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“Guernica”: a arte de Picasso em repúdio à guerra

30 de março de 2017

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“A pintura não foi feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo” – teria dito Pablo Picasso referindo-se ao papel da arte na sociedade atual. A frase é particularmente marcante em relação à Guernica (1937), possivelmente a obra mais célebre do século XX. Ela faz referência direta a um acontecimento real e dramático, e demonstra o engajamento político de Picasso em um momento histórico crucial: a Guerra Civil Espanhola e a ascensão do nazi-fascismo na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

A Espanha à beira da guerra civil

Havia alguns anos que a Espanha passava por uma grave instabilidade política. Derrubada a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930), primeiro-ministro do rei Afonso XIII, o próprio rei tentou fortalecer a monarquia em direção a um regime constitucional e parlamentar. Convocou eleições com a intenção de dar legitimidade democrática às instituições monárquicas.

O resultado das eleições foi contraditório: os monarquistas obtiveram uma clara vantagem, mas os republicanos tiveram um número tão expressivo que o rei interpretou como falta de apoio popular. Em vista disso, Afonso XIII deixou o trono (14/04/1931) e, sem abdicar formalmente, exilou-se em Paris, fixando-se depois em Roma.

Foi proclamada a Segunda República (1931), mas o país seguiu convulsionado e dividido tendo, de um lado a esquerda e os anarquistas, e de outro a direita e a Igreja Católica. Um movimento anticlerical estimulado pelos anarquistas ganhou força provocando saque e incêndio de conventos, colégios e centros católicos. Seis deles foram destruídos. O governo dissolveu Companhia de Jesus e confiscou todos os seus bens no país. As demais ordens religiosas foram preservadas, no entanto, proibidas de dedicar-se ao ensino.

As eleições de fevereiro de 1936 deram vitória apertada à esquerda que recebeu 4.645.116 votos contra 4.503.524 da direita. O novo presidente, Manoel Azaña, escolheu como seu primeiro-ministro o socialista Largo Caballero. Inconformada, a direita preparou o golpe militar que se concretizou cinco meses depois.

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939)

A guerra civil estalou a 17 de julho de 1936 com o levantamento de um setor do exército comandado pelo general Francisco Franco contra o governo da Segunda República. Porém, o golpe de estado não foi bem-sucedido e a Espanha ficou dividida entre falangistas e nacionalistas (pró-Franco) e a Frente Popular (pró-governo) que reunia republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas.

As forças de cada lado eram mais fortes nas regiões onde obtiveram maior votação nas eleições de fevereiro de 1936. Assim, por exemplo, a Frente Popular detinha Madri e Barcelona porém tinha menos armas modernas (blindados e aviões), mesmo recebendo auxílio da União Soviética. Franco, simpatizante do fascismo, teve ajuda militar de Mussolini e Hitler.

A Frente Popular contou, também, com as Brigadas Internacionais formadas por cerca de 60 mil voluntários de 53 nacionalidades, incluindo 40 brasileiros, que foram à Espanha lutar contra os golpistas e fascistas, e em favor da república. A maioria dos voluntários, contudo, tinha pouco conhecimentos e treino militar. Os voluntários alemães eram os melhores preparados, uma vez que além de muitos terem combatido na Primeira Guerra, vinham de anos de combates de rua com as milícias nazistas.

Foi nesse contexto que ocorreu o bombardeio da cidade de Guernica, em abril de 1937, que explicamos abaixo.

Em março de 1939, a resistência republicana foi derrotada. Franco aboliu a república e implantou uma ditadura que perseguiu e executou seus opositores. A guerra fez mais de um milhão e meio de vítimas e levou a Espanha à ditadura franquista que perdurou por mais de trinta anos, até a morte do general, em 1975.

Picasso e o bombardeio de Guernica

Desde o começo da guerra, Pablo Picasso colocou-se ao lado do governo republicano que o nomeou para a direção do primeiro museu nacional espanhol, o Prado de Madri, em julho de 1936. Em janeiro do ano seguinte, o governo da Frente Popular encomendou-lhe um mural destinado ao Pavilhão Espanhol da Exposição Universal programado para ocorrer em Paris.

Picasso estudava o novo projeto quando ocorreu o bombardeio de Guernica, fato que levou-o mudar o tema de seu trabalho.

Guernica era uma pacata cidade espanhola, na região basca, com pouco mais de sete mil habitantes. Não tinha qualquer valor estratégico, mas sua população apoiava as forças republicanas e isso bastou para os nacionalistas de Franco condená-la à destruição.

Por volta das 16h30, do dia 26 de abril de 1937, aviões da Legião Condor alemã, comandada pelo coronel Wolfram von Richthofen, bombardearam Guernica durante cerca de duas horas. A cidade foi inteiramente destruída e morreram cerca de 1600 pessoas, a maioria civis, mulheres e crianças. Anos depois, Herman Göering, comandante-chefe da Luftwaffe (força aérea alemã) durante seu julgamento justificou-se: “A Guerra Civil Espanhola foi uma oportunidade para experimentar minha jovem força aérea e um meio para meus homens ganharem experiência”.

Guernica bombardeada

Guernica foi alvo para testar as novas armas e táticas nazi-fascistas servindo de ensaio para a Segunda Guerra Mundial.

Guernica bombardeada

O bombardeio sobre Guernica matou 1600 pessoas.

Guernica, alvo de uma ação terrorista, tornou-se símbolo das destruições maciças da guerra moderna. A imprensa internacional divulgou fotos da tragédia e relatos dramáticos dos sobreviventes. Em Paris, onde Pablo Picasso então residia, o massacre provocou indignação geral levando milhares de pessoas às ruas na maior manifestação de Primeiro de Maio já ocorrida na cidade.

As fotos em preto e branco causaram profunda impressão em Picasso que, rapidamente esboçou as primeiras imagens para o mural que se chamaria Guernica. Em cinco semanas, a tela monumental ficou pronta e foi apresentada na exposição de Paris. Inicialmente, ela atraiu pouca atenção e muita crítica. Mas aos poucos, a tragédia imortalizada por Picasso ganhou destaque e viajou pelo mundo servindo de bandeira contra a ditadura franquista e de repúdio à guerra.

 Guernica: leitura da obra símbolo do terror militar

Há muita especulação sobre o significado das figuras de Guernica. Quando pediram a Pablo Picasso para explica-las, ele respondeu: “Não cabe ao pintor definir os símbolos. O público que olhar para a imagem deve interpretá-la como a entendem.”

Guernica, Picasso.

“Guernica”, 1937, óleo sobre tela, 3,49 m x 7,76 m, Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, Madri.

Em estilo cubista, a obra apresenta uma composição horizontal que agrupa sete figuras ou três grupos de figuras. Dois grupos estão nas laterais, tendo o grupo central disposto em um grande triângulo. Ao centro está um cavalo ferido com o pescoço dolorosamente contorcido para a esquerda. Por uma abertura quadrada, entra uma cabeça humana segurando uma lamparina; aflita, procura sobreviventes.

Acima da cabeça do cavalo aparece um motivo que pode ser interpretado de várias maneiras: uma luz elétrica estranhamente acesa (a cidade ficou sem energia depois do bombardeio), uma analogia à explosão das bombas e ao fogo destruidor, ou uma espécie de olho divino com uma lâmpada no lugar do olho. A figura está deslocada para a esquerda em relação ao eixo central.

Guernica, detalhe

“Guernica”, detalhe, cavalo ferido, lâmpada e figura com lampião.

Na parte inferior, uma estátua quebrada em vários pedaços espalhados pelo chão. A cabeça decepada e o braço empunhando uma espada partida dão força dramática à cena.

Guernica, detalhe

“Guernica”, detalhe inferior, estátua quebrada; junto à espada, uma flor singela. Um símbolo de esperança?

À esquerda, uma mãe ajoelhada grita com o filho morto nos braços. Na mesma linha, à direita, outra figura com a cabeça jogada para trás, tem a boca aberta num grito e ergue os braços em desespero, debatendo-se dentro de uma casa em chamas. Abaixo dela, uma mulher atordoada vem acudir o grupo.

criança morta

“Guernica”, detalhe, mãe com criança morta nos braços.

Guernica, detalhe

“Guernica”, detalhe, pessoa grita e debate-se em desespero em meio às chamas.

O cavalo e o touro, símbolos importantes da cultura espanhola, receberam muitas interpretações. O touro, imagem associada à força e a única figura sem expressão de dor, provavelmente simboliza a frieza e a brutalidade do ataque fascista. Contrasta com o cavalo em pânico e retorcendo-se de dor que simbolizaria o povo inocente que se viu massacrado. Entre ambos, há uma pomba, em traços sutis, com a asa partida e a cabeça para o alto parecendo gritar.

"Guernica", detalhe.

“Guernica”, detalhe dos animais: touro, cavalo e pomba.

A pintura não tem perspectiva, nem jogo de sombras que permita determinar um foco de luz preciso. Isso é proposital para expressar a ideia de que a cena não se desenrola nem no interior nem no exterior, mas em toda a parte.

A predominância das cores preto, azul e branco e o efeito de colagem de jornal no centro da tela fazem alusão às fotografias e matérias publicadas pela impressa na época. A tela serve, neste sentido, como uma reportagem para manter viva a lembrança da tragédia e despertar nas pessoas o repúdio à guerra.

A composição não traz qualquer sinal de identidade política ou nacional, nem de caracterização do local e das pessoas, e sequer de propaganda ideológica. As figuras são estilizadas e esquematizadas, quase infantis no traço e, por isso, universalmente compreensíveis, o que fortalece a linguagem simbólica da obra que denuncia a violência e a agressão da guerra impingidas ao povo, independentemente de bandeiras políticas.

Guernica: quatro décadas longe da pátria

Pablo Picasso residia na França quando pintou Guernica e ali continuou residindo até o fim de sua vida. A vitória dos falangistas e de Franco, na Espanha, e a ocupação da França pelos alemães em junho de 1940 cortaram o contato direto de Picasso com seu próprio país condenando-o ao isolamento.

A fama de Picasso, porém, ultrapassava as fronteiras político-ideológicas e ele foi visitado, em seu estúdio, por oficiais alemães que queriam conhecer o gênio e sua arte. Nessas oportunidades, Picasso longe de se intimidar, distribuía fotografias de Guernica aos visitantes nazistas. A um oficial alemão que lhe perguntou “Foi o senhor que fez isto?”, ele respondeu: “Não, fostes vós”.

Desde 1939, Guernica estava nos Estados Unidos onde foi exposta em uma grande perspectiva no Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova York, que reuniu 344 obras de Picasso. Continuou sob a guarda do museu e, atendendo pedido de Picasso, só voltou à Espanha quando a democracia foi restaurada no país.

"Guernica", Picasso

A monumental tela “Guernica”, de Pablo Picasso, foi exposta em São Paulo, em 1953.

Guernica e outras obras de Picasso participaram de exposições itinerantes em diversas cidades do mundo, entre as quais, São Paulo, onde esteve em 1953, durante a II Bienal.

Picasso faleceu em 1973, aos 91 anos de idade, em Mougin, na região de Provença, na França. Foi enterrado no jardim do palacete de Vauvenargues. Dois anos depois, morria o general Francisco Franco, em Madri, abrindo caminho à democratização do país.

Guernica retornou à Espanha em 9 de setembro de 1981, no centenário de nascimento do pintor. Atualmente está exposta no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madri.

O horror da guerra continua rondando a humanidade. O cerco de Sarajevo (1992-1996), o mais longo da história da guerra moderna, durante a guerra da Bósnia, e a devastação da cidade de Aleppo (2012-2016) na guerra da Síria são exemplos da brutalidade insana contra o ser humano que ainda persiste no mundo.

Inspirado em Guernica, o artista português Vasco Gargalo criou uma obra para denunciar o massacre de Aleppo. Colocou na tela os principais atores dessa cena trágica: o líder russo Vladimir Putin na figura do touro, o então presidente dos Estados Unidos Barack Obama como o cavalo, e o chefe do governo sírio Bashar al-Assad com uma bomba na mão. Refugiados com seus filhos buscam a Europa (representada pelo símbolo da União Europeia na mala) enquanto um homem-bomba (à direita) ameaça mais destruição. O barril de petróleo caído à direita lembra o motivo desencadeador do drama.

Guernica e Aleppo

Sob a inspiração de “Guernica”, o artista português Vasco Gargalo denunciou o massacre de Aleppo.

Fonte

  • WARNCKE, Carsten-Peter. Picasso. Colônia, Alemanha: Taschen, 2006
  • ALMEIDA, Angela Mendes de. Revolução e guerra civil na Espanha. São Paulo: Brasiliense, 1981.
  • THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
  • ALMEIDA, Paulo Roberto de. Brasileiros na Guerra Civil Espanhola: na luta contra o fascismo. Revista de Sociologia e Política, n.12, ju. 1999.
  • MORAES, Reginaldo. A “redemocratização” espanhola, uma distensão lenta, gradual e insegura. São Paulo: Brasiliense, 1983.
  • GALLO, Max. Historia de la España franquista. Paris: Ruedo Ibérico, 1971.

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Therezinha Tomassini
Therezinha Tomassini
5 anos atrás

Picasso fo,é e sempre será GENIO !

Cristiano Freyddni
Cristiano Freyddni
5 anos atrás

Eu li numa revista que rascunhos dessa pintura foram encontrados em 1934 na casa de Picasso. Logo, não se poderia dar a este quadro a interpretação que comumente lhe é dada, uma vez que o atentado à cidade de Guernica só ocorreu em 1937. Picasso não poderia ter previsto o atentado. A matéria falava sobre a importância do que o professor fala aos alunos. Todos os professores nos dizem a mesma coisa, fazem a mesma análise deste quadro, e todos nós cremos na mesma justificativa.

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