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Dia Internacional da Mulher, mitos e verdade na escolha da data

9 de março de 2015

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A escolha do dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher estabelecido pela ONU, em 1975, é motivo de muita controvérsia. Há  quem remonte ao assassinato de Hipátia, matemática e filósofa romano-egípcia, ocorrido no dia 8 de março do ano 415. Mas a data é mera coincidência.

Outros afirmam que a data foi proposta pela alemã Clara Zetkin, militante comunista, no II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas, realizado em Copenhague (Dinamarca), em 1910. Mas Clara Zetkin  lançou somente a ideia de um Dia internacional da Mulher sem, contudo, definir uma data precisa.

Na verdade, o Dia Internacional da Mulher nasceu no bojo da luta pelos direitos dos trabalhadores que vinha ocorrendo desde o século XIX. As greves por melhores condições de trabalho foram, pouco a pouco, dando consciência às mulheres da exploração que sofriam, das longas horas de trabalho sem descanso, sob precárias condições de higiene , do assédio sexual a que eram submetidas pelos chefes de departamento.

Por muito tempo, a data foi associada a dois fatos ocorridos nos Estados Unidos:  o trágico incêndio de uma fábrica têxtil, em 1911, durante uma greve em Nova York, na qual morreram 146 operárias (o número é questionável), e a grande greve de 1912, em Massachusetts, na qual foi morta a bala a operária Anna LoPizzo. Explicamos ambos acontecimentos a seguir.

A data também é associada à greve das trabalhadoras de tecelagens de Petrogrado, na Rússia, ocorrida em 08 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano). O movimento desdobra-se em um levantamento popular que, sob o lema “Paz, Terra e Pão”, coloca-se contra a monarquia czarista e a favor da saída do país da Primeira Guerra Mundial. A data entrou para a história como prenúncio da Revolução Bolchevique e foi posteriormente escolhida como Dia Internacional da Mulher.

Seja como for, o Dia Internacional da Mulher não pode ser desvinculado do movimento pelos direitos dos trabalhadores e da luta pelos direitos políticos das mulheres.

O incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist, 1911

Na verdade, o incêndio da fábrica de blusas femininas Triangle Shirtwaist, de Nova York, ocorrido em 25 de março de 1911, foi acidental e não estava associado a qualquer greve. Nele morreram 123 mulheres e 23 homens por queimaduras, inalação de fumaça e desmoronamento. Outras fontes, contudo, apontam um número menor de mortos: 108, 120 125 ou 129.

Seja que número for, a maioria das vítimas tinha entre 14 e 23 anos de idade, eram mulheres imigrantes da Itália e países da Europa Oriental. A tragédia se deveu a impossibilidade de sair do edifício em chamas pois os responsáveis haviam trancado todas as portas de saídas, uma prática comum durante o horário de expediente.

O desastre da fábrica Triangle Shirtwaist levou o Congresso americano a estabelecer normas de segurança e de saúde laboral e industrial e serviu de estímulo para a criação do Sindicato Internacional das Mulheres Trabalhadoras (International Ladies’ Garment Workers’ Union) que passou a lutar por melhores condições de trabalho das operárias têxteis. Mas a tragédia não motivou a criação do Dia Internacional da Mulher que, nos Estados Unidos, só foi oficializado oito décadas depois.

Bombeiros tentam apagar o fogo da fábrica

Bombeiros tentam apagar o fogo da fábrica que ocupava o 8º, 9º e 10º andares de um edifício em Nova York.

Identificação das vítimas

Identificação das vítimas do incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist.

A grande greve do “Pão e Rosas”, 1912

Falou-se também que o Dia Internacional da Mulher deveu-se à grande greve iniciada em janeiro de 1912, no estado de Massachusetts. Cerca de 20 mil trabalhadoras da indústria têxtil pararam a cidade norte-americana de Lawrence por quase dois meses e meio. Surpreendeu o fato de mulheres e crianças, em sua maioria imigrantes submetidas a péssimas condições de trabalho, conseguissem organizar um protesto de tamanha proporção.

A greve foi contra a redução de salários imposta pelos patrões com a vigência de uma nova lei, em  Massachusetts, que reduzia a jornada de trabalho de 56 para 52 horas por semana.

Durante a greve surgiu o slogan “Pão e Rosas” em alusão a melhores salários e qualidade de vida.

No dia 29 de janeiro de 1912, durante o confronto entre grevistas e policiais, a operária Anna LoPizzo, de 34 anos, foi morta por uma bala. Apesar de várias testemunhas apontarem o policial Oscar Benoit como autor do disparo, três sindicalistas foram responsabilizados pelo assassinato acusados de incitar o crime de conspiração.

O slogan "Pão e rosas"

O slogan “Pão e rosas” tornou-se um grito de guerra das mulheres trabalhadoras.

Dias depois, um grupo de mulheres italianas, em protesto, atacaram um policial em uma ponte. Tomaram sua arma e identificações, tiraram-lhe as calças e o jogaram no rio gelado. O episódio humilhante levou o chefe do distrito policial de Lawrence afirmar: “Um policial pode lidar com 10 homens, mas é preciso 10 policiais para lidar com uma mulher”.

A greve terminou em março de 1912 com o atendimento das reivindicações dos grevistas. Com o tempo, contudo, os trabalhadores perderam todos os direitos que haviam conquistado. É discutível, também, se a data da greve tenha servido de referência para o Dia Internacional da Mulher.

Grevistas Pão e Rosa

Os grevistas mandaram seus filhos para famílias de Nova York que apoiavam o movimento. Com isso conseguiram reduzir os custos de manutenção da greve e ganharam a simpatia do público e apoio financeiro.

Cronologia do Dia Internacional da Mulher

O Dia Internacional da Mulher não foi criado a partir de um fato único, mas do conjunto de vários acontecimentos que expressavam a luta das mulheres por direitos e melhores condições de trabalho. Tem-se, assim, a seguinte cronologia:

  • 1908, 3 de maio:  a organização Mulheres Socialistas celebra o Dia da Mulher em Chicago, Estados Unidos.
  • 1909, 28 de fevereiro:  as Mulheres Socialistas do Partido Socialista dos Estados Unidos organizam, em Nova York, o Dia Nacional da Mulher, em homenagem à greve das operárias têxteis de 1908.
  • 1910: a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrida em Copenhague, propõe a criação de um Dia Internacional da Mulher sem contudo, estipular uma data específica. Durante o congresso defendeu-se a luta pela igualdade de direitos e pelo sufrágio universal a todas a mulheres.
  • 1910, dezembro: fundação do Partido Republicano Feminino, no Rio de Janeiro, por Leolinda de Figueiredo Daltro com o objetivo mobilizar as mulheres na luta pelo direito de voto.
  • 1911: primeira celebração do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora na Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suíça, posteriormente estendido a outros países.
  • 1914: primeira celebração oficial do Dia Internacional da Mulher na Alemanha, Suécia e Rússia quando se levantou a bandeira pela paz, pouco meses antes de eclodir a Primeira Guerra Mundial.
  • 1917: no dia 08 de março (23 de fevereiro no calendário Juliano), trabalhadoras de tecelagens de Petrogrado, na Rússia,  entram em greve e reivindicam a ajuda dos metalúrgicos. Era o prenúncio da Revolução Bolchevique.
  • 1922: a China celebra pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher.
  • 1936: primeira celebração do Dia Internacional da Mulher na Espanha.
  • 1975: a Assembleia Geral da ONU declara o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher
  • 1977: a Assembleia Geral da ONU amplia o significado da data que passa a ser Dia Internacional dos Direitos da Mulher e da Paz Internacional. Desde então, vários países oficializaram este dia dentro de seus calendários nacionais.
  • 1994: os Estados Unidos reconhecem o Dia Internacional da Mulher acatando a reivindicação de Beata Pozniak, uma atriz e ativista imigrante da Polônia.

Filme de referência

Pao e rosas_filmePão e Rosas (Bread and Roses). Direção de Ken Loach, 2000. Coprodução do Reino Unido, França, Espanha, Alemanha e Suécia. Veja o filme completo aqui.

O filme se passa em Los Angeles, onde imigrantes mexicanos ilegais trabalham no turno da noite em um edifício de escritórios, por salários humilhantes. Eles não têm assistência médica, nenhuma proteção trabalhista e ainda suportam um patrão abusivo.

Em meio aos trabalhadores explorados e endividados estão as irmãs Maya e Rosa, duas imigrantes mexicanas que trabalham como faxineiras. Suas vidas se cruzam com Sam, um ativista americano que luta pelos direitos dos oprimidos. Sam faz Maya e Rosa abraçarem a sua causa e lutarem contra os próprios patrões, o que acaba pondo em risco o emprego, a família e o direito de permanência das duas moças em território americano.

História em quadrinho

Pão e rosas_HQ_completoPão e Rosas, desenhado e roteirizado por Hector Lima e Mario Cau.

Narra a greve de Lawrence, de 1912, a partir do depoimento de Camella Teoli, uma grevista que já sofrera um grave acidente de trabalho. As informações dadas por Carmella conduzem a um flashback que ganha intensidade com o desenrolar com acontecimentos. R

 

 

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