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Primeira Guerra Mundial: horrores e sofrimentos da guerra química

9 de novembro de 2018

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No final da tarde de 22 de abril de 1915, perto de Ypres, na Bélgica, os soldados franceses das Divisões 45 e 97, em suas trincheiras, viram aproximar-se deles uma nuvem espessa verde-amarelada vinda das trincheiras alemãs. Surpreendidos com uma apavorante dificuldade de respirar, eles abandonaram seus postos e fugiram para trás. Muitos morreram ali mesmo e milhares de outros ficaram incapacitados por meses ou pelo resto da vida.

Eles foram as primeiras vítimas da guerra química inaugurada com um gás sufocante a base de cloro que atacou as vias aéreas e provocou queimaduras nos olhos, garganta e pulmões, cegueira, náusea e dor de cabeça. Cerca de 6.000 pessoas morreram dolorosamente. O gás clorídrico, produzido por indústrias como Bayer e Hoechst foi lançado a partir de 5000 cilindros liberados pelos alemães.

Em setembro, os aliados passaram a usar o mesmo recurso contra as linhas alemãs até que, em 1917, a fórmula foi superada por um gás ainda mais letal: o gás mostarda. Lançado pelos alemães no mesmo setor de Ypres, na noite de 12 para 13 de  julho de 1917, o gás mostarda atacou o sistema respiratório e também a pele. Seus efeitos não são imediatos, ocorrendo 6 a 36 horas depois quando surgem queimaduras desfigurantes, enormes bolhas na pele, espirros e tosses com saída de sangue pelo nariz e boca.  A morte ocorre em algumas horas, dias ou semanas após a exposição.

Efeitos do gás mostarda na pele

Efeitos do gás mostarda na pele: queimaduras e bolhas dolorosas.

Rosto desfigurado

Rosto desfigurado pelo uso de armas químicas

Uma ideia antiga

A ideia de usar substâncias tóxicas como arma de guerra é tão antiga quanto a própria guerra. Há relatos do uso de armas químicas desde a Antiguidade. O uso de vapores tóxicos é mencionado em tratados indianos e chineses. Segundo Tucídides, os gregos usaram flechas envenenadas na Guerra do Peloponeso. Mas essa arma permaneceu em estado experimental até o início do século XX e a segunda Revolução Industrial.

Mesmo antes da Primeira Guerra Mundial, cientistas e militares cogitaram no uso de armas químicas, mas se continham por escrúpulos religiosos e pelo tradicional código de guerra cavalheiresco.

Na Convenção de Haia de 1899, a maioria das nações europeias proibiu o uso de projéteis “cujo único propósito é espalhar gases asfixiantes ou deletérios”. Discutiu-se também o uso de explosivos fragmentados que rasgam a carne de maneira horrível. Um médico militar francês que observou nos Bálcãs, na véspera da Grande Guerra, os estragos do canhão francês de 75 mm entregue aos sérvios, também pediu a proibição desse tipo de arma. Ele não foi ouvido.

Guerra de trincheiras

Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu em agosto de 1914, todos os estrategistas, tanto em Berlim, Paris e Londres, preferiram a ofensiva: “A melhor defesa é o ataque”. Mas logo se deram conta que o extraordinário poder de fogo da artilharia moderna acabava por impedir o avanço dos soldados. Para se protegerem do ataque inimigo, as tropas se enterraram em trincheiras cavadas às pressas.

Da Suíça até o norte da França, duas linhas de trincheiras de cerca de 700 quilômetros separavam as tropas alemães das tropas francesas e britânicas. Eram covas compridas e estreitas com dois metros de profundidade, tendo um parapeito para a observação e escadas para o ataque ao inimigo.

Os soldados entrincheirados praticamente não se deslocavam e passavam dias mergulhados na lama, em meio a ratos, piolhos, excrementos e, muitas vezes, junto de cadáveres de companheiros insepultos, em decomposição. Cada pequeno avanço era conquistado à custa de milhares de mortes uma vez que o inimigo – também entrincheirado logo à frente –disparava suas metralhadoras a qualquer  movimento do adversário.

Por três anos e meio, a guerra, na Europa, parecia imobilizada, com pequenos avanços ou recuos. Era uma guerra de posições. Foi nesse cenário angustiante que se pensou no uso de gases tóxicos.

Soldados em uma trincheira.

Os exércitos entrincheirados praticamente não se deslocavam. Os soldados passavam semanas espremidos nas trincheiras e em meio a cadáveres insepultos, ratos e todo tipo de sujeira.

A indústria química alemã

No início do século XX, a indústria química alemã era a mais poderosa do mundo, com empresas como a Bayer (fundada em 1863) e a BASF (1865). A desenvolvimento e implantação de cloro e outros gases tóxicos deveu-se ao químico alemão Fritz Haber (1868-1934), considerado o “pai da guerra química”. Antes da guerra, Fritz Haber juntamente com Carl Bosch descobriu a síntese do amoníaco, importante para fertilizantes e explosivos – o que lhe deu o prêmio Nobel de Química de 1918.

A decisão em lançar o gás clorídrico em Ypres, em 1915, baseou-se na topografia do lugar, uma extensa planície com ventos favoráveis que sopravam para as trincheiras inimigas. O objetivo era “limpar” as trincheiras para retomar a guerra de movimento. O ataque químico deixou cerca de 5.000 mortos entre franceses, ingleses e, inclusive, alemães.

A mulher de Fritz Haber, que também era química, revoltou-se com o ataque, confrontou o químico e acabou se matando com a arma dele.

A guerra química, agora dos dois lados

Os ingleses não demoraram para inventar uma máscara protetora contra gases. Quando ocorreu o segundo ataque químico alemão, na mesma área, na noite de 22 para 23 de maio de 1915, as baixas foram pequenas porque os ingleses usavam protetores.

Os industriais ingleses partiram para a ofensiva e logo estavam produzindo suas armas de gás clorídrico. O primeiro ataque britânico ocorreu perto de Lille, no norte da França, em 25 de setembro de 1915 e pegou os alemães de surpresa. Mas, como o ataque anterior, o resultado final foi dúbio vitimando os dois lados.

Nos próximos dois anos, na Frente Ocidental e, em menor medida, na frente russa, os beligerantes continuaram os ataques com cloro. O lançamento foi otimizado com propulsores que lançavam os cilindros de gás diretamente para o campo inimigo. A toxicidade do gás foi aumentada pelo fosgênio, um composto de cloro e carbono, inodoro e incolor. Nas trincheiras, as máscaras de proteção ficaram cada vez mais sofisticadas.

Os ingleses superaram os alemães nos ataques químicos. No total, durante a guerra, eles fizeram cerca de 300 ataques de cloro contra algumas dezenas de ataques feitos por alemães, franceses e austro-húngaros.

Soldados com máscaras

Soldados ingleses com máscaras para se protegerem das bombas de gás.

Desvantagens do gás

O uso da arma química revelou-se, contudo, perigoso até para os trabalhadores que montavam os cilindros e os soldados que os manuseavam. Os ataques dependiam das condições meteorológicas, nem sempre previstas pois, com frequência, uma súbita inversão do vento tornava o atacante a vítima dos gases.

Contudo, o gás tem a vantagem de desestabilizar o adversário abatendo-o física e moralmente. Os soldados, nas trincheiras, devem manter a máscara à mão e temer “as nuvens” mais do que as armas convencionais.

Em todos os campos, os soldados de infantaria são forçados a usar equipamentos de proteção e máscaras em cada alerta – acessórios que dificultam seus movimentos e agravam ainda mais suas condições de vida. Cansados, eles os removem logo após o alerta ficando expostos ao risco de serem afetados pelo gás residual.

Soldados em nuvem de gás.

Soldados alemães avançam em meio à nuvem de gás, Flandres, 1916.

Trágicos resultados da guerra

Durante a Primeira Guerra Mundial foram lançadas mais de 124 mil toneladas de 21 agentes tóxicos diferentes o que provocou cerca de 1 milhão de baixas, com 90 mil mortes. Considerando que o conflito teve 9,45 milhões de mortos, 21 milhões de feridos de feridos dos quais 6 milhões de mutilados, as baixas provocadas pelos ataques de gases não foram determinantes para o resultado da I Guerra Mundial. Nenhum dos lados ganhou a guerra pelo uso de tal arma.

Contudo, as armas químicas abriram um perigoso precedente que ainda hoje, cem anos depois da guerra, ameaça o mundo.

Uma das vítimas, gravemente ferida em outubro de 1917, foi um cabo bávaro chamado Adolf Hitler. Alguns historiadores presumem que foi a lembrança dessa lesão que o impediu de usar armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial.

Corpos de soldados não identificados.

O número de desaparecidos na Primeira Guerra Mundial chega a 700 mil soldados. Seus corpos ficaram soterrados nas trincheiras. Às vezes são encontrados durante escavações para obras como esse grupo descoberto em Massiges, França, próximo à fronteira da Alemanha. Eles não tinham placa de identificação.

Fonte

  • LARANÉ, André. La guerre chimique. Herodote.net. 17 abr 2017.
  • LEPICK, Olivier. La Grande Guerre chimique, 1914-1918. Presses Universitaires de France  (PUF), Histoires, 1998.
  • MICHALANY, Douglas. História das guerras no mundo. São Paulo: Michalany, s.d., v. IV.
  • COLASSO, Camilla. Armas químicas que foram empregadas na I Guerra. Blog Guerra Química e Biológica.

 

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