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Pré-História do Brasil (parte 2): a Serra da Capivara

9 de dezembro de 2014

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Há 12 mil anos, o território brasileiro já estava plenamente ocupado por diversos grupos de paleoíndios. Por essa época, a megafauna do Pleistoceno ainda habitava florestas e campos brasileiros: tatus gigantes, preguiças pesando 5 toneladas e ferozes tigres dente-de-sabre viviam onde hoje é Minas Gerais, Bahia e todo sertão nordestino.

Os paleoíndios tiveram que desenvolver uma série de reflexos e precauções para sobreviverem em um ambiente povoado por esses gigantes.

Por volta de 9 mil anos, na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno, o clima começou a mudar. As chuvas diminuíram, os rios secaram e a vegetação modificou-se. Os grandes animais começaram a desaparecer por fome ou sede. O clima tropical úmido transformou-se no semiárido de hoje.

Serra da Capivara

Essas mudanças ficaram marcadas nas formações geológicas que compõem a Serra da Capivara, no sudeste do Piauí. Ali ainda pode ser vista parte da floresta tropical úmida da Pleistoceno e a vegetação de caatinga formada no Holoceno. Da megafauna restaram numerosos fósseis estudados pelos paleontólogos.

A fauna atual da Serra da Capivara é composta por animais de pequeno e médio porte como tamanduás­ bandeira e mirim, várias espécies de tatus, veados, macacos-prego, mocó – um pequeno roedor típico da caatinga, e a onça pintada e a vermelha, o maior predador da região, além de dezenas de espécies de aves, lagartos e serpentes.

O complexo geológico da Serra da Capivara é formado por uma cadeia contínua de serras cortada por vales e desfiladeiros que formam paredões verticais. Muitos dos caminhos e trilhas hoje percorridas pelos visitantes no atual parque foram vias abertas e utilizadas por grupos humanos desde épocas pré-históricas.

Pedra Furada, símbolo do Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí.

Pedra Furada, símbolo do Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí.

Pinturas rupestres

No fundo dos vales e no alto das chapadas, existem abrigos rochosos que serviram de refúgio ou de acampamento temporário para os paleoíndios. Nas paredes desses abrigos, eles pintaram uma enorme quantidade e variedade de figuras que hoje é considerado o maior conjunto de pinturas pré-históricas do mundo.

As pinturas têm diferentes datações o que indica que a região foi habitada de forma ininterrupta por mais de 40 mil anos e seus autores pertenceram a diversos grupos étnicos.

As pinturas não são homogêneas nem padronizadas. As temáticas variam como também o estilo, a composição das figuras e as técnicas de registro. Os especialistas classificam as pinturas em Tradição Nordeste, Tradição Agreste, Tradição Geométrica e outros.

Os seres humanos são pintados isolados ou em grupo, usando ornamentos, armas e outros objetos. Podemos reconhecer algumas cenas: a caça do tatu, uma onça cravada de flechas, a preparação de uma armadilha, danças coletivas, uma dança em roda que mais parece um malabarismo, um ritual de adoração diante de uma árvore, a execução de prisioneiros, cenas de sexo, um parto assistido por outros 3 indivíduos e até mesmo um suposto beijo.

Reconhecemos alguns animais como capivaras isoladas ou em bando, um grupo de veados, uma fêmea com seu filhote, emas que ainda existiam pela serra e até uma macaquinha levando seu filhote.

Outras figuras parecem incompletas ou são traços e sinais não reconhecíveis datados de períodos muito recuados no Pleistoceno, há 29 mil anos.

Preservação das pinturas rupestres

Essas leituras e interpretações das pinturas rupestres são meras suposições. Jamais poderemos saber exatamente que mensagens guardavam, pois seus significados se perderam com o desaparecimento dos povos que as criaram.

As pinturas rupestres são uma forma de linguagem anterior à escrita. Mesmo sem conseguir decifrar seu código, elas são fontes de informações para os cientistas sobre a Pré-História do Brasil. Informam sobre o modo de vida daqueles seres humanos e seu ambiente natural.

As mudanças de estilos nas pinturas indicam que ocorreram transformações culturais das sociedades indígenas e que existiram diferentes grupos étnicos ao longo de muitos milênios.

Por isso é importante a preservação desses registros e de todo seu entorno natural. No Parque Nacional da Serra da Capivara, os sítios arqueológicos foram equipados com passarelas para proteger as pinturas e dar segurança os visitantes.

Parque Nacional da Serra da Capivara

Criado em 1979, o Parque Nacional da Serra da Capivara ocupa uma área de 135 mil hectares no estado do Piauí abrangendo os municípios de Canto do Buriti, Coronel José Dias, São João do Piauí e São Raimundo Nonato.

O parque foi criado graças ao trabalho da arqueóloga Niède Guidon que hoje dirige a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), instituição responsável pelo manejo e pesquisas do parque.

O parque tem placas sinalizadoras que indicam os locais, orientam os visitantes e explicam os vestígios históricos.

O parque tem placas sinalizadoras que indicam os locais, orientam os visitantes e explicam os vestígios históricos.

Em 2012, estavam cadastrados 1.028 sítios arqueológicos com pinturas rupestres. Mas esse número aumenta anualmente com novas descobertas feitas pelos pesquisadores da FUMDHAM. As datações variam muito. No sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, por exemplo, as pinturas datam de 29.860 anos, no mínimo. Em outros lugares elas tem entre 18 mil e 6 mil anos. Os restos humanos mais antigos encontrados são um esqueleto de uma mulher adulta de 9.670 anos.

Em 1991, o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e, em 1993, reconhecido como patrimônio nacional.

O Parque Nacional da Serra da Capivara é um museu a céu aberto, um verdadeiro santuário cultural de épocas pré-históricas e a preservação de seus sítios arqueológicos e de todo bioma da caatinga é compromisso e orgulho de todo brasileiro.

Veja o vídeo Pré-História do Brasil, parte 2

Fonte

  • BUCO, Elizabete. Turismo Arqueológico. Região do Parque Nacional Serra da Capivara. FUMDHAM/PETROBRAS, 2013.
  • FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
  • GASPAR, Madu. A arte rupestre no Brasil. Rio de janeiro: Zahar, 2003.
  • PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara. FUMDHAM/PETROBRAS, 2003.
  • PROUS, André. Arte Pré-Histórica do Brasil. Belo Horizonte, MG: Com Arte, 2007.
  • PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

Outros vídeos da série Pré-História do Brasil

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Edileusa
Edileusa
5 anos atrás

Sou professora de história e semana que vem vou passar tudo sobre pinturas rupestres p eles .

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