Pequenas mudanças nos livros infantis alteram os papéis de gênero

24 de julho de 2016

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Uma obra escrita para crianças na década de 1950 mostrando personagens em situações do cotidiano – em casa, no parque de diversões, na escola, na rua, no trabalho etc – facilmente seria desqualificada, nos dias de hoje, por reproduzir valores, preconceitos e estereótipos. A mãe na cozinha avisa o pai que o almoço está pronto; no parque infantil, meninas brincam de roda e meninos de bolinha de gude – eram ilustrações comuns em livros infantis de algumas décadas atrás. Historinhas em quadrinhos também transmitiam padrões consolidados e socialmente aceitos. Mas mesmo os clássicos podem acompanhar as mudanças nas relações de gênero como aconteceu com a obra de Richard Scarry.

O americano Richard Scarry (1919-1994) foi autor e ilustrador de mais de 300 livros infantis. Seu primeiro trabalho foi publicado em 1950 e, desde então, os livros conquistaram crianças de todo mundo que adoravam seus personagens em forma de animais com características humanas. Mais de 100 milhões de exemplares foram vendidos em dezenas de línguas.

Em 1976 a empresa Playskool produziu uma série de brinquedos com os personagens de Scarry feitos de plástico acompanhados de cenários de papelão para a criança criar sua própria história. Nos anos 1980 e 1990, a obra de Scarry foi convertida em desenhos animados para televisão e disponíveis em VHC e DVD que também se tornaram muito populares.

Scarry continuou escrevendo e ilustrando seus livros infantis até seu falecimento ocorrido em 1994. Ao longo dessas quatro décadas, contudo, muita coisa mudou nas relações étnicas e nos papéis de gênero. Scarry acompanhou essas mudanças e fez alterações em sua obra eliminando tudo que pudesse parecer ofensivo, preconceituoso ou estereotipado por questões de gênero, étnicas ou religiosas. Em alguns casos, as alterações exigiram a remoção de seções inteiras.

As alterações feitas nos desenhos e nos textos revelam como padrões sociais transformaram-se ao longo da segunda metade do século XX. O autor mesmo tendo uma obra que se consolidou já na década de 1950, mostrou sensibilidade em responder às mudanças que ocorreram e manteve uma produção atualizada.

Veja as mudanças operadas por Scarry nas 5 imagens abaixo. Observe que, muitas vezes, bastam pequenas mudanças para dar outro sentido e outra mensagem às crianças. São exemplos que inspiram como abordar papéis de gênero e relações étnicas na educação infantil.

Capa de livro infantil, Richard Scarry

A capa original (1963) tem uma coelha no fogão, enquanto a capa atualizada (1990) há um coelho e uma coelha trabalhando na cozinha. O urso policial na primeira edição foi substituído por uma ursa. A palavra “mailman” para carteiro, tornou-se “letter carrier” – um termo de gênero neutro. A nova edição recebeu também uma coelha trabalhando na terra junto como coelho, e a mamãe-gata foi substituída pelo papai-gato levando o bebê para passear.

Ilustrações Richard Scarry

A figura da mulher como responsável pela alimentação da família desapareceu das ilustrações infantis de Richard Scarry. As edições atuais trazem um coelho e uma coelha na mesma função.

Ilustrações de Richard Scarry

As brincadeiras no parque ficaram mais diversificadas. Na roda, há um gatinho-menino junto com as gatinhas-meninas; jogar bolinha de gude não é mais brincadeira só de meninos; no pega-pega é uma gatinha que está correndo atrás do gatinho.

Ilustrações de Richard Scarry

“Ele vem prontamente quando é chamado para o café da manhã” deixa entender que alguém, certamente a mulher, preparou a refeição para o homem. A nova frase mudou a situação dando um novo papel ao homem: “Ele vai à cozinha para tomar seu café da manhã”.

Ilustrações de Richard Scarry

O consultório do dentista também recebeu mudanças. O ameaçador rinoceronte foi substituído por um tranquilo urso. A atendente, antes uma simples auxiliar, recebeu um papel mais ativo e significativo: ela explica ao gatinho como escovar os dentes.

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Eduino de Mattos
Eduino de Mattos
4 anos atrás

Joelza, Professora É CÔMICO, no ensinamento de época A MULHER esta taxada como serviçal de FORNO E FOGÃO,…

Joelza Ester
Joelza Ester
4 anos atrás

Eram padrões de uma época que não é tão distante.

Joelza Ester
Joelza Ester
4 anos atrás

Eram padrões de uma época que não é tão distante.

trackback

[…] Pequenas mudanças nos livros infantis alteram os papéis de gênero  Os livros infantis constituem uma fonte histórica para conhecer costumes e mentalidade de uma época. Suas imagens e textos dizem respeito a valores e padrões sociais que marcaram uma geração e que podem ser alterados  para se adequarem às novas gerações. O artigo mostra como mudanças sutis em um livro infantil operaram transformações significativas nas relações de gênero. […]

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