Paracas: tesouros enterrados no deserto

19 de abril de 2016

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Um deserto que termina em uma deslumbrante baía povoada por leões marinhos, pinguins, pelicanos e outros animais marinhos serviu de local de cemitério aos Paracas, uma cultura enigmática do Peru antigo. Os ventos que atingem periodicamente a região trazem uma “chuva de areia” chamada de paraaco pelos povos antigos, falantes do quíchua; a palavra originou “paracas” para denominar uma península, depois toda a área e, por extensão, a cultura ali descoberta.

As necrópoles Paracas

O corpo era envolto em camadas de tecidos formando um pacote cônico.

O corpo era envolto em camadas de tecidos formando um pacote cônico.

A cultura Paracas se desenvolveu entre os anos 800 a.C.-200 d.C., a partir da península de Paracas, na costa peruana, a 235 km ao sul de Lima. Daí irradiou-se para a área hoje denominada departamento de Ica.  O que se conhece dessa cultura provém das centenas de múmias descobertas em necrópoles coletivas escavadas no deserto.

O morto era colocado na posição fetal e amarrado com cordas para manter as pernas flexionadas e as mãos junto ao rosto. Em seguida era envolto por camadas de tecidos e mantas formando um pacote cônico que era depositado na necrópole, voltado para o norte e cercado de oferendas, tais como cerâmica, alimentos, cestos e armas.

As necrópoles eram câmeras escavadas na areia na forma de uma garrafa ou em espaços menos profundos e mais abertos. Cada necrópole continha 30 a 40 múmias conservadas em excelente estado graças a extrema aridez do deserto, a ausência de luz solar e sem contato com o oxigênio. Tais condições preservaram, também, por dois mil anos, os valiosos têxteis Paracas, considerados os mais requintados da América pré-colonial.

Necrópole Paracas com fardos de múmias.

Necrópole Paracas com múmias enroladas em tecidos.

 Os fabulosos têxteis Paracas

Nobre Paracas

Nobre Paracas, reconstituição artística.

Usando algodão (que eles cultivavam em campos irrigados) e lã de vicunha e alpaca, os Paracas produziram tecidos e mantas multicoloridos.  As cores eram obtidas com corantes naturais produzidos a partir de plantas e minerais resultando em mais de 190 tonalidades de verdes, azuis, vermelhos, amarelos, marrons etc.

O comprimento dos tecidos varia de 2 metros a 34 metros o que teria exigido um grande número de pessoas além de uma organização e planejamento para a sua produção.

A decoração dos tecidos apresenta uma grande variedade de padrões: desenhos geométricos, figuras de aves, felinos e antropomórficas. Alguns foram feitos com penas coloridas. Os desenhos comunicam crenças nativas sobre viagens xamânicas ao mundo espiritual mostrando criaturas sobrenaturais aladas ou uma estranha figura agarrando os cabelos de cabeças humanas decepadas.

Os têxteis eram considerados um símbolo de status e riqueza. As múmias de líderes foram envoltas em camadas das melhores tapeçarias junto com joias, armas e objetos religiosos.

Veja abaixo alguns exemplos de têxteis Paracas

Manta Paracas.

Manta Paracas.

Tecido Paracas.

Tecido Paracas.

Figura bordada em manta Paracas.

Figura bordada em manta Paracas.

Manta Paracas.

Manta Paracas.

Outros conhecimentos Paracas

A economia dos Paracas era baseada na pesca marinhas (as águas do oceano Pacífico naquela região são muito piscosas) e na agricultura do milho, feijão, mandioca, amendoim e pimentas vermelhas. A abertura de canais de irrigação e a utilização de guano (excremento de aves) para fertilizar a terra garantiam colheitas abundantes em pleno deserto.

Eles foram, também, artesãos excepcionais produzindo facas de obsidiana, vasilhas de cabaça, chocalhos, cerâmica, cestaria, objetos de ossos e conchas, leques de penas e joias de ouro martelado.

As técnicas e conhecimentos dos Paracas lançaram as bases de sociedades andinas posteriores, incluindo os Incas.

A cultura Paracas foi descoberta, em 1925, por Julio César Tello (1880-1947), considerado o fundador da arqueologia peruana. Anos antes, em 1919, ele havia descoberto, no alto da cordilheira dos Andes, a cultura Chavin (1200-200 a.C.), considerada como a cultura-mãe da América do Sul. Pesquisas mais recentes, contudo, têm revelado vestígios de culturas ainda mais antigas como é o caso de Cupisnique (1500-1000 a.C.) e Sechin (2000-1500 a.C.) que se desenvolveram na costa norte e central peruana.

Veja mais a respeito clicando no título abaixo

Paracas: a polêmica dos crânios alongados

Fonte

  • LONGHENA, Maria & ALVA, Walter. Peru antigo – Grandes Civilizações do Passado. Folio, 2006.
  • NIGEL, Davies. Los Antiguos reinos del Peru. Critica Espanha, 1999.
  • PAUL, Anne (ed.). Paracas Art & Architecture. Iowa State Universit, 1992.
  • Paracas. Encyclopaedia Britannica.
  • Early Horizon: Chavin, Paracas and Lima Cultures. Discover Peru.
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