A mineração sob o olhar de Rugendas – leitura de imagem

23 de outubro de 2016

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O período áureo da Mineração (1700-1760), no Brasil Colonial, foi marcado pela rigorosa fiscalização da metrópole que, entre outras coisas, proibia estrangeiros de documentar as atividades mineradoras. Com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, as normas foram abrandadas e surgiram, então, os primeiros registros iconográficos sobre extração de ouro e diamantes.

A aquarela “Lavagem do minério de ouro”, de Rugendas é a mais detalhada e importante imagem da atividade mineradora de Minas Gerais do início do século XIX. Por isso, ela merece uma leitura visual mais cuidadosa que permita explorar mais a fundo suas informações.

***Ao final do artigo, instruções para a atividade e download do desenho para colorir***

Lavagem do minério de ouro, Rugendas

“Lavagem do minério de ouro, proximidades da montanha de Itacolomi”, Johann Moritz Rugendas, aquarela sobre papel, 30 x 26 cm, 1835.

“Lavagem do minério de ouro”: leitura da imagem

A imagem mostra a extração aurífera em uma lavra na qual o trabalho é organizado em grande escala com aparelhamento para a lavagem do ouro. Cerca de 30 escravos trabalham na lavra sob o olhar atento de 7 ou 8 feitores brancos, uma vigilância rigorosa para evitar que os escravos roubassem o proprietário da lavra.

A lavra situa-se na região montanhosa de Minas Gerais, nas proximidades das cidades de Mariana e Ouro Preto (antiga Vila Rica).  O pico do Itacolomi, com 1.772 metros de altitude, o ponto mais alto da Serra do Espinhaço, era chamado de “Farol dos Bandeirantes” pois servia de referência para os antigos viajantes da Estrada Real que ali passavam a caminho das Minas Gerais. A região é repleta de nascentes, rios e cachoeiras em meio à densa vegetação da Mata Atlântica.

O ouro é de aluvião, encontrado em meio ao cascalho, areia e argila que se forma nas margens ou na foz dos rios. Na imagem de Rugendas, vê-se dois locais de exploração do ouro de aluvião: no canal escavado, em primeiro plano, e na área alagada pela cachoeira, no fundo à esquerda. Há, também, um terceiro ponto, na encosta da montanha, onde foi escavada uma galeria para extrair ouro incrustado na rocha.

Rugendas dá mais detalhes sobre a cena que pintou:

Escavam-se longos canais condutores a fim de trazer a água até o lugar que se deseja explorar. Gradis aí colocados retêm as pedras mais grossas, deixando passar, com a água, a areia e o pedregulho ou cascalho. Esses reservatórios, chamados mundéus, são constantemente remexidos para que o ouro, se purifique e, ao depositar-se no fundo, esvazia-se a água a qual carrega o cascalho. Pode-se também recolher o ouro, ou melhor a areia aurífera, em couros de bois ou cobertores de lã grosseira sobre os quais o minério é depositado pelas águas vindas da montanha.

 

[Os faiscadores] entram na água até a cintura e recolhem a areia do rio numa bateia. Remexendo a bateia à superfície da água, deixa-se sair a terra e o cascalho, ficando o ouro, mais pesado, no fundo cônico da bateia.

 

Outros faiscadores preferem amontoar a areia dos rios, fazendo correr por cima um pouco de água para retirar as partes mais leves. O restante é levado para uma panela chata; aí lava-se e remexe-se esse amontoado de areia, fazendo-o passar por cima de um couro de boi; finalmente tudo é colocado de novo em uma gamela para uma última lavagem. (RUGENDAS, 1972, p. 36-37).

Lavagem do minério de ouro (detalhe), Rugendas

Lavagem do minério de ouro (detalhe), Rugendas

Em primeiro plano, à esquerda, um escravo mergulha um grande de couro na água do reservatório. O couro será depois batido – como se vê à direita – para soltar as pedrinhas de ouro que se prenderam a ele. O ouro extraído é pesado e se for de bom peso, a descoberta é comemorada como parece indicar a cena em segundo plano, à direita.

Mais ao fundo, há duas negras com uma gamela ou tabuleiro à cabeça. O trabalho nas minas era masculino mas era comum negras, em geral libertas, circularem nos arraiais de mineração vendendo doces, frutas, queijo, fumo etc. Eram as chamadas “negras de tabuleiro” ou  “quitanteiras” que vendiam suas mercadorias recebendo em ouro e diamantes, o que permitiu a muitas delas acumular uma certa fortuna e adquirir bens, inclusive escravos.

Breve história da mineração no Brasil Colonial

O apogeu da mineração no Brasil Colonial ocorreu na primeira metade do século XVIII, alcançado seu ponto máximo em torno de 1760. O ouro provocou grandes transformações na colônia contribuindo para o povoamento do interior e o crescimento demográfico do Brasil. Levou à fundação de numerosas vilas e cidades e, com elas, a proliferação de mercadores, artesãos, taberneiros, boticários, cirurgiões-barbeiros, tropeiros etc.

O ouro permitiu construir igrejas imponentes e revestiu seus altares e tetos. Mas enriqueceu poucos. A riqueza acabou se acumulando de fato nas mãos dos comerciantes, locais e forasteiros. A pobreza marcou a sociedade mineradora como bem analisou Laura de Mello e Souza.

Esgotadas as minas, o declínio foi relativamente rápido e, em 1780, a renda da mineração era menos da metade do que fora no auge. A queda da extração aurífera, contudo, não acarretou uma decadência econômica, como afirmava a visão tradicional. A economia mineira, a partir da segunda metade do século XVIII, diversificou-se com a produção de alimentos, atividades artesanais e um vigoroso comércio.

A produção de carnes, derivados da cana-de-açúcar e do leite, milho entre outros alimentos cresceu a partir das necessidades de abastecimento, oferecendo importantes oportunidades comerciais. Além disso, a extração de ouro e diamantes não desapareceu, sua produção diminuiu sem dúvida, mas as lavras continuaram sendo exploradas e muitos faiscadores ainda lançavam suas bateias nos riachos.

Foi essa situação que Rugendas encontrou em Minas Gerais quando ali esteve por volta de 1824.

Rugendas: o pintor e sua obra

Johann Mortiz Rugendas

Johann Mortiz Rugendas tinha apenas 20 anos de idade quando entrou na expedição de Langsdorff. Permaneceu no Brasil por três anos e para o país retornou em 1845.

Johann Moritz Rugendas (1802-1858), também conhecido no Brasil como João Maurício Rugendas, integrou a expedição do naturalista e diplomata russo-alemão Georg Heinrich von Langsdorff que percorreria o interior do Brasil, em 1822.

Estava na região de Minas Gerais quando, desentendeu-se com Langsdorff e abandonou a expedição, prosseguindo viagem sozinho (1824-1825).

Ao retornar à Europa publicou sua obra Viagem Pitoresca através do Brasil (1827-1835) reunindo cerca de 100 litografias das imagens produzidas em sua expedição.

Apesar de Rugendas, enquanto membro da Expedição Langsdorff ter podido observar situações próximas à que representou, a aquarela “Lavagem do minério de ouro” é uma composição inventada, embora sendo uma paisagem geográfica que ele conheceu. A cena representada teve como base inspiradora a narrativa dos austríacos Spix e Martius que percorreram o interior do Brasil entre 1817 e 1820.

Instruções para aplicar a atividade

Cabe ao professor decidir em que momento essa atividade deverá ser proposta à classe: como fechamento das aulas sobre economia colonial, como introdução a esse conteúdo ou mesmo durante o desenvolvimento do tema.

Seja como for, a atividade deve ser feita em sala de aula, e não como lição de casa, para garantir um melhor aproveitamento do aprendizado. Portanto, solicite aos alunos trazerem lápis de cor no dia em que ela for aplicada.

Contextualize a pintura explicando sobre a época em que foi feita, sobre o pintor e sua obra. Leia para a classe a descrição de Rugendas e estimule os alunos a identificarem os elementos citados pelo artista.

Questões para debate estão indicadas na página de download do desenho.

Faça o download do desenho em alta resolução

Lavagem do minério de ouro, desenho para colorir

“Lavagem do minério de ouro, proximidades da montanha de Itacolomi”, Rugendas, aquarela sobre papel, 1835. (Faça download do desenho em alta resolução.)

Você precisará se inscrever em nosso site para receber o arquivo do desenho para colorir (em tamanho A-4) junto com as sugestões de atividades.

É um material gratuito e exclusivo para utilizar em suas aulas. Basta fazer sua inscrição, nos campos abaixo, indicando seu nome e e-mail.

Após esta etapa você será direcionado para a página de download.

Na página do download você encontrará questões para lançar à turma que estimulam a leitura crítica da imagem e tornam a atividade de pintura pedagogicamente mais significativa.

Bom trabalho!

 

 

Fonte

  • BOXER, C. A idade do ouro no Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1969.
  • CANO, Wilson. A economia do ouro em Minas Gerais (século XVIII). São Paulo: Contexto, n. 3, 1977.
  • DIENER, Pablo e COSTA, Maria de Fátima. Rugendas e o Brasil. Obra completa. Rio de Janeiro: Capivara, 2012.
  • LUNA, Francisco Vidal & COSTA, Iraci Del Nero. Minas Colonial: economia e sociedade. São Paulo: Estudos Econômicos-FIPE: Pioneira, 1982.
  • PINTO, Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português. São Paulo: Companhia Nacional/ MEC. 1979.
  • RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo: Martins / USP, 1972.
  • SOUZA, Laura de Mello e. Os desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
  • ANDRADE, Leandro Braga de. A formação econômica de Minas Gerais e a perspectiva regional: encontros e desencontros da historiografia sobre os séculos XVIII e XIX.  Revista Caminhos da História. Rio de Janeiro: Vassouras, 2010, v.6, n.1

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Rodrigo Silva
Rodrigo Silva
3 anos atrás

Olá, procurei em toda parte o seguinte material: CANO, Wilson. A economia do ouro em Minas Gerais (século XVIII). São Paulo: Contexto, n. 3, 1977., mas não achei.

José A. Vanzela Júnior
José A. Vanzela Júnior
2 anos atrás

Olá, adorei o artigo! Era exatamente isso que eu procurava para trabalhar na minha aula de Intermediário 3 com alunos estrangeiros! Meus parabéns! Abraços

Joelza Ester
Joelza Ester
2 anos atrás

Que bom professor! Obrigada por nos visitar!

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