A periodização da História: uma discussão sem fim

26 de fevereiro de 2021

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Tradicionalmente, a História é dividida em “idades”, isto é, em períodos históricos em que cada um possui características políticas, econômicas, sociais e culturais relativamente estáveis. A divisão em períodos foi criada por historiadores europeus com o objetivo de facilitar o estudo e a compreensão da História. Inicia-se pela Pré-História, já chamada de “Idade da Pedra”, um termo não mais utilizado e daí seguindo para a Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Uma periodização que considera os acontecimentos ocorridos na Europa ou a ela relacionados, e que deixa de lado a história das sociedades da América, da Ásia e da África.

Antigas periodizações da História

A divisão da História em idades ou períodos já era feita desde a Antiguidade. Os reis sumérios, os faraós egípcios e os imperadores chineses, por exemplo, dividiam as suas histórias em reinados e dinastias.

O poeta grego Hesíodo, do século VIII a.C., dividiu a história em Idade do Ouro, Idade da Prata, Idade do Bronze, Idade Heróica e Idade do Ferro.

No século V, Santo Agostinho descreveu em sua obra “A Cidade de Deus” (413-427) as Seis Idades do Mundo. Cada idade tinha mil anos começando com a criação de Adão daí seguindo até a Sexta Era que terminaria com o Apocalipse. Essa concepção cristã do tempo histórico era linear e também destruidora. Deus era a causa de tudo, e a história era entendida como a trajetória humana em direção ao final dos tempos.

As Seis Idades do Mundo:

  • Primeira Era: da criação de Adão até o dilúvio (3761 a.C.- 348 a.C.)
  • Segunda Era: do dilúvio até a época de Abraão (o tempo foi suspenso durante o dilúvio)
  • Terceira Era: da época de Abraão até o rei Davi (1813 a.C.-1000 a.C.)
  • Quarta Era: do rei Davi até o cativeiro da Babilônia (1000 a.C.–588 a.C.)
  • Quinta Era: do retorno da Babilônia até Jesus Cristo (588 a.C.-30 d.C.)
  • Sexta Era: da vinda de Jesus até o Apocalipse e o Juízo Final.

Uma Sétima Era aconteceria após o Dia do Julgamento e o Fim dos Tempos. De acordo com Santo Agostinho, Deus dedicaria esta era para descansar com seus santos.

O mundo era visto como um lugar antigo, com mais tempo no passado do que no futuro. Quando Dionísio, o Pequeno, no século VI, fixou a suposta data do nascimento de Jesus (dividindo a história em antes e depois de Cristo), cinco mil e quinhentos anos já haviam se passado quando Jesus nasceu restando outros 500 anos para o fim do mundo. Quando essa data passou sem eventos, as pessoas esperaram o fim no ano 1000.

Essa periodização cristã da História perdurou por toda Idade Média reforçando o pessimismo cronológico que reinava nos mosteiros e perdurou até o Iluminismo no século XVIII.

A periodização tripartide

O humanismo com seu pensamento racional rompeu com a visão medieval teocêntrica e colocou o homem e suas obras no centro da história. Os humanistas italianos do século XV acreditavam personificar um “novo tempo” com uma moral e valores novos. Quiseram então definir, de modo pejorativo, o período anterior do qual eles pensavam ter a felicidade de sair. Espelhando-se em uma Antiguidade onde buscavam inspiração, inventaram o termo Idade Média para chamar o “período intermediário entre uma Antiguidade imaginária e uma modernidade imaginada” (LE GOFF, p.26).

Por essa época, no século XVI, a noção de século como a entendemos hoje (período de cem anos) começava a aparecer. Antes disso, a palavra latina saeculum, que significa “geração”, designava o mundo cotidiano (“viver no século”) ou o período de vida de um grande personagem, como por exemplo, “século de Péricles”, “século de Augusto”.

Isso preparou o caminho para que o historiador alemão Christoph Cellarius (1638-1707) apresentasse em sua História Universal, publicada em 1688, a divisão da História em Idade Antiga, Idade Média e Idade Moderna. Cellarius definiu a Idade Média como o período iniciado com o imperador Constantino e finalizado com a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. A divisão tripartide da História consagrou-se e, desde então, tornou-se canônica.

Fixou-se também, a ideia pejorativa da Idade Média como um período obscuro, caracterizado pela ignorância, a “idade das trevas” – concepção que se manteve até o século XX.

Em algumas décadas, porém, a periodização de Cellarius apresentou um problema: a Idade Moderna proposta por ele, logo deixou de ser, literalmente, “moderna”, isto é, atual, recente. O mundo depois das revoluções Francesa e Industrial era muito diferente do mundo “moderno” vivido pelos humanistas e por Cellarius.  Começou-se, então, a falar em Idade Contemporânea.

Vieram, então, outras periodizações como a proposta pelo antropólogo Lewis Henry Morgan (1818-1881) que dividiu a história em três estágios: selvageria, barbárie e civilização. Essa periodização caiu em desuso, uma vez que a evolução humana não é unilinear, mas sim multilinear.

No século XIX, Karl Marx e Friedrich Engels classificaram os períodos históricos com base em cinco modos de produção: comunismo primitivo, modo de produção escravo, modo de produção feudal, modo de produção capitalista e comunismo (futuro). Posteriormente, os historiadores adaptaram esse modelo às circunstâncias específicas de cada sociedade e incorporaram novo modo de produção: o modo de produção asiático ou sociedades hidráulicas.

O filósofo canadense Marshall McLuhan propôs, no final dos anos 1960, a incorporação da Era da Mecanização seguida pela Era da Eletricidade. Outros autores sugeriram a Era do Plástico, a Era do Automóvel e a Era da Informação.

A divisão tripartide, mesmo criticada, não caiu em desuso, e a periodização da História permanece em aberto.

Críticas à periodização tradicional da História

O problema de qualquer periodização é querer torná-la válida para um amplo espaço de povos e culturas, e determinar um fato como marcador para a mudança de um período para outro.

Como lembra Jean Chesneaux sobre a periodização clássica em Pré-História, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea:

O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não europeus na evolução universal. (…) Os marcos escolhidos não têm significado algum para a imensa maioria da humanidade: fim do Império Romano, queda de Bizâncio. (CHESNEAUX, p. 95.)

Apesar de ainda utilizada, tal periodização é muito criticada por muitos motivos, entre eles:

  • A expressão “Pré-História” por significar, literalmente, “antes da História” passa a falsa ideia de um período “sem História”, o que é errado pois o ser humano é, por natureza, um ser histórico.
  • O surgimento da escrita não foi uniforme em todo mundo. Ele ocorreu em tempos diferentes para cada sociedade.
  • A escrita não é o único fator determinante para o início da História. Existiram sociedades ágrafas (sem escrita) que desenvolveram grandes civilizações.
  • A história é contínua e não generalizada e, portanto, toda periodização é mais ou menos arbitrária.
  • Não existe um ano preciso de início e fim de qualquer período histórico pois as mudanças históricas não ocorrem repentinamente.
  • A divisão tripartide da História (Antiga, Média e Moderna) é eurocêntrica, isto é, diz respeito à história da Europa e, portanto, não é aplicável a sociedades fora da Europa.
  • A periodização tradicional segue o calendário cristão (antes de Cristo e depois de Cristo) e este calendário não é padrão para outros povos como, por exemplo, os muçulmanos.

As falsas rupturas de 476, 1453 e 1789 da história europeia

Mesmo considerando exclusivamente a História Europeia, sua periodização está longe de um consenso entre os historiadores. As datas tradicionais que marcam início e fim de cada período histórico (476, 1453 e 1789) não dão conta das transformações ocorridas na passagem dos períodos a que se referem.

Determinar o ano de 476 como o fim da Antiguidade não faz o menor sentido. Prefere-se, hoje, pensar em um longo período de transição, que recebeu o nome de Antiguidade Tardia, situado entre os anos 284 (crise do século III) e 750 (fim da expansão islâmica na Europa). Essa periodização enfatiza a transformação de uma época para outra de forma lenta, progressiva e cheia de sobreposições.

Para o início da Idade Moderna, a queda de Constantinopla em 1453 como ponto de virada (proposto há trezentos anos por Cellarius) não tem mais sustentação entre os historiadores. Discutem-se outras possibilidades como a ascensão da Renascença na Itália em meados do século XIV, o fim da Guerra dos Cem Anos, a publicação do primeiro livro impresso em 1450-1455, a descoberta da América por Cristovão Colombo em 1492 ou o início da Reforma com Martinho Lutero em 1517. A escolha de um desses eventos dará o tom do campo e do objeto histórico que se privilegia.

Os historiadores Fernand Braudel e Jacques Le Goff vão além dessa discussão de pontos de rupturas defendendo uma continuidade da Idade Média para o Renascimento. E ainda, sob vários aspectos (sociais, econômicos, culturais, costumes etc.), essa continuidade pode se estender até meados do século XVIII.

A passagem da Idade Moderna para a Contemporânea é outro objeto de debate. O que teria marcado essa passagem: a Revolução Francesa, mas em qual momento, a tomada da Bastilha em 1789 ou a queda da monarquia em 1792? Para François Furet, a Revolução Francesa durou quase todo o século XIX.

Pode-se pensar em outros pontos de virada para a Contemporaneidade, como a Revolução Industrial. Aponta-se o ano 1760 quando iniciou o reinado de Jorge III; por que não 1787 quando Edmund Cartwright inventou o tear mecânico? E por que não escolher a independência dos Estados Unidos, a primeira colônia a romper com o sistema colonial moderno?

Enfim, não existe um acordo universal sobre a periodização na História, embora exista um consenso acadêmico sobre os períodos da História da Civilização Ocidental, a partir dos termos aportados por Cellarius (Idade Antiga, Média e Moderna). A acusação de eurocentrismo feita contra essa periodização não deve impedir que a conheçamos, pois é a mais utilizada.

Como lembra Le Goff,

A periodização justifica-se por aquilo que faz da história uma ciência, não uma ciência exata, indubitavelmente, mas uma ciência social, que se funda em bases objetivas a que chamamos fontes. Ora, a história que as fontes nos oferecem se move, evolui: é a história das sociedades em marcha no tempo, dizia Marc Bloch. O tempo faz parte da história – o historiador precisa dominá-lo, ao mesmo tempo que se encontra em seu poder, e na medida e, que esse tempo muda, a periodização se torna, para o historiador, uma ferramenta indispensável.” (LE GOFF, p. 132)

Fonte

  • CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? Sobre a história e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995.
  • LE GOFF, Jacques. A História deve ser dividida em pedaços? São Paulo: Unesp, 2015.
  • CADIOU, Francois et ali. Como se faz a história. Petrópolis: Vozes, 2007.

 

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