História na Fuvest 2018: uma prova exigente e cheia de armadilhas

29 de novembro de 2017

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Na prova de Conhecimentos Gerais da Fuvest 2018, História foi contemplada com 15 questões, incluindo algumas de conteúdo interdisciplinar. Não foi uma prova fácil, e para muitos professores de cursinhos pré-vestibulares, foi a terceira prova mais difícil. Apesar da maioria dos temas serem comumente trabalhados no Ensino Médio, alguns testes incluíam conteúdos dificilmente tratados em sala de aula e que exigiram do candidato lançar mão de conhecimentos paralelos. Foram muitas as “pegadinhas” que possivelmente confundiriam um candidato cansado (eram 90 questões ao todo) fazendo-o cair na armadilha.

Neste exame, a Fuvest voltou a usar as questões “assertivas”, que apresentam três a cinco afirmações e, nas alternativas, exigem que os alunos saibam identificar as verdadeiras e as falsas. Esse tipo de questão torna a prova mais difícil, porque aborda um leque maior de conhecimentos, e leva mais tempo de leitura e reflexão do candidato. História teve duas questões assertivas.

Apresentamos abaixo as 15 questões de História. Elas correspondem à prova V e foram renumeradas.

Na sequência,  estão a resolução e os comentários de cada questão.

QUESTÃO 1

As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; e tudo pago adiantado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis; sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar. (…) E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputa-los. E aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia, agitada e barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e os seus jardinzinhos de três e quatro palmos, que apareciam como manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o revérbero das claras barracas de algodão cru, armadas sobre os lustrosos bancos de lavar.

Aluísio Azevedo, O cortiço.

Nas cidades brasileiras, particularmente no último quartel do século XIX, novas formas urbanas são constituídas, como os cortiços e as favelas. Sobre esse fenômeno, é correto afirmar:

  • (A) A expansão periférica no século XIX, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, teve significativa presença de cortiços, devido à chegada massiva de imigrantes japoneses.
  • (B) A primeira favela carioca teve sua origem no forte empobrecimento da população no contexto da crise cafeeira na região serrana do Rio de Janeiro.
  • (C) A maior concentração dos cortiços da cidade de São Paulo, presentes no último quartel do século XIX, localizava-se na porção mais central da aglomeração urbana.
  • (D) As primeiras favelas brasileiras se originaram devido à expansão da atividade industrial, no centro da cidade de São Paulo, no início do último quartel do século XIX.
  • (E) Nas cidades do Vale do Paraíba, durante a expansão cafeeira, os cortiços eram muito frequentes, por conta da presença de imigrantes italianos empobrecidos.

QUESTÃO 2

As primeiras práticas de agricultura datam de, aproximadamente, 10.000 anos. Neste período, ocorreram inúmeras transformações na sua base técnica, mas é, no decorrer da segunda metade do século XX, que a revolução agrícola contemporânea, fundada na elevada motorização-mecanização, na seleção de variedades de plantas e de raças de animais e na ampla utilização de corretores de pH dos solos, de fertilizantes, de ração animal e de insumos químicos para as plantas e para os animais domésticos, progrediu vigorosamente nos países desenvolvidos e em alguns setores limitados dos países subdesenvolvidos.

Marcel Mazoyer & Laurence Roudart. História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise contemporânea, São Paulo: Unesp; Brasília: NEAD, 2010. Adaptado.

As transformações ocorridas na agricultura após meados do século XX foram reconhecidas como revolução verde, sobre a qual se pode afirmar:

  • (A) Sua concepção foi desenvolvida no Japão e nos Tigres Asiáticos após a II Guerra Mundial.
  • (B) Contribuiu para a ampliação da diversificação das espécies e do controle das sementes pelos pequenos agricultores.
  • (C) Seus parâmetros produtivos estavam fundados, desde sua origem, em preservar e proteger a biodiversidade nas áreas de cultivo.
  • (D) Com sua expansão, na África e no sudeste Asiático, as populações rurais puderam alcançar padrões de consumo semelhantes aos das grandes metrópoles.
  • (E) Foi baseada na inovação científica e está atrelada à grande produção de grãos em extensas áreas de monocultura.

QUESTÃO 3

Os Impérios helenísticos, amálgamas ecléticas de formas gregas e orientais, alargaram o espaço da civilização urbana da Antiguidade clássica, diluindo-lhe a substância […]. De 200 a.C. em diante, o poder imperial romano avançou para leste […] e nos meados do século II as suas legiões haviam esmagado todas as barreiras sérias de resistência do Oriente.

P. Anderson. Passagens da Antiguidade ao feudalismo. Porto: Afrontamento, 1982.

Na região das formações sociais gregas,

  • (A) a autonomia das cidades-estado manteve-se intocável, apesar da centralização política implementada pelos imperadores helenísticos.
  • (B) essas formações e os impérios helenísticos constituíram-se com o avanço das conquistas espartanas no período posterior às guerras no Peloponeso, ao final do século V a.C.
  • (C) a conquista romana caracterizou-se por uma forte ofensiva frente à cultura helenística, impondo a língua latina e cerceando as escolas filosóficas gregas.
  • (D) o Oriente tornou-se área preponderante do Império Romano a partir do século III d.C., com a crise do escravismo, que afetou mais fortemente sua parte ocidental.
  • (E) os espaços foram conquistados pelas tropas romanas, na Grécia e na Ásia Menor, em seu período de apogeu, devido às lutas intestinas e às rivalidades entre cidades-estado.

QUESTÃO 4

Um grande manto de florestas e várzeas cortado por clareiras cultivadas, mais ou menos férteis, tal é o aspecto da Cristandade – algo diferente do Oriente muçulmano, mundo de oásis em meio a desertos. Num local a madeira é rara e as árvores indicam a civilização, noutro a madeira é abundante e sinaliza a barbárie. A religião, que no Oriente nasceu ao abrigo das palmeiras, cresceu no Ocidente em detrimento das árvores, refúgio dos gênios pagãos que monges, santos e missionários abatem impiedosamente.

J.Le Goff, Jaques. A civilização do ocidente medieval. Bauru: Edusc, 2005. Adaptado.

Acerca das características da Cristandade e do Islã no período medieval, pode-se afirmar que

  • (A) o cristianismo se desenvolveu a partir do mundo rural, enquanto a religião muçulmana teve como base inicial as cidades e os povoados da península arábica.
  • (B) a concentração humana assemelhava-se nas clareiras e nos oásis, que se constituíam como células econômicas, sociais e culturais, tanto da Cristandade quanto do Islã.
  • (C) a Cristandade é considerada o negativo do Islã, pela ausência de cidades, circuitos mercantis e transações monetárias, que abundavam nas formações sociais islâmicas.
  • (D) o clero cristão, defensor do monoteísmo estrito, combateu as práticas pagãs muçulmanas, arraigadas nas florestas e nas regiões desérticas da Cristandade ocidental.
  • (E) A expansão econômica islâmica caracterizou-se pela ampliação das fronteiras de cultivo, em detrimento das florestas, em um movimento inverso àquele verificado no Ocidente medieval.

QUESTÃO 5

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018.

A imagem representa a morte de Atahualpa, o último imperador inca, em 1533, após a conquista espanhola comandada por Francisco Pizarro.

Luis Montero. Os funerais do índio Atahualpa. Óleo sobre tela, 1865-1867.

Luis Montero. Os funerais do índio Atahualpa. Óleo sobre tela, 1865-1867.

Analise as quatro afirmações seguintes, a respeito da empresa e da conquista colonial espanhola no Peru e da representação presente na imagem.

  • I. A conquista foi favorecida pelo conflito interno entre os dois irmãos incas, Atahualpa e Huáscar, aproveitado pelas forças espanholas lideradas por Francisco Pizarro.
  • II. A produção agrícola das plantations escravistas constituiu-se na base econômica do vice-reinado do Peru, controlado pelos espanhóis.
  • III. Do lado esquerdo da pintura, há uma movimentação conflituosa, na qual as mulheres incas são contidas por guardas espanhóis, contrastando com a expressão ordenada e solene do lado direito, composto por religiosos e autoridades espanholas em torno do corpo do imperadinca.
  • IV. A pintura revela o resgate de elementos históricos – importante para a construção do ideário nacionalista no século XIX, no processo pós-independência e de formação do Estado nacional peruano, mas retrata os personagens indígenas com trajes e feições europeus.

Estão corretas apenas as afirmações

  • (A) I, II e III.
  • (B) II, III e IV.
  • (C) I, III e IV.
  • (D) I e II.
  • (E) III e IV.

QUESTÃO 6

A respeito dos espaços econômicos do açúcar e do ouro no Brasil colonial, é correto afirmar:

  • (A) A pecuária no sertão nordestino surgiu em resposta às demandas de transporte da economia mineradora.
  • (B) A produção açucareira estimulou a formação de uma rede urbana mais ampla do que a atividade aurífera.
  • (C) O custo relativo do frete dos metais preciosos viabilizou a interiorização da colonização portuguesa.
  • (D) A mão de obra escrava indígena foi mais empregada na exploração do ouro do que na produção de açúcar.
  • (E) Ambas as atividades produziram efeitos similares sobre a formação de um mercado interno colonial

QUESTÃO 7

Na edição de julho de 1818 do Correio Braziliense, o jornalista Hipólito José da Costa, residente em Londres, publicou a seguinte avaliação sobre os dilemas então enfrentados pelo Império português na América:

A presença de S.M. [Sua Majestade Imperial] no Brasil lhe dará ocasião para ter mais ou menos influência naqueles acontecimentos; a independência em que el-rei ali se acha das intrigas europeias o deixa em liberdade para decidir-se nas ocorrências, segundo melhor convier a seus interesses. Se volta para Lisboa, antes daquela crise se decidir, não poderá tomar parte nos arranjamentos que a nova ordem de coisas deve ocasionar na América.

Nesse excerto, o autor referia-se

  • (A) aos desdobramentos da Revolução Pernambucana do ano anterior, que ameaçara o domínio português sobre o centro-sul do Brasil.
  • (B) às demandas da Revolução Constitucionalista do Porto, exigindo a volta imediata do monarca a Portugal.
  • (C) à posição de independência de D. João VI em relação às pressões da Santa Aliança para que interviesse nas guerras do rio da Prata.
  • (D) às implicações que os movimentos de independência na América espanhola traziam para a dominação portuguesa no Brasil.
  • (E) ao projeto de D. João VI para que seu filho D. Pedro se tornasse imperador do Brasil independente.

QUESTÃO 8

No que se refere à crise do colonialismo português na África na segunda metade do século XX,

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  • (A) a Era das Revoluções, ao implicar a abolição do tráfico transatlântico de escravos para as Américas, erodiu as bases do domínio de Portugal sobre Angola e Moçambique.
  • (B) Portugal, com um poder de segunda ordem no concerto europeu, se viu alijado das deliberações da Conferência de Berlim, perdendo assim o domínio sobre suas colônias.
  • (C) as independências de Angola e de Moçambique foram marcadas por um processo relativamente pacífico, que envolveu ampla negociação com os poderes metropolitanos em Portugal.
  • (D) o processo de independência das colônias portuguesas, ao contrário do que ocorreu nas colônias inglesas e francesas, não se relacionou às polarizações geopolíticas da Guerra Fria.
  • (E) o movimento de independência colonial foi decisivo para o processo de transformação política em Portugal, ao acelerar a crise do regime autoritário nascido no período entre-guerras.

QUESTÃO 9

[…] a Declaração Universal representa um fato novo na história, na medida em que, pela primeira vez, um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na Terra. Com essa declaração, um sistema de valores é – pela primeira vez na história – universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade de reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado.[…] Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a humanidade – toda a humanidade – partilha alguns valores comuns; e podemos, finalmente, crer na universalidade dos valores, no único sentido em que tal crença é historicamente legítima, ou seja, no sentido em que universal significa não algo dado objetivamente, mas Algo subjetivamente acolhido pelo universo dos homens.

N. Bobbio. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

A Declaração Universal mencionada no texto

  • (A) Foi instituída no processo da Revolução Francesa e norteou os movimentos feministas, sufragistas e operários no decorrer do século XIX.
  • (B) Assemelhou-se ao universalismo cristão, que também resultou no estabelecimento de um conjunto de valores partilhado pela humanidade.
  • (C) Desenvolveu-se com a inclusão de princípios universais pelos legisladores norte-americanos e influenciou o abolicionismo nos Estados Unidos.
  • (D) foi aprovada pela Organização das Nações Unidas e serviu como referência para grupos que lutaram pelos direitos de negros, mulheres e homossexuais na década de 1960.
  • (E) Originou-se do jusnaturalismo moderno e consolidou-se com o movimento ilustrado e o despotismo esclarecido ao longo do século XVIII.

QUESTÃO 10

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018.

Aqui no Chile estava se construindo, entre imensas dificuldades, uma sociedade verdadeiramente justa, erguida sobre a base de nossa soberania, de nosso orgulho nacional, do heroísmo dos melhores habitantes do Chile. Do nosso lado, do lado da revolução chilena, estavam a constituição e a lei, a democracia e a esperança.

Pablo Neruda. Confesso que vivi. Memórias. Rio de Janeiro: Difel, 1980.

Nesse texto,

  • (A) “soberania” está relacionada às campanhas de privatização das minas de estanho e salitre, que até então eram mantidas por capitais anglo-americanos.
  • (B) “heroísmo” refere-se aos embates armados, travados com setores da democracia cristã e com as comunidades indígenas dos araucanos.
  • (C) “a constituição e a lei” é uma referência ao novo ordenamento jurídico implantado após o golpe promovido pela Unidade Popular.
  • (D) “democracia” alude a um traço peculiar da via chilena para o socialismo, pois o presidente Salvador Allende chegou ao poder pelo voto.
  • (E) “esperança” traduz a expectativa resultante do apoio econômico e estratégico que havia sido obtido junto aos Estados Unidos e França.

QUESTÃO 11

O futurismo de Marinetti e o fascismo de Benito Mussolini têm em comum

  • (A) a constatação da falência cultural da Itália, que se agarrou ao passado romano e ignorou os grandes avanços da Primeira Revolução Industrial.
  • (B) o desejo de proporcionar aos cidadãos italianos o acesso aos bens de consumo e a implantação do Estado de bem-estar social.
  • (C) o esforço de modernização cultural e a tentativa de demolir as edificações que restaram do passado romano.
  • (D) a valorização e a adoção das bases e dos princípios das teorias revolucionárias anarquistas e socialistas.
  • (E) a glorificação da ideologia da guerra e da velocidade proporcionada pelos avanços técnicos e militares.

QUESTÃO 12

A operação era um pouco dolorosa e não durava mais que um minuto, mas era traumática. Seu significado simbólico estava claro para todos: este é um sinal indelével, daqui não sairão mais; esta é a marca que se imprime nos escravos e nos animais destinados ao matadouro, e vocês se tornaram isso. Vocês não têm mais nome: este é o seu nome. A violência da tatuagem era gratuita, um fim em si mesmo, pura ofensa: não bastavam os três números de pano costurados nas calças, no casaco e no agasalho de inverno?

Primo Levi. Os afogados e os sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

Está de acordo com o texto a seguinte afirmação:

  • (A) A tatuagem era uma forma de tortura e uma mensagem não verbal, que inscrevia a condenação no corpo do prisioneiro.
  • (B) O uso de tatuagens era perturbador apenas para ciganos e judeus ortodoxos, pois violava o código moral e as leis religiosas dessas comunidades.
  • (C) O recurso de tatuar o prisioneiro, além de impor um sofrimento físico e moral, discriminava o tipo de remuneração.
  • (D) O emprego das tatuagens funcionava como um código estético e de classificação dos prisioneiros nos campos de concentração.
  • (E) A tatuagem, assim como o trabalho voluntário, não tinha finalidade produtiva, mas contribuíam para o entendimento entre os prisioneiros.

QUESTÃO 13

Tanto no desenvolvimento político como no científico, o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução.

T. S. Kuhn. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1989.

Analise as quatro afirmações seguintes, acerca das revoluções políticas e científicas da Época Moderna.

  • I. A concepção heliocêntrica de Nicolau Copérnico, sustentada na obra Das revoluções das esferas celestes, de 1543, reforçava a doutrina católica contra os postulados protestantes.
  • II. A Lei da Gravitação Universal, proposta por Isaac Newton no século XVII, reforçava as radicais perspectivas ateístas que haviam pautado as ações dos grupos revolucionários na Inglaterra à época da Revolução Puritana.
  • III. Às experiências com eletricidade realizadas por Benjamin Franklin no século XVIII, somou-se sua atuação no processo de emancipação política dos Estados Unidos da América.
  • IV. Os estudos sobre o oxigênio e sobre a conservação da matéria, feitos por Antoine Lavoisier ao final do século XVIII, estavam em consonância com a racionalização do conhecimento, característica da Ilustração.

Estão corretas apenas as afirmações

  • (A) I, II e III.
  • (B) II, III e IV.
  • (C) I, III e IV.
  • (D) I e II.
  • (E) III e IV.

Texto para as questões 14 e 15

Uma obra de arte é um desafio; não a explicamos, ajustamo-nos a ela. Ao interpretá-la, fazemos uso dos nossos próprios objetivos e esforços, dotamo-la de um significado que tem sua origem nos nossos próprios modos de viver e de pensar. Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna.

 As obras de arte, porém, são como altitudes inacessíveis. Não nos dirigimos a elas diretamente, Mas contornamo-las. Cada geração as vê sob um ângulo diferente e sob uma nova visão; nem se deve supor que um ponto de vista mais recente é mais eficiente do que um anterior. Cada aspecto surge na sua altura própria, que não pode ser antecipada nem prolongada; e, todavia, o seu significado não está perdido porque o significado que uma obra assume para uma geração posterior é o resultado de uma série completa de interpretações anteriores.

Arnold Hauser. Teorias da arte. Adaptado.

QUESTÃO 14

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018.

De acordo com o texto, a compreensão do significado de uma obra de arte pressupõe

  • (A) o reconhecimento de seu significado intrínseco.
  • (B) a exclusividade do ponto de vista mais recente.
  • (C) a consideração de seu caráter imutável.
  • (D) o acúmulo de interpretações anteriores.
  • (E) a explicação definitiva de seu sentido.

QUESTÃO 15

No trecho “Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna”, as expressões sublinhadas podem ser substituídas, sem prejuízo do sentido do texto, respectivamente, por

  • (A) realmente; portanto.
  • (B) invariavelmente; ainda.
  • (C) com efeito; todavia.
  • (D) com segurança; também.
  • (E) possivelmente; até.

***Resoluções e comentários***

QUESTÃO 1 – C

Questão interdisciplinar que utiliza um texto literário clássico sob uma abordagem histórica. O título da obra deixa claro que o tema central é o cortiço, habitação coletiva, diferente da favela – e isso elimina as alternativas B e D. Os cortiços foram comuns no Rio de Janeiro e em São Paulo e boa parte de seus moradores eram famílias de baixa renda muitas delas oriundas da escravidão recém-abolida – fatos que eliminam as alternativas A e E. Resta a alternativa C, que corretamente, situa os cortiços na porção mais central da cidade de São Paulo.

QUESTÃO 2 – E

A leitura atenta do texto com os conhecimentos básicos do Ensino Médio permitem responder a questão por exclusão. O texto informa que a “revolução verde” ocorreu na segunda metade do século XX e “progrediu vigorosamente nos países desenvolvidos”. Com essas informações, eliminam-se as alternativas A e D. O termo “Tigres Asiáticos” refere-se à rápida industrialização de Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan ocorrida a partir da década de 1970. Esses países utilizaram de estratégias arrojadas para atrair capital estrangeiro – apoiadas na mão de obra barata e disciplinada, na isenção de impostos e nos baixos custos de instalação de empresas. Investiram também no acesso à educação e qualificação profissional, e no desenvolvimento de projetos de infraestrutura, de transportes, comunicação e energia. Já as nações do Sudeste asiático como Indonésia, Malásia, Filipinas, e Tailândia, só atingiram altos índices de crescimento no final do século XX e início do XX.

O texto informa também que a “revolução verde” foi fundada na “seleção de variedades de plantas e de raças de animais e na ampla utilização de corretores de pH dos solos, de fertilizantes, de ração animal e de insumos químicos para as plantas e os animais domésticos”. Com isso eliminam-se as alternativas B e C. Resta a alternativa correta E.

QUESTÃO 3 – D

O apogeu dos Impérios Helenísticos situa-se entre os séculos IV e II a.C., entre a morte de Alexandre Magno, em 323 a.C. e a conquista romana em 146 a.C. Nesse período, as cidades-estado perdem sua autonomia e difunde-se a cultura grega (língua, filosofia e ciências) influenciando a civilização urbana da Antiguidade clássica, o que inclui a cultura romana. Com isso, descartam-se as alternativas A, B e C.

Os reinos helenísticos foram progressivamente integrados aos domínio romano através da conquista ou por doação, como foi o caso de Pérgamo, na Ásia Menor, cujo reino foi doado aos romanos após a morte de Átalo III, em 133 a.C., por vontade expressa desse rei. Isso elimina a alternativa E que está genérica demais.

A alternativa D menciona, corretamente, a porção oriental do Império Romano sofreu menos os impactos da crise do século III d.C. (a economia oriental estava menos dependente do escravismo do que o lado ocidental). Isso levou ao deslocamento do eixo econômico e político-administrativo do Ocidente para o Oriente, processo simbolizado pela transferência da capital de Roma para Constantinopla.

QUESTÃO 4 – B

O texto transcrito (extraído da pág. 123 da obra de Le Goff) não ajuda a encontrar a resposta correta pois está fora de seu contexto fazendo pensar que a cristandade medieval abateu florestas  (“a religião cresceu no Ocidente em detrimento das árvores”), o que não é verdade.  Segundo Le Goff, o desmatamento “avançou sobre terras incultas e áreas de pastagens” e “raramente atingiam as florestas de grande porte devido à fraqueza dos instrumentos (o principal deles era o enxó, e não o machado) e desejo dos senhores em conservar suas áreas de caça e das comunidades aldeãs de não comprometer os recursos florestais que eram essenciais na economia medieval” (p.125).

Ao candidato, restava responder por exclusão. Assim, começava eliminado as alternativas claramente erradas: C, D e E. A alternativa A tem uma “pegadinha” ao afirmar que o cristianismo se desenvolveu a partir do mundo rural. A ruralização foi característica do feudalismo, mas o cristianismo é anterior à Idade Média e se desenvolveu nas cidades que, por sinal, nunca desapareceram durante esse período histórico. A alternativa correta, B, está no texto de Jacques de Le Goff, mas duas páginas a frente quando ele analisa que “a realidade palpitante [da cristandade medieval] é marcada por um conjunto de clareiras mais ou menos vastas que correspondem a células econômicas, sociais e culturais (p. 125)

QUESTÃO 5 – C

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018. Para interpretar documento visual deve-se atentar, de início, ao artista (que nesse caso nada ajuda pois não é um nome familiar aos brasileiros), ao nome do quadro e a época em foi feito. A questão exige do candidato interpretar elementos que estão na imagem e, também, um conhecimento que não está no quadro. Os elementos que estão no quadro são facilmente identificados e analisados e as afirmações III e IV, corretas, não representam dificuldades para o candidato.

A afirmação II é incorreta porque a principal atividade econômica do vice-reino do Peru foi a mineração; além disso, nas plantations locais predominou o trabalho compulsório indígena não escravista.  Definidas essas três alternativas, resta a afirmação I que coloca em dúvidas as alternativas B, C e E. A grande dificuldade da afirmação I é saber se os nomes mencionados estão corretos. Que aluno se lembraria do nome do irmão de Atahualpa?

QUESTÃO 6 – C

Questão sem grandes dificuldades sobre um tema trabalhado em sala de aula. Um candidato minimamente preparado descartaria as alternativas A, B, D e E. Resta a alternativa C, correta.

QUESTÃO 7 – D

A data de 1818 é fundamental para o entendimento da conjuntura apresentada no texto. Com isso, eliminam-se as alternativas B e C (os fatos citados são posteriores a 1818) e E (naquela altura não havia qualquer projeto de tornar o Brasil independente pelas mãos do príncipe D. Pedro). Restam as alternativas A e D.

A Revolução Pernambucana, de 1817, não teve desdobramentos significativos. As tentativas de obter apoio das capitanias vizinhas – Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará – fracassaram. A comarca das Alagoas, por permanecer fiel à Coroa, foi desmembrada de Pernambuco e seus proprietários rurais passaram a governar a nova capitania. O próprio Hipólito da Costa, que morava em Londres, foi convidado para o cargo de ministro plenipotenciário da nova república, mas recusou. Portanto a alternativa A está errada.

Resta a alternativa D, correta, que menciona os movimentos de independência na América Espanhola, os quais poderiam repercutir na América Portuguesa. Daí a sugestão de Hipólito da Costa para que D. João VI somente regressasse a Portugal depois de haver equacionado o problema político na porção americana do Império Português.

QUESTÃO 8 – E

Uma questão aparentemente difícil e onde, novamente, o candidato podia encontrar a resposta por exclusão. Em primeiro lugar, é importante situar no tempo a crise do colonialismo português: ela inicia-se no final dos anos 1950 e se encerra em 1975-1976. Portanto, o processo de independência das colônias portuguesas na África ocorreu em plena Guerra Fria.

Sabendo disso, o candidato elimina as alternativas A, que se refere a um contexto do início do século XIX; a B, pois a Conferência de Berlim é de 1884, e Portugal só perdeu o domínio sobre suas colônias quase um século depois; e a D, que nega a polarização geopolítica da Guerra Fria, sendo que Angola e Moçambique independentes instalaram um regime político pró-soviético.

A alternativa C é gritantemente errada ao caracterizar as independências de Angola e de Moçambique como pacíficas, feitas à base de negociação com o poder metropolitano.

A alternativa E associa corretamente as guerras de libertação colonial ao enfraquecimento do regime fascista lusitano contribuindo poderosamente para desencadear a Revolução dos Cravos, de 1974, cujos resultados imediatos foram a redemocratização de Portugal e a emancipação de seu império colonial.

QUESTÃO 9 – D

O candidato precisa ficar muito atento para não confundir a Declaração Universal com outras “Declarações de Direitos” surgidas anteriormente, como a Declaração dos Direitos/Bill of Rights, de 1689, e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. A questão se refere à Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, a única que é “universal”. O texto da ONU enfatiza e amplia o conceito de direitos humanos, isto é, abrange qualquer pessoa enquanto ser humano considerada em sua integralidade.

Com isso, eliminam-se as alternativas A, B, C e E. A alternativa D, identifica corretamente a Declaração Universal e lembra que o “universal” influenciou fortemente movimentos posteriores organizados por diversas minorias, alargando o universo das reivindicações efetuadas por grupos oprimidos ou vítimas de discriminação.

QUESTÃO 10 – D

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018. O texto não traz um enunciado que o contextualiza, o que cria enormes dificuldades para os candidatos cuja maioria possivelmente nunca ouviu falar de Pablo Neruda, sequer sabe em que época esse autor viveu e muito menos sua relação com a Revolução Chilena. Sem contextualização fica quase impossível ao candidato mediano responder corretamente a questão que exige o conhecimento e domínio da história da Revolução Chilena e ainda, conhecer a peculiaridade desse movimento considerado uma revolução democrática porque foi feita pelo voto que elegeu um candidato comunista. Daí a alternativa correta ser a D.

As alternativas analisam conceitos extraídos do documento exigindo sua interpretação à luz do texto. Se o candidato tiver um conhecimento básico sobre a Revolução Chilena, ele pode eliminar as alternativas A (“privatização das minas de estanho e salitre”), C (“golpe promovido pela Unidade Popular”) e E (apoio dos Estados Unidos e França).

A alternativa B, exige do candidato maior conhecimento da Revolução Chilena para lembrar que a democracia cristã fazia oposição ao governo de Allende e não aos indígenas araucanos.

QUESTÃO 11 – E

Questão interdisciplinar relativamente fácil, pois traz temas comumente trabalhados em sala de aula. Lembrando das características do Estado fascista, o candidato elimina as alternativas B, C e D.

Tanto Mussolini, criador do fascismo (1919), como Marinetti, fundador do futurismo (1909), valorizavam os avanços tecnológicos e o uso da força como instrumento político, tendo a guerra como desfecho natural. A resposta E, é portanto, a correta.

QUESTÃO 12 – A

O texto descreve uma prática utilizada nos campos de concentração nazistas de tatuar os prisioneiros para identifica-los e, também, humilhá-los e despersonalizá-los. Compreendido isso, eliminam-se as alternativas B, C, D e E.

QUESTÃO 13 – E

O texto não ajuda a responder a questão que foi montada em cima do enunciado. A afirmação I é incorreta porque a teoria heliocêntrica de Copérnico foi a princípio combatida pela Igreja Católica, que seguia, então, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu. A afirmação II é incorreta porque, além de Newton não colocar em questão a existência de Deus (ele próprio era profundamente religioso) com a Lei da Gravitação Universal (1687), a formulação desta última é posterior à Revolução Puritana de 1640-60; ademais, os grupos radicais ingleses não eram ateístas.

Com isso, eliminam-se as alternativas A, B, C e D. As afirmações III e IV estão corretas e portanto a resposta é E.

QUESTÃO 14 – D

Considerada uma das 10 questões mais difíceis da Fuvest 2018. Primeiro, trata-se de um texto muito longo para uma prova de 90 questões e, além disso, o que interessa para responder a questão está a frase final em “o significado que uma obra assume para uma geração posterior é o resultado de uma série completa de interpretações anteriores”. Daí a resposta correta ser a D.

Como a questão exige a interpretação do texto e que o candidato se limite a ele, a alternativa A está errada pois não está no texto. As alternativas B, C e E que falam em “exclusividade”, “caráter imutável” e “explicação definitiva” estão erradas por contradizerem o texto.

QUESTÃO 15 – A

Uma típica questão de interpretação de texto. A expressão “de fato”, equivale a “realmente” e “com segurança”. Isso elimina as alternativas B, C, e E. A expressão “deste modo” tem sentido de conclusão e equivale a “portanto”, o que indica que a resposta correta é A.

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