Calendário gregoriano: o tempo decretado pelo papa

6 de outubro de 2018

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Os portugueses, espanhóis e romanos que dormiram na noite de quinta-feira, 4 de outubro de 1582, acordaram na manhã seguinte, sexta-feira, no dia 15 de outubro. Dez dias haviam desaparecido do calendário. A razão de tal anomalia foi a reforma decretada pelo papa Gregório XIII que decidiu abolir os dez dias seguintes a 4 de outubro de 1582 para corrigir  os erros do calendário juliano que era utilizado em toda Europa desde Roma Antiga. Entrava em vigor o calendário gregoriano, hoje preponderante em quase todo mundo.

Marcar o tempo era uma tarefa para astrônomos e matemáticos uma vez que a duração do ano não é exatamente 365 dias, mas sim 365,2564 isto é, 365 dias 6 horas 9 minutos e 13 segundos. Este é o ano sideral, que corresponde ao período de revolução da Terra em torno do Sol.

Se for considerado o ano tropical que corresponde a esse mesmo período porém em relação ao equinócio de primavera (hemisfério norte), a conta é outra: o ano tem 365,2422, isto é, 365 dias 5 horas 48 minutos e 46 segundos. O ano tropical, portanto, é levemente menor do que o ano sideral. O calendário gregoriano baseou-se no ano tropical para determinar os anos bissextos acrescentando 1 dia a mais a cada quatro anos para manter o calendário anual ajustado com a translação da Terra e as estações do ano. Assim 2016 foi um ano bissexto e o próximo será 2020.

Devido a essas durações “quebradas” do ano em dias, horas, minutos e segundos, ao longo do tempo iam se acumulando defasagens na marcação dos calendários. As estações do ano já não correspondiam aos seus meses, o que criava um sério problema para as economias agrárias. Isso já havia sido observado por Júlio César no século I a.C.

Calendário juliano: dezesseis séculos em uso

Os romanos antigos tinham um calendário civil de tipo lunissolar (baseado na Lua e no Sol) de 355 dias dividido em 10 meses. Para manter o calendário alinhado com o ano solar adicionava-se um mês extra, de dois em dois anos, tornando irregular a sequência do anos – 355, 377, 355, 378 dias etc – e que ainda dependia de ajustes. Tais imprecisões levaram a anomalias no calendário romano que chegou a três meses de diferença em relação ao ano astronômico (solar), de tal modo que os meses de inverno caíam no outono e o equinócio da primavera ocorria no inverno.

Competia a Júlio César, no cargo de pontífice máximo, a tarefa de inserir o mês extra e manter a sincronia com as estações do ano. A conselho do astrônomo alexandrino Sosígenes, em 46 a.C. foi feita uma grande reforma do calendário que entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 45 a.C.

O calendário juliano aboliu o ano lunar e baseou-se inteiramente no Sol. Foi decretado que o ano 46 a.C. seria prolongado em 445 dias (90 dias a mais!) e receberia dois meses ao final do ano. Os demais anos, a partir de 45 a.C. teriam 365 dias distribuídos em 12 meses. Introduziu o ano bissexto de 336 dias de quatro em quatro anos.

Estabeleceu que os meses alternariam entre 30 e 31 dias, exceto fevereiro, que teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30. Os dias de cada mês ficaram assim distribuídos:

Calendário juliano original.

Calendário juliano original. Os dias dos meses alternavam-se em 31 e 30 dias, com exceção de fevereiro, com 29 dias. No ano bissexto, fevereiro recebia mais um dia, ficando, portanto, com 30 dias.

Em 44 a.C., poucos meses depois da morte de Júlio César, o senado romano mudou o nome do mês Quintilis para Julius (julho) em sua homenagem, por ser o mês em que tinha nascido.

Em 8 a.C., houve uma nova alteração: em homenagem ao imperador Augusto, seu nome foi dado ao mês Sextilis que passou a se chamar Augustus (agosto), atribuindo-lhe o mesmo número de dias do mês Julius, em homenagem a Júlio César, seu tio-avô assassinado. Assim, um dia foi tirado de fevereiro e transferido para agosto. Para evitar a ocorrência sucessiva de três meses de 31 dias, setembro e novembro passaram a ter 30 dias, outubro e dezembro, 31 dias.

calendario juliano 8a.C.

Em 8 a.C. o calendário juliano sofreu duas alterações: o oitavo mês passou a se chamar “Augustus” e ficou com 31 dias, igual ao mês anterior. Os meses seguintes tiveram suas durações modificadas. Assim permaneceu até hoje, passados mais de 2.000 anos.

Originalmente o calendário romano começava na primavera, no dia 1º de março, o que explica os nomes dados aos meses de setembro (7º), outubro (8º) , novembro (9º) e dezembro (10º).

A partir de 153 a.C., os cônsules, que eram eleitos por um ano, tomavam posse em 1º de janeiro – e os romanos passaram, então, a considerar esse dia como o início do ano. Mais tarde, essa escolha foi considerada pagã pela Igreja cristã, por causa das festividades tradicionalmente associadas à data. A Igreja adotou a Anunciação como primeiro dia do ano, estabelecendo o dia 25 de março, nove meses antes do Natal.

Defasagem do calendário

O calendário juliano também ficou defasado. No século IV, por ocasião do Primeiro Concílio de Niceia, o equinócio da primavera ocorria no dia 21 de março. Nove século depois, no XIII, os cálculos da medida no ano solar indicavam que o equinócio de primavera ocorria vários dias antes. No século XVI, quando foi feita a reforma gregoriana, o equinócio retrocedera para 11 de março. A Páscoa que deveria ser celebrada no primeiro domingo depois da lua cheia da primavera (por volta de 21 de março), ocorria a intervalos cada vez maiores após a lua cheia.

Uma nova reforma do calendário foi necessária.

Calendario juliano, Alemanha, c. 1400.

Calendário juliano indicando, para cada mês, o signo do zodíaco, luz do sol e trabalho agrícola do momento, Alemanha, c. 1400.

Calendário gregoriano: em uso há quatro séculos

Para trazer o equinócio para o dia 21 de março, o papa Gregório XIII, reuniu um grupo de estudiosos onde se destacavam o jesuíta alemão Christopher Clavius, sábio e matemático, o dominicano italiano Ignazio Danti, astrônomo e cartógrafo, e o médico italiano Luigi Giglio, médico, astrônomo e cronologista.

As mudanças introduzidas pelo grupo foram impostas com vigor: a impressão dos calendários passou a depender da autorização expressa da Igreja sob pena de perda de contratos, pagamento de multa e, inclusive, risco de excomunhão.

Foram abolidos dez dias do calendário juliano, deixando de existir os dias de 5 a 14 de outubro de 1582. Ordenou-se que o dia 5 de outubro fosse designado 15 de outubro (mês escolhido por conter o menor número de dias santos e outros dias eclesiásticos especiais).

Corrigiu-se a medição do ano solar em 365 dias 5 horas 49 minutos e 12 segundos.

Decretou-se que o ano começaria em 1º de janeiro, e não mais em 25 de março, dia da Anunciação.

Tumba do papa Gregório XIII

Detalhe da tumba do papa Gregório XIII celebrando a introdução do calendário gregoriano.

Os primeiros países a adotarem o calendário gregoriano foram Portugal, Espanha, Polônia e os Estados italianos. Ao longo de três séculos, os demais países católicos adotaram o novo calendário. Nos países protestantes e anglicanos generalizou-se o sentimento de que, por meio do calendário, o papa estava buscando reconquistar o domínio sobre a cristandade e, por isso, eles relutaram em deixar o antigo calendário juliano.

Havia, entretanto astrônomos protestantes – notadamente o dinamarquês Tycho Brahe e o alemão Kepler – que aprovaram a reforma gregoriana, apesar de criticarem Clavius pela falta de rigor científico em seus cálculos. Ainda assim, os Estados protestantes mantiveram sua oposição até 1700, quando a maioria decidiu adotar o calendário gregoriano.

A Inglaterra, País de Gales e Irlanda que preferem “ficar em desacordo com o sol em vez de concordar com o papa”, só adotaram o calendário gregoriano em 1752. A China e o Japão aprovaram-no em 1912, a Bulgária em 1916, a Rússia em 1918, a Romênia em 1919, a Grécia em 1923 e a Turquia em 1926.

Calendario sueco de 1712

Páginas de um almanaque sueco de 1712, quando a Suécia ainda utilizava o calendário juliano. O gregoriano só foi adotado em 1753. No canto superior esquerdo lê-se “Februarius” e na última linha da página direita, o dia 30 do mês. O ano de 1712, foi um ano bissexto e, portanto, acrescentou-se um dia ao mês de fevereiro.

A dificuldade em sincronizar e marcar datas

Facilmente surgem confusões quando tentamos comparar datas entre 1582 e 1752 quando ambos calendários estavam em uso na Europa. É o caso do falecimento de William Shakespeare e Miguel de Cervantes que ocorreu no mesmo dia, 23 de abril de 1616. Mas, na Inglaterra onde estava em vigor o calendário juliano, Shakespeare morreu no dia 3 de maio de 1616, enquanto que Cervantes, na Espanha, morreu em 23 de abril de 1616, segundo o calendário gregoriano.

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Os Tratados de Utrechet de 1712-1713 têm datas diferentes dependendo de se tratar de um historiador britânico ou de um historiador espanhol ou francês.

As datas de fatos históricos ocorridos nos países que mantiveram o calendário juliano sempre precisam de uma explicação adicional para não causar confusão. Neste caso, os historiadores costumam datar os eventos de acordo com o calendário em vigor no país. Assim, as duas revoluções russas de 1917 – a Revolução de Fevereiro e a Revolução de Outubro – recebem essa denominação segundo o calendário juliano, mas elas ocorreram em março e em novembro, respectivamente, no calendário gregoriano.

Em 1792, durante a Revolução Francesa, a Convenção Nacional aboliu o calendário gregoriano por sua excessiva conexão religiosa. Para simbolizar o fim do antigo regime e o início de uma nova era na história da França foi adotado um calendário anticlerical baseado nos ciclos da natureza. O ano começava no equinócio de outono (22 de setembro, no hemisfério norte), data da proclamação da República francesa. Os nomes dos meses eram alusivos às condições climáticas e ao ciclo agrícola francês. Os dias, em vez de nomes santos do calendário gregoriano, receberam nomes de flores, frutas, animais, instrumentos agrícolas, pedras etc.

Brumário

Brumário ou mês das brumas, das neblinas correspondia ao período de 22 de outubro a 20 novembro no calendário revolucionário francês. Foi no 18 Brumário do ano VIII (9 de novembro de 1799) que Napoleão Bonaparte tomou o governo da França.

O calendário revolucionário francês foi abolido em 31 de dezembro de 1805 quando Napoleão Bonaparte ordenou o restabelecimento do calendário gregoriano.

Os mosteiros ortodoxos do Monte Atos, na Grécia, até hoje recusam o calendário gregoriano. Quase todos os mosteiros daquela região continuam usando o calendário juliano, que está atualmente 13 dias atrasado em relação ao gregoriano. Além disso, um dos mosteiros ainda conta as horas do dia a partir das 12h considerada o nascer do Sol. Nos demais locais, segue-se o antigo sistema turco, em que 12h é o pôr do sol.

Calendário agrícola de Pietro de Crescenzi

Calendário juliano da Idade Média em que cada mês é associado a um trabalho agrícola. Tratado de Agronomia (“Ruralium commodorum opus”), 1459, cópia do original de Pietro de Crescenzi, de 1305, desaparecido, Chanttilly, França.

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jose divino barbosa da silva
jose divino barbosa da silva
2 anos atrás

nossa gostei muito da explicaçao, ja tinha assistido sobre a mudança das datas e o ano bissexto no programa (espaçonave terra). obrigado

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