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“Doutor Jivago”: obra usada pela CIA como propaganda anticomunista

27 de fevereiro de 2015

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Doutor Jivago, lançado em 1965, foi um fenômeno de bilheteria no mundo todo. O filme ganhou cinco Oscar e a música “Tema de Lara” tornou-se um clássico. Dirigido pelo cineasta britânico David Lean,  ganhador de 28 prêmios do Oscar e conhecido por dirigir épicos do cinema como Oliver Twist (1948),  A ponte do rio Kwai (1957), Lawrence da Arábia (1962), A filha de Ryan (1970) e  Passagem para a Índia (1984),

O filme baseou-se na obra homônima do poeta e romancista russo Boris Pasternak (1890-1960), que por ela ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1958. O drama romântico se passa nos primeiros anos da Revolução Russa de 1917 e narra a história de um burguês médio que se apaixona pela mulher de um líder soviético.

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Dr. Jivago (Osmar Sharif) é um médico e poeta que inicialmente apoia a Revolução Russa, mas aos poucos se desilude com o socialismo e se divide entre dois amores: a esposa Tonya (Geraldine Chaplin) e Lara (Julie Christie).

Produzido em plena Guerra Fria, Doutor Jivago  serviu de propaganda anticomunista por mostrar os horrores da revolução bolchevista que lançou o povo russo à pobreza e miséria e o sujeitou  à frieza e autoritarismo dos líderes revolucionários.

Jivago_10cassacos atacam manifestantes

Reconstituição artística da Revolução Bolchevista de 1917 no filme.

A publicação e premiação de uma obra russa no Ocidente naquele período e, ainda mais, que fora proibida em seu país de origem, sempre causaram estranheza.  Foi somente a partir de 2009, quando os arquivos da Academia Sueca, responsável pelos Prêmios Nobel, puderam ser abertos (50 anos após a atribuição do prêmio), que essa história começou a ser revelada ao mundo.

Descobriu-se então que a CIA contribuiu para que o prêmio fosse dado a Pasternak mandando imprimir a primeira versão russa do romance Doutor Jivago. Sem isso, a indicação de Pasternak não teria sido possível  pois o comitê do Nobel apenas avalia obras no idioma original.

Pasternak não tinha nada a ver com a CIA. Sua genialidade foi simplesmente usada como uma poderosa arma na Guerra Fria entre o Ocidente e o Oriente. O escritor russo começou a escrever seu lendário romance em 1946 e levou dez anos para concluí-lo. Ao terminá-lo, ficou inseguro se devia publicá-lo pois a obra contrariava as normas ditadas pelo governo soviético para a literatura.

Decidiu apresentá-la ao editor da revista literária Novy Mir. Ao mesmo tempo, entregou uma versão datilografada para o jornalista italiano Sergio D ‘Angelo que a entregou a Giangiacomo Feltrinelli, um jovem e ambicioso editor de Milão, membro do Partido Comunista Italiano.  Outras duas cópias foram entregues a dois visitantes estrangeiros – o ensaísta e filósofo britânico Isaiah Berlin, e a francesa Hélène Peltier, especialista em estudos eslavos. A decisão de Pasternak era arriscada e poderia levá-lo à detenção em um campo de trabalho forçado na Sibéria.

A CIA descobriu sobre o romance de Pasternak e entendeu as vantagens políticas que poderia ter com a publicação de um romance que fora proibido na Rússia. Conta-se que ela interceptou o  avião que transportava um passageiro com uma cópia do romance. Obrigou o avião aterrissar no aeroporto de Malta, no Mediterrâneo. Enquanto os passageiros irritados eram levados para sala de embarque do aeroporto, agentes da CIA encontraram a mala com o texto e fotografaram página por página. Colocaram o texto de volta na mala, e duas horas mais tarde, a aeronave estava no ar novamente. O proprietário da mala sequer imaginava o que tinha acontecido com sua bagagem.

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Dr. Jivago (Osmar Sharif) e Lara Antipova (Julie Christie) formam o par romântico em “Doutor Jivago”, 1965.

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O rigoroso inverno russo compõe as cenas mais dramáticas do filme.

A essas alturas, a KGB descobriu que o romance de Pasternak tinha sido levado para o exterior. A revista Novy Mir rejeitou a novela e repreendeu o escritor pelas críticas ao regime comunista feitas na obra; a KGB e o Comitê Central do Partido Comunista Soviético exerceram forte pressão sobre a editora de Milão, através do Partido Comunista Italiano, mas Feltrinelli publicou o romance e rompeu com o partido.

Em 23 de Novembro de 1957, o romance foi lançado na Itália e superou todas as expectativas. A primeira edição de 12 mil exemplares foi vendida em poucos dias. Tornou-se mundialmente famoso e foi traduzido para o inglês, alemão e francês. Na primavera de 1958, Albert Camus indicou Pasternak para o Prêmio Nobel.

No entanto, sob as regras do Comitê de Nobel, a obra tinha que ser avaliada no original. Aqui a versão copiada pelos agentes da CIA veio a calhar. A CIA patrocinou a publicação urgente do romance em russo e tratou de encobrir todos os vestígios do roubo.

A Academia Sueca não tinha mais obstáculos para a concessão do prêmio a Pasternak em 23 de outubro de 1958. Pasternak enviou um telegrama respondendo: “Imensamente grato, emocionado, orgulhoso, atônito e envergonhado.”

Ele esperava viajar a Estocolmo para receber o Prêmio Nobel das mãos do rei, mas as autoridades soviéticas ameaçaram prender a mulher que ele amava, Olga Ivinskaya. Pressionado, Pasternak recusou o Prêmio Nobel e foi obrigado a devolver a honraria.

A operação da CIA foi um sucesso. Para a União Soviética foi um golpe que expôs ao Ocidente sua política ditatorial. Pasternak abriu caminho para toda uma série de publicações antissoviéticas que foram coroadas com o sensacional Arquipélago Gulag do dissidente Alexander Solzhenitsyn, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1970.

A proibição da publicação de Doutor Jivago na União Soviética vigorou até 1989, quando a política de abertura de Mikhail Gorbatchev liberou a publicação da obra. Somente neste ano, os russos puderam conhecer a saga de Jivago. O filme, porém, só foi exibido na Rússia em 1994

Triller do filme

Doutor Jivago (Doctor Zhivago). Direção de David Lean. Estados Unidos, 1965. Assista ao filme completo aqui.

Uma boa análise do filmes foi feita por Marcelo Juris (veja aqui) para o blog da extinta Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUP).

 

 

 

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Wilson Ferreira de Souza
Wilson Ferreira de Souza
5 anos atrás

A minha eterna cuiriosidade e que até agora ninguem a satisfez,é o acesso ao Poema que deu título e origem do sucesso absoluto deste Épico,ou seja ,o “Poema de Tema de Lara”,criado pelo Personagem Yuri naquela madrugada congelada…
Tudo já foi dito e esmiuçado,porém,este mistério poético permanece…

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