Retirada do exército de Napoleão da Rússia

19 de outubro de 1812

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Em 19 de outubro de 1812, após cinco semanas de acampado sobre as cinzas de Moscou, o imperador francês Napoleão Bonaparte decidiu iniciar o retorno à França. Bonaparte esperava por um pedido de rendição ou paz que nunca chegou. Seu exército de 685 mil homens, em junho de 1812 (RIEHN, 1991) – o maior exército reunido até aquele momento na história da Europa – estava reduzido a 77 mil homens enfraquecidos e com moral baixa (¹). As linhas de abastecimento foram cortadas.

Junto aos soldados, seguiram carroças carregadas de peles, prata, porcelana e seda – fruto dos saques.

O retorno foi penoso. Os soldados franceses enfrentaram os russos na batalha inconclusiva de Maloyaroslavets, em 24 de outubro de 1812.  Ali os franceses perderam cerca de 6.000 soldados, enquanto os russos, 4.412 homens e além de 2.753 desertores. Mais da metade das unidades de infantaria russas eram compostas por recrutas inexperientes.

As tropas francesas seguiram em direção à fronteira polonesa. Poucas semanas depois, começaram a sentir o congelante frio do inverno russo. Falta de comida e de forragem para os cavalos, hipotermia do frio intenso e os persistentes ataques de guerrilha de grupos isolados de camponeses e cossacos russos levaram a grandes perdas humanas e minaram a disciplina e coesão do Grande Exército de Napoleão.

No dia 9 de novembro a temperatura caiu para -26°C e continuava abaixando. O frio penetrava nas roupas esfarrapadas dos soldados e se somava à exaustão. Muitos mal conseguiam andar com neve até os joelhos. Cair significava não levantar mais devido a fraqueza das tropas.

O sentimento de “cada um por si” espalhou-se pelas tropas francesas. As armas e bagagens de saque, agora inúteis e inoportunas, eram abandonadas pelo caminho. Os cadáveres congelados espalhavam-se aos milhares pelas estradas, vilas abandonadas e florestas. Lutar contra o exército russo deixou de ser o foco de preocupação, somente o desejo cego de fugir estimulava o restante do exército francês.

No dia 26 de novembro, sob um frio de -38 °C,  os soldados franceses remanescentes atingiram o rio Berezina (na atual Bielorússia). O exército principal de Napoleão reduzira-se a apenas 40.000 soldados. Os russos os aguardavam na ponte e, por trás, aproximava-se o exército do marechal russo Kutuzov totalizando 60.000 soldados.

Napoleão enviou seu corpo de engenharia para construir uma ponte improvisada sobre o semi-congelado Berezina. Quando os russos perceberam, abriram fogo (28/11). Napoleão perdeu quase metade de seus homens, muitos dos quais só foram encontrados com o degelo da primavera. Mesmo no limite de suas forças, os franceses conseguiram abater 10 mil russos.

No dia 14 de dezembro, o que restou do Grande Exército conseguiu cruzar o rio Nemen e entrar na Polônia. A tropa principal reduzira-se a 22.000 soldados. A campanha da Rússia mostrou que Napoleão não era invencível.

Batalhas de Napoleão Bonaparte

No sentido horário, do canto superior esquerdo: “Batalha de Borodino”, 7 de setembro de 1812, por Louis Lejeune (1822); “O fogo de Moscou”, de Albrecht Adam; “Marechal Ney na retaguarda na batalha de Kaunas”, por Auguste Raffet (1812); “Retirada francesa”, de Illarion Pryanishnikov .

Após a campanha da Rússia, surgiu um ditado de que os “generais Janeiro e Fevereiro” derrotaram Napoleão, aludindo ao inverno russo. Embora a campanha tenha terminado em meados de dezembro, há alguma verdade no ditado. O exército estava equipado com roupas de verão pelo pressuposto de que sua campanha estaria concluída antes do início do inverno. Após a vitória na grande Batalha de Smolensk , em 16-18 de agosto de 1812, Napoleão acreditava a guerra estava ganha, mas o exército russo escapou e continuou a recuar, deixando Smolensk em chamas. A partir de então, os russos empregaram a política de terra arrasada destruindo aldeias, cidades e plantações e forçando os invasores a confiar em um sistema de suprimentos incapaz de alimentar seu grande exército no campo.

Além do clima de inverno e da fome, outros fatores levaram a grandes perdas. O corpo principal do Grande Exército de Napoleão diminuiu em 1/3 nas primeiras oito semanas da campanha, antes da batalha principal ser travada. Essa perda de força deveu-se em parte às deserções, à necessidade de guarnecer os centros de suprimentos, às vítimas sofridas em ações menores e a doenças como difteria, disenteria e tifo.

A campanha da Rússia foi um ponto de virada nas guerras napoleônicas. Foi a maior e mais sangrenta das campanhas napoleônicas, envolvendo mais de 1,5 milhão de soldados, com mais de 500.000 baixas francesas e 400.000 russas. A reputação de Napoleão foi abalada e a hegemonia francesa na Europa enfraqueceu-se drasticamente. Muitos países se rebelaram. Era o fim do sonho napoleônico de dominar a Europa.

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(¹) O número de soldados que Napoleão levou para a Rússia varia muito conforme o autor: 450 mil, 550 mil, 600 mil até 685 mil soldados. Qualquer que seja o número exato, é geralmente aceito que a esmagadora maioria deste grande exército, francês e aliado, permaneceu, em uma condição ou outra, dentro da Rússia.

 batalha de Borodino

Napoleão assiste a batalha de Borodino (7 de setembro de 1812). A batalha terminou com a retirada das forças russas. Napoleão continuou avançando em território inimigo por mais quarenta dias até decidir retornar em 19 de outubro de 1812.

Fonte

  • RIEHN, Richard K. 1812: Napoleon Russian Campaign. Nova York: Wiley, 1991.
  • LIEVE, Dominic. A Rússia contra Napoleão. A batalha pela Europa, de 1807 a 1814. sâo Paulo:  Manole, 2014.
  • ZAMOYSKI, Adam. 1812, a marcha fatal de Napoleão rumo a Moscou. Record, 2013.

Saiba mais

Abertura

  • “Napoleão se retirando de Moscou”, por Adolphe Northen (1828-1876).

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