era um conjunto de correntes filosóficas-religiosas oriundas da região do mediterrâneo durante os séculos I e II. Com ênfase no esoterismo, o gnosticismo reunia o zoroastrismo persa, o culto dos mistérios gregos de Elêusis, Orfeu e Dionísio, o de Adônis, na Síria, o de Cibele na Ásia Menor, o de Mitras na Pérsia, o de Osíris no Egito, elementos do platonismo e dos novos pitagóricos (doutrina da migração das almas), religiões babilônicas, o judaísmo e o cristianismo. Alguns especialistas incluem, também, influência do budismo do norte da Índia. Nos séculos II e III, gnóstico era um termo comum para chamar uma elite intelectual que reunia cristãos, judeus, pagãos e helenísticos. O gnosticismo foi o principal oponente teológico da igreja primitiva no século II.

 

  • O milenarismo (palavra derivada do latim, millenium – “milênio”) designa a doutrina religiosa baseada no Apocalipse (atribuído a João de Patmos, escrito por volta do ano 90), que anuncia o regresso de Jesus Cristo para constituir um reino com duração de mil anos. Entre os primeiros cristãos, o milenarismo difundiu-se pela Ásia Menor e no Egito. As perseguições sofridas pareciam confirmar a vinda de Jesus para salvar os cristãos dos martírios. O fim das perseguições e o crescente poder hegemônico da Igreja, a partir do século IV foi interpretado como um sinal de que o reino de Deus já havia começado. A ideia da vinda de Jesus para fundar um outro reino passou a ser entendida, então, como uma heresia.

 

  • O montanismo foi um movimento profético cristão fundado por Montano por volta do ano 160, na Ásia Menor. Montano dizia-se enviado por Jesus para anunciar o fim iminente do mundo, e conclamava os cristãos a se reunirem na cidade de Pepuza, na Frígia, onde surgiria a Jerusalém Celeste.  O montanismo difundiu-se na Ásia Menor, em Roma e no norte da África e, no final do século II, atingiu sua expansão máxima. O movimento continuou se expandindo até ser declarado herege no Concílio de Constantinopla, em 381. Gradualmente, os montanistas se tornaram uma pequena seita secreta. No século VI foi combatido pelo imperador Justiniano I que destruiu o templo montanista que havia sido construído em torno do túmulo de Montano.

 

  • O monarquianismo ou monarquismo também contestava a doutrina da Trindade afirmando que ela acabaria por tornar pai e filho dois deuses diferentes.  O termo monarquianismo deriva da palavra grega que significa “um único princípio de autoridade”, e os monarquistas defendiam a unidade absoluta de Deus. Uma corrente (adotismo) monarquianista afirmando que Cristo nasceu um mero homem e só mais tarde foi aceito (“adotado”) por Deus como seu Filho. Outra corrente (modalismo) afirmava que ambos (pai e filho) eram apenas formas diferentes de ser de um único Deus. A doutrina da Trindade foi adotada no Concílio de Constantinopla em 381, e após isso, o monarquianismo foi declarado heresia.

 

  • O maniqueísmo, filosofia religiosa e dualista fundada por Manes ou Maniqueu, filósofo cristão do século III, dividia o mundo em duas forças: o Bem ou Deus, o Mal ou Diabo. A matéria é intrinsicamente má, enquanto o espírito, intrinsicamente bom. O maniqueísmo sincretizava elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo. Considerava Jesus, Buda e Zoroastro como “pais da Justiça”, mas como suas mensagens haviam sido corrompidas, Maniqueu dizia que viera para completar a missão deles. Ele acabou crucificado no final do século III, e seus adeptos sofreram perseguições na Babilónia e no Império Romano. Apesar de ter sido condenado como heresia em diversos concílios, o maniqueísmo se difundiu até as fronteiras da China e pelo norte da África e perdurou nessas regiões até o século XVI.

 

  • O arianismo foi uma visão cristológica defendida por Ário, padre de Alexandria que contestava a divindade de Jesus. Segundo Ário, só existe um Deus e Jesus é seu filho. Apesar de condenado pelo Concílio de Nicéia (325), o arianismo se difundiu em várias regiões do Império Romano e obteve a adesão de muitos povos bárbaros (especialmente entre os visigodos, alamanos e lombardos) graças à simplicidade de sua doutrina. Entrou em declínio no século VI.

 

  • O pelagianismo, fundado pelo monge inglês Pelágio no século V, negava o pecado original, dizendo que ele afetou somente o próprio Adão e não a humanidade inteira. Ensinava que era injusto punir uma pessoa pelos pecados de outra; portanto, os bebês nascem sem culpa. Defendia que o homem é totalmente responsável pela sua própria salvação, tem o livre arbítrio para alcançar a perfeição e, portanto, não necessita da graça divina. Tais ideias foram combatidas por Santo Agostinho e São Jerônimo. O pelagianismo foi condenado pelo concílio de Cartago, em 416, e considerado heresia no concílio de Éfeso em 431.

 

  • O monofisismo (das palavras gregas mono, “único” e phisis, “natureza”), surgido no século V no Egito, afirmava que Cristo era uma só natureza, ao mesmo tempo divina e humana. Segundo Eutiques, que desenvolveu essa teoria, antes da encarnação havia duas naturezas, mas depois dessa, apenas uma derivada da união das duas. Essa questão foi debatida no concílio de Calcedônia, em 451, que rejeitou o monofisismo como uma heresia, e adotou a doutrina das duas naturezas de Cristo, divina e humana, perfeitamente distintas.  Discordando da decisão do concílio, a Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, defensora do monofisimo, separou-se da cristandade.

 

  • O nestorianismo, doutrina cristológica proposta por Nestório, patriarca de Constantinopla (428-431) afirmava a separação total das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana. A humanidade, o corpo de Jesus teria sido uma espécie de “templo do Espírito”, no qual a divindade foi acolhida. Defendr também que Maria gerou o homem Jesus, e não Deus, por isso, o nestorismo recusa a Maria o título de “Mãe de Deus” (Theotókos, em grego).  O nestorianismo foi condenado como herético no primeiro concílio de Éfeso em 431 e novamente no concílio de Calcedônia em 451. A condenação acabou por provocar o cisma nestoriano, no qual as igrejas que apoiavam Nestório deixaram o corpo da Igreja, dando origem à Igreja Assíria do Oriente.

As numerosas divisões do cristianismo. Para baixar esse infográfico em alta resolução veja a seção “Recursos > Infográficos” no menu desse site.

5. Igreja Assíria do Oriente

Após o Concílio de Éfeso, em 431, houve uma primeira divisão que resultou na formação da Igreja Assíria do Oriente reunindo os cristãos nestorianos a leste da fronteira do Império Romano, no Império Persa. O termo “nestoriano” é hoje rejeitado como uma autodenominação dessa igreja. A Igreja Assíria do Oriente remonta ao apóstolo Judas Tadeu que teria pregado na Mesopotâmia entre os anos 37 e 65. É, portanto, uma das igrejas apostólicas mais antigas do mundo (depois de Jerusalém e Antioquia).

Com a expansão islâmica no século VII e VIII, muitas igrejas Assíria do Oriente fundadas na Arábia desapareceram. Na Ásia Central, no entanto, o trabalho missionário dessa igreja continuou. Havia comunidades da Igreja Assíria do Oriente ao longo da Rota da Seda, no Império Chinês, na Mongólia, no sul da Índia e no Ceilão.

No final da Idade Média e no início dos tempos modernos, entretanto, a igreja encolheu drasticamente sob a pressão constante do Islã, Hinduísmo e Budismo. Hoje, há cerca de 300 mil a 400 mil crentes no Irã, Iraque, Síria, Turquia, Estados Unidos, Europa e Austrália pertencentes à Igreja Assíria do Oriente.

6. Grande Cisma Oriente-Ocidente, 1054

Nos séculos que se seguiram (V a XI), o distanciamento entre as igrejas orientais (Império Bizantino) e ocidentais (Império Romano do Ocidente) aprofundou até o ponto de ruptura das relações entre elas.

O cisma foi o resultado de um longo período de relações difíceis entre as duas partes envolvendo, especialmente, a disputa entre o Papa de Roma e o Patriarca de Constantinopla sobre quem detinha a autoridade suprema sobre toda cristandade. O primeiro se considerava o sucessor do apóstolo Pedro e das “chaves do Reino dos Céus”, enquanto o segundo se dizia representante da continuidade da Igreja indivisa do primeiro milênio.

Outros fatores fizeram com que o Oriente e o Ocidente se separassem ainda mais. A língua dominante do Ocidente era o latim, enquanto no Oriente o grego era mais difundido. Se inicialmente, o bilinguismo latino / grego fosse frequente entre as classes sociais mais altas, ele começou a declinar, dificultando a comunicação entre Oriente e Ocidente. Com a perda da unidade linguística, a unidade cultural também se desfez: a cultura ocidental foi significativamente transformada pela influência dos povos germânicos, enquanto o Oriente continuava vinculado à tradição do cristianismo helenístico em que a Igreja primitiva se expressou.

Aumentaram, também, as diferenças entre elas quanto a questões doutrinárias (ideia de pecado original, purgatório), calendário religioso, práticas litúrgicas (uso de pães ázimos durante a eucaristia, casamento de padres).

A Igreja Oriental não aceitava as inovações feitas pela Igreja Latina acusando-a de se desviar da “fé certa”. Em Bizâncio havia uma crescente desconfiança de que Roma estava degenerando devido à aliança com o Sacro Império Romano Germânico, enquanto Bizâncio, a Nova Roma, se mantinha a guardiã das verdadeiras e autênticas tradições eclesiásticas, da vida e da fé cristãs.

A situação chegou ao auge no século XI quando, em 1054, o Papa Leão IX e o Patriarca de Constantinopla Miguel I Cerulário, após negociações fracassadas, excomungaram-se mutuamente. A partir dessa data, a Igreja Católica ficou formalmente dividida em Ortodoxa e Romana.

O Grande Cisma do Oriente, em 1054, dividiu o cristianismo em dois grandes blocos: o catolicismo (Igreja Latina) e as igrejas ortodoxas. Esses blocos, contudo, não eram coesos. Internamente, cada um deles tinha grupos cristãos divergentes.

7. As heresias medievais precursores da Reforma

Heresia deriva o grego airesis e do latim electio, significando “escolha”, e herege “aquele que escolhe”. Para a mentalidade cristã medieval, era inconcebível a noção de escolha – isso era entendido como um desvio, um desatino que perturba a ordem cósmica. O homem não escolhia, ele era escolhido. Neste sentido, a heresia indica a doutrina ou movimento que se afasta dos dogmas estabelecidos por um sistema religioso. No Ocidente medieval surgiram diversos movimentos considerados heréticos pela Igreja. Muitos deles retomaram as antigas doutrinas divergentes do cristianismo buscando uma reforma radical da Igreja, a volta aos preceitos cristãos iniciais e à pobreza original da Igreja.  Entre muitas heresias da época (bogomilos, cátaros, apostólicos, ungidos de Pedro Bernardino etc.), destacamos três por seus desdobramentos na Reforma Protestante.

  • Século XII – Pierre Valdo e os Valdenses

Os valdenses são uma seita cristã surgida no sul da França no século XII, decorrente das ideias elaboradas por Pierre Valdo, um rico negociante de Lyon. Decidido a estudar a Bíblia, Valdo mandou traduzir os Evangelhos para o francês (os textos bíblicos, então, só existiam em latim). Convencido pelos ensinamentos de Jesus, decidiu doar todas suas riquezas aos pobres, fez voto de castidade e saiu pregando o Evangelho buscando restaurar o cristianismo primitivo.

Logo ganhou seguidores e o grupo ficou conhecido como os “pobres de Lyon”. A Igreja proibiu os valdenses de pregarem e de lerem e interpretarem a Bíblia – função reservada apenas aos clérigos. Valdo e seus seguidores, porém, continuaram a espalhar o ensino cristão. Foram considerados heréticos em 1184. Apesar da condenação papal, o movimento valdense continuou sua expansão em direção ao sul da França, Itália alcançando regiões da Alemanha, Suíça, Áustria, Espanha, Hungria, Polônia e Boêmia. Nos séculos seguintes, foram duramente perseguidos pela Inquisição que, no entanto, não conseguiu extingui-los.

Vivendo na clandestinidade, o movimento valdense conseguiu chegar ao século XVI e se juntar à reforma protestante calvinista em 1532. Sofreu novas perseguições além dos massacres de Mérindol (1545), da Calábria (1560) e o da “Páscoa de Piemonte” (1655) quando 1700 valdenses foram assassinados.

O movimento se mantém até hoje em vários países da Europa e na América. Em 2015, após uma visita histórica a uma igreja valdense em Turim, o papa Francisco em nome da Igreja Católica pediu perdão aos cristãos valdenses pelas perseguições realizadas no passado.

  • Século XIV – John Wycliffe e os lolardos

John Wycliffe (1320-1384), professor da Universidade de Oxford, questionou o poder do clero na Inglaterra e o luxo e a pompa das igrejas e suas cerimônias. Defendendo que a Bíblia deveria ser um bem comum de todos os cristãos, traduziu-a para o inglês, obra que ficou conhecida como a Bíblia de Wycliffe.

Contrário à rígida hierarquia eclesiástica, à eucaristia e ao celibato dos padres, Wycliffe defendia a pobreza dos padres e os organizou em grupos para divulgar os ensinos de Cristo. Estes padres (mais tarde chamados de “lolardos”) não faziam votos nem recebiam consagração formal, mas dedicavam sua vida a ensinar o Evangelho ao povo. Estes pregadores itinerantes espalharam os ensinos de Wycliffe pelo interior da Inglaterra, agrupados dois a dois, de pés descalços, usando longas túnicas e carregando cajados nas mãos.

A influência dos escritos de Wycliffe foi muito grande e influenciou outros movimentos reformistas, em particular sobre o da Boêmia, liderado por Jan Huss. Para frear tais movimentos, a Igreja convocou o concílio de Constança (1414-1418) que declarou Wycliffe herege, recomendou que todos os seus escritos fossem queimados e ordenou que seus restos mortais fossem exumados e queimados. O lollardismo, movimento que ele iniciou, manteve-se e ganhou força no século XVI quando a reforma luterana eclodiu.

John Wycliffe

John Wycliffe entregando aos pobres padres (“lolardos”) sua tradução da Bíblia. Pintura de William Frederick Yeames, c. 1900.

  • Século XV – Jan Huss e os hussitas

Jan Huss (1369-1415), padre e professor na Universidade de Praga, na Boêmia (Republica Tcheca), baseando-se nas ideias de John Wycliffe, passou a defender a ideia de qualquer pessoa podia se comunicar-se com Deus sem a mediação de padres. Opunha-se à hierarquia eclesiástica, criticou as riquezas da igreja, a ganância do clero e sua vida viciosa. Defendeu a liberdade de consciência e viu a Bíblia como a única autoridade em questões de fé, o que contradizia a norma oficial da igreja segundo a qual, o papa era a autoridade final em questões de fé.

Em 1408, Huss foi proibido de realizar missas e pregar. Desobedeceu as proibições e tornou-se um pregador itinerante atraindo grande número de seguidores. Em 1415 foi declarado herege pelo Concílio de Constança e condenado à morte pelo fogo.

Jan Huss na fogueira

Jan Huss na fogueira, iluminura de Spiezer Chronicle, 1485.

Seus seguidores rebelaram-se e ocorreram distúrbios por semanas em diversas regiões da Boêmia. Hussitas invadiram a prefeitura de Praga e jogaram alguns vereadores pelas janelas, depredaram igrejas e mosteiros. O movimento levou a guerras que duraram quinze anos e às quais se misturaram fatores políticos e problemas econômicos pela independência da Boêmia contra os alemães.

No século XVI, a maioria dos hussitas da Boêmia se aproximou dos luteranos. Atualmente, a República Tcheca tem duas igrejas que se consideram herdeiras de Jan Huss: a Igreja Evangélica dos Irmãos da Boêmia (fundada em 1918) e a Igreja Hussita da Thecoslováquia (fundada em 1920).

 ( A segunda parte desse artigo aborda a Reforma e as divisões do Protestantismo. Clique aqui)

Veja também

Fonte

  • PANNENBERG, W. Fundamentos de Cristologia. Salamanca: Sigueme, 1974.
  • CAIRNES, Earle E. O cristianismoo através dos séculos. Uma história da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1999.
  • CHEVITARESE, André Leonardo; CORNELLI, Gabriele. Judaísmo, cristianismo, helenismo. Itu: Ottoni Editora, 2003
  • PIÑERO, Antonio (Ed.). Origenes del Cristianismo. Antecedentes y primeros pasos. Cordoba: Cristiandad, 1995.
  • NOGUEIRA, Paulo A. de S.; FUNARI, Pedro P. A.; COLLINS, John. J. (ed.). Identidades fluídas no judaísmo antigo e no cristianismo primitivo. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2010.
  • NOGUEIRA, Paulo A. de S. O cristianismo primitivo como objeto de história cultural: delimitações, conceitos de análise e roteiros de pesquisa. Antíteses, v. 8, n.16, p.31-49, jul/dez. 2015.
  • LÖWY, Michael. A origem do cristianismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 201.
  • DU TOIT, Andrie B. A tale of two Cities: ‘Tarsus or Jerusalem’ revisited. Cambridge University Press: New Testament Studies. 46, 23 October 2000.
  • QUEIROZ, Tereza Aline Pereira de. As heresias medievais. São Paulo: Atual, 1988 (Coleção Discutindo a História).

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