Esquerda e Direita: rótulos mais simbólicos que políticos (com teste)

18 de setembro de 2018

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A discussão política no Brasil, nos últimos anos, radicalizou-se em dois polos excludentes e fechados. Um deles se autodenomina “esquerda”, o outro é por este denominado de ”direita fascista” e “elite”, enquanto esta chama aquele de “comunistas” e “petralhas” e nenhum dos dois concorda com a classificação que recebe do adversário pois elas não correspondem às reais aspirações de seus seguidores.

Confuso? Sim, e não é para menos: trata-se de uma rotulação simplista, uma dicotomia de conotação negativa que só incendeia o debate político com ódio e acusações falsas. Enquanto ambos os lados ficam se engalfinhando, enfraquece a democracia e a população começa a sonhar com alguém que ponha ordem na casa. Aí ronda o perigo que a História conhece tão bem.

Em primeiro lugar, Esquerda e Direita não são partidos políticos e sequer ideologias políticas. Elas não dizem respeito a ideias e muito menos a uma classe social determinada. São, na verdade, termos que indicam tendências, isto é, servem de critérios para organizar as ideias políticas de uma pessoa ou um partido em um certo contexto. E ainda: o que as pessoas hoje consideram como sendo “de esquerda” e “de direita”, no passado pode ter seguido uma orientação muito diferente da atual, até mesmo oposta e contraditória. Daí que os termos Esquerda e Direita devem ser contextualizados para serem compreendidos.

Vamos esclarecer isso começando pela origem da Esquerda e Direita no século XVIII e chegando ao uso que se faz desses termos hoje. No final desse artigo, há um teste/quiz para você testar seu conhecimento a respeito.

Origem da Esquerda e Direita

Esquerda e Direita nasceram no bojo da Revolução Francesa, mais precisamente no dia 11 de setembro de 1789. Naquele dia, os membros da Assembleia Constituinte, reunidos para deliberar sobre o poder de veto de Luís XVI, sentaram-se espontaneamente de ambos os lados do presidente: à sua direita, os monarquistas fiéis ao rei e dispostos a lhe dar o direito de veto absoluto; à esquerda, os adversários que queriam limitar o veto do rei.

Dessa distribuição dos deputados por afinidades originou-se a separação entre Direita, considerada conservadora ou reacionária, e Esquerda, considerada reformista ou revolucionária, marcadores que ainda pontuam a vida política de todas as democracias do mundo.

Assembleia Constituinte, 1789.

Assembleia Constituinte, reunida em 11 de setembro de 1789, na França, deu origem ao tradicional marcador político Direita e Esquerda.

Na Assembleia de 1789, a composição social dos deputados de cada Estado estava longe de ser uma representação coesa de cada ordem. Entre os monarquistas, sentados à direita, a maioria era de nobres provincianos pobres. Os representantes do Terceiro Estado, sentados à esquerda, eram homens abastados – advogados, médicos, homens de negócio e até nobres “esclarecidos”, escolhidos por sua eloquência e cultura. Portanto, já na sua origem, Direita e Esquerda não correspondiam a um determinado grupo social, como ainda hoje não correspondem.

Esquerda e Direita: tendências variáveis

Se a Revolução Francesa foi o berço da Esquerda e da Direita, o século XIX foi o período de maturação e mudanças dessas tendências. Foi também quando surgiu a questão social no contexto da Revolução Industrial. O liberalismo, o nacionalismo, o socialismo, o anarquismo e o marxismo trouxeram novas ideias forjando novas reivindicações que tornaram mais complexo o embate entre Esquerda e Direita.

A divisão Esquerda-Direita ganhou contornos mais precisos entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX. De uma geração a outra e de acordo com as circunstâncias históricas, elas oscilaram de uma posição a outra, inclusive contrária à anterior.

Na França, por exemplo, ao longo do século XIX, a principal discussão entre a Esquerda e Direita foi sobre o regime político e essa discussão marcou a linha entre as duas correntes. Partidários da república e os da monarquia mudaram de posição e adquiriam novas nuances conforme o contexto histórico. Veja o quadro abaixo, elaborado pelo historiador de Direito, Philippe Fabry:

 

Outros exemplos, também na França, de como Esquerda e Direita defenderam e mudaram de posição, conforme as demandas da época:

  • Foi o político de direita François Guizot, ministro da Educação e um dos mais ardentes defensores do rei Luis Filipe, que, em 1833, criou e organizou a educação primária pública da França, lei que marcou a história do país. A preocupação com a educação só entrou no programa da esquerda na segunda metade do século XIX . Foi Jules Ferry, chefe da esquerda republicana, que tornou o ensino primário gratuito e obrigatório na França (1881-1882).
  • A primeira campanha pela abolição da pena de morte foi liderada por François Guizot, junto com o jovem Victor Hugo, um monarquista convicto na época, ambos de direita.  A campanha, contudo, não teve sucesso. Somente em 1981 a pena de morte foi abolida na França graças à pressão da esquerda, em especial do socialista Robert Badinter, Ministro da Justiça do governo François Mitterand, também socialista.
  • Uma lei de 1816 havia revogado o divórcio estabelecido pelo Código Napoleônico de 1804. No final daquele século, por pressão da esquerda representada pelos republicanos e socialistas, o divórcio foi legalizado na França (Lei Naquet, 1884). O divórcio era um aspecto importante do programa anticlerical da esquerda que defendia uma sociedade secular igualitária. Com a nova lei, o divórcio passou a ser permitido em caso de crueldade, violência, abuso sério ou adultério. Ao tornar o adultério motivo para o divórcio e, por conseguinte, criminalizar o adultério, a esquerda rejeitou a reivindicação das feministas que defendiam o “divórcio revolucionário” com consentimento mútuo. Em uma sociedade patriarcal e masculina, a lei de 1884 pouco beneficiou a mulher. A esposa infiel continuou sujeita até dois anos de prisão, o mesmo não ocorrendo com o homem. Foi somente em 1975 que foi aprovada, na França, a descriminalização do adultério, durante o governo de Valéry Giscard d’Estaing, do Partido Republicano, de centro-direita.
  • O mesmo Jules Ferry, chefe da esquerda republicana que criou o ensino primário gratuito e obrigatório, foi um ardoroso defensor da colonização da África como forma de “civilizar as raças inferiores”. Com exceção de Georges Clemenceau, reconhecido em sua época como um socialista radical, a esquerda permaneceu fiel à sua política colonial até o final de 1950.

Esquerda e Direita no Brasil Imperial

No Brasil Imperial, os partidos Liberal e Conservador tinham suas divergências, apesar de compartilharem do mesmo princípio conservador em relação ao direito de propriedade e às hierarquias sociais. Conforme observou Ilmar Mattos, liberais e conservadores defendiam projetos de organização política diferentes e até opostos, divergiam sobre o papel do Legislativo e, sobretudo, do Poder Moderador. Posicionavam-se, assim, a grosso modo, à esquerda (Partido Liberal) e à direita (Partido Conservador) nos moldes do século XIX.

Contudo, suas atuações políticas nem sempre se pautaram por coerência seja de esquerda liberal ou de direita conservadora, como lembram os acontecimentos abaixo citados:

  • Nas eleições, nem sempre os liberais agiram como tais. Em 1840, decididos a vencer o pleito, eles agiram com truculência promovendo roubo de urnas, espancamento de eleitores, falsificação de votos e ameaçando de morte seus adversários políticos. O fato passou à história conhecido como “eleições do cacete”.
  • Os liberais exaltados da Revolução Praieira (Pernambuco, 1848) reivindicavam o sufrágio universal masculino, a plena liberdade de imprensa, a extinção do Poder Moderador – um programa de esquerda radical que, contudo, não cogitava em abolir da escravidão.
  • A abolição do tráfico negreiro, uma medida de cunho liberal, foi feita por um ministro da direita conservadora, Euzébio de Queiróz, em 1850. A lei que leva o seu nome pôs fim ao tráfico de escravos e a uma longa questão com a Inglaterra que se arrastava havia vinte anos.
  • A Lei Áurea foi apresentada formalmente ao Senado Imperial pelo conservador Rodrigo Augusto da Silva que fazia parte do Conselho de Ministros, composto por membros do Partido Conservador. A lei foi assinada pela Princesa Isabel e pelo próprio Rodrigo Augusto da Silva, no dia 13 de maio de 1888.
  • A proclamação da República foi feita pelo direitista marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista convicto e amigo pessoal do imperador D. Pedro II.

Como se observa nos exemplos acima, as classificações Esquerda e Direita não dão conta de explicar posições políticas e nem ideologias partidárias.

Esquerda e Direita em dimensões mais amplas

A partir do início do século XX, os termos Esquerda e Direita passaram a ser associados a ideologias específicas e foram usados para descrever as posições políticas dos cidadãos. Ganharam um espectro mais complexo que buscava combinar as dimensões política, econômica e social.

Visando reconhecer a complexidade e a diversidade que marcam diferentes movimentos e ideologias, Esquerda e Direita foram subdivididas, indo do centro à extrema radical. Criou-se um consenso geral de que a Esquerda inclui sociais-liberais, sociais-democratas, ambientalistas, socialistas, comunistas e anarquistas; enquanto a Direita inclui liberais, conservadores, neoliberais, monarquistas, fascistas e nazistas. Note que o liberalismo, considerado como esquerda no século XIX, deslocou-se para a direita – um exemplo de como as tendências políticas não são estanques e que, portanto, devem ser historicamente contextualizadas.

 

Críticas à dicotomia Esquerda-Direita

O tradicional marcador político Esquerda-Direita, herdado da Revolução Francesa, não desapareceu, mas não está mais em sintonia com as novas demandas dos cidadãos.

Após a queda do muro de Berlim (novembro de 1989), os partidos “de direita” e “de esquerda” sofreram mudanças conceituais. Rompeu-se a dicotomia do mundo polarizado da Guerra Fria – de um lado o modelo liberal/democrático/capitalista americano, e do outro o modelo social/autoritário/comunista soviético. Muitos “esquerdistas” migraram para concepções mais de centro, enquanto “direitistas” passaram a ser identificados como reacionários. Surgiram outras tendências como, por exemplo, aquela identificada com uma ecologia política mais preocupada com os problemas ambientais e a maneira como eles afetam a vida política, econômica e social.

Atualmente, os cientistas políticos fazem críticas consideráveis e consistentes ​​sobre a redução da política em um simples eixo Esquerda-Direita. Alguns têm sugerido que as classificações “de esquerda” e “de direita” perderam seu significado no mundo moderno. Como indica Sartori, os termos Esquerda e Direita possuem a qualidade de ser caixas vazias, cujo conteúdo pode ser descarregado com o passar do tempo. Diferente, por exemplo, dos termos Liberal e Conservador que carregam em si uma apreciação de mérito.

O pensador italiano Norberto Bobbio afirmou que, depois da dissolução da União Soviética (1991), surgiram algumas linhas que apontavam para o fim da dicotomia direita-esquerda preconizando a perda de influência dessa polaridade. Contudo, em sua obra “Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política” (1996), Bobbio ponderou que as forças de direita e esquerda continuavam fortes movendo a política e todas as relações de poder e cultura de boa parte do planeta.

Charge de Angeli

Charge de Angeli.

Seja como for, tanto uns quanto os outros falam em nome do povo e afirmam desejar o bem-estar dos cidadãos e a prosperidade do país. Porém, o meio de realizar esse objetivo nem sempre é claro.

A verdade é que os rótulos Esquerda-Direita embora ainda utilizados na arena política são muito limitados para definir a diversidade política do século XXI. As diferentes visões atuais de mundo e de sociedade não podem mais serem expressas no contexto da habitual polarização Esquerda-Direita. Talvez seja mais interessante assinalar a concepção política de cada um de acordo com a abrangência de seu discurso, por exemplo, liberal/anti-liberal, democracia/ditadura, individualismo/coletivismo, intervencionismo/não intervencionismo, etc.

Esquerda e Direita tornam-se meros rótulos que refletem cada vez menos divisões reais, pelo menos, do ponto de vista social e econômico. Mesmo em relação à política atual, esses termos perdem sentido diante de alianças e aproximações, antes improváveis. Dupin (2014) lembra que, em 2013, 11 dos 28 países da União Europeia foram conduzidos por uma aliança de partidos de direita e esquerda. A crise econômica e os crescentes problemas do governo levaram a esta configuração, como foi o caso na Grécia.

Isso não significa que o marcador tradicional Esquerda-Direita tenha desaparecido, pelo menos do senso comum. Uma pesquisa realizada na França, em 2012, revelou que apenas 25% dos franceses deixaram de usar essa classificação. Ao mesmo tempo, a maioria dos entrevistados considerava que “as noções de direita e esquerda estavam desatualizadas” (Dupin, 2014).

A tradicional polarização Esquerda-Direita tende a se tornar mais simbólica e menos política. Mas a democracia precisa de argumentos claros e compreensíveis para os eleitores comuns. Isto é o que é torna uma divisão Esquerda-Direita ainda presente e operante.

Fonte

Teste / Quiz


1. Os termos Esquerda e Direita podem ser definidos como:

  1. a) Partidos políticos organizados
  2. b) Tendências políticas
  3. c) Grupos sociais e econômicos definidos.

2. A origem histórica da Esquerda e Direita relaciona-se à:

  1. a) Revolução Industrial quando o capitalismo enriqueceu uma minoria
  2. b) Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na França
  3. c) Revolução Francesa durante os debates da Assembleia Constituinte.

3. Em sua origem histórica, Esquerda e Direita referiam-se, respectivamente aos:

  1. a) Adversários do rei //Monarquistas fiéis ao rei
  2. b) Favoráveis à decapitação de Luís XVI // Contrários à morte do rei
  3. c) Apoiadores do poder absoluto do rei //Opositores do poder real.

4. Ao longo do século XIX e começo do XX, a Esquerda e Direita:

  1. a) Conservaram suas posições políticas sem qualquer alteração significativa
  2. b) Inverteram suas posições políticas: a esquerda ficou conservadora e a direita revolucionária
  3. c) Passaram por alterações políticas conforme o contexto histórico.

5. No Brasil Imperial, os partidos políticos alinhados à Esquerda e à Direita foram, respectivamente:

  1. a) Partido Liberal // Partido Conservador
  2. b) Partido Republicano // Partido Imperial
  3. c) Partido Conservador // Partido Liberal.

6. Apesar de suas divergências, os Partidos Liberal e Conservador do Brasil tinham em comum:

  1. a) A defesa da abolição da escravidão.
  2. b) A defesa da República
  3. c) A defesa da propriedade e das hierarquias sociais.

7. A partir do século XX, Esquerda e Direita foram associadas a ideologias específicas e ganharam nuances políticas. De maneira geral, elas se dividem, respectivamente, em:

  1. a) Movimentos igualitários e libertários // Movimentos liberais e de igualdade perante a lei
  2. b) Movimentos constitucionais //Movimentos grevistas
  3. c) Movimentos liberais// Movimentos anarquistas.

8. A extrema esquerda e a extrema direita são tendências autoritárias que diferem, respectivamente, em:

  1. a) Economia capitalista // Economia socialista
  2. b) Economia neoliberal // Governo anarquista
  3. c) Comunismo // Nazi-fascismo.

9. No Brasil, durante o regime militar (1964-1984), Esquerda e Direita eram, respectivamente:

  1. a) Militares e civis favoráveis ao regime // Socialistas e comunistas
  2. b) Opositores do regime ditatorial // Apoiadores do governo
  3. c) Contrários à democratização // Favoráveis à democratização.

10. Hoje, no cenário político do Brasil, são bandeiras da Esquerda e da Direita respectivamente:

  1. a) Neoliberalismo e Estado mínimo // Economia solidária e Estado intervencionista
  2. b) Defesa da religião e da família tradicional // Igualdade de gênero e defesa dos movimentos sociais
  3. c) Investimento do governo em programas sociais // Redução de gastos com os setores públicos.

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manoel fernandes
manoel fernandes
2 anos atrás

Essa polarização só faz enfraquecer à democracia, e favorecendo assim, os “aproveitadores” é u vdd “prato cheio” p os políticos corruptos a se perpetuarem n poder.

Diego de L Avila
Diego de L Avila
2 anos atrás

Excelente Artigo!! Vem muito bem a calhar nesse mar de conflitos que o nosso País vem passando. Infelizmente ainda vemos muito disseminado a ideia de que direita e esquerda se relaciona com bem e mal. Sobretudo na minha área de formação, em história, vejo muitos colegas inundados de discursos fáceis e pouco refletidos, refletindo jargões que são capitaneados por nossa elite política. Continue esse excelente trabalho!!!

Joelza Ester
Joelza Ester
2 anos atrás

Bem colocado: o estereótipo “esquerda x direita” reduzido à luta do bem x mal só empobrece o debate político. Cabe perguntar: a quem interessa isso? Obrigada pela contribuição.

Bruno Sousa
2 anos atrás
Reply to  Joelza Ester

Interessa a todos que tentam, incessantemente, fugir da doutrinação comunista nas escolas públicas (propagada, em largas grandezas e proporções descomedidamente grandes, pelo MEC) que coloca tal guerra como uma ocorrência sem orientação intelectualmente racional (sem sentido), contudo, na veracidade oculta, era uma luta exorbitantemente brutal entre a fome coletivista e a prosperidade individualista.

_Edu_cação
2 anos atrás

Excelente artigo, professora! Muito esclarecedor, pautado na evolução histórica dos termos e com fontes confiáveis.

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