A “canção de protesto”: a música contra a ditadura militar

6 de outubro de 2016

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As décadas de 1960 e 1970 ficaram marcadas pela chamada “canção de protesto”, escrita por dezenas de compositores, com diferentes tendências estético-políticas, mas tendo em comum os anseios de liberdade e democracia e uma feroz oposição à ditadura militar. Nesse artigo, vamos comentar sobre as canções de protesto produzidas na década de 1960 chegando até a mais ousada de todas: “Caminhando“, de Geraldo Vandré (1968), analisada no final.

A canção de protesto

As canções de protesto contra a ditadura militar eram canções de combate social e, ao mesmo tempo, de forte apelo emotivo-romântico. Suas letras criticavam a situação miserável e a exploração sofrida pelos excluídos do campo e da cidade: sertanejos, pescadores, vaqueiros, operários e favelados. Denunciavam as estruturas fundiárias e o cotidiano dos pobres dos centros urbanos. A canção de protesto foi, também, um marco na história musical do país consolidando um estilo chamado MPB.

Entre seus maiores compositores estão: Carlos Lyra, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré e Chico Buarque de Holanda. A inspiração vinha das ideias divulgadas pelos Centros Populares de Cultura (CPC), pelo Teatro de Arena e pelos debates promovidos pela União Nacional dos Estudantes (UNE) nas universidades.

Os temas das canções pretendiam ser revolucionários pois tinham a intenção de provocar o ouvinte, despertando-o para a resistência contra a ditadura militar e a luta pela liberdade. Buscavam, ainda, sensibilizar ou conscientizar o público, setores das classes médias, sobre a pobreza e a miséria reinantes no Brasil. Para isso, seus intérpretes usavam de gestos, canto grandiloquente e até trechos recitados de forte impacto teatral.

Veja os exemplos abaixo.

“Carcará” (1964), de João do Valle e José Cândido

A canção fazia parte do show Opinião (Rio de Janeiro, 1964) que trazia canções escritas por Zé Keti, Edu Lobo, Carlos Lyra, João do Valle, Heitor dos Prazeres, Ary Toledo, Sérgio Ricardo, Vinícius de Moraes entre outros. Sua letra exalta a coragem e a determinação para vencer a fome e a rudeza do sertão. A música incluía a declamação de um texto, extraído de um relatório da Sudene, sobre a migração dos nordestinos expulsos de suas terras pela seca e fome. Carcará deu sucesso imediato à jovem desconhecida Maria Bethânia, então com 18 anos de idade, cuja expressiva interpretação marcou para sempre essa canção.  O fragmento abaixo é da gravação de 1965, pela RCA.

Maria Bethânia no show Opinião.

Maria Bethânia substituiu Nara Leão no show Opinião. Sua interpretação de “Carcará” impressionou o público e a projetou nacionalmente.

Carcará é malvado, é valentão / É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá / Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará / Pega, mata e come / Carcará
Num vai morrer de fome / Carcará
Mais coragem do que homem / Carcará, pega, mata e come

Opinião”(1964), de Zé Keti

Canção-tema do espetáculo Opinião (Rio de Janeiro, 1964) para o qual foi composta, era uma crítica ao governo estadual do Rio de Janeiro que desejava retirar as favelas do morro. Porém, o sucesso da música, na voz de Nara Leão, foi tão grande que acabou se tornando a fala política do sambista do morro e seu protesto contra a ditadura militar. O samba Opinião inspirou os nomes de um jornal, de um teatro, do segundo elepê de Nara Leão, lançado no final de 1964. O fragmento abaixo, na voz de Zé Keti, foi gravado em 1970.

Zé Keti no show Opinião

Zé Keti, Nara Leão, João do Vale no show Opinião.

Podem me prender / Podem me bater

Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião.

Daqui do morro / Eu não saio, não

Se não tem água / Eu furo um poço

Se não tem carne / Eu compro um osso

E ponho na sopa / E deixa andar (repete)

Fale de mim quem quiser falar / Aqui eu não pago aluguel/

Se eu morrer amanhã, seu doutor / Estou pertinho do céu.

“Upa, neguinho” (1965), de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri

A canção era, originalmente, um segmento da peça Arena conta Zumbi (1965), de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. A letra mescla inocência e violência na infância da criança negra escravizada com a esperança de liberdade – elementos que ganharam contornos de protesto no contexto da ditadura militar recém implantada no país. A música tornou-se um sucesso imediato na interpretação de Elis Regina e foi gravada, pela primeira vez, em 1966, no álbum Dois na Bossa n.2, da gravadora Philips.

Capa do disco, Elis Regina

Capa do disco, lançado em 1968, na França, após o sucesso de Elis Regina no II Festival “Miden” em Cannes. “Upa Neguinho”, com Elis e o Bossa Jazz Trio, foi gravada ao vivo durante a apresentação.

Upa, neguinho na estrada / upa, pra lá e pra cá

Virge, que coisa mais linda! / Upa neguinho começando a andar.

Começando a andar / Começando a andar

E já começa a apanhar.

Cresce, neguinho, me abraça / Cresce e me ensina a cantar

Eu vim de tanta desgraça / Mas muito de posso ensinar:

Capoeira, posso ensinar / Ziquizira, posso tirar

Valentia, posso emprestar / mas liberdade só posso esperar

Os festivais de música no Brasil

As canções de protestos contra a ditadura militar ganharam maior projeção nacional com os festivais de canção transmitidos pela televisão (TV Excelsior, TV Record e TV Globo). Nesses festivais, os cantores e compositores apresentavam-se para uma plateia formada, em grande parte, por estudantes que participava com entusiasmo. Faixas de apoio aos artistas preferidos, vaias, gritos e torcidas organizadas eram comuns em todas as fases de seleção.

No palco dos festivais desfilaram uma grande quantidade de ritmos e estilos, de toadas ufanistas até músicas experimentais. Algumas músicas misturavam bossa nova, pop, rock e cancioneiro tradicional.

Os festivais projetaram os nomes de Elis Regina, Marília Medalha, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Nara Leão, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Jorge Ben, Jair Rodrigues, Carlos Lyra, Rita Lee (na época, integrante da banda Os Mutantes) entre outros.

Os principais festivais daqueles anos foram:

I Festival da Música Popular Brasileira (1965), TV Excelsior (São Paulo/Rio de Janeiro). 1º lugar: “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, cantada por Elis Regina.

Festival Nacional de Música Popular (1966), TV Excelsior (São Paulo/Rio de Janeiro). 1º lugar: “Porta Estandarte”, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, interpretada por Tuca.

II Festival da Música Popular Brasileira (1966), TV Record de São Paulo.1º lugar: empate entre “A Banda”, de Chico Buarque, cantada por Nara Leão, e “Disparada”, de Téo de Barros e Geraldo Vandré, cantada por Jair Rodrigues

III Festival da Música Popular Brasileira (1967), TV Record de São Paulo. Foi o mais disputado de todos os festivais pela excelência das músicas classificadas, algumas com ousadas inovações de ritmo e arranjos. Foi tamanha a participação da plateia que acabou causando um episódio violento: o compositor Sérgio Ricardo atirou um violão na plateia quando não conseguiu, pelo excesso de vaias, cantar sua música “Beto bom de bola”.

  • 1º lugar: “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, cantada por Marília Medalha.
  • 2º lugar: “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil com apoio da banda Os Mutantes.
  • 3º lugar: “Roda Viva”, de Chico Buarque, cantada por ele com o grupo MPB 4.
  • 4º lugar: “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, cantada por ele e acompanhada pelo grupo de rock Beat Boys.

III Festival Internacional da Canção (1968), TV Globo do Rio de Janeiro. Na final paulista, a música “É proibido proibir”, de Caetano Veloso acompanhado pela banda Os Mutantes foi recebida com furiosa vaia pelo público que lotava o auditório. O discurso inflamado de Caetano Veloso com plateia ficou registrado em seu disco. Na final do concurso, a canção vitoriosa “Sabiá”, de Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque, foi rejeitada pelo público que preferiu a segunda colocada, “Pra não dizer que não falei das flores” (“Caminhando”), de Geraldo Vandré.

Pra não dizer que não falei das flores”: a canção que desafiou a ditadura militar

Diante de uma plateia que lotava no Maracanãzinho, no III Festival Internacional da Canção (Rio de Janeiro, 1968), Geraldo Vandré apresentou-se sozinho, acompanhado apenas de um violão para cantar “Caminhando” ou “Pra não dizer que não falei das flores”. Uma melodia simples, despojada de arranjos, mas com uma letra revolucionária que, imediatamente, conquistou o público. Ganhou o segundo lugar, mas a plateia não aceitou o resultado do júri e transformou “Caminhando” na grande vencedora popular e no hino contra a ditadura militar.

O sucesso fulminante da canção seria, porém, logo interrompido pela censura. O general Luís de França Oliveira, secretário de Segurança da Guanabara justificou a sua proibição dizendo que a canção “tem letra subversiva e sua cadência é do tipo Mao-Tsé-Tung”.

Perseguido, Geraldo Vandré foi obrigado a exilar-se. Regressou ao Brasil em 1973, mas continuou sendo vigiado pelos militares o que o levou a se afastar da vida artística.

Geraldo Vandré cantando "Caminhando".

Geraldo Vandré cantando “Caminhando”no Maracanãzinho, 1968. Para o público foi a canção vitoriosa do III Festival Internacional da Canção.

Caminhando e cantando e seguindo a canção (1)

Somos todos iguais, braços dados ou não (2)

Nas escolas, nas ruas, campos, construções (3)

Caminhando e cantando e seguindo a canção.

Vem, vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora não espera acontecer (bis)  (4)

Pelos campos a fome em grandes plantações (5)

Pelas ruas marchando indecisos cordões

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão

E acreditam nas flores vencendo o canhão. (6)

Vem, vamos embora que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora não espera acontecer (bis)

Há soldados armados, amados ou não

Quase todos perdidos de arma na mão (7)

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição

De morrer pela pátria e viver sem razão. (8)

Caminhando”: análise dos versos

A letra de “Caminhando” foi compreendida de imediato pelos jovens. Ela fazia referência ao movimento estudantil que então tomava as ruas das grandes cidades e que recrudesceu com o assassinato do estudante Edson Luís de Lima Júnior pela polícia, em conflito no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro (28 de março de 1968). Em junho, realizou-se a Passeata dos Cem Mil contra a ditadura militar, no Rio de Janeiro. Em 31 de dezembro, foi decretado o Ato Institucional no.5 (AI-5), que fechava o Congresso, suspendia as liberdades individuais e dava poderes excepcionais ao presidente da República. Começava a fase mais dura do regime militar. É à luz desse contexto que os versos de “Caminhando” são analisados abaixo:

  1. Menção às passeatas que reuniam jovens gritando lemas ou entoando hinos e músicas.
  2.  Alusão à igualdade entre as pessoas, tenham ou não as mesmas ideias.
  3.  Referência à variada composição das passeatas onde se juntavam estudantes, jornalistas, operários, intelectuais, religiosos, artista entre outros.
  4. O refrão conclama as pessoas a se mexerem, a não silenciarem e a fazerem a mudança necessária.
  5.  Referência à exploração latifundiária e à falta de uma reforma agrária  responsáveis por uma situação paradoxal: o lavrador passava fome rodeado de grandes plantações.
  6. Nova menção às passeatas mostradas, agora, como um movimento pacifista (simbolizado pela flor) contra violência da repressão militar e das guerras.
  7. Referência ao estado de alerta dos militares, sempre armados, prontos para o combate mesmo sem saber direito o que estava acontecendo.
  8. Alusão à disciplina dos quartéis que exige total obediência dos soldados sem contestação, uma vida sem anseios nem razão.

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Cláudia Regina Viana Moura
Cláudia Regina Viana Moura
2 anos atrás

Gosto muito das suas publicações! Com a sua permissão, faço uma pequena correção com relação ao título da canção de Geraldo Vandré que, na verdade é “Pra não dizer que não falei das flores” e não “Caminhando”. ☺️

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