Mulheres ao longo da História (1): Pré-História

5 de julho de 2020

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O que sabemos sobre as primeiras mulheres da espécie humana? Quase nada. No entanto, é de uma fêmea adulta o mais antigo fóssil de hominídeo conhecido. Batizada de Lucy, ela viveu há 3,2 milhões de anos. Foi descoberta em 1974 no deserto de Afar, na Etiópia. O que a diferenciava de outros primatas era o caminhar bípede.

Nossos primeiros ancestrais da espécie Homo sapiens têm pouco a ver com Lucy, embora também tenham surgido na África, há 250 mil anos. Lucy, até prova contrária, não foi produtora de artefatos – condição essencial para incluí-la no gênero Homo. O primeiro a fabricar instrumentos de pedra lascada teria sido o Homo habilis, há 2,5 milhões de anos. Com ele teve início o Paleolítico inferior, o primeiro e o mais longo período inicial da Pré-História.

À procura da mulher paleolítica

Historiadores e estudiosos do século XIX popularizaram a imagem de mulheres paleolíticas com aspecto selvagem coletando frutos enquanto esperavam que seus caçadores as arrastassem pelos cabelos até o fundo da caverna. As ilustrações dos livros escolares reforçam a ideia de um mundo pré-histórico masculino: homens primitivos lascando pedras, caçando mamutes, fazendo fogo, afiando suas ferramentas e pintando nas paredes rochosas. Onde estão as mulheres? Procriando, alimentando crianças e cuidando dos velhos? Até onde essa ideia não está carregada de valores de nosso tempo?

As numerosas Vênus paleolíticas – estatuetas femininas com formas exageradas (quadris e peitos) – foram interpretadas como símbolos de fertilidade e da função reprodutora da mulher. Mas a teoria é polêmica e o próprio uso do termo “Vênus” – por analogia à deusa romana do amor e beleza – tem sido objeto de muitas críticas pois ele dá a essas figuras um significado que os indivíduos do Paleolítico não lhes deram necessariamente.

Da esquerda para a direita: Vênus de Dolni Vestonice, 27-31mil anos, Paleoltíco, cerâmica, Museu Nacional de Praga; Vênus de Willendorf, 24-26 mil anos, Paleolítico, calcáreo pintada de ocre vermelho, Museu de Historia Natural de Viena; Vênus de Kostenki,, 30-15 mil anos, Paleolítico, marfim de mamute, Museu Hermitage, São Petersburgo; Vênus Cucuteni, 5500-2750 a.C., Neolítico, Ucrânia.

Ao contrário da imagem da mulher submissa diante de musculosos caçadores de mamutes, teorias mais recentes sustentam uma outra visão das mulheres paleolíticas. Elas seriam parceiras dos homens na fabricação de raspadores, facas e pontas. Estavam tão aptas quanto eles para caçar manejando lanças e construindo armadilhas. Ao contrário do que imaginamos, as caçadas de mamutes e bisões não eram frequentes. Boa parte da dieta paleolítica era constituída por animais de pequeno porte como cães selvagens, coelhos e roedores.

Lascar pedra é uma atividade que envolve mais habilidade do que força e não há qualquer evidência de que a produção de artefatos de pedra fosse exclusiva dos homens. Tampouco as pinturas rupestres exigem força, e nada impede pensar que elas possam ter sido feitas por mulheres ou também por elas. As mãos em negativo impressas em vermelho e preto na gruta de Gargas, na França, foram identificadas como sendo de homens, mulheres e crianças há 27 mil anos.

Mãos em negativo

Mãos em negativo, impressas em vermelho e preto feitas há 27 mil anos na gruta de Gargas, na França, foram identificadas como sendo de homens, mulheres e crianças. Paleolítico Superior.

As geniais mulheres neolíticas

Foi Gordon Childe quem cunhou o termo Revolução Neolítica para denominar a grande transformação ocorrida com a passagem da coleta para a domesticação de plantas e animais que, segundo ele, ocorreu por volta de 10 mil anos atrás no Oriente Médio.  Hoje, sabe-se que a agricultura começou em épocas diversas e em pelo menos sete diferentes regiões do mundo, a maior parte delas em áreas ribeirinhas onde os recursos da natureza eram mais escassos.

A domesticação da planta não é o mesmo que seu cultivo. Caçadores que atiravam as sementes de frutas consumidas observaram que, em condições adequadas, elas geravam novas plantas. Mas ainda não era a agricultura, propriamente dita. A domesticação das plantas implica uma intervenção de selecionar as sementes ou grãos maiores para plantar e, portanto, de controlar a reprodução e, depois, cuidar da planta em crescimento. Com o tempo, este processo de seleção artificial vai resultar em plantas mais vigorosas. Sementes de milho, por exemplo, não conseguem cair por si só da espiga, precisam que os humanos debulhem o milho, colham as sementes e as plantem.

Segundo Childe, esse passo decisivo para a Revolução Neolítica, teria sido obra das mulheres, assim como a criação de ferramentas e de uma série de outros objetos que vieram em consequência.

“Para realizar a revolução neolítica, os homens, ou mais exatamente as mulheres, não só tiveram de descobrir plantas adequadas e métodos apropriados de cultivo, mas também de inventar ferramentas especiais para lavrar o solo, segar e armazenar a colheita e transformá-la em alimento. (…)

 

A moenda para se produzir a farinha (…). O fabrico do pão exige certos conhecimentos de bioquímica – o emprego de um micro-organismo, o lêvedo – e um forno de construção especial. Além disso, o mesmo processo biológico empregado para a fermentação do pão serviu para (…) a cerveja. Cerca de 3000 a.C., as bebidas se haviam tornado necessárias na maioria das sociedades da Europa e da Ásia Menor, e todo um serviço de vasos, cântaros, copos e taças passou a ser usado para seu consumo.

 

Todas as invenções e descobertas precedentes foram, segundo as provas etnográficas, obra das mulheres. Também a elas, segundo os mesmos indícios, devemos atribuir a química da fabricação da cerâmica, a física da fiação, a mecânica do tear e a botânica do linho e do algodão”. [CHILDE, p. 60-62]

Mulher com chifres correndo

Denominada “Mulher com chifres correndo”, essa pintura rupestre de 6000-4000 a.C., mostra uma figura feminina em uma dança cerimonial rodeada de outras figuras humanas menores. Acima de sua cabeça espalha-se uma provável nuvem de grãos caindo sobre a terra. Os chifres são simbolos tradicionalmente associados à Lua e à força. Pintura rupestre de Tassili n’Ajjer, Saara, Argélia.

Além de inventoras da agricultura, foram as mulheres que realizaram o trabalho mais duro nos cultivos. Isso foi constatado na análise e comparação de ossos de mulheres e homens de sociedades agrárias neolíticas (PRICE, 2017). Sabe-se que os ossos sofrem alterações em resposta a estresses repetitivos, como levantar, puxar peso e correr. Quando, há cerca de 10 mil anos, os seres humanos passaram de caçadores-coletores nômade para a vida sedentária e agrícola, seus ossos modificaram-se: a tíbia e a fíbula (ossos da perna) dos homens, então mais rígidas e curvadas,  tornaram-se progressivamente mais retas e menos rígidas à medida que seus portadores vagavam menos. Observou-se, que os mesmos ossos nas mulheres não mudaram muito durante esse mesmo período de milhares de anos e, portanto, a força da perna feminina permaneceu a mesma.

Em compensação, a clavícula e os ossos dos braços das mulheres neolíticas apresentaram curvas e torções que indicam maior quantidade de músculos acumulados, semelhante aos atletas remadores modernos que realizam força de tração repetitiva e unidirecional. É o tipo de força necessária para cavar valas, movimentar-se no trabalho de colher, debulhar cereais e moer grãos esfregando-os na moenda de pedra.

Os estudos lançam novas luzes sobre a participação feminina nas sociedades pré-históricas. Soffer lembra, também, a invenção da cestaria, de redes e de cordas de todo tipo – essenciais para transportar, atar e arrastar objetos – como obras realizadas pelas mulheres. Sendo artefatos perecíveis eles acabam esquecidos ou ignorados na pesquisa arqueológica.

A domesticação dos animais ocorreu mais ou menos na mesma época das plantas. A criação de animais parece ter começado com a captura de animais vivos que são depois criados em cativeiro, um trabalho realizado certamente pelos caçadores, mais conhecedores do comportamento dos animais. Já a pecuária é uma etapa posterior pois implica em criar os animais, controlar sua reprodução, alimentá-los e cuidá-los durante o inverno. Nessa atividade, as mulheres podem ter participado ativamente.

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A presença feminina junto aos animais domesticados deixou sua marca em duas divindades pré-dinásticas e muito cultuadas no Egito Antigo: Hathor, a deusa vaca que personificava os princípios do amor, beleza, música, maternidade e alegria, e Bastet, a deusa gato, da fertilidade e protetora das mulheres grávidas.

Duas graciosas figuras femininas do Neolítico do Saara, pintura rupestre, 4000 a.C., Tassili n’Ajjer, Argélia.

Fonte

Veja também

Mulheres ao longo da História (2): Egito Antigo

Mulheres ao longo da História (3): Mesopotâmia

Mulheres ao longo da História (4): Grécia Antiga

 

 

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