Brilha uma luz na pesquisa arqueológica

29 de julho de 2015

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Uma tecnologia está revolucionando a pesquisa arqueológica reduzindo o tempo de prospecção e escavação em décadas! Trata-se do LIDAR (abreviatura do inglês Light Detection And Ranging, “Detecção de Luz e Extensão”), um radar que utiliza pulsos de luz (600 mil pulsos por segundo) e mapeia um local com fotos aéreas; os resultados obtidos são filtrados por um software que revela, em imagens 3D, a topografia existente abaixo de uma cobertura vegetal. Conclusão: pode-se encontrar um sítio arqueológico – vestígios de um templo, palácio, sepultura ou monumento – encoberto pela vegetação.

ilustração do LIDAR

O LIDAR economiza tempo e recursos na pesquisa arqueológica

Surgido nos aos 1960 com a invenção do laser, o LIDAR tem sido constantemente aperfeiçoado e aplicado em situações diversas incluindo a arqueologia. Entre 2010 e 2014, o LIDAR mapeou uma extensa área no sul da Inglaterra, descobrindo 17 monumentos relacionados a Stonehenge cuja existência era completamente ignorada. As estruturaras estavam a sete metros de profundidade e foram identificadas sem necessidade de escavação e outros procedimentos que levariam anos ou décadas para serem concluídos.

Segundo Vince Gaffney, da Universidade de Birmingham, que liderou o projeto “Paisagens escondidas de Stonehenge”, o famoso monumento megalítico fazia parte de uma rica estrutura cerimonial composta por santuários, templos e sepulturas. Entre 4000 e 2.500 a.C., o homem neolítico ergueu esses monumentos que atraiam pessoas de todo país. Confira no vídeo abaixo

Veja aqui: tour virtual de Stonehenge feito a partir de imagens do LIDAR (vídeo publicado em 2007).

As descobertas mais surpreendentes com o uso do LIDAR estão acontecendo na Mesoamérica (em especial no México, Honduras, Belize e Guatemala) e no Camboja onde cidades inteiras engolidas pela densa floresta tropical estão sendo reveladas em três dimensões. A Amazônia também está sendo mapeada pelo LIDAR e os resultados são impressionantes.

Angamuco, a cidade dos purepechas no México

Sitio arqueológico em Michoacán, México.

Descoberta de sítio arqueológico em Michoacán, México, com o uso do LIDAR. Jornal Reforma, suplemento Cultura, 19/04/2010.

Em 2007 começaram as pesquisas em busca dos vestígios dos Purepechas (conhecidos como Tarascans ou Tarascos pelos espanhóis) em Angamuco, no estado mexicano de Michoacán. A cultura purepecha floresceu entre 1100 e 1530 d.C. e foi feroz inimiga dos astecas sem nunca ter sido conquistada por eles. Em 2010, o sítio arqueológico foi identificado e marcado. Por dois anos, os arqueólogos trabalharam em uma pequena área de 2 km2.

 Em 2013, foi aplicada a tecnologia do LIDAR no sítio arqueológico mapeando 13 km2 em apenas 45 minutos (veja vídeo abaixo). A cidade dos Purepechas ocupava quase toda essa área onde foram identificados mais de 20 mil características arquitetônicas. Pelas imagens do LIDAR pode-se avaliar que se tratava de uma cidade altamente organizada e complexa com uma população muito maior do que a pesquisa anterior na região havia sugerido. Sobre uma enorme plataforma central erguiam-se cinco pirâmides escalonadas que deviam formar o centro religioso e administrativo da cidade.

Veja aqui: animação com imagens do LIDAR de Angamuco com e sem vegetação (publicado em 2013).

Caracol, cidade maia de Belize

Caracol foi uma cidade maia, erguida em plena selva tropical, na atual Belize. Foi ocupada entre 600 a.C. e 900 d.C. por uma população estimada em 115 mil pessoas. É considerado o maior sítio arqueológico das planícies sul da área maia na América Central.

Praça cerimonial de Caracol.

Praça cerimonial de Caracol.

Durante 25 anos, dezenas de arqueólogos literalmente se debruçaram sobre Caracol e seus arredores, limpando o terreno com pás e pincéis em uma área de 14,5 km2. Tratando-se de uma região de floresta fechada com árvores gigantescas, a dificuldade é enxergar até mesmo grandes pirâmides que podem ficar encobertas pela vegetação e escaparem das fotografias aéreas.

Em 2010, uma equipe de cientistas Universidade de Houston e da Universidade da Califórnia, com financiamento da NASA, utilizou a tecnologia do LIDAR para mapear Caracol e arredores. Os resultados foram surpreendentes. Em apenas cinco dias, o LIDAR mapeou 129 km2 de terreno revelando que os arqueólogos só haviam descoberto 10% da cidade original. Um mapa tridimensional mostrou templos, casas, estradas, reservatórios, terraços agrícolas, cavernas e até túmulos abertos e saqueados.

A Ciudad Blanca, de Honduras

Em 1526, o conquistador Hernán Cortés relatou ao rei Carlos V que os mexicas falavam de uma cidade inteiramente construída de pedra branca e comparável em riqueza e grandeza a Tenochtitán, a capital asteca. Nascia a lenda da  Ciudad Blanc, às vezes referida como a cidade perdida do Deus Macaco, e que teria existido em algum ponto da montanhosa floresta de Mosquitia, de 51,5 km2, entre Honduras e Nicarágua. Mosquitia é uma das mais densas e inóspitas florestas do mundo, povoada por serpentes venenosas, plantas urticantes e insetos transmissores de malária, dengue, Chagas e outras doença – condições tão perigosas que tornam o trabalho arqueológico uma missão impossível.

No século XIX, aventureiros europeus e norte-americanos procuraram pela cidade atravessando selvas, montanhas, rios e cataratas. Em 1940, Theodore Morde jurou ter encontrada a Ciudad Blanc e sua façanha foi relatada pelo Times, de Nova York em uma descrição repleta de aventura e coragem. Morde mostrou milhares de artefatos supostamente recolhidos no local.  O aventureiro prometeu retornar para iniciar a escavação, mas morreu em 1954 sem revelar o local exato.

Imagem de Honduras

Floresta de Mosquitia, Honduras.

A lenda da Ciudad Blanc incorporou-se ao imaginário hondurenho tornando-se tema recorrente nas escolas e imprensa.  Em 1960, o governo de Honduras criou Reserva Arqueológica Ciudad Blanca, uma área de 3,2 mil km2 no interior da inexplorada floresta de Mosquitia. Em 1980, a Unesco nomeou a área de Reserva da Biosfera do Rio Plátano e, dois anos depois, declarou-a patrimônio mundial da humanidade.

As pesquisas foram retomadas com financiamento de universidades norte-americanas. Calculou-se a existência de cinco grandes sítios arqueológicos na reserva. Para muitos especialistas, contudo, a cidade perdida seria, na verdade, um elemento do imaginário hondurenho, uma lenda associada à “idade de ouro”, uma era de prosperidade e autonomia para sempre perdidas.

Em 2010, o documentarista Steve Elkins, maravilhado com os relatos da descoberta de Caracol, em Belize, procurou a mesma equipe para mapear a floresta de Mosquitia, em Honduras. Convenceu Ramesh Shrestha e William Carter, diretores do NCALM (National Center for Airborne Laser Mapping, da Universidade de Houston) e especialistas na tecnologia LIDAR a embarcarem na aventura de descobrir a Ciudad Blanca. Muitos acharam loucura dar ouvidos a um documentarista que pretendia executar um trabalho sem a presença de pesquisadores acadêmicos.

Elkins tinha a intenção de fazer um levantamento de toda reserva de Mosquitia, mas diante do custo de milhões de dólares, reduziu a área de pesquisa para cerca de 80 km2, o que  mesmo assim lhe custou quase 500 mil dólares. Para levantar o dinheiro necessário, Elkins procurou o cineasta Bill Beneson que, na época, estava terminando um documentário sobre o povo hadza da Tanzânia, na África Oriental.

Finalmente, em maio de 2012, Steve Elkins e Bill Beneson sobrevoaram a região a bordo de um Cessna 337 Skymaster levando a bordo um equipamento LIDAR. As ruínas foram identificadas: templos, pirâmides, quadras de bola e praças. Em seguida, uma expedição de arqueólogos confirmou “no chão” todas as características mostradas nas imagens LIDAR. Não era a descoberta de uma cidade perdida, mas uma nova civilização, ainda desconhecida pelos pesquisadores. Um povo que construía edifícios semelhantes aos maias mas usando técnicas e materiais diferentes como barro e pedras de rio no lugar de rochas talhadas.

 Os geoglifos da floresta Amazônia

Em fevereiro de 2015, um drone levando um aparelho LIDAR mapeou a Amazônia brasileira procurando evidências de ocupações humanas anteriores à chegada aos europeus. Uma equipe internacional liderada pelo arqueólogo José Iriarte, da Universidade de Exeter, Inglaterra, localizou, em locais onde a floresta foi derrubada, mais de 450 geoglifos de padrões geométricos. São círculos de barro, quadrados e linhas de significado ainda desconhecido mas que são prova de um comportamento coletivo. Acredita-se que existam muitos outros geoglifos escondidos abaixo da vegetação.

Amazonia geoglifos

Geoglifos fotografados pelo LIDAR na Amazônia

As imagens do LIDAR jogaram por terra as teses dos pesquisadores sobre a ocupação da Amazônia. Afirma-se então que a floresta era um obstáculo e que fora habitada unicamente por pequenos grupos de caçadores-coletores e agricultores seminômades que causaram um impacto mínimo sobre o meio ambiente e, portanto, que a floresta que vemos hoje permanece intocada há milhares de anos.

As descobertas sugerem, contudo, que que a Amazônia teria sido habitada por sociedades mais complexas e hierárquicas do que se supunha e que elas tiveram um grande impacto sobre o meio ambiente. A floresta que hoje conhecemos pode ser resultado de intensa manipulação humana no passado. Isso forneceria lições preciosas para as políticas de manejo e uso sustentável da biodiversidade amazônica.

 Conclusão

O LIDAR permite fazer em poucos dias o trabalho de dezenas de anos. Essa tecnologia está trazendo ao mundo parte da história que se desconhecia ou se conhecia de forma errada. Os arqueólogos estão revendo seus estudos e análises sobre os povos das florestas. As dificuldades de escavação em selvas fechadas levaram-nos a subestimar as realizações e o engenho dos povos antigos. Afirmava-se, então, que as cidades maias erguidas nas planícies com vegetação esparsa eram maiores do que as construídas nas áreas de florestas tropicais. Por conseguinte, generalizou-se a ideia que grupos humanos antigos eram incapazes de criar assentamentos grandes e sustentáveis ​​nos trópicos que, além disso, tinham solo pobre demais para suportar grandes populações.

Foto tridimensional do LIDAR da área de Caracol, Belize

Foto tridimensional do LIDAR da área de Caracol, Belize

Percebe-se, agora, que essa conclusão se baseava em investigações incompletas. Pode-se agora avaliar a dimensão das cidades, estimar quantas pessoas viviam nelas e o quanto interferiram na paisagem natural. A floresta de Mosquitia, em Honduras, que hoje parece inóspita, em tempos pré-colombianos foi, provavelmente, um vasto jardim interligando assentamentos humanos e com cultivos diversos – cenário muito diferente da monocultura atual. A floresta amazônica que se suponha intocada por milhares de anos talvez tenha tido grandes campos agrícolas.

O LIDAR tornou-se uma ferramenta chave para a arqueologia podendo detectar estruturas variadas como edifícios, restos de estradas, terraços agrícolas, aquedutos, cavernas, cercas e até mesmo as fronteiras entre bairros antigos. No entanto, esse tipo de tecnologia não funcionar tão bem em áreas urbanas onde fios e encanamentos  dificultam a leitura das informações. Para este tipo de trabalho, os arqueólogos ainda precisam de suas tradicionais picaretas, pás e espátulas.

Outras aplicações do LIDAR já estão em uso há tempos. A polícia o utiliza para marcar a velocidade de veículos no trânsito; meteorologistas  o empregam para examinar camadas da atmosfera e pesquisar concentrações de poluição atmosférica; a NASA o aplica no dispositivo de pouso da Estação Espacial; para os militares, ele serve para fornecer informações detalhadas do terreno onde se deslocam as tropas.

FONTE (clique no título para ler a matéria).

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Paulo Desiderio
Paulo Desiderio
5 anos atrás

Ótimo texto, muito rico e esclarecedor!! Acabei de conhecer seu espaço e achei fantástico!! Parabéns e muito obrigado!!

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