Destruição de máquinas na Inglaterra: surge o “ludismo”

26 de março de 1811

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Em 26 de março de 1811, em Nottingham, na Inglaterra, uma manifestação de tosquiadores foi severamente reprimida pelos policiais. Naquela noite, 60 teares foram destruídos por um grupo de manifestantes.

Não era a primeira vez que trabalhadores destruíam máquinas têxteis. Desde o final do século XVIII, com o avanço da Revolução Industrial, tecelões e artesãos, tiveram seus ganhos reduzidos, além de serem submetidos a um ritmo e condições de trabalho inteiramente fora das antigas tradições. As más colheitas de 1811 e 1812 e, em consequência, a fome aumentaram as insatisfações dos trabalhadores. Entre 11 e 23 de março de 1811, mais de cem teares haviam sido quebrados.

Novos distúrbios ocorreram em 4 novembro de 1811, quando mais teares foram quebrados. Pela primeira vez, o nome Ned Ludd ou John Ludd apareceu em cartas ameaçadoras contra a vida e as propriedades dos fabricantes.

Ludd não era uma pessoa real, mas um nome para indicar um líder imaginário, era um estratagema para preservar o anonimato dos participantes. Centenas de cartas assinadas por Ludd foram distribuídas. O nome ludista começou a ser empregado para chamar os destruidores de máquinas.

O ludismo, nome dado à revolta dos trabalhadores ingleses, iniciou-se de forma desorganizada, sem liderança. Os participantes agiam à noite e cobriam os rostos para evitar o reconhecimento. As informações eram espalhadas de boca a boca. As autoridades não sabiam quem estavam tentando prender, e sequer conseguiam identificar os participantes.

A partir de novembro, porém, o movimento se organizou e os ataques começaram a ser direcionados. As cartas assinadas por Ludd traziam reivindicações dos trabalhadores por aumento de salários. Os ludistas escreveram, também, petições, proclamações, poemas e canções. Pediam a regulamentação do comércio, reformas políticas radicais e defesa de direitos do trabalho. O movimento politizou-se, enfim.

A repressão aos ludistas aumentou: policiais especiais foram enviados às cidades afetadas pela desordem. Eles deveriam patrulhar as ruas todas as noites. Foi imposto um toque de recolher proibindo a circulação e a reunião de pessoas depois das 10 horas da noite. Bares e tabernas deveriam fechar as portas nesse horário. Ofereceram-se recompensas para quem identificasse um ludista. Mas nada disso surtiu efeito.

Os distúrbios continuaram nos anos seguintes e o movimento se espalhou para outras regiões da Inglaterra: Leicestershire (particularmente em Loughborough), Lancashire, Cheshire e Yorkshire.

Em 1813, ocorreu o maior processo contra os ludistas: dos 64 acusados de terem atentado contra uma tecelagem, 13 foram condenados à morte na forca e 2 à deportação para as colônias. Apesar da dureza das penas, o movimento ludista não amainou e continuou até 1816.

Por muito tempo, o ludismo foi entendido como um movimento de reação ao progresso técnico, à industrialização, à automação e a novas tecnologias em geral. Os trabalhadores destruíam as máquinas acusando-as de lhes roubar trabalho e salário e por defenderem um modo tradicional de trabalhar. Este entendimento foi objeto de revisão por parte dos historiadores que discordam que o ludismo tenha sido simplesmente um protesto contra a introdução de máquinas. A destruição das máquinas não era um fim em si, mas um meio de pressionar os empregadores a atenderem as reivindicações dos trabalhadores. O ludismo tão pouco foi dirigido apenas contra máquinas, mas também contra matérias-primas, produtos acabados e até mesmo contra a propriedade privada dos empregadores.

Segundo Thompson, o luddismo olhava para trás, para costumes antigos e uma legislação paternalista que nunca poderia ressuscitar. Por outro lado, representou uma experiência subjetiva que ajudou a criar uma consciência de classe, marcando um momento de conflito e de transição.

Hobsbawn também enxergou no luddismo um movimento proto-sindical, inicialmente uma reação natural ao desemprego, mas que, depois, teria evoluído para uma forma de contestação ao capitalismo, representado pela substituição do trabalho artesanal pela mecanização.

O desenvolvimento industrial e a criação das primeiras trade unions (sindicatos) limitaram o alcance e as possibilidades das revoltas ludistas, determinando o declínio do movimento a partir de meados do século XIX.

Fonte

  • HOBSBAWM, Eric J. A era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
  • __________. Os trabalhadores: estudos sobre a história do operariado. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
  • THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A maldição de Adão. Vol. II. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

 

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