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Desmundo, o Brasil do séc. XVI

27 de fevereiro de 2015

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desmundo-1Baseado no livro homônimo de Ana Miranda, o filme “Desmundo” narra a história das órfãs portuguesas que, em 1570, foram enviadas ao Brasil para se casarem  com os colonizadores. Sob o apoio da Igreja, o Estado português pretendia que os colonos tivessem casamentos  “brancos e cristãos”  reduzindo, assim, o nascimento de crianças mestiças oriundas das relações com índias e negras.

A personagem Oribela (Simone Spoladore) é uma das órfãs portuguesa enviadas ao Brasil para o casamento forçado. Obrigada a casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), é levada para seu engenho de açúcar onde é violentada pelo marido. Tenta fugir, embarcar para um navio e voltar a Portugal, mas é recapturada por Francisco que a acorrenta em um pequeno galpão. Ali ela só conta com a ajuda de uma índia que lhe leva comida e aplica plantas medicinais em seus ferimentos.

Quando ela sai de seu cativeiro, continua determinada em fugir, até que numa noite, ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão-novo que morava na região. Mantêm-se escondida  no estabelecimento do cristão-novo até ser descoberta pelo marido.

Novamente capturada, Oribela retorna à casa de Francisco. Passado algum tempo, Oribela dá à luz a uma criança, deixando-se em dúvida quem seria seu pai.

O drama vivido pela personagem faz compreender o título do filme: a colônia, longe de ser o paraíso imaginado pelos primeiros colonizadores e nem mesmo uma reprodução do Reino, transformou-se num “desmundo”, isto é, um “não-mundo”, termo aportuguesado do latim.

A mulher no Brasil colonial

Desmundo-4No filme “Desmundo”, além de Oribela, dona Branca (Berta Zemel), dona Brites (Beatriz Segall) e outras personagens femininas  traduzem a condição da mulher no Brasil Colonial.

Segundo os costumes da época, quando uma jovem perdia o pai, ficava sob a tutela do Estado português que se tornava responsável pelo seu futuro. Enviar órfãs para desposar colonos era uma prática comum e foi adotada em outras colônias, como, por exemplo, em Goa, na Índia, como forma de preservar a “pureza” da elite branca de origem portuguesa.

A mulher vivia, então, submetida às leis do Estado e da Igreja sob o fundamento de que o homem era superior e, portanto, cabia a ele exercer a autoridade. A mulher devia submissão total ao homem seja ele o pai, o marido, o irmão ou um tio. Sua educação era voltada exclusivamente para os afazeres domésticos. Aprendia a cozinhar, fiar, tecer, bordar. O aprendizado da leitura e da escrita, quando ocorria, limitava-se ao mínimo restringindo-se ao funcionamento do futuro lar: ler, escrever, contar para redigir uma receita, um bilhete, uma lista de produtos etc.

Casava-se menina ainda, com 12 anos completos ou até mais cedo. O matrimônio era decidido pelo pai e este ficava muito apreensivo quando a menina de 14 ou 15 anos ainda não se casara, ou pior, se sequer conseguira marido para ela. O noivo era, em geral, um homem bem mais velho, de trinta, sessenta até setenta anos. O ato sexual não se destinava ao prazer (especialmente para a mulher), mas à procriação de filhos. A relação sexual era marcada pela violência, quase um estupro, como bem mostra o filme.

Desmundo-3 O filme insinua uma relação incestuosa entre mãe e filho, pelos diálogos entre dona Branca e Francisco de Albuquerque e pela presença da menina excepcional sem que haja referência ao seu pai. Pode-se supor que a criança fosse filha de Francisco de Albuquerque, gerada de uma relação com a própria mãe.

 

Sociedade colonial

desmundo-2Chamados de “brasis”, os índios são escravizados pelos colonos. Os jesuítas reclamam da falta de batismo dos nativos. Em suas visitas frequentes à casa de Francisco, o padre acusa que, na fazenda dele, existem mais de dez brasis sem receber catequese. Ao final, o padre leva alguns meninos índios  para torná-los cristãos, deixando-se no ar a suspeita de que, na verdade, pretendia usá-los como mãos de obra escrava.

O cristão-novo, judeu convertido ao catolicismo, é um elemento dúbio no filme. Apesar de sua presença necessária, é visto com desconfiança pelos demais colonos e, as vezes, até com repulsa.

O filme “Desmundo” faz uma reconstituição rigorosa do Brasil do século  XVI no vestuário, mobiliário, costumes e inclusive na língua. Inteiramente falado em português arcaico (que todo elenco teve que aprender), o filme traz legendas para ajudar na compreensão. A tradução inversa (para o português arcaico) foi feita pelo professor Helder Ferreira, da USP.

Interessante observar que as falas de índios e escravos não tem tradução, o que permite ao espectador imaginar a pluralidade de linguagens existente na colônia e a dificuldade de comunicação entre os diversos grupos sociais.

Explorando os temas abordados pelo filme Desmudo

O filme “Desmundo” é riquíssimo no aspecto didático, ele poderá ser utilizado para enfocar temas específicos e polêmicos da História Colonial, bem como auxiliar no sentido interdisciplinar, já que envolve outros temas que poderão ser trabalhados em outras disciplinas.

Diversos temas poderão ser extraídos do filme “Desmundo”, tais como:

  • A religiosidade no Brasil colonial
  • A situação da mulher na sociedade portuguesa do séc. XV
  • O conceito de matrimônio
  • O cotidiano no Brasil colonial: costumes, habitações, condições de higiene
  • Conflitos entre a Igreja e os colonos na questão indígena
  • Relações comerciais na colônia
  • Relações sociais na colônia: colonos, índios, padres, cristãos-novos
desmundo_capa video - Cópia

Desmundo, capa do DVD.

Desmundo. Direção de Alain Fresnot. Brasil, 2003.

Veja o filme completo aqui.

Em uma entrevista, a Profª. Drª. Márcia Eckert Miranda, da Unisinos (RS) analisou a representação dos índios e da mulher no filme. Confira aqui.

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JRBelardo
5 anos atrás

O que mais deixa perplexidade e, que, a ´´mulher´´ o que é mais importante para um homem, naquela época e, em alguns casos nos dias de hoje, é vista como objeto de procriação, servidão.

Simone de Sousa Bastos
Simone de Sousa Bastos
5 anos atrás

Amei o filme.

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[…] Baseado no livro homônimo de Ana Miranda, narra a história das órfãs portuguesas que, em 1570, foram enviadas ao Brasil para se casarem com os colonizadores. Inteiramente falado em português arcaico, o filme é apresentado com legendas para ajudar na compreensão. Veja análise do filme aqui. […]

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