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O último imperador romano (ano 476 E.C.): um marco ou só um fato histórico?

2 de setembro de 2018

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Os marcos históricos, ainda que criticados pelos historiadores, continuam referenciando estudos e o ensino de História. Há, também, um certo fascínio entre o público em estabelecer recordes históricos: o  primeiro rei, a primeira cidade,  o último império, quem inventou a escrita etc. O ano 476 faz parte desse cenário. Segundo a historiografia tradicional, foi neste ano que o Império Romano do Ocidente chegou ao fim com a deposição de Rômulo Augusto, o último imperador romano.

Não se concebe, porém, um império que atingiu uma área de 4.400.000 km², com 56,8 milhões de pessoas, perdurou por cerca de quatro séculos, teve dezenas de deposições e assassinatos de imperadores tenha sido derrubado em um único dia, em 4 de setembro de 476. Tem, ainda, outro detalhe: o povo romano da época nem notou a “queda”, foi um acontecimento despercebido e o Império continuou vivo e assim permaneceu no pensamento ocidental por muito tempo (apud Veyne, 2009: 384).

Marco histórico ou não, o que se passou no dia 4 de setembro de 476 é um caso exemplar da complexidade histórica daquele período e que deve ser analisado no contexto das migrações dos germanos nos séculos IV e V – período da chamada Antiguidade Tardia (o termo Baixo Império foi deixado de lado pelos historiadores e mesmo a ideia de “decadência”, tão presente nos textos cristãos contemporâneos, é usada com cautela pela moderna historiografia).

Reavaliando as “invasões bárbaras”

A imagem de  invasores violentos e destruidores atribuída aos povos germanos é um estereótipo presente nos livros didáticos e nas salas de aula do ensino básico. Outra distorção é generalizar povos de culturas totalmente diferentes e que passaram por transformações internas entre os séculos II e IV, assim como desconsiderar suas relações com o Império. Essa visão homogeneizadora e generalista já aparecia nos comentários de Tácito em sua obra Germânia do século I E.C.

Sequer as chamadas “Grandes Invasões” foram, como o termo sugere, grandes e rápidos deslocamentos de populações guerreiras, mas sim múltiplos movimentos de natureza diferente, que levaram mais de um século com intervalos de paz e acomodação. Foram, em grande parte, incursões rápidas de saqueadores que penetravam em todo Império e depois retornavam com seus despojos. Às vezes, aconteciam imigrações definitivas de camponeses armados, com mulheres e crianças que vinham à procura de terra para cultivar e da proteção das tropas romanas.

Mesmo a migração dos godos, em 376, e a penetração dos hunos, entre 400 e 410, foram revistas pelos historiadores. Os godos que entraram no império naquele ano não eram um grupo de saqueadores, mas uma multidão de fugitivos. Acreditou-se, por muito tempo que, eles haviam sido deslocados pelos hunos. Atualmente, pensa-se mais em razões econômicas, visto que os hunos perseguiam os godos para escravizá-los e obrigá-los a cultivar suas terras. Como todos os germanos que se infiltraram no Império, exceto dos vândalos, os godos não queriam se instalar como conquistadores, mas como “aliados” – o que de fato aconteceu em 382, quando Roma permitiu que se instalassem na Bulgária.

Estes povos estabeleceram-se no Império como aliados de Roma, seus reinos eram vassalos do Império e seus reis asseguravam devoção e fidelidade ao imperador. Mesmo após suas conquistas, os reis germanos, incluindo os vândalos, continuaram a devotar grande respeito e admiração pelo Império.

Odoacro (476-493), líder dos hérulos, Teodorico (474-526), rei dos ostrogodos e até Carlos Magno (774-814), rei dos lombardos e dos francos, sentiam-se orgulhosos  de fazer parte do Império Romano do Ocidente e viam-se a si mesmos como perpetuadores da tradição “romana” que tentaram ressuscitar.

Como se percebe, apontar os povos germanos como a causa da destruição e “queda” do Império Romano é simplificar um processo histórico longo, marcado por crises internas, complexas composições políticas entre romanos e germanos, bem como ignorar rebeliões internas de efeitos tão devastadores quanto os ataques externos. A deposição do imperador em 476 é exemplar para compreender esse conturbado período.

Império Romano em 476

Império Romano do Ocidente (verde) e do Oriente (laranja) em 476 E.C.

Um imperador adolescente

Flavius Momilus Romulus Augustus ou simplesmente Rômulo Augusto, nasceu em Ravena (capital do Império Romano desde 402) na segunda metade do século V. Era filho de Flávio Orestes, general do exército romano de origem germana, nascido na Panônia, província  junto ao rio Danúbio, na fronteira leste do Império, e onde viviam diversas tribos germanas.

Orestes já havia servido como alto funcionário romano na corte dos hunos. Em 475, ele foi nomeado “patrício” pelo imperador Júlio Nepos, considerado o último imperador romano legítimo. Orestes, contudo, traiu o imperador e tomou a cidade de Ravena. O imperador Júlio Nepos fugiu para a Dalmácia e Orestes empossou seu filho Rômulo Augusto no trono imperial (agosto de 475).

Caricatura da autoridade imperial, o jovem Rômulo Augusto evocava em seu nome o fundador da Cidade Eterna e o ilustre fundador do império. Por sua pouca idade e inexperiência (teria entre 14 e 17 anos de idade), ficou conhecido pelo nome depreciativo de Rômulo Augústulo (“pequeno augusto”).

O novo imperador não foi reconhecido por Zenão I, imperador do Oriente que ainda considerava Júlio Nepos como seu legítimo parceiro na administração do Ocidente.

moeda de ouro

Moeda de ouro de Rômulo Augusto, ano 475.

Deposição do último imperador

Em Ravena, o governo imperial era exercido, de fato, por Orestes que passou a emitir moedas para pagar os mercenários germanos que constituíam grande parte do exército romano. Não foram todos, porém, que receberam os soldos. Os hérulos, esciros e rúgios não foram beneficiados e sequer seu pedido de terras na Itália foi atendido.

Descontentes com Orestes, essas tribos, lideradas por Odoacro, levantaram-se contra o governo imperial e tomaram Ravena. Orestes foi morto e Rômulo Augusto, deposto (4/9/476). Por ser jovem e ter entregue a coroa sem resistência, Rômulo Augusto foi poupado: recebeu uma pensão em dinheiro e viveu exilado na Campânia, no sul da península Itálica, até sua morte.

Rômulo diante de Odoacro

Rômulo renuncia sua coroa diante de Odoacro, gravura do séc. XIX

Odoacro, aclamado como “rei da Itália” por suas tropas, decidiu não nomear um imperador. Em vez disso, enviou as insígnias imperiais ao imperador oriental, Zenão I. Este, apesar de ainda reconhecer o imperador anterior como legítimo, concedeu a Odoacro o título honorífico de “patrício” aceitando sua soberania.

Nunca mais aclamou-se um imperador do Ocidente. Rômulo Augusto foi o último a ter esse título. Daí, porque, a historiografia tradicional ter considerado sua deposição como o fim do Império Romano do Ocidente e, por conseguinte, o fim da Idade Antiga e o começo da Idade Média.

O governo de Odoacro, o “rei da Itália”

Odoacro governou por treze anos sem nunca ser considerado imperador do Ocidente, mas apenas rei da Itália, título que recebeu de seus soldados.

Estabeleceu seu governo em Ravena e adotou uma política conservadora que não alterou a organização administrativa do império e nem interveio nos assuntos da Igreja. Desta maneira assegurou a fidelidade da aristocracia, do Senado e da Igreja. Combateu invasores germânicos, fez pactos com os visigodos e francos contra os burgúndios, alamanos e saxões.

Em defesa do agonizante Império Romano do Ocidente, Odoacro enfrentou Teodorico, chefe dos ostrogodos que chegou a cercar Ravena. O cerco durou três anos e foi marcado por dezenas de ataques de ambos os lados.

Diante dos combates inconclusivos, Odoacro propôs um acordo de paz. Durante o banquete de celebração do tratado, Teodorico matou Odoacro com as próprias mãos (2/2/493).

Teodorico assumiu o trono e governou o que restara do Império Romano do Ocidente por mais três décadas. Assim como Odoacro, ele era formalmente apenas uma espécie de vice-rei para o imperador romano de Constantinopla. Nunca foi aclamado imperador. Teoricamente, o único imperador romano era o do Oriente mas, na prática, Bizâncio abandonou a parte ocidental à sua própria sorte.

Conclusão

“O Império Romano de Augusto e de Constantino não morreu definitivamente com a deposição de Rômulo Augústulo, em 476, pelo chefe bárbaro Odoacro. De início, sobreviveu na parte oriental, que se chamou Império Bizantino (do nome de sua capital Bizâncio ou Constantinopla); depois foi recriado no ano 800, em benefício de Carlos Magno e sobreviveu no Ocidente até 1806, enquanto o do Oriente desaparecia em 1453” (Parisse, 2002: 607).

O declínio do Império começou no seu apogeu: “com os sucessores do imperador Teodósio (379-395), a era dos imperadores-soldados desapareceu” (Veyne, 2009: 382). Os imperadores não mais comandavam suas tropas em frente de batalha, mas ficavam abrigados em seus palácios. Líderes germânicos eram nomeados generais do exército romano e os imperadores confiavam mais neles do que num romano, que sempre podia ser seu rival.

As duas metades do Império disputavam a hegemonia e cada uma tentava aliar-se a um chefe germânico para combater a outra metade.

Muito antes da deposição de Rômulo Augusto, o Império Romano do Ocidente já cedera lugar a novos reinos, de etnias diversas, com outras normas legislativas e estruturas sociais. Esses reinos adotaram práticas e normas administrativas do Império, romanizaram-se acabando por se tornarem uma fusão de instituições germânicas e romanas. O latim e o cristianismo mantinham uma certa unidade entre esses reinos.

A “queda” do Império Romano do Ocidente também não foi responsável pela ruralização da economia e a fixação do homem à terra, típicas da Idade Média. Elas haviam sido criadas no final do século III.

“O desaparecimento do Império Romano do Ocidente não foi uma “queda”, no fim de uma “decadência” política, militar, administrativa, econômica, demográfica e moral. (…) Foi um acidente imprevisível, relacionado à concatenação fatal de causas múltiplas (…) em que inúmeras pequenas causas e pequenos acontecimentos formaram uma bola de neve.” (Veyne, 2009: 383)

A última legião

Rômulo Augusto interpretado pelo ator britânico Thomas Sangster no filme “A última legião”, direção Doug Lefler, 2007

Fonte

  • VEYNE, Paul. O Império Greco-Romano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
  • PARISSE, Michel. Império. In: LE GOFF, Jacques e SCHMITT,Jean-Claude (coord). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP: EDUSC; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002.
  • SILVA, Marcelo Cândido da. 4 de setembro de 476: a queda de Roma. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.
  • BELTRAN LLORIS, F. Los bárbaros en el Imperio Romano. Madrid: Historia 16, 1985.

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Joaquim Augusto Domingues
Joaquim Augusto Domingues
2 anos atrás

Maravilhoso texto, que lança luz sobre acontecimentos que reverberam pela história. Sou fascinado pela história do Império Romano, notadamente no que diz respeito à sua queda: quando e como isso ocorreu. Até a leitura desse texto, tinha a percepção de que Odoacro foi o artífice da queda do Império Romano Ocidental e que esse fato ocorreu de forma súbita e repentina, algo como da noite para o dia. O texto corrige isso, fornecendo uma escala de tempo onde os fatos se encaixam com mais exatidão e plausibilidade.

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