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Deir el-Medina, a vila operária do Egito Antigo

8 de agosto de 2015

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Quem construiu os túmulos do Vale dos Reis e das Rainhas? Quem decorou suas paredes? Quem confeccionou as preciosas peças deixadas junto às múmias? Esses trabalhadores e artistas não eram escravos como se supõem e o talento de muitos deles foi reconhecido ainda em vida pelos faraós e nobres que os contrataram.

Enquanto o mundo surpreendia-se com a descoberta do túmulo de Tuntacâmon, por Howard Carter, em 1922, outra equipe de arqueólogos realizava uma descoberta ainda mais importante: a aldeia de Deir el-Medina, na margem oeste do rio Nilo, próxima ao Vale dos Reis, em Luxor.

O nome Deir el-Medina (“Mosteiro da cidade”, em árabe) foi dado na época cristã e advém de uma igreja cristã construída no local. No passado, o lugar era chamado Set Maat, “lugar da verdade” e seus moradores eram artesãos altamente qualificados que trabalhavam nos templos e túmulos de faraós, rainhas e nobres, construídos a pouca distância. Ali vivia uma população mista de egípcios, núbios e asiáticos empregados como escultores, pedreiros, pintores, estucadores, marceneiros bem como aqueles envolvidos na administração nas obras no Vale dos Reis e Vale das Rainhas. Por isso, Deir el-Medina foi batizado pelos arqueólogos de Vale dos Artesãos.

A vila floresceu entre a 18ª e 20ª dinastia, durante o Novo Império (1550-1070 a.C.). No seu auge, ocupou uma área total de 5.600m2 e era composta por sessenta e oito casas cujos tamanhos variavam. Em geral, todas dispunham de quatro a cinco cômodos que compreendiam uma sala grande, duas salas menores, cozinha e escada que levava à laje superior usada para diversas atividades domésticas. Equipe de carregadores buscava água de um poço a 30 minutos a pé e mantinha a aldeia regularmente abastecida de água.

Vida cotidiana dos artesãos egípcios

objetos descoberta em Deir el-medina

Ferramentas descobertas em Deir el-Medina usadas pelos artesãos que moravam na vila.

A descoberta do Vale dos Artesãos mostrou outra faceta do Egito Antigo, para além dos faraós e seus feitos: ela revelou aspectos surpreendentes da vida cotidiana do povo egípcio.  Cartas pessoais que falavam de problemas familiares, amores, amizade, saúde e saudade. Registros de transações de vendas, de orações e encantamentos, pedidos de casamento e separações.

Os papiros nos dizem os nomes das pessoas comuns, alguns bem curtos como Ti, Abi, Tui, To.  Outros são longos formando uma frase inteira: “Djed-Ptah-iuf-ankh” que significa “Ptah diz que viverá”.

Há casos curiosos como o papiro escrito por Merymaat pedindo o divórcio por causa do comportamento de sua sogra. Ficamos sabendo também do costume de escravas jovens tornadas mães de aluguel no caso da esposa ser estéril; em troca, a escrava obtinha a liberdade.

Um rapaz apaixonado descreve sua amada: “Negros são seus cabelos, mais que o negro da noite, mais que as bagas do abrunheiro. Vermelho são seus lábios, mais que o grão do jaspe vermelho, mais que as tâmaras maduras. Os seios erguem-se firmes em seu peito”.

Os textos de Deir el-Medina mostram que ler e escrever não se limitava aos escribas e faraós. Pode-se supor que uma grande parte da população da vila era alfabetizada, incluindo as mulheres.

Benefícios aos trabalhadores

Trabalhavam-se oito dias seguidos e descansavam-se dois. Mas, a deduzir dos documentos encontrados no local, eram comuns as licenças por doença e razões familiares. Incluindo os feriados e as festas religiosas, mais de um terço do ano era tempo livre para os moradores da vila, pelo menos no reinado de Merneptah (c. 1213-1203 a.C.).

tumba de Sennedjan

Tumba de Sennedjem, ricamente pintada. Vale dos Artesãos, Luxor, 1200 a.C.

Durante seus dias de folga, os operários podiam trabalhar em seus próprios túmulos. Sendo os melhores artesãos do Egito Antigo, seus túmulos apesar de pequenos, são considerados tão magníficos quanto os reais.  Um exemplo, é o túmulo de Sennedjem, inteiramente pintado com cenas em cores vivas que mostram o casal trabalhando na agricultura, às margens do Nilo, e em adoração aos deuses.

Os trabalhadores de Deir el-Medina eram remunerados pelo Estado recebendo cotas mensais de grãos. A moradia, a água e a moagem dos grãos eram fornecidas pelo Estado. Essas medidas garantiam a produtividade desses trabalhadores especializados.

A habilidade desses artesãos foi, em muitos momentos, reconhecida por aqueles que os contrataram. No túmulo de Amenemés, em Tebas, há uma imagem na qual o faraó oferece uma rica refeição a quatro homens que estão sentados em esteiras diante dele. Um é o desenhista Ahmés e outro, o escultor Meni. Artistas contemporâneos de Aquenáton, tais como Djehutimés e Huya, tornaram-se homens ricos e respeitados.

A análise dos documentos indica que, mesmo afastado por motivo de doença, o trabalhador continuava recebendo sua parte em grãos. Ele era atendido por um médico pago pelo Estado, que também fornecia o tratamento e os medicamentos para a rápida recuperação do trabalhador.

Um papiro de Deir el-Medina, relata que um operário chamado Merysekhmet, apesar de afastado por doença, voltou à obra no túmulo real mas foi incapaz de trabalhar. Ele retornou à vila onde permaneceu por dez dias até seu total restabelecimento. Durante esse tempo, ele foi assistido por um médico e recebeu sua cota de grãos.

Medicina no Antigo Egito

Papiro de Ebers, c. 1550 a.C.

Papiro de Ebers, c. 1550 a.C., cujo nome homenageia o monge alemão que o adquiriu em 1873. Biblioteca da Universidade de Leipzig.

A arqueóloga Anne Austin, da Universidade de Stanford, Califórnia, EUA, que atualmente lidera as escavações na vila de Deir el-Medina, tem-se dedicado a estudar a saúde do Antigo Egito a partir da análise de múmias e textos antigos.

Entre os registros médicos proveniente de Deir el-Medina, um deles é uma espécie de tratado de Medicina: o papiro Ebers. Com vinte metros de comprimento, contém mais de 800 tratamentos que cobrem problemas oculares a distúrbios digestivos.

No papiro há recomendações para fraturas, luxações e cirurgias, inclusive com uso do ópio como anestésico e de pontos para fechar as incisões. As receitas incluíam plantas, mel, alho, sementes de linho, óleos e outros produtos que deviam ser preparados e ministrados com fórmulas mágicas e astrológicas.

A análise dos corpos das múmias relevou práticas médicas surpreendentes. Muitas múmias possuíam dentes obturados e dentes frouxos amarrados com fios de ouro aos dentes sadios. Uma delas possuía uma prótese feita de madeira e couro no  dedão do pé direito amputado.

Prótese de madeira e couro para o dedo do pé direito amputado.

Prótese de madeira e couro para o dedo do pé direito amputado.

Imagem de dentes amarrados

Dentes amarrados com fios de ouro encontrado em uma múmia.

Decadência

A vida dos trabalhadores de Deir el-Medina começou a mudar com o colapso do Novo Império que levou à instabilidade econômica. No reinado de Ramsés III (c. 1170 a.C.), os pagamentos começaram a atrasar. Irritados, os trabalhadores largaram as ferramentas e abandonaram o trabalho, o que pode ter sido a primeira greve da História. Escreveram ao vizir reclamando que suas rações de trigo estavam atrasadas há 18 dias e que foram forçados a comprara seu próprio trigo. Os suprimentos de trigo foram restaurados e a greve foi suspensa.

A situação dos trabalhadores tornou-se novamente instável no governo seguinte, de Ramsés IV (c. 1155-1149 a.C.). Novas greves ocorreram mas, dessa vez, outros problemas se somaram como ameaças de ataques inimigos e a ação de ladrões de tumbas. Um dos casos mais famosos registrados refere-se a Paneb, filho de um capataz, acusado de saquear túmulos reais e de adultério. O resultado não é conhecido, mas os registros indicam que naquela ocasião foi executado um chefe de trabalhadores.

Finalmente, por volta de 1110-1080 a.C., Deir el-Medina foi abandonada devido a crescente ameaças de ataques líbios e à instabilidade da guerra civil. Era, então, o reinado de Ramsés XI, cujo túmulo foi o último construído no Vale dos Reis,

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