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O espetáculo da morte em 4 capelas sinistras na Europa

20 de outubro de 2017

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As igrejas sempre foram consideradas pelos fiéis como o espaço ideal para o sepultamento por acreditarem que ali, junto aos santos, teriam mais chance de salvação no Juízo Final. Reis, imperadores, nobres e cavaleiros destinaram bens à Igreja para garantir serem sepultados no adro ou junto aos altares.

Com o tempo, criou-se um sério problema com a falta de espaço para os enterramentos.  A situação era ainda mais grave nas crises de epidemias e fome além das guerras intermitentes que, desde a Idade Média assolaram a Europa matando milhares de pessoas em pouco tempo.

Por isso, havia momentos que era necessário exumar os cadáveres para abrir espaço para outros defuntos. Restava outro problema: o que fazer com tantos esqueletos? Uma das soluções foi expô-los fora das covas usando-os como material decorativo para cobrir paredes, tetos e colunas. Assim, milhares de crânios, tíbias, vértebras, fêmures foram arranjados de forma criativa transformando-se em arcos, candelabros, lustres, vasos, brasões.

A decoração macabra servia para alertar os fiéis da transitoriedade da vida, como cantou o poeta medieval Helinando de Froidmont, do século XII:

A morte nos faz cair em seu alçapão,/ É uma mão que nos agarra

E nunca mais nos solta./ A morte para todos faz capa escura,

E faz da terra uma toalha./ Sem distinção ela nos serve,

Põe os segredos a descoberto, / A morte liberta o escravo,

A morte submete rei e papa / E paga a cada um seu salário,

E devolve ao pobre o que ele perde / E toma do rico o que ele abocanha.

Helinando de Froidmont. Os Versos da Morte. São Paulo: Editora Imaginário, 1996

Há capelas-ossários em diversos países europeus (Áustria, Espanha, Irlanda, Itália, Portugal, Polônia, República Tcheca) das quais selecionamos as quatro mais famosas pelo tamanho e profusão decorativa.

1. Capela de Sedlec, República Tcheca

Recoberta por ossos humanos que decoram paredes, lustres, vasos, colunas e móveis, a espantosa capela-ossário de Sedlec está no subsolo da Igreja de Todos os Santos, em Sedlec, na República Tcheca.

Há séculos, o mosteiro cisterciense de Sedlec, na atual República Tcheca, foi um grande cemitério. Tinha fama de lugar santo pois contava-se que o abade Henrique ao retornar da Palestina, em 1278, lançara, no local, punhados de terra que ele trouxera do Gólgata ou Calvário, a colina na qual Jesus foi crucificado. O cemitério tornou-se, então, local desejado por muitos cristãos para serem enterrados.

Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas foram sepultadas no cemitério de Sedlec somente durante a Peste Negra, no século XIV. Em 1415, milhares de pessoas ali foram enterradas, vítimas das Guerras Hussitas (seguidores de Jan Hus condenado como herege pela Igreja).

No século XV, uma igreja gótica e uma capela subterrânea foram construídas no local o que obrigou a exumação dos esqueletos enterrados. Conta-se que a tarefa de remover e guardar os ossos foi atribuída a um monge cego que empilhou milhares de esqueletos na capela de Sedlec.

Em 1870, a família Schwarzenberg, proprietária da igreja, contratou um entalhador de madeira para colocar em ordem as pilhas de ossos. Ele transformou 40 mil esqueletos (há quem diga que são 70 mil) em espantosas criações artísticas, produzindo colunas, móveis, lustres, cálices de ossos.

Guirlandas de crânios contornam a abóboda, quatro pilhas de ossos ocupam os cantos da capela de Sedlec. Há, até mesmo, uma réplica do brasão da família Schwarzenberg feita com ossos.

Lustre, capela de Sedlec

Lustre feito de ossos, capela de Sedlec, República Tcheca

Brasão, capela de Sedlec

Brasão da família Schwarzenberg, proprietária da igreja. Capela de Sedlec, República Tcheca.

Detalhe do brasão, capela de Sedlec

Detalhe do brasão. Capela de Sedlec, República Tcheca.

Colunas de crânios, capela de Sedlec

Colunas de crânios, capela de Sedlec, República Tcheca.

2. Cripta dos Capuchinhos, Itália

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Capuchinhos, em Roma, Itália, construída em 1626, reserva uma surpresa macabra no subsolo: uma cripta decorada com ossos de mais de 4000 monges que morreram  entre 1500 e 1870.

A cripta (ou ossário) está dividida em cinco capelas mal iluminadas e cheirando a mofo.  Ali então alguns cadáveres mumificados, esqueletos ainda intactos, vestidos com os trajes franciscanos. A maior parte deles, contudo, foi desmembrada e seus ossos utilizados na composição de elaboradas obras de arte entre cruzes, brasões, coroas e estrelas.

Os frades da ordem frequentavam o local todas as noites onde rezavam antes de se retirarem para dormir.

Uma placa em uma das capelas declara, em três línguas, que “O que você é agora, nós já fomos; o que somos agora, você será”.

Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

Teto da Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

Cripta dos Capuchinhos, Roma, Itália

 3. Capela dos Ossos, Portugal

A Capela dos Ossos, situada na Igreja de São Francisco, em Évora, Portugal, tem no portão um aviso sinistro: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Uma mensagem que lembra a todos a transitoriedade da vida.

Os ossos, na verdade, são mais do que decoração. Eles fazem parte da estrutura da capela, mantidos graças ao uso de cimento. Foram usados mais de 5 mil esqueletos para erguer a capela, construída no século XVII, época da Contra-Reforma em que a Igreja Católica se valeu de um cenário dramático nas igrejas para convencer os fiéis.

A capela, construída no local do primitivo dormitório dos frades, é formada por 3 naves de 18,70 m de comprimento e 11m de largura, entrando a luz por três pequenas frestas do lado esquerdo.

As paredes, teto e os oito pilares estão decorados com ossos e crânios ligados por cimento. Há, ainda dois esqueletos inteiros pendurados por correntes em uma das paredes, sendo um deles, o de uma criança.

Além da capela de Évora, há outras cinco capelas de ossos em Portugal: em Alcantarilha, Faro, Lagos, Campo Maior e Monforte.

Inscrição da Capela dos Ossos, Évora, Portugal

“Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, inscrição na entrada da Capela dos Ossos, em Évora, Portugal.

Capela dos Ossos, Évora, Portugal

Esqueletos pendurados, o menor (ao fundo) é de uma criança. Capela dos Ossos, Évora, Portugal.

4. Capela dos Crânios, Polônia

A Capela dos Crânios, no vilarejo de Czermna, na Polônia, expõe os ossos das vítimas da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), das Guerras Silesianas (1740-1763) e também dos mortos nas epidemias de cólera, peste, sífilis e de fome que assolaram a região em diferentes épocas.

Foi construída em 1776 pelo padre paroquial tcheco Wacław Tomaszek que, inspirado pela Cripta dos Capuchnhos durante sua peregrinação a Roma, passou a colecionar ossos dos mortos, limpando-os e colocando-os na capela durante os anos que serviu no local (1776–1794).

As paredes da pequena capela barroca estão hoje tomadas por mais de três mil crânios, além de ossos de outras 21 000 pessoas enterradas no porão. As caveiras dos fundadores da capela, incluindo a do padre Tomaszek, foram depositadas no centro do edifício e no altar-mor em 1804. No interior, um crucifixo e duas esculturas de anjos, um dos quais traz a inscrição, em latim, “Levanta-te dos mortos!”.

Teto da capela de Czermna, Polônia

Teto da capela de Czermna, Polônia

Porão da capela de Czermna, Polônia

O porão da capela de Czermna, Polônia, guarda 21.000 esqueletos.

apela de Czermna, Polônia

Altar recoberto de ossos, capela de Czermna, Polônia

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