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Bloqueio Continental: um tiro no pé de Napoleão Bonaparte

19 de novembro de 2019

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Em 21 de novembro de 1806, Napoleão Bonaparte emitiu o Decreto de Berlim que pôs em vigor um embargo em grande escala contra o comércio britânico, conhecido como Bloqueio Continental. O decreto proibia a importação de mercadorias britânicas por qualquer país europeu, aliado ou dependente da França. Todas as conexões com a Grã-Bretanha foram cortadas, até mesmo o correio. O objetivo desse embargo em escala continental era arruinar a economia britânica. A medida que foi mantida – não sem grandes dificuldades – até 1814, teve resultados contraditórios.

A guerra de bloqueios

A Grã-Bretanha já havia imposto um bloqueio naval às cidades portuárias francesas em 1793. A França respondeu, em 1796, proibindo a importação de mercadorias britânicas em todo país. O bloqueio de 1806 estendeu-a à Europa como resultado das vitórias militares de Napoleão. Contribuiu para isso a derrota francesa na batalha naval de Trafalgar, em 21 de outubro de 1805.

Não podendo vencer militarmente a Grã-Bretanha, a opção restante para Napoleão era derrotar os britânicos economicamente. Cerca de 1/3 da exportação britânica era destinada à Europa continental.

A Grã-Bretanha, por sua vez, dependia das importações de grãos dos Estados Bálticos e da Rússia o que incluía a madeira para sua indústria naval. Com o bloqueio continental, as importações britânicas passaram a vir principalmente do Canadá.

O Decreto de Milão, de 1807, estendeu o bloqueio a todos navios – independentes da bandeira sob a qual navegavam – que tivessem aportado na Grã-Bretanha ou se submetessem aos controles britânicos. Eles seriam confiscados imediatamente incluindo as mercadorias a bordo.

O Bloqueio Continental provocou tensões com os Estados Unidos de onde vinham produtos tropicais como algodão, café e açúcar. Napoleão respondeu com os decretos de 1810 (Saint-Cloud e Trianon) determinando que, sob certas condições, era permitida a importação de bens coloniais da América mediante a compra de licenças por um alto valor pago ao estado francês (cerca de 40% a 50% dobre o valor das mercadorias transportadas).

Napoleão jogando xadrez com o rei Jorge, da Inglaterra

A guerra de bloqueios representada como um jogo de xadrez entre Napoleão Bonaparte e o rei Jorge III, da Inglaterra. Nessa caricatura francesa, o rei britânico está prestes a perder o jogo.

As dificuldades em manter o bloqueio

Depois do decreto de licenças para os Estados Unidos, a França viu-se forçada a emitir outros decretos similares para não causar um colapso no abastecimento europeu e também como medida para deter o contrabando que desviava uma fonte adicional de receitas.

Para controlar o bloqueio, Napoleão enviou 40 oficiais da alfândega francesa a estados ocupados ou neutros. Estabeleceu uma linha aduaneira a partir da Holanda até a costa norte da Alemanha. Tropas francesas também vigiavam os portos. Mercadorias britânicas apreendidas eram incineradas. Só no mês de novembro de 1810, ocorreram cinco fogueiras de manufaturados britânicos em Frankfurt.

A fiscalização francesa foi quase unicamente por terra. Depois da derrota de Trafalgar, a França não tinha mais uma frota suficientemente grande para “fechar” a vasta costa do continente.

A eficácia do Bloqueio Continental variou entre o norte e o sul da Europa. As tropas francesas no Mar do Norte e no Báltico conseguiram deter grande parte do contrabando.  No Mediterrâneo, porém, a situação foi diferente. Os britânicos contavam com seus portos de Malta e Gibraltar e, também, com as bases navais da Sardenha e Sicília para furar o bloqueio. Durante o Bloqueio Continental, esses pontos receberam um volume quatro vezes maior de mercadorias britânicas. A guerra de Napoleão contra a Espanha (1807-1814) abriu outro buraco no bloqueio.

Fiscalização contra o contrabando

Napoleão ordenou severa fiscalização contra os contrabandistas que furavam o bloqueio em diversos pontos da costa europeia (à direita). As mercadorias apreendidas eram queimadas (à esquerda).

Nova estratégia de Napoleão para manter o bloqueio

A partir de 1810, Napoleão flexibilizou o bloqueio permitindo um contrabando “controlado” visando arruinar a economia britânica. Abriu os portos franceses de Dunquerque e Gravelines, no norte do país, para contrabandistas ingleses que comprassem as licenças pagando em ouro. Eles também poderiam adquirir mercadorias francesas mediante pagamento em ouro.

O ouro trazido pelos contrabandistas ingleses serviu para financiar a onerosa campanha de Napoleão na Península Ibérica. Em Gravelines, até 300 contrabandistas compravam têxteis, vinhos e gim franceses.

 bloqueio continental, mapa

O bloqueio continental (linha vermelha) pretendia fechar os portos europeus ao comércio britânico. Contudo, o embargo francês foi rompido pelos britânicos em vários pontos da Europa (flechas vermelhas).

Efeitos do bloqueio no comércio

O Bloqueio Continental teve resultados contraditórios para o comércio. Nem todos os setores da economia foram afetados negativamente.

No Reino Unido, a importação de produtos coloniais permaneceu intocada, enquanto os entraves no fornecimento de têxteis e madeira não afetaram a produção industrial britânica. Apesar das exportações britânicas para o continente caírem entre 25% e 55% em comparação aos níveis anteriores a 1806, o expressivo aumento do comércio com o resto do mundo, cobriu grande parte das perdas britânicas na Europa.

Para a França, o bloqueio teve consequências diversas. O comércio colonial francês entrou em colapso com o bloqueio naval britânico devido a perda de acesso às colônias.  Por outro lado, sem a concorrência inglesa, a indústria francesa de algodão recuperou-se. Os países sob a esfera de influência francesa foram forçados a adquirir produtos franceses. Assim, a curto prazo, a França lucrou com o bloqueio continental.

As guerras napoleônicas, porém, endividaram os potenciais compradores e, portanto, a médio prazo, ocorreu o declínio nas vendas francesas o que contribuiu para o declínio do Império Francês.

O Bloqueio Continental estimulou a industrialização dos estados alemães, em especial, a indústria de algodão mecanizado na Saxônia e na Renânia, beneficiada com a perda da concorrência britânica. Entre 1806 e 1813, o número de fábricas de processamento de algodão na Saxônia aumentou vinte vezes. As indústrias de armamento e ferro também lucraram.

A falta de produtos leva a buscar outros

A redução de produtos coloniais na Europa, levou a adaptações e invenções. O café foi substituído por pó de chicória, o açúcar de cana pelo de beterraba, e o corante azul índigo com tintura. Isso criou as bases para uma indústria química posterior, especialmente na França e na Alemanha.

O açúcar de beterraba já era conhecido antes do bloqueio, sua produção, porém era pequena já que a colônia francesa de São Domingo abastecia o continente europeu com açúcar de cana. Durante o processo de independência dessa colônia (Haiti), o comércio de açúcar entrou em colapso na Europa. Muitos cientistas se empenharam em resolver a questão, entre eles o alemão Franz Carl Achard que desenvolveu a técnica para a produção de açúcar a partir da beterraba.

Napoleão abraçou a novidade. Em um decreto de 25 de março de 1811, ele ordenou o cultivo de beterraba sacarina, na França, em uma área total de 32.000 hectares. Seis escolas experimentais deviam supervisionar e melhorar a produção. Em 1812, já existiam 150 fábricas de beterraba sacarina na França.

 bloqueio continental

Um inglês e Napoleão Bonaparte separados por um muro, representando o bloqueio continental. O inglês, bem alimentado e feliz, tem a sua mesa farta de comida, enquanto Napoleão, tem uma expressão de desgosto no rosto diante de uma mesa pobre com uma simples tigela de sopa. Caricatura inglesa, 1809.

A ineficácia do bloqueio

O Bloqueio Continental não obteve o que pretendia: arruinar a economia britânica. A balança comercial britânica não foi seriamente prejudicada. O bloqueio ficou, de fato, restrito apenas a partes da Europa. A França não tinha uma frota necessária para impedir o acesso da Grã-Bretanha às suas colônias ou a outras regiões do planeta.

O bloqueio levou a Grã-Bretanha a expandir seu império colonial às ilhas de Cabo Verde e na  Ásia (ilhas do Pacífico, Índia, China e sudeste asiático). O comércio internacional britânico voltou-se com mais vigor para a Américas do Sul e Central, que passaram a ter maior presença nas negociações com a Grã-Bretanha.

Aproveitando as convulsões internas na Espanha, a Grã-Bretanha pressionou o governo espanhol a abrir o comércio do império colonial espanhol aos fornecedores britânicos. Medida similar foi obtida junto a Portugal que resultou na Abertura dos Portos às Nações Amigas, em 1808.

Situação semelhante ocorreu nas colônias holandesas, na Colônia do Cabo (Índias Orientais holandesas), que tendo suas metrópoles invadidas por Napoleão  tiveram que aceitar o apoio naval britânico para manter as relações comerciais com suas colônias.

Portugal recusou-se abertamente a aderir ao Bloqueio Continental devido à aliança com a Inglaterra, estabelecida pelo Tratado de Tilsit, de julho de 1763. Sem condições de enfrentar as tropas de Napoleão, o príncipe regente português D. João decidiu transferir a corte portuguesa para o Brasil sob escolta da Marinha britânica. O embarque aconteceu em 29 de novembro de 1807 e viajaram 15 mil pessoas entre nobres e criados que chegaram ao Brasil em 22de janeiro de 1808.

Enfim, o Bloqueio Continental fracassou em seu objetivo principal: prejudicar irreparavelmente a economia britânica por meio de um embargo comercial. O bloqueio causou mais danos colaterais ao Império Francês do que ao Reino Unido.

A Rússia sofreu particularmente com o bloqueio que a privou de seus principais parceiros comerciais no Báltico e no Mar do Norte. Em 1812, o czar Alexandre I decidiu reabrir o comércio russo com a Grã-Bretanha o levou Napoleão invadir a Rússia com uma força de mais de meio milhão de homens, um esforço que fracassou completamente e causou a ruína final do Império Francês.

Bloqueio Continental

Napoleão Bonaparte, sobre uma muralha no mar, levanta uma enorme espada ameaçando dois marinheiros ingleses que tentam desembarcar. Ele aponta para o lado oposto, a Grã-Bretanha, onde está outro inglês zombando da situação. Na espada está escrito “O Terror do Continente”. Os marinheiros não se intimidam com o imperador francês. Caricatura inglesa de 1810.

Fonte

  • BORGES DE MACEDO, Jorge – O Bloqueio Continental. Editora Gradiva, Lisboa, 1990.
  • CARPENTIER, Jean; LEBRUN, François. História da Europa. Lisboa: Editorial Estampa, 1996.
  • CERVO, Amado Luiz. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
  • CHANDLER, David G. Le Campagne di Napoleone. Milão: R.C.S. Libri S.p.A., 1998.
  • MAUROIS, André. Storia degli Stati Uniti. Milão: Arnoldo Mondatori Editore, 1953.

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