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Mulheres ao longo da História (4): Grécia Antiga

20 de julho de 2020

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Onde encontrar as mulheres no mundo grego fortemente patriarcal e misógino que as exclui da vida política e social? Como saber o papel da mulher em uma sociedade onde os discursos, os documentos políticos, fontes literárias e até o teatro foram escritos por e para homens? Que fontes buscar quando não são as mulheres quem falam diretamente sobre suas crenças, pensamentos e experiências?

Para além das evidências arqueológicas e iconográficas que oferecem uma ampla gama de perspectivas, há algumas pistas, bem significativas, nos discursos como, por exemplo, a célebre Oração Fúnebre, de Péricles, citada em Tucídides. Trata-se de um longo discurso em homenagem aos atenienses mortos no primeiro ano da Guerra do Peloponeso, em 431 a.C. Era a parte final e solene das cerimônias do funeral público. O discurso glorificava as realizações de Atenas, louvava a glória dos guerreiros mortos, elogiava os cidadãos e as leis da pólis e, depois de dez longos parágrafos, quase no fim, Péricles dedica umas poucas linhas às mulheres de Atenas:

“Se tenho de falar também das virtudes femininas, dirigindo-me às mulheres agora viúvas, resumirei tudo num breve conselho: será grande a vossa glória se vos mantiverdes fiéis à vossa própria natureza, e grande tam­bém será a glória daquelas de quem menos se falar, seja pelas virtudes, seja pelos defeitos”. (Tucídides. História da Guerra do Peloponeso, II, 45.)

A brevíssima referência às mulheres começa com um tom de contrariedade – “se tenho de falar” – de quem está apenas cumprindo uma formalidade da cerimônia. Péricles não glorifica nem conforta as viúvas, mas lhes dá um conselho: mantenham-se caladas e não deem motivos para serem faladas. Em suma, fiquem invisíveis. Atenas vivia, então, o período áureo de sua democracia, arte e cultura.

As mulheres também aparecem nos textos dos filósofos. No livro V da República, que evoca uma sociedade ideal, Platão diz:

não há nenhuma atividade de um Estado que pertença a uma mulher porque ela é mulher ou a um homem porque ele é um homem; ao contrário, as aptidões naturais são igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher, assim como o homem, participe em todas as atividades, ainda que em todas seja mais fraca do que o homem.” (Platão.  República, livro V).

O diálogo menciona que existem mulheres com aptidão inata para a medicina, a música, a ginástica, a guerra e a sabedoria e que para um bom funcionamento da sociedade, seria importante não impedir mulheres talentosas. Saindo da República idealizada, Platão revela sua visão masculina sobre as mulheres. Em Timeu, um de seus últimos diálogos, em que ele especula sobre a natureza do mundo e dos seres humanos, ele vê as mulheres como homens degradados:

“Entre os homens que havia recebido sua existência, todos aqueles que eram covardes e levaram a vida de forma errada, foram, com toda probabilidade, transformados em mulheres em sua segunda encarnação”. (Platão, Timeu-Crítias).

A mitologia oferece outras pistas para compreender o papel da mulher no mundo grego antigo.

Pandora: a primeira mulher

É Hesíodo (século VIII a.C.) quem conta o mito de Pandora. Ela é mencionada na Teogonia, como a primeira mulher, porém sem ter seu nome revelado e sob um viés depreciativo:

Dela vem a raça das mulheres e do gênero feminino.  Dela vem a funesta geração das mulheres que trazem problemas aos homens mortais entre os quais vivem, companheiras nunca da pobreza cruel, mas apenas da riqueza. (Hesíodo. Teogonia, 590-593.)

O mito é recontado por Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias (60-105), desta vez citando o nome de Pandora. Conta o poeta que Pandora foi criada por Hefesto e Atena, auxiliados por todos os deuses sob as ordens de Zeus. Cada deus lhe deu uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro, a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos femininos. Daí seu nome, Pandora, que significa “aquela que possui todos os dons”.

Feita à semelhança das deusas, Pandora foi dada de presente ao titã Epimeteu, irmão de Prometeu. O presente era, na verdade, uma punição à espécie humana por terem os homens aceitado de Prometeu o fogo divino. Zeus sabia que não conseguiria enganar o esperto Prometeu, o previdente, “aquele que pensa à frente”. Por isso, enviou Pandora ao imprudente Epimeteu a quem Prometeu havia advertido de não receber nada dos deuses. Mas Epimeteu, cujo nome significa “aquele que pensa depois”, vendo a radiante beleza de Pandora, esqueceu a advertência do irmão e tomou a bela mulher como esposa.

Pandora havia recebido um grande vaso (pote ou caixa) de Zeus como presente de casamento. Em outra versão do mito, era Epimeteu que possuía esse vaso. Seja como for, o pote estava lacrado e Pandora foi alertada para jamais abri-lo. Os homens viviam, então, na Idade de Ouro sem sofrimentos e doenças, longe do trabalho árduo e em eterna juventude.

Esse tempo de felicidade, contudo, chegou ao fim quando Pandora, não resistindo à curiosidade, abriu o vaso e dali escaparam todas as maldições da humanidade: doenças, vícios, violências, sofrimentos, fome, loucuras, miséria que rapidamente se espalharam pelo mundo.  Pandora tentou fechar o vaso, mas escutou um choro triste e débil vindo de seu interior: era a Esperança, presa no fundo do vaso. Pandora soltou a Esperança no mundo para confortar a humanidade.

O mito de Pandora lembra o da Eva da Bíblia e com o mesmo significado: as mulheres como a origem dos males da humanidade e responsáveis por tirarem a humanidade da Era Dourada, do paraíso.  O mito grego é ainda mais misógino pois a mulher é criada para punir os homens. Essa história a mitológica influenciou a percepção das mulheres em seu lugar no mundo grego.

As descendentes de Pandora

Desde a publicação do trabalho pioneiro de Sarah Pomeroy, Deusas, prostitutas, esposas e escravas, em 1975, muitos especialistas se debruçaram sobre os estudos femininos no mundo clássico. Esses trabalhos deixam claro que não se deve generalizar a mulher grega, primeiro porque há grande diversidade da situação das mulheres nas diferentes pólis, segundo porque há distinções entre cidadãs, metecas (estrangeiras residentes na cidade) e escravas. Portanto, é importante dizer de onde e de qual mulher se está falando.

O Código de Gortina, descoberto em 1884 nesta pequena cidade em Creta, revela que a mulher da antiga Gortina gozava de uma autonomia muito maior do que nas outras cidades gregas. Podia possuir propriedades e era livre para aliená-las. A filha herdeira (isto é, órfã e sem irmãos) tinha o direito de recusar quem normalmente se casaria com ela, ou seja, o parente mais próximo. Contudo, como em outras cidades gregas, a mulher de Gortina é considerada inferior e está sob a tutela do homem: pai, irmão ou marido. O Código de Gortina, uma inscrição de 620 linhas, cobrindo trinta lajes de pedra, é o mais antigo e mais completo código legal grego conhecido.

A arqueologia tem fornecido pistas e colocado algumas afirmações em xeque. É o caso do gineceu, um quarto ou ambiente nas casas onde ficavam as mulheres, apartadas dos homens. A existência de um espaço reservado para as mulheres não é atestada pelas escavações arqueológicas e a separação parecer ter sido mais teórica do que real. Ficar longe da visão do público, como lembrou Péricles em seu discurso fúnebre, seria mais uma situação ideal para as mulheres respeitáveis, e não necessariamente uma realidade para todas as mulheres.

Mulheres de Atenas

As atenienses livres, isto é, não escravas nem estrangeiras, estavam excluídas da vida política, não podiam participar dos debates e das decisões da Eclesia, a assembleia de todos os cidadãos. Elas tinham, contudo, o (único) privilégio de transmitir a cidadania a seus filhos. Segundo lei criada por Péricles, o cidadão era o indivíduo nascido em Atenas e filho de pai e mãe ateniense. Alguns anos depois, Péricles convenceu a Eclesia a mudar esta lei bastando apenas o pai ser ateniense para a transmissão da cidadania. Após a morte de seus dois filhos legítimos, Péricles queria garantir a cidadania a seu filho com Aspásia, que não era ateniense. As outras exigências foram mantidas: ser homem, adulto e com serviço militar completo (aos 20 anos de idade). Portanto, os critérios para ser cidadão ficaram exclusivamente masculinos marginalizando de uma vez as mulheres.

Novamente, é um relato mitológico que justifica a exclusão das mulheres da vida política. Segundo Marco Terêncio Varrão (116 a.C. – 27 d.C.), citado por Santo Agostinho (A Cidade de Deus, parte II, capítulo IX) as mulheres da Ática tinham o direito ao voto na época do mítico Cécrope, primeiro rei da Ática. Quando este rei fundou uma cidade, nela brotaram uma oliveira e uma fonte de água. O rei perguntou ao oráculo de Delfos o significado desse fenômeno, e a resposta foi que a oliveira representava Minerva (Atena) e a fonte, Netuno (Poseidon) e que ambos os deuses queriam ser patronos da nova cidade. Caberia aos cidadãos escolherem um deles como deus protetor. Todos os cidadãos foram convocados a votar, homens e mulheres. Os homens votaram em Netuno, as mulheres em Minerva, porém como havia uma mulher a mais, Minerva venceu por um voto. Netuno ficou irritado e devastou a cidade com o mar enfurecido. Para apaziguar o deus (que Santo Agostinho chama de “demônio”), as mulheres de Atenas aceitaram três castigos: perderam o direito ao voto, nenhum filho teria o nome da mãe e não seriam chamadas de atenienses.

Assim, Atenas, a cidade sob proteção da deusa sábia e guerreira Minerva/Atena, mantinha suas mulheres sem voz e invisíveis.

Tecelagem, vasos áticos

A tecelagem e a confecção de roupas eram as ocupações mais importantes da mulher ateniense. Mulher fiando e trabalhando a lã, vasos áticos, século V a.C.

A mulher ateniense é uma eterna menor, que não tem direitos legais nem políticos. Toda a sua vida, ela deve permanecer sob a autoridade de um kurios (“tutor”): primeiro o pai, depois o marido, seu filho (se ela é uma viúva) ou seu parente mais próximo. Esse tutor acompanha em todos os atos legais e fala por ela defendendo “seus” interesses. Nenhum juiz se dirige diretamente à mulher. Nos tribunais atenienses, os juris são compostos unicamente por homens. No entanto, as metecas podiam comparecer no tribunal por conta própria e tomar medidas legais.

A mulher de Atenas Clássica não recebe educação escolar formal. Suas mães lhes ensinam as habilidades domésticas necessárias para administrar uma casa. Já a educação dos meninos inclui retórica, necessária para uma participação política efetiva, e a educação física para o serviço militar. Essas habilidades não são consideradas necessárias para as meninas.

Sua existência encontra significado através do casamento, a parte mais importante da vida de uma mulher ateniense livre. Seu principal papel é casar e ter filhos. Casa-se aos 14-16 anos de idade quase sempre com um homem mais velho. Curiosamente, a língua grega não tinha uma palavra específica para designar casamento.

Casada, a mulher é responsável pelo gerenciamento diário da família, do marido, da saúde e alimentação dos membros da família, da supervisão dos escravos e do patrimônio. Suas principais funções são cuidar das crianças, tecer e confeccionar as vestimentas.

A autoridade do marido inclui o direito de escolher um novo marido para sua viúva, o que fica registrado no testamento, e a noiva-viúva não tem nada a dizer sobre essa decisão.

Mulheres comum

Vendedora

Vendedora oferece sua mercadoria no mercado. No cesto, se vê a ponta de um tecido listrado. Vaso ático, c. 480 a.C.

Na prática, apenas as famílias ricas podiam manter as mulheres isoladas. As responsabilidades das mulheres as forçavam sair de casa com frequência para buscar água na fonte ou lavar roupas, por exemplo. Embora as famílias ricas possuíssem escravas para esses serviços, a maioria não tinha escravos suficientes para impedir que a mulher livre fosse à rua inclusive para fazer compras no mercado. Uma das atividades mais importantes para as mulheres de todas as classes era visitar ou ajudar parentes e amigos, e visitar regularmente as sepulturas dos membros da família para depositar as oferendas.

A mulher livre de família modesta podia trabalhar nos campos com o marido ou na cidade. Suas ocupações eram, muitas vezes, uma extensão dos trabalhos domésticos, como tecelagem e lavagem de roupas. Mas havia outras ocupações não relacionadas às tarefas domésticas como vendedoras no mercado, sapateiras, douradoras, oleiras etc.  A mulher, contudo, não tinha permissão legal para dispor de grandes somas de dinheiro, nem para possuir terras e escravos.

Sobre as mulheres estrangeiras há poucas informações, exceto o valor do imposto que as atingia: elas deviam pagar cerca de 6 dracmas por ano, contra doze pagos pelo homem. Muitas delas acompanharam o marido que se estabeleceu em Atenas a negócios.

Uma minoria de estrangeiras era composta por mulheres solteiras que vieram buscar fortuna em Atenas. As mais pobres acabavam se prostituindo em bordeis do porto de Pireu ou do Cerâmico, bairro de Atenas. Mulheres mais instruídas podiam se tornar cortesãs. Mantendo um salão para receber, elas são companheiras quase oficiais de ricos comerciantes e políticos influentes. A mais famosa delas foi Aspásia, nascida em Mileto, que se tornou amante de Péricles. Sua casa se tornou um centro intelectual em Atenas, atraindo os escritores e pensadores mais importantes, incluindo o filósofo Sócrates.

Funções públicas da mulher ateniense

A religião era a única área da vida pública que as mulheres atenienses podiam desempenhar um papel de liderança na cidade. A sacerdotisa da deusa Atena usou sua influência para convencer a população a evacuar a cidade durante a guerra contra os persas.

As festas religiosas eram o único momento da vida grega em que uma mulher era igual a um homem. Mesmo as estrangeiras participavam de atividades religiosas públicas. Os mistérios de Elêusis controlados pelo Estado, por exemplo, estavam abertos a todas as pessoas de língua grega, homens e mulheres, livres e não livres.

As Panateneias, festas em homenagem à deusa Atena, eram o evento mais importante de Atenas e aberto a ambos os sexos incluindo metecos e escravos. As Pequenas Panateneias, realizadas anualmente, e as Grandes Panateneias, a cada quatro anos, reuniam todos os habitantes de Atenas. As mulheres carregavam cestos com utensílios para os sacrifícios; os rapazes, vasos com óleo e vinho; e os velhos, ramos de oliveira.

Panateneias

Friso do Partenon, de Atenas, mostra a grande procissão das Panateneias para a Acrópole. Nesta seção, a garota principal carrega um queimador de incenso; aquelas que a seguem, levam jarros para derramar libações. Friso do Partenon, c. 447-433 a.C.

Mulheres de Esparta

As mulheres de Esparta eram famosas na Grécia antiga por gozarem de mais liberdade e direitos do que em qualquer outra cidade grega. Para seus contemporâneos, elas viviam em promiscuidade e controlava seus maridos – reputação gerada da situação de quase igualdade das espartanas com os homens.

Ao contrário das atenienses, as espartanas podiam possuir e herdar legalmente propriedades e, geralmente, eram mais instruídas. Podiam pedir o divórcio livremente, sem correr o risco de perderem seus bens pessoais, e de se casar novamente. No caso de um segundo casamento, elas não tinham que abandonar os filhos do primeiro casamento uma vez que a paternidade biológica não importava na maneira de criar os filhos.

Esparta tinha um sistema de ensino organizado pelo Estado e obrigatório para todos (meninos e meninas). Para as meninas, o ensino visava formar mães fortes que, por sua vez, gerariam crianças fortes e saudáveis. O currículo começava aos 7 anos e inclui dois componentes: o treinamento físico para fortalecer o corpo, e o aprendizado de dança, poesia e música.

mulher praticando corrida

Estatueta de bronze de mulher praticando corrida, descoberta em Prizren, Sérvia, e provavelmente feita em Esparta, 520-500 a.C., Museu Britânico.

O treinamento físico abrangia corrida, luta, lançamento de disco e dardo, e possivelmente, equitação para ambos os sexos. As meninas, como os meninos, treinavam nuas. A força das mulheres espartanas era famosa: dizia-se que elas desafiavam o pretendente a uma luta e só se casavam com quem as vencesse.

O aprendizado da dança, poesia e música era necessário para a participação nas grandes festas religiosas além de servirem de meio de transmissão das tradições mitológicas. As espartanas aprendiam a ler e escrever o básico.

Terminado o tempo de ensino, por volta dos 18 anos de idade, as mulheres espartanas se casavam. Seu marido tinha cerca de 30 anos. O encontro do casal seguia um rito: a noiva tinha o cabelo cortado bem curto ou mesmo raspado, recebia roupas masculinas e era deixa sozinha em um quarto escuro. O noivo, depois de tomar a refeição conjunta com seus pares, se juntava à esposa no escuro, e regressava ao quartel. O casamento permanecia em segredo até o nascimento do primeiro filho.

Com o marido ausente do lar conjugal, as mulheres casadas desfrutavam de muitas liberdades e responsabilidades.

Todas as mulheres espartanas livres dispunham de hilotas no trabalho doméstico fornecidos pelo Estado. A eles cabia a tecelagem, considerada atividade indigna de uma espartana. A lei espartana, codificada por Licurgo, enfatizava a missão mais importante das mulheres era carregar e criar filhos, assim como o papel dos homens era aumentar as fileiras do exército.

Dessa forma, os cultos eram focados na fertilidade, saúde e beleza das mulheres. O culto dedicado à deusa Ilítia ou Ilícia, deusa protetora das gestantes e dos partos era o mais importante para as espartanas. Da mesma forma que o culto à Helena, a célebre Helena de Tróia que, na verdade, era de Esparta. Como oferendas, ela recebia pentes, frascos de perfume, cremes de beleza.

Espartanas célebres

Gorgo, a filha do rei espartano Cleomenes I (520-490 a.C.), é uma das poucas figuras históricas femininas relatadas por Heródoto por sua sabedoria e perspicácia. Ela teria descoberto e traduzido uma mensagem camuflada em uma tábua de madeira alertando os espartanos de um eminente ataque persa de Xerxes I.

Cartaz do filme “300” (EUA, 2006), dirigido por Zack Snyder, em que a atriz Lena Kathren interpreta a rainha Gorgo, e Gerard Butler, o rei Leônidas, rei de Esparta.

De acordo com uma anedota relatada por Plutarco na biografia de Licurgo (Vidas Paralelas), Gorgo perguntada por uma mulher ateniense – “Por que vocês, mulheres espartanas, são as únicas que podem liderar homens?” – respondeu: “Porque somos as únicas a gerar homens”. Gorgo foi filha de rei, esposa de rei (Leônidas) e mãe de rei.

Heródoto relata que quando ela tinha 8 ou 9 anos (embora se pense que ela tivesse mais idade), seu pai, o rei Cleomenes, foi procurado por Aristágoras, tirano de Mileto que queria ajuda de Esparta para expulsar os persas da Jônia. O rei espartano, entretanto, não estava interessado e mandou Aristágoras embora. Mas este insistiu e, mais uma vez, procurou o rei, agora com a intenção de suborná-lo. A jovem Gorgo estava presente na sala com o pai quando Aristágoras chegou e, vendo a menina pediu ao rei que a mandasse sair para conversarem em particular. Cleomenes recusou e lhe disse para falar livremente na frente dela. Aristágoras, então, ofereceu um suborno substancial ao rei que recusou, então ele dobrou a oferta até que Gorgo disse: “Pai, seu visitante vai lhe corromper se você não se levantar e sair” (Heródoto 5, 51). Cleomenes seguiu seu conselho e deixou Aristágoras sozinho na sala.

Schrader comenta a respeito,

“Em nenhuma outra cidade grega, a não ser Esparta, uma mulher de qualquer idade poderia estar presente, muito menos ser ouvida e atendida, em uma reunião entre chefes de estado. O conselho de Gorgo foi ainda mais notável porque era bom. (…) Algumas pessoas diziam que era mais fácil enganar trinta mil homens atenienses do que uma garota espartana.”

Cinisca, filha do rei Arquídamo II, foi outra espartana famosa. Ela foi a primeira mulher na história a vencer a corrida de carros nos Jogos Olímpicos de 396 a.C. e de 392 a.C. Um monumento à glória de Cinisca foi erguido em Esparta, no bosque de plátanos, onde eram realizadas cerimônias religiosas. Somente reis espartanos foram homenageados dessa maneira e ela foi a primeira mulher a receber essa honra.

As mulheres gregas não tinham permissão para participar dos Jogos Olímpicos, e geralmente nem assistiam às competições, com exceção das corridas de cavalos, porque, nesses casos, o participante real da competição não era o auriga (condutor), mas o financiador do carro e dos cavalos que poderia ser, de fato, uma mulher.

A vitória de Cinisca teve um impacto muito positivo no mundo grego antigo, estimulando outras mulheres a se inscreverem e muitas a ganharem a corrida de carro nos Jogos Olímpicos, como Eurileonida, em 368 a.C. Hoje, essa princesa espartana é frequentemente usada como uma figura simbólica para o avanço social das mulheres.

Fonte

  • MASSEY, Michael. As mulheres na Grécia e Roma Antigas. Portugal: Publicações Europa-America, 1990.
  • POMEROY, Sarah B. Diosas, rameras, esposas y esclavas. Madri: Akal, 1990.
  • POMEROY, Sarah B. Spartan Women. Oxford University Press, 2002.
  • SALLES, Catherine. Nos submundos da Antiguidade. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • LLOYD-JONES. O mundo grego. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
  • DUBY, Georges; PERROT, Michelle (dir.). História das Mulheres no Ocidente. Porto: Afrontamento, 1993.
  • MOSSÉ, Claude. La Femme dans la Grèce antique, Complexe, 1991.
  • GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix, 1995.
  • SCHRADER, Helena. Leonidas and Gorgo of Sparta.The bride of Leonidas. Queen Gorgo.
  • Dicionário Etimológico da Mitologia Grega , 2013, p. 221.
  • TUCÍDIDES. Historia da Guerra do Peloponeso. Brasília: UnB; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.
  • HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Tradução Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
  • PLATÃO. Timeu-Crítias. Tradução do grego Rodolfo Lopes. Estudos Clássicos e Humanísticos. Universidade de Coimbra, 2011.
  • PLATÃO. República. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Coleção Os Pensadores.)

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