Pedra da Roseta, a chave do conhecimento sobre o Egito Antigo

23 de setembro de 2019

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Em 15 de julho de 1799, trabalhadores franceses no Egito, encontraram uma pedra escura com inscrições antigas. Ela foi levada ao oficial Pierre Bouchard, responsável pelos trabalhos no Forte Julien, a 56 km de Alexandria, no delta do rio Nilo. Logo reconheceu-se o valor arqueológico do artefato e foram feitas cópias das inscrições. A superfície da pedra foi coberta com tinta de impressão obtendo assim cópias invertidas no papel que foram mandadas para especialistas e eruditos da Europa.

A pedra tomou o nome do local onde foi encontrada, a cidade de Roseta (Raxide, em árabe). Contudo, ela ficou pouco tempo nas mãos dos franceses. Derrotado Napoleão Bonaparte, os termos da capitulação de 1801 exigiam que a pedra fosse entregue às autoridades militares britânicas para ser depositada no Museu Britânico, onde se encontra até hoje.

A Pedra da Roseta

A pedra foi esculpida em um bloco de granodiorito (rocha semelhante ao granito), pesando 762 kg e medindo 114 cm de altura (em seu ponto mais alto), 72 cm de largura e 28 cm de espessura.

Em seu formato original, ela deveria ter pelo menos mais 30 cm de altura. Acredita-se que a parte superior da pedra era arredondada e, conforme outras estelas ptolomaicas similares, teria esculpido na parte superior o disco solar alado de Hórus com as coroas do Alto e Baixo Egito.

É provável que ela estivesse junto a uma estátua do faraó Ptolomeu V Epifânio em um templo, situado mais no interior, talvez na cidade de Saís.

O templo provavelmente foi fechado por volta de 392, quando o imperador Teodósio I ordenou o fechamento de todos os templos de cultos não-cristãos. A partir de então, os templos egípcios antigos passaram a servir de fonte de material para novas construções. A Pedra da Roseta teve o mesmo destino: ela foi reutilizada no século XV nas fundações de uma fortaleza do sultão mameluco Qatibay, junto a um afluente do rio Nilo que passa por Raxide. Ali ela ficou por três séculos até ser redescoberta.

Pedra da Roseta

Pedra da Roseta após a restauração de 1999. O quadro no canto inferior esquerdo é a parte não restaurada para servir de amostra para comparação. Em 2004, essa área foi restaurada.

As inscrições da pedra

Na parte polida, a pedra contém inscrições divididas em três blocos de texto: 14 linhas na faixa superior em escrita hieroglífica, 32 linhas no meio em escrita demótica e 53 linhas embaixo em grego antigo. A parte traseira foi deixada sem acabamento, possivelmente porque ela não ficaria visível.

Em sua época, o texto podia ser lido por três classes distintas: os hieróglifos, a escrita sagrada, pelos sacerdotes, o demótico pelos comandantes militares, e o grego pelos governantes gregos (o Egito estava, então, sob domínio macedônico).

Nenhum dos três textos está inteiramente completo. O registro superior, com os hieróglifos egípcios, é o mais danificado. O texto em demótico é o melhor preservado.

Eles trazem um decreto de 196 a.C., feito pelos sacerdotes de Mênfis, a respeito do reinado do faraó Ptolomeu V (205 a 180 a.C). O faraó havia concedido a isenção de uma série de impostos. Em sinal de agradecimento, os sacerdotes decidiram erguer, em cada tempo, uma estátua de Ptolomeu V acompanhado de uma “placa” informando os benefícios concedidos pelo faraó para que ele fosse sempre lembrado e celebrado. A Pedra da Roseta era, portanto, uma estela comemorativa.

Pedra da Roseta

À esquerda, detalhe dos hieróglifos escritos na parte superior da Pedra da Roseta e, à direita, detalhe da escrita demótica escrita no centro da pedra.

A decifração da Pedra da Roseta: um trabalho coletivo

Saber o conteúdo da Pedra da Roseta e compreender o sistema de escrita egípcio moveu estudiosos por toda a Europa. Cópias litografadas e em gesso passaram a circular entre museus e estudiosos europeus.

O conhecimento sobre os hieróglifos estava perdido desde o século IV assim como a escrita demótica. O grego antigo era conhecido por poucos eruditos. Dois problemas confrontavam os acadêmicos que trabalhavam com as inscrições: saber se os hieróglifos representavam uma simbologia fonética ou apenas símbolos pictóricos, e determinar o significado das palavras individuais.

O francês Jean-François Champollion (1790-1832), reconhecido como o decifrador dos hieróglifos, teve, antes dele, outros pesquisadores que prepararam seu caminho.  Os nomes gregos foram os primeiros a serem decifrados e, a seguir, seus equivalentes em demótico.

O médico britânico Thomas Young (1777-1829), um estudioso de ótica e interessado em egiptologia, decifrou o demótico e os nomes em hieróglifos, mas não conseguiu entender a complexa gramática da escrita egípcia antiga.

Champollion comparou diversas inscrições que tinham os mesmos hieróglifos da Pedra da Roseta. Examinou as inscrições de um obelisco da região de Philae, onde tinham os nomes de Ptolomeu e Cleópatra, tanto em hieróglifo como em grego. Champollion conseguiu isolar cada valor dos sinais que compunham os dois nomes e os comparou em seguida. Descobriu que hieróglifos individuais representavam letras, outros palavras inteiras ou podiam ser determinantes do contexto. Usou a mesma técnica com a Pedra da Roseta.

Em 27 de setembro de 1822, Champollion, então com 32 anos de idade, apresentou perante a Academia de Paris a decifração dos hieróglifos egípcios. Publicou depois “Précis du Systhème Hieroglyphique” (1824) onde esclareceu o sistema para a decifração. Champollion ganhou enorme notoriedade na sociedade francesa.

Ele viajou para o Egito visitando túmulos e templos antigos certificando-se que seu processo de decifração realmente funcionava.

Sua obra póstuma, publicada em 1836, “Grammaire Égyptienne ou principes généraux de l’écriture sacrée égyptienne”, ainda serve de base para muitos linguistas e egiptólogos.

Champollion é considerado o “Pai da Egiptologia”, ciência que teve início a partir de seu trabalho de decifração.

Gramática Egípcia

Gramática Egípcia, de Jean-François Champollion, edição póstuma de 1836.

O que está escrito na Pedra da Roseta

Não existem traduções definitivas do texto da Pedra da Roseta, pois a compreensão moderna dos idiomas antigos é polêmica e, além disso, há diferenças entre as três línguas. Por exemplo, há palavras no texto em grego que não aparecem nos hieróglifos, como é o caso do título “faraó”: ele não é mencionado nos hieróglifos – e nem poderia, pois é uma palavra grega; em hieróglifos usa-se a expressão “Rei do Alto e Baixo Egito”.

O Museu Britânico tem uma tradução do texto grego, e outra atualizada do texto demótico, de 1996. A tradução a seguir foi feita do texto demótico. Ela traz, em síntese, os seguintes tópicos: saudação introdutória, menção ao rei como benfeitor que concedeu a isenção de impostos, regalias aos sacerdotes e oficiais, decisão dos sacerdotes em homenagear o rei e seus antepassados, festivais em homenagem ao rei.

No reinado do jovem – aquele que recebeu a realeza de seu pai – senhor das coroas, glorioso, que criou o Egito, e é piedoso com os deuses, superior a seus inimigos, que recuperou a vida civilizada do homem, senhor dos Banquetes de Trinta Anos, assim como Hefesto, o Grande; um rei, como o Sol, o grande rei das regiões alta e baixa; descendente dos Deuses Filopátores, aquele que foi aprovado por Hefesto, a quem o Sol deu a vitória, a imagem viva de Zeus, filho do Sol, Ptolomeu eterno, amado de Ptá; no nono ano, quando Eto, filho de Eto, era sacerdote de Alexandre …;

 

Os sumos sacerdotes e profetas e aqueles que entram no santuário interior para a cerimônia de vestir os deuses, e os portadores dos penachos, e os escribas sagrados, e todos os outros sacerdotes … estando reunidos no templo em Mênfis naquele dia, declararam:

 

Como o rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptá, o Deus Epifânio Eucaristo, filho do rei Ptolomeu e da rainha Arsínoe, Deuses Filopátores, muito beneficiou os templos e aqueles que residem neles, bem como todos aqueles que são seus súditos, sendo ele um deus vindo de um deus e de uma deusa (como Hórus, o filho de Ísis e Osíris, que vingou seu pai Osíris), e estando inclinado com benevolência em relação aos deuses, dedicou aos templos renda em dinheiro e trigo, e teve enormes gastos para trazer o Egito à prosperidade, e para manter os templos, e foi generoso através de seus próprios meios, e, dos impostos e taxas que recebe do Egito, isentou totalmente alguns, enquanto a outros abrandou [o que era cobrado], para que estas pessoas e todas as demais pudessem viver em prosperidade durante seu reinado …;

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Pareceu bem aos sacerdotes de todos os templos do país aumentar grandemente as honras já existentes do rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptá … E um festival será realizado em homenagem ao rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptá, o Deus Epifânio Eucaristo, anualmente, em todos os templos da nação a partir do primeiro de Toth, por cinco dias; durante o qual todos deverão usar guirlandas, e executar sacrifícios, e as outras homenagens costumeiras; e os sacerdotes serão chamados de sacerdotes do Deus Epifânio Eucaristo, além dos nomes dos outros deuses a quem servem; e seu sacerdócio deverá ser inscrito em todos os documentos formais e cidadãos comuns também poderão assistir os festivais e financiar o santuário mencionado, bem como tê-los em suas casas, prestando a eles as costumeiras honrarias durante os festivais, tanto mensalmente quanto anualmente, para que todos fiquem sabendo que os homens do Egito exaltam e honram o Deus Epifânio Eucaristo, o rei, de acordo com a lei. (WIKIPEDIA)

Usos e abusos da Pedra da Roseta

A Pedra da Roseta chegou ao Museu Britânico enegrecida pelas camadas de tinta de impressão que recebeu. Antes de aberta ao público, sua superfície foi selada com cera de carnaúba para protegê-la das mãos dos visitantes. Incontáveis ​​toques ao longo do tempo adicionaram mais depósitos na pedra.

Como as inscrições ficaram irreconhecíveis, em 1981 foi aplicada uma tinta branca na superfície para deixar os caracteres mais visíveis. A foto de abertura, de 1985, mostra a Pedra da Roseta coberta com tinta branca. Ela era mostrada, então, reclinada sobre uma estrutura de ferro.

Em 1999, finalmente, a pedra foi restaurada com a remoção de todas as camadas de cera e tinta. A Pedra da Roseta voltou à cor original cinza escuro. Uma pequena área quadrada no canto inferior esquerdo foi deixada sem restauração para servir de comparação com o trabalho final (essa área foi restaurada em 2004). Ela foi levada de volta à exposição pública e, dessa vez, colocada de pé como estava na Antiguidade.

A decifração da Pedra de Roseta foi essencial para a compreensão dos textos e da civilização do Antigo Egito.

Ela tem sido alvo de rivalidades nacionalistas: há discordâncias sobre sua transferência da França para o Reino Unido, disputas sobre o valor das contribuições de Young e Champollion para a decifração, e, desde 2003, reivindicação do governo egípcio para a devolução da Pedra da Roseta ao seu país de origem.

Projeto Roseta

A Pedra da Roseta serviu de inspiração para batizar um projeto de preservação de todas as línguas do planeta. Trata-se do Projeto Roseta criado em 1996 pela Fundação Long Now, com sede em São Francisco, Estados Unidos. É um esforço coletivo internacional de linguistas e falantes nativos de várias línguas para a criação de um banco de dados on-line, contendo o registro de todas as línguas humanas documentadas. Voluntários contribuem com textos e revisão.

Algumas dessas línguas têm menos de 1.000 falantes em todo o mundo, e outras correm o risco de serem extintas pelo domínio cada vez maior de outras línguas – especialmente inglês e espanhol. A intenção é criar uma plataforma única para pesquisa e educação no campo da linguística histórico-comparativa, bem como servir de ferramenta para ajudar, no futuro, a redescobrir e reviver as línguas perdidas.

O arquivo final estará acessível ao público em três mídias diferentes: digital, impressa e arquivo on-line.

 

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