A Carta de Pero Vaz de Caminha para trabalhar em sala de aula

17 de fevereiro de 2020

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Chamada por Capistrano de Abreu de “certidão de nascimento” do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha é considerada um dos documentos fundadores de nossa história. São 27 páginas manuscritas em papel e datadas de 1º de maio de 1.500 que registram as primeiras impressões e reações frente ao novo, ao exótico e diferente.

A carta é um diário de viagem que narra os dez dias que os portugueses passaram ao sul do litoral baiano depois de avistados os primeiros sinais de terra no dia 21 de abril: o achamento da terra, como escreve Caminha, no dia 22, o primeiro contato com os índios no dia 23, prosseguindo com as informações dia a dia até 1º de maio quando ocorreu a missa em terra firme.

No dia 2, logo ao nascer do sol, Cabral partiu de viagem em direção às Índias deixando na praia dois degredados além de dois grumetes que haviam fugido na noite anterior.

Os degradados

O degredo era uma pena, um castigo previsto para vários delitos. Degredar deriva de degradar, isto é, rebaixar. Equivalia ao desterro (exílio) ou a trabalhos forçados para o Rei, sobretudo nas galés.

Caminha informa o nome de um degredado – Afonso Ribeiro – condenado por “culpa de morte”, ou seja, acusado de ter cometido assassinato. O outro teria sido João de Thomar, sobre o qual nada se sabe.

A Carta relata que, por quatro vezes, os degredados foram mandados para terra com ordens de Cabral para que ali permanecessem e dormissem com os índios, para “saber de seu viver e das suas maneiras”. Os índios aceitavam os forasteiros mas, chegada a noite os devolviam aos portugueses deixando claro que não os queriam por lá.

Ao final, a esquadra zarpou deixando dois degredados em Porto Seguro além dos dois grumetes fugitivos sobre os quais nunca mais se teve notícia.

Segundo um registro de Valentim Fernandes (1450-1519), tabelião real, os dois degredados permaneceram vinte meses na terra e, ao regressarem, contaram tudo o que haviam aprendido no convívio com os índios. É provável, portanto, que eles tenham sido resgatados na expedição de Gonçalo Coelho, em 1501-1502.

Trabalhando a Carta em sala de aula

A Carta de Pero Vaz de Caminha está digitalizada e disponível na Internet. Sugerimos dois endereços para acessá-la:

  •  Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal. O portal permite visualizar a Carta, página por página e traz informações adicionais como tamanho, suporte, âmbito e conteúdo, condições de acesso, localização, idioma etc.
  • Biblioteca Digital, da Biblioteca Nacional, Lisboa, Portugal. O site traz, junto com a Carta original, a sua transcrição conforme a grafia original.
Penúltima pagina da Carta de Pero Vaz de Caminha.

Penúltima pagina da Carta de Pero Vaz de Caminha. No destaque em vermelho: “/ beijo as maãos de vosa alteza. / deste porto seguro da vosa jlha de vera cruz oje sesta feira primº dia demayo de 1500//

A leitura de um documento primário antigo não é tarefa fácil nem para os especialistas. Por isso, é importante apresentá-lo aos alunos. Se possível, faça os alunos verem a Carta nos sites indicados acima e observarem: a letra manuscrita (qual era o instrumento de escrita usado na época?), a grafia das palavras (a escrita tem uma história?), a quase ausência de pontuação, a inexistência de letras maiúsculas etc.

Comente sobre o trabalho do paleógrafo e a importância da Paleografia (o estudo de textos manuscritos antigos) como ciência auxiliar para a História, assim como os arquivos e a Arquivologia (ou Arquivística) para a preservação e restauração dos documentos. Cite exemplos de arquivos na cidade (públicos, particulares, das escolas, igrejas, delegacia etc.).

Observando o documento na Internet, faça uma análise crítica destacando o seguinte:

1. O documento em si

  • Tamanho, suporte, tipo de escrita, material utilizado.
  • Local onde está guardado.
  • Condições físicas do documento (se bem conservado ou não, se inteiro ou fragmentado).

2. Características do documento*

  • Estilo da caligrafia.
  • Grafia das palavras e a gramática.
  • Abreviações (usadas para escrever mais rápido e economizar papel).
  • Os números (no documento são usados algarismos romanos).

*Esses detalhes ajudam os paleógrafos a identificarem falsificações antigas ou mais recentes comparando com documentos autênticos.

3. Contexto histórico

  • Em que circunstâncias históricas foi produzido.
  • Data e local onde foi produzido.
  • Autoria: nome do autor e seu papel histórico.
  • Destinatário: para quem foi escrito.
  • Intenção do documento: relatar fatos, descrever um episódio, solicitar algo, denunciar etc.

O aluno paleógrafo

A atividade consiste em propor à turma a transcrição de fragmentos da Carta de Pero Vaz de Caminha. São 8 fragmentos da Carta (faça o download abaixo) em texto digitalizado mas mantendo a escrita original. O arquivo em download traz 2 versões para o trabalho em classe: uma com espaço em branco para o grupo preencher, e outra com a resposta.

Distribua um fragmento para cada grupo. Determine um tempo para os alunos fazerem a transcrição e depois distribua a página com as respostas. Reserve os 15-20 minutos finais para a classe comentar sobre as dificuldades de leitura e interpretação do documento, e o que mais estranharam.

Faça o download dos documentos aqui. Preencha os campos abaixo.

Fonte

  • Arquivos Nacionais, Torre do Tombo, Lisboa, Portugal.
  • Biblioteca Digital, da Biblioteca Nacional, Lisboa, Portugal
  • Carta de Pero Vaz de Caminha (documento integral). NUPILL – Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística.
  • CORTESÃO, Jaime (ed.). A carta de Pero Vaz de Caminha. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1943.
  • PRIORE, Mary del. Documentos históricos do Brasil. São Paulo: Panda Books, 2016.
  • VAINFAS, Ronaldo (dir.). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Para os alunos lerem

  • ASTURIANO, Poliana e MATIAS, Rodval. A carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: FTD, 1999. Trata-se de uma obra paradidática, para crianças, que traz o texto integral da Carta em linguagem atual, baseada na versão feita por Jaime Cortesão. As ilustrações são artísticas porém cuidadosas para manter a verossimilhança. É uma boa opção para os estudantes mais novos conhecerem a narrativa com uma apresentação primorosa e linguagem acessível.

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