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Os fabulosos mosaicos astecas de turquesa

24 de junho de 2016

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Poucos artefatos astecas chegaram aos nossos dias. Objetos feitos de ouro e prata foram derretidos pelos conquistadores espanhóis a quem só interessava o metal precioso e não a peça em si. Restaram aqueles feitos de materiais sem interesse para os europeus. Entre eles, as máscaras recobertas de mosaicos de turquesa – peças que hoje fascinam especialistas e visitantes do Museu Britânico, instituição que tem em seu acervo as peças que mostramos a seguir.

 Serpente de duas cabeças

A serpente de duas cabeças, considerada obra-prima do mosaico asteca, era um ornamento peitoral usado, possivelmente, em ocasiões cerimoniais por um chefe religioso ou político. A peça foi esculpida em madeira e recoberto com mosaico de turquesa colada com resina de pinho e copal.

As órbitas oculares ainda tem vestígios de cera de abelha e ali estariam embutidas, provavelmente, conchas e piritas de ferro cor de ouro. Conchas vermelhas e brancas foram usadas no nariz e na boca das cabeças da serpente.

Serpente de duas cabeças, asteca.

Serpente de duas cabeças, asteca/mixteca, séc. XV-XVI, proveniente do México, 20,5 cm de altura x 43,3 cm de comprimento, Museu Britânico.

Serpente de duas cabeças, detalhe

Serpente de duas cabeças, detalhe da cabeça direita.

Serpente de duas cabeças, detalhe

Serpente de duas cabeças, detalhe da cabeça esquerda.

Simbolismo da serpente

Para muitos povos antigos, a serpente era um símbolo de poder mágico, misterioso e mortal. Para os povos astecas, cobras foram importantes na arte e na religião. Alguns povos a associam à fecundidade. Em Angola, os tcho-kwes colocam uma serpente de madeira sob o leito nupcial para assegurar a fecundação da mulher. Na Índia, as mulheres que desejam ter um filho, adotam uma naja. Os tupi-guaranis acreditavam que bater nos quadris das mulheres com uma cobra as tornavam fecundas.

Entre os povos mesoamericanos, a troca de pele da serpente a cada ano era associada ao renascimento e à transformação. Seu comportamento de deslizar com facilidade entre a copa das árvores, no solo e na água era visto como um sinal de sua natureza divina pois só um deus podia mover-se entre a terra, a água e o céu.

Na religião asteca, a serpente desempenhou um papel muito importante. Ela está associada a vários deuses, como Quetzalcoatl (Serpente Emplumada), Xiuhcoatl (a mítica Serpente de Fogo com a qual o deus Huitzilopochtli matou 400 de seus irmãos com facilidade), Mixcoatl (Serpent Nuvem, deus das tempestades e da caça) ou Coatlicue (Aquela com Saia de Serpentes, deusa da vida e da morte, mãe dos deuses, da lua e das estrelas). “Coatl” significa serpente em nahuatl, a língua falada pelos astecas.

Máscara de mosaico de Quetzalcoatl

Máscara de Quetzalcoatl, asteca

Máscara de Quetzalcoatl, mosaico de turquesa, asteca/mixteca, proveniente do México, 17,3 cm de altura x 16,7 cm de largura, Museu Britânico.

Esta máscara,  segundo alguns especialistas, é uma representação de Quetzalcoatl, a “serpente emplumada”. Outros, contudo, afirmam tratar-se de Tlaloc, o deus da chuva. Ambos os deuses estão associados com serpentes. A máscara é feita de madeira e recoberta com mosaico de turquesa. Os dentes são de concha. Duas serpentes, uma em cor verde e outra, em azul, contornam os olhos e se enrolam sobre o nariz descendo até a boca.

O espanhol frei Bernardino de Sahagún, do século XVI,  descreve uma máscara semelhante a esta que o imperador asteca Motezuma II presenteou o conquistador espanhol Hernán Cortés (1485-1547). O governante asteca acreditava que Cortés era o próprio deus Quetzalcoatl que retornava do Oriente. Segundo Sahagún, a máscara possuía uma coroa de longas penas iridescentes azul-esverdeadas, provavelmente do pássaro quetzal, uma ave nativa da floresta tropical da Mesoamérica.

Embora o deus da chuva Tlaloc foi também, por vezes representado com serpentes torcendo ao redor dos olhos, as penas são mais consistentes com a imagem de Quetzalcoatl. A imagem mais antiga de Quetzalcoatl como a serpente emplumada aparece em Teotihuacan no México Central, na fachada do templo que hoje leva seu nome.

Máscara de mosaico de Tezcatlipoca

Máscara de Tezcatlipoca, asteca

Máscara de mosaico de Tezcatlipoca, asteca/mixteca, séc. XV-XVI, proveniente do México, 19,5 cm de altura x 12,5 cm de largura, Museu Britânico.

Acredita-se que esta máscara representa o deus Tezcatlipoca, deus da solidão da noite. Ele era, também, o deus dos governantes, guerreiros e feiticeiros. Seu nome em nahuatl significa ‘Espelho Fumegante”. De facto, em muitas representações durante o período pós-clássico (900/1000 a 1521) o pé é substituído por um espelho.

A máscara foi feita sobre um crânio humano possivelmente proveniente de sacrifício. O artista seguiu a estrutura da caveira, preservando os dentes, e recobriu a parte frontal com faixas de turquesa e lenhite formadas por pequenos mosaicos. Os olhos são dois discos de pirita polida fixados nos anéis de concha. A parte posterior do crânio foi cortada e finalizada com tiras de couro que pendem dos dois lados. A mandíbula é móvel e articulada sobre o couro.

Faca asteca de sacrifício

Faca sacrificial asteca

Faca sacrificial com cabo trabalhado em mosaico, asteca/mixteca, séc. XV-XVI, proveniente do México, 31,7 cm de comprimento, Museu Britânico.

O cabo dessa faca foi esculpido a partir de uma única peça de madeira (Cedrela odorata). Traz a figura de um guerreiro águia, usando o capacete em formato de cabeça de águia. Está agachado com os olhos voltados para a lâmina da faca feita de calcedônia lascada.  A figura é recoberta com mosaico de turquesa, malaquita e diversos tipos de concha. Corda de fibra de agave prende a lâmina no cabo.

guerreiro águia era membro de uma ordem militar de prestígio, “os guerreiros do dia”. Para os astecas (e muitos outros povos), a águia é a rainha das aves, mensageira do Sol, que só ela ousa fixar sem queimar os olhos.  Seus guerreiros eram temidos pois eram protegidos dessa ave solar. Outra importante ordem militar asteca era a dos guerreiros jaguar, que usavam roupas de cores vivas e com manchas para invocar a imagem do jaguar. Esses soldados de elite eram “os guerreiros da noite” tal como o jaguar, felino de hábitos noturnos, sorrateiro e predador.

Essa faca é um raro exemplo em que lâmina e cabo preservaram-se juntos. Em geral, só se conservam as lâminas, feitas de material mais durável. Como o cabo é muito curto, o que dificultaria manter a faca firme na mão, é possível que esse objeto tivesse finalidade cerimonial mais simbólica do que funcional.

Turquesa: a pedra dos deuses e dos reis

O azul celeste da turquesa encantou vários povos em todo planeta desde tempos remotos. A pedra foi utilizada na Mesopotâmia já no Neolítico. No Egito Antigo, era extraída de jazidas no Sinai ou importada de terras do atual Afeganistão para fabricar jóias de nobres e sacerdotes.  Reduzida a pó, servia também de cosmético para pintar as pálpebras. Os orientais a consideravam um poderoso talismã de boa sorte. O tibetanos diziam que ela representava o “azul divino”. Era cobiçada pelos gregos e romanos ricos.

Na América, os índios Navajo consideravam a turquesa um amuleto de sorte. Entre os Puebos, a câmara secreta do Grande Sacerdote das Chuvas conteria um altar com duas pequenas colunas de cristal e de turquesa. O deus do fogo asteca se chamava Xiuhtecuhtli, que significa “senhor da turquesa”, e  Huitzilopochtli, deus asteca da guerra e divindade solar suprema, era o “príncipe de turquesa”.

Sabemos a partir de uma lista de tributos emitida pelo imperador Moctezuma II que dez máscaras de mosaico de turquesa, feitas por qualificados artesãos mixtecas, eram enviadas anualmente de uma província em Oaxaca para a capital asteca, Tenochtitlán, atual Cidade do México.

O que esses objetos nos contam sobre os astecas

Faca sacrificial, detalhe

Faca sacrificial asteca/mixteca, detalhe do cabo.

Artefatos são documentos históricos que contém pistas sobre o povo que o fabricou. A maneira como foram utilizados sugerem costumes religiosos, políticos e hierarquias sociais. Os povos astecas eram altamente estratificados e cada camada social era muito conscientes de seu status. Rei, nobres, guerreiros de elite, comerciantes ricos, camponeses e artesãos eram facilmente identificados por seus trajes e adornos. A Serpente de Duas Cabeças era, por exemplo, um ornamento usado pela elite asteca.

As matérias-primas empregadas em cada objeto informam sobre rotas comerciais, guerras e conquistas, tributos cobrados e relações com outros povos. Senhores de extensos domínios, os astecas controlavam vastos recursos para reforçar sua supremacia política. Isto incluiu o acesso a matérias-primas preciosas como a turquesa, penas de quetzal (verdes cintilantes), jadeíta e ouro – provenientes de locais distantes de Tenochtitlán, a capital asteca. Havia conchas trazidas das costas do Pacífico, e outras do Golfo do México e ilhas do Caribe.

A turquesa, enviada como tributo à capital asteca, vinda de várias províncias do império. Algumas dessas províncias foram localizados na atual Veracruz, Guerrero e Oaxaca. Chegava em pedaços crus ou cortada em mosaicos polidos que decoram uma variedade de peças como máscaras, escudos, bastões, discos, facas e pulseiras.

Os objetos dizem muito, também, sobre o trabalho especializado entre os astecas. Peças de luxo eram valiosas, não só pelos materiais preciosos empregados, mas também pela habilidade e maestria do artesão asteca que a fabricou. A serpente de Duas Cabeças, por exemplo, mostra que o artesão asteca escolheu com cuidado cada minúscula pedra de turquesa selecionando tonalidades mais escuras para o centro do corpo, ajustando com precisão e ainda respeitando a simetria para que cada lado ficasse exatamente igual.

Quer tenha trabalhado de forma independente ou sob encomenda de um rei, o artesão asteca e seus auxiliares eram especialistas altamente capazes, meticulosos e conscientes de realizar seu trabalho da melhor maneira possível. As peças acima comprovam isso.

Fonte

  • NICHOLSON, Irene. México e América Central. Biblioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais. Lisboa: Verbo, 1987.
  • CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
  • Museu Britânico. Londres. Enciclopédia dos Museus. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
  • CUMO, Carlo & MAZLOUM, Claude. Les gemmes des joyaux.Maître et materiaux. Paris: Gremese Editore.

 

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