Índios brasileiros retratados por um holandês

5 de abril de 2015

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Brasil, século XVII: um europeu pinta índios “in loco”, uma novidade. Até então, pintava-se segundo as descrições de navegadores, sem que o artista tivesse visto um índio sequer. Albert Eckhout mudou as regras e surpreendeu o público europeu.

O artista holandês Albert Eckhout (1610-1666) veio ao Brasil, em 1637, na comitiva de Maurício de Nassau. Tinha 27 anos e aqui viveu por quase sete anos. Era pintor, desenhista de tipos e costumes, paisagista e naturalista de excepcional domínio do traço e das cores.

Durante sua permanência no Nordeste, Eckhout pintou, entre outras obras, oito grandes telas representando homens e mulheres habitantes do Brasil: Homem Negro/Mulher Negra, Homem Mulato/Mulher Mameluca, Homem Tupi/Mulher Tupi, Homem Tapuia/Mulher Tapuia, executados entre 1641 e 1643. As telas foram feitas para decorar o palácio de Nassau em Recife, mas não puderam ser acomodadas por causa de seu tamanho (por volta de 270 m x 161 cm, cada uma). Nassau levou-as consigo em seu retorno à Holanda e, depois, ofereceu-as ao rei da Dinamarca, Frederico III, que tinha interesse por etnografia. Hoje estão no Museu Nacional da Dinamarca.

As pinturas de Eckhout têm uma particularidade importante: elas foram feitas no Brasil e por um artista que aqui viveu por alguns anos. Até então, as imagens de índios eram de artistas que nunca tinha visto um índio e sequer colocado os pés no continente; guiavam-se pelas descrições e memória de viajantes e imprimiam em seus desenhos traços da cultura europeia renascentista. Para alguns especialistas, as imagens de Eckhout além de obra de arte são importantes registros etnográficos. Depois dele, somente os viajantes do século XVIII e XIX tinham como prática desenhar in loco e com rigor realista tanto animais como indígenas.

Aqui vamos analisar as telas sobre os indígenas, classificados por Eckhout como Tupi e Tapuia. Para o europeu, especialmente nos primeiros tempos da colonização, os habitantes nativos do Brasil dividiam-se nesses dois grandes grupos – classificação refutada pelos antropólogos atuais. A palavra tapuia era um termo genérico usado pelos Tupi, de forma pejorativa, para chamar seus inimigos. Os europeus adotaram a palavra para designar os indígenas ferozes que “não aceitavam a civilização”. Hoje, esse termo não é mais usado. Possivelmente, os Tapuias de Eckhout fossem os Tarairiu, aliados dos holandeses na guerra contra os portugueses.

Análise descritiva dos quadros

Homem Tupi, Albert Eckhout, 1643.

Homem Tupi, Albert Eckhout, 272 x 163 cm, 1643. Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague.

“Homem Tupi”

O quadro Homem Tupi mostra um homem de peito nu, vestido com um calção de pano europeu onde está presa uma faca europeia.

Na mão esquerda segura arco e flechas, símbolos do guerreiro e, na direita, uma lança apontada para o chão.

Aos seus pés, no canto direito, aparece uma mandioca cortada ao meio, provavelmente com a faca que ele carrega.

À esquerda, tem um caranguejo, alusão ao litoral, área de maior presença dos Tupi.

No fundo da tela, aparecem raízes cortadas e um rio onde os índios tomam banho e lavam suas roupas. Mais além pode-se ver alguns pequenos barcos (Veja detalhe abaixo.)

"Homem Tupi", A. Eckhout, detalhe.

“Homem Tupi”, A. Eckhout, detalhe.

"Homem Tapuia", Albert Eckhout, 1641.

“Homem Tapuia”, Albert Eckhout, 272×161, 1641.

“Homem Tapuia”

O quadro Homem Tapuia apresenta um homem inteiramente nu, com um amarrilho peniano, o rosto perfurado com espetos e um cocar de plumas.

Em suas costas leva amarrado o enduape, um adereço feito com penas de ema.

Na mão esquerda leva uma ibirapema, uma espécie de tacape, arma feita de madeira dura com as bordas afiadas usada para golpear o inimigo.

Na mão direita segura dardos e um propulsor para lançar setas envenenadas.

A paisagem é agreste e selvagem e mostra animais peçonhentos: uma aranha caranguejeira, uma taturana e uma jiboia com a cabeça ensanguentada, provavelmente morta com a ibirapema do guerreiro.

No plano de fundo, abaixo à esquerda, aparece um grupo de índios em círculos, similar à outra pintura feita por Eckhout, a Dança Tapuia. (Veja detalhe abaixo.)

"Homem Tapuia", Albert Eckhout, detalhe.

“Homem Tapuia”, Albert Eckhout, detalhe.

“Dança tapuia”

A tela Dança Tapuia, que não pertence ao conjunto de telas de casais, foi a obra de Eckhout que mais chocou o público europeu. Mostra oito índios dançando, observados por duas índias.  As grandes dimensões da tela não eram comuns para este tipo de temática. Além disso, a dança era reprovada pelo calvinismo e a nudez dos corpos tão fora dos padrões renascentistas fizeram com que a pintura não fosse aceita.

Tapuia

"Mulher Tupi", Albert Eckhout, detalhe.

“Mulher Tupi”, Albert Eckhout, 274 x1 63 cm, 1641. Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague.

“Mulher Tupi”

Voltando às telas de casais indígenas, a Mulher Tupi mostra uma indígena de seios nus e vestindo uma saia de pano europeu. Usa o cabelo trançado com uma fita.

O braço direito segura o filho e, na mão, leva uma cabaça para água.

A mão esquerda equilibra sobre a cabeça um cesto de palha cheio de objetos artesanais.

Ela está junto a uma bananeira, planta introduzida no Brasil pelos portugueses, elemento que faz alusão à intervenção humana na natureza que, por isso, já não é mais selvagem.

A ideia de presença humana “civilizada” é reforçada pela paisagem ao fundo que mostra uma fazenda canavieira com pessoas trabalhando. (Veja detalhe abaixo.)

"Mulher Tupi", Albert Eckhout, detalhe.

“Mulher Tupi”, Albert Eckhout, detalhe.

"Mulher Tapuia", Albert Eckhout, 1641.

“Mulher Tapuia”, Albert Eckhout, 272 x 165 cm, 1641.

“Mulher Tapuia”

A tela Mulher Tapuia traz uma índia nua, coberta apenas por um tufo de folhas na frente e nas nádegas.

Tem o cabelo cortado e calça sandálias de fibras vegetais, tal como o Homem Tapuia.

Usa uma pulseira de sementes ou contas no braço direito, que também segura ramos de folhas.

Nas costas leva um cesto de fibras vegetais que é mantido preso por uma faixa na cabeça.

No interior do cesto, há uma cuia feita de cabaça cortada e uma perna humana decepada.

A mão direita segura outro pedaço humano: uma mão com parte do braço.

Ela se equilibra sobre pedras de um riacho cujas águas límpidas são bebidas pelo cachorro que a acompanha. Sabe-se que o cachorro foi introduzido no Brasil pelos europeus e sua inclusão aqui pode ser uma alusão aos contatos entre nativos e colonizadores.

A natureza é composta somente por plantas nativas como a taboa e o maracujazeiro.

No plano de fundo (entre as pernas abertas da índia), se vêm grupos de índios armados, erguendo os braços, provavelmente uma referência à guerra. (Veja detalhe abaixo.)

"Mulher Tapuia", Albert Eckhout, detalhe.

“Mulher Tapuia”, Albert Eckhout, detalhe.

Conclusão

As telas mostram duas visões opostas sobre os indígenas brasileiros. O Tupi era visto pelo europeu como um indígena amigável e disposto a viver como “civilizado”, isto é, dentro dos moldes cristãos e mais integrado às atividades coloniais. Tanto o homem quanto a mulher Tupi usam roupas e são capazes de manejar ferramentas. A mandioca cortada indica, também, que eles cultivavam a terra.

Em contraste, a nudez dos Tapuias denota o caráter primitivo e selvagem desses indígenas. Os enfeites no rosto reforçam seu aspecto feroz. A natureza à volta é mais hostil, como mostra o tronco seco ao fundo e os animais peçonhentos. Os membros decepados levados pela mulher tapuia fazem uma clara referência ao ritual antropofágico cujo significado cultural era desconhecido pelo europeu que imaginava o canibalismo como  hábito da dieta indígena. A antropofagia fazia parte da cultura de vários povos indígenas brasileiros mas  seu significado variava. Os Tarairiu, que Eckhout chamou de Tapuia, praticavam a antropofagia dos entes queridos reduzindo seu corpo a pó que era misturado à farinha, diferente dos Tupinambás, grupo tupi, que praticavam a antropofagia para vingar a morte dos parentes mortos.

Em forte contraste à “selvageria canibal” dos Tapuias, Eckhout ressalta a maternidade da mulher Tupi que leva o filho junto de si retratando ambos com expressão gentil, mais “humana”. Já os Tapuias são mostrados como relutantes à civilização, mas “um mal necessário” para os holandeses por serem seus aliados na guerra contra os Ibéricos.

Importante lembrar que Albert Eckhout era um calvinista imbuído de preceitos morais rigorosos, o que leva a imaginar seu choque diante da nudez e dos costumes indígenas. Talvez isso explique o pudor em mostrar a mulher tapuia com a genitália coberta com folhas, como era comum nas pinturas europeias representando Adão e Eva.

Note, também, que Eckhout era um artista renascentista e, como tal, deveria seguir as convenções renascentistas na representação do ser humano: corpos perfeitos, harmoniosos e beleza clássica. Não é, contudo, o que aparece nesses quadros cujas figuras fogem aos cânones matemáticos da beleza renascentista. É de se supor que estas grandes telas chocaram o público europeu. Somente no final do século XVIII que representações naturalistas de indígenas e animais tornaram-se mais comuns.  Neste sentido, pode-se dizer que Albert Eckhout foi um precursor dos registros etnográficos das expedições científicas.

Fonte

  • BELUZZO, Ana Maria de Moraes. Brasil dos viajantes. V.1. São Paulo: Objetiva, MetaLivros, 1999.
  • BARATA, Mário. “Eckhout, o pintor do Brasil holandês”. In: Arte hoje, n. 27, set. 1979.
  • RODRIGUES, José Honório. “Visitantes do Brasil no século XVII”. In: Revista de História, São Paulo, v. 18, n. 37, 1959.
  • MELLO, Evaldo Cabral de. Imagens do Brasil holandês, 1630-1654. Raízes Artes Gráficas, 1987.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. “Os pintores de Nassau”. IN: ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walter Salles, 1983.

 

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Elaine MDonda
Elaine MDonda
5 anos atrás

obrigada pela partilha

Orides Maurer Junior
5 anos atrás

Excelente artigo Joelza. A obra “Dança dos Tapuias” é espetacular. Albert Eckhout foi um artista que soube captar com sensibilidade o cotidiano dos povos nativos.

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Leonardo
Leonardo
4 anos atrás

Muito bom, obrigado =)

André Augusto da Fonseca

Parabéns pelo excelente trabalho de sempre, professora.

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