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O nacionalismo musical e as populares músicas clássicas

24 de agosto de 2016

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Há músicas ditas “clássicas”, o correto seria dizer eruditas, que ganharam tamanha popularidade que hoje estão presentes nas festas de casamento, nos bailes de formatura, nos temas musicais de novelas e cinema, em anúncios publicitários, em jogos eletrônicos e até em desenhos animados.

Sua popularidade tem um motivo óbvio: elas se inspiraram em canções e danças populares tradicionais que, nas mãos de grandes compositores, ganharam arranjos, ritmos e melodias sofisticados para orquestras. São peças compostas no século XIX, em pleno despertar do nacionalismo.

Origem da nação e do nacionalismo

No século XIX, a Europa foi incendiada por diversos movimentos embalados por um forte sentimento nacionalista e patriótica. A ideia de nação e o nacionalismo ganhavam, então, uma força popular nova que gerou movimentos separatistas (caso da Hungria, Polônia e Grécia), lutas pela unificação (caso da Alemanha e Itália), políticas de expansão territorial (caso dos Estados Unidos) e de modernização do país (caso do Japão, na chamada Era Meiji).

As origens da ideia de nação remontam ao final da Idade Média e início dos Tempos Modernos, mas o conceito de Estado-nação ganhou força a partir do século XVIII com as revoluções Francesa e Industrial.

O ideal iluminista de fraternité (fraternidade) fundamentou a ideia de nação, de pertencer a um Estado que impõe a todos cidadãos a unidade de língua, cultura e tradições ultrapassando o sentimento local de comunidade. A Revolução Francesa realizou essa unificação elegendo uma língua nacional que todos deveriam falar. Em 1789, o francês era falado somente pela metade dos franceses e apenas 12 ou 13% o falavam corretamente. Na Itália, citando outro exemplo, no momento da unificação (1860), apenas 2,5% da população usava o italiano nas atividades cotidianas (HOBSBAWN, 1998). Daí a importância do ensino primário público e da imprensa para fixar a língua e a cultura oficial – elementos forjadores da ideia de nação.

A Revolução Industrial, por sua vez, quebrou as pequenas unidades produtivas agrícola-artesanais que constituíam os horizontes de vida da maioria da população. A produção industrial em larga escala ampliou o contexto econômico-social a que o indivíduo pertencia, estendeu as relações de produção e de troca até a formação de um mercado e de uma sociedade de dimensões nacionais.

O nacionalismo nas artes

Na pintura, o nacionalismo incorporou-se à estética do romantismo privilegiando os temas históricos de forte dramaticidade, em especial, os movimentos pela liberdade. Nesta linha, são emblemáticas as telas O Fuzilamento de 3 de Maio (1814-15), de Francisco Goya, e A Liberdade Guiando o Povo (1830), de Delacroix (usada na abertura desse artigo, em montagem fotográfica).

Aliás, este último, foi o pintor das lutas pela liberdade. O nacionalismo grego, que resultou na independência da Grécia contra o Império Otomano, inspirou Delacroix a pintar duas telas famosas: O massacre em Chios (1824) e A Grécia nas ruínas de Missolonghi (1826), nas quais ele exaltou a heroica resistência do povo grego frente às tropas turcas.

O nacionalismo na música erudita

A música foi um eficiente instrumento de difusão dos ideais nacionalistas. Muitos compositores europeus utilizaram de melodias e ritmos do folclore de seu país buscando, inclusive, inspiração nas lendas e histórias de seu povo. Criaram composições com forte conteúdo épico e patriótico.

O polonês Frederic Chopin (1810-1849) é um exemplo do sentimento nacionalista na música. Na época, sua pátria, a Polônia estava sob domínio do czar da Rússia, e Chopin compartilhava o desejo dos nacionalistas em libertar o país. Ele residia em Viena quando lhe chegou a notícia da insurreição em Varsóvia. Entusiasmado, Chopin improvisou diante de um público atento e comovido, o Estudo Revolucionário, em cujo ritmo alucinante ele representou a luta pela libertação da Polônia. Outras composições exaltando a Polônia também se tornaram clássicos como Polonesa nº 3 e a Polonesa nº 53, apelidada de “Heroica”.

Estudo Revolucionário (Estudo op. 10, nº 12)

Polonesa nº 3, Op. 40, nº 1

Polonesa “Heróica”, desenho animado com Pica-pau (1946)

O húngaro Frans Liszt (1811-1886), mesmo morando longe de sua pátria, homenageou-a em inúmeras composições inspiradas na música folclórica húngara, de raiz cigana. A Hungria vivia, então, sob o domínio do Império Habsburgo sediado na Áustria. Em 1848, tiveram início manifestações em massa contra o governado imperial nas cidades húngaras de Peste e Buda que resultaram em uma guerra civil. O país não conseguiu a almejada independência, mas diante da resistência e do forte nacionalismo húngaro, em 1867, a Áustria chegou a uma solução alternativa: transformou o Império Habsburgo na monarquia dual da Áustria-Hungria.

Foi nesse clima de lutas nacionalistas que Liszt criou suas célebres Rapsódias húngaras, um conjunto de 19 obras para piano, compostas entre 1846 e 1853, e mais tarde entre 1882 e 1885. Atento aos acontecimentos de sua época, Liszt também compôs peças musicais sobre temas nacionais checos, alemães, italianos, polacos, russos, franceses, ingleses, espanhóis e húngaros.

Rapsódia húngara nº 2

Rapsódia húngara no. 2, desenho animado com Pernalonga

O nacionalismo alemão na ópera de Wagner

A ópera, um gênero musical muito popular no século XIX, também serviu de propaganda para a luta nacionalista. As óperas do alemão Richard Wagner (1813-1883), consideradas por muitos especialistas como a essência do espírito alemão, falam de um passado heroico onde se misturam história medieval com mitos germânicos.

A tetralogia O Anel do Nibelungo (1876), baseada na mitologia nórdica, refere-se a um anel mágico carregado de poderes e maldição. O mito profetiza, ainda, a guerra que levaria ao fim do mundo. A interpretação de Wagner para esse apocalipse diverge significativamente das fontes nórdicas. A última cena do último ato é talvez uma das mais complexas na história da ópera, quando o fogo consome todo o cenário e o rio Reno inunda o local, levando as ninfas consigo.

A Cavalgada das Valquírias (a segunda parte da tetralogia) é uma das peças musicais mais conhecidas do público em geral. Tem sido frequentemente usada como tema musical em produções cinematográficas desde o clássico O Nascimento de uma nação (1915) dirigido por D. W. Griffith, até o mais recente Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, na cena em que uma esquadrilha de helicópteros ataca uma vila vietnamita.

A cavalgada das Valquírias, no filme Apocalypse Now (1979)

O nacionalismo italiano na ópera de Verdi

As óperas do compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) também refletiram o espírito nacionalista da época. Defensor da unificação da Itália e amigo pessoal de Garibaldi, Verdi compôs óperas que alcançaram enorme popularidade. O nome de Verdi passou a servir de sigla para “Vitorio Emanuele,  Rei (da) Itália” em torno do qual ocorria o movimento de unificação italiana. Nos muros das cidades, os patriotas italianos pichavam “Viva Verdi” fazendo propaganda da luta revolucionária.

"Viva Verdi", sigla de "Viva Vitorio Emanuele, Rei (da) Itália"

Patriotas que lutavam pela unificação da Itália pichavam nos muros das cidades a expressão “Viva Verdi”, sigla que disfarçava o grito revolucionário “Viva Vitorio Emanuele, Rei (da) Itália”. Gravura anônima de 1859.

A música Va, pensiero, sull’ali dorate (“Vai, pensamento, sobre asas douradas”), cantada na cena Coro dos Escravos Hebreus, na ópera Nabucco (1842), tornou-se uma música-símbolo do nacionalismo italiano da época. Foi escrita durante a época da ocupação austríaca no norte da Itália e, por meio de várias analogias, suscitou o sentimento nacionalista italiano. A letra de Va, pensiero é um hino de amor à terra natal ao cantar a “pátria, tão bela e perdida” e a “terra querida”.

Va, pensiero pelo coro infantil do Cambodja e Tibet, festival Música pela Paz (2000)

A popularidade das valsas vienenses

Até o século XVIII, a dança nos salões aristocráticos era o minueto, com seus movimentos solenes e ensaiados coreograficamente. Dança da corte, na qual não se pula, não se corre e nem se fica suado.

Com a Revolução Francesa começa uma mudança radical na maneira de dançar. Agora, o casal se abraça, os corpos se tocam, dão-se passos firmes, batendo com os pés no chão. Irrompe uma nova era em que as danças de origem popular – polca, mazurca e valsa – ganham os salões aristocráticos e burgueses.

A valsa foi, sem dúvida, o símbolo da nova era expressando em seu movimento circular vertiginoso a consciência da recém-adquirida liberdade. A valsa não é uma invenção do século XIX, seu compasso três por quatro tem origem antiga. Mas foi no século XIX que ela ganhou maior significado.

O austríaco Johann Strauss II (1825-1899), o músico mais famoso de toda família Strauss, também se inspirou na música e na dança popular compondo quase 500 valsas e polcas que acabaram por se tornar o próprio espírito do povo vienense.

Entre as chamadas valsas vienenses que compôs, O Danúbio Azul (1867), é a sua obra mais popular, e se transformaria, praticamente, no hino de Viena. Serviu como tema musical do filme de Stanley Kubrick Uma Odisséia no espaço (1968). Seguiram-se outras composições também antológicas, como Vozes da Primavera, Sangue vienense, Vida de artista, Contos dos bosques de Viena, Vinho, mulheres e música e Valsa do imperador.

Danúbio Azul, no filme Uma Odisséia no espaço (1968)

O nacionalismo musical brasileiro

Dois compositores brasileiros do século XIX também se inspiraram em motivos populares imprimindo em suas obras características nitidamente brasileiras.

O paranaense Brasílio Itiberê (1846-1913) segundo alguns especialistas, foi o primeiro a expressar a tendência nacionalista da música brasileira, em sua obra para piano A Sertaneja, composta em 1869. Nela percebemos a inspiração da canção tradicional Balaio, meu bem, balaio, tema musical folclórico recolhido por ele na cidade de Paranaguá.

O paulista Alexandre Levy (1864-1892) também utilizou-se do folclore brasileiro na música erudita na sua composição Variações sobre um tema popular brasileiro, de 1884, baseada na melodia Vem cá, Bitu!

A Sertaneja, de Brasílio Itiberê

Variações sobre um tema popular brasileiro, de Alexandre Levy

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Rubens Ap. dos Santos
Rubens Ap. dos Santos
2 anos atrás

Gostaria de ver inserido sambas enredos, bonitos e fiéis a nossa história, abandonada pela maioria dos pesquisadores. Não é possível tornar a sociedade brasileira realmente verdadeira com intolerância religiosa e racial.

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