Atenas e Esparta, semelhantes mas diferentes

8 de abril de 2021

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A Grécia antiga, diferente de seus vizinhos como o Egito e a Assíria, não constituiu um único estado centrado, mas um conjunto de cidades independentes e rivais entre si, as cidades-estado, que tinham em comum a língua, a religião e seus mitos. O mundo grego antigo foi, assim, marcado pela fragmentação política permanente sem nunca seus pequenos e numerosos estados terem se unido.

Embora nunca tivesse existido, na Antiguidade, uma unidade política denominada Hélade (como os gregos denominavam a região da Tessália, pátria dos helenos), os gregos tinham consciência da diferença que havia entre eles e os outros povos.  Reconheciam, principalmente, os laços de língua e religião que os uniam.

Esse sentimento grego de unidade era reforçado no grande festival em Olímpia que ocorria a cada quatro anos. Ali, os gregos honravam Zeus com jogos atléticos e musicais, protegidos pela trégua sagrada que interrompia suas guerras intermitentes. A admissão aos jogos era, de certa forma, uma prova de aceitação como grego, como ocorreu com Alexandre I da Macedônia, no século V a.C., que fez valer a sua pretensão de competir, baseado na descendência dos reis dórios de Argos (Lloyd-Jones, p. 60).

Em um mundo onde a cidade (pólis) era o elemento dominante, o essencial estava em pertencer a ela. A cidade se define, antes de tudo, como um grupo de cidadãos (politikós) cabendo a esses tratar diretamente dos assuntos da pólis, isto é, exercer a política. Quando Aristóteles escreve que o homem é um animal político, ele se refere ao ideal do ser humano que é viver em uma pólis como cidadão e dela participar, partilhar e decidir coletivamente enquanto parte de seu corpo cívico.

A participação nas decisões da pólis era mais um dever do que um direito do cidadão. “Entre nós, declara um ateniense, um homem que não faz política não é considerado um sujeito pacífico, mas um mau cidadão”, cita Veyne. “O ofício de cidadão, essa militância, absorvia o homem em sua totalidade”, continua esse historiador.

Entre as centenas ou milhares de pólis espalhadas pela península Balcânica, pelo Mediterrâneo Oriental e parte do Ocidental, as duas que mais se destacaram e se rivalizaram foram Atenas e Esparta.

Atenas, na península da Ática, está apenas 240 km de Esparta, no coração da península do Peloponeso. Apesar de próximas, elas estavam distantes nos valores e modos de vida que desenvolveram.

O antagonismo entre Atenas e Esparta

“Atenas era um movimentado centro comercial e manufatureiro: seu principal produto agrícola, o azeite, era fabricado principalmente para exportação; seu porto, o Pireu, era um dos maiores do Mediterrâneo. Esparta, cercada por montanhas e isolada no fértil vale do rio Eurotas, gozava de autossuficiência agrícola, mas seu comércio era débil. Atenas estava cheia de estrangeiros (metecos), tanto visitantes como moradores permanentes; em Esparta, os estrangeiros eram mal recebidos e periodicamente expulsos. Atenas era uma grande potência naval; a força de Esparta estava em seu exército. Os atenienses embelezaram sua cidade com esplêndidos templos e soberbas estátuas; Esparta parecia uma aldeia que crescera demais.” (Lloyd-Jones, p. 65).

Atenas passou por diferentes experiências políticas com conflitos sociais e reformas políticas até chegar à democracia, a primeira da história. Esparta era intensamente conservadora e tradicional, mantendo-se apegada a um sistema político arcaico que dizia ter sido criado por Licurgo, um legislador semilendário.

Infográfico disponível para download em alta resolução neste site. Veja em: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/infograficos/

As diferenças entre Atenas e Esparta evidenciam o quão diverso podem ser os caminhos e as escolhas das sociedades mesmo entre aquelas nascidas em contexto histórico similar e contemporâneo. Contudo, as diferenças entre essas duas cidades vão muito além das formas de governo que adotaram, abrangendo outros elementos como a noção de igualdade e do papel do cidadão, o objetivo da educação e a função da mulher. As diferenças estendem-se também ao trabalho compulsório: a ideia do ateniense sobre a escravidão não se aplica à situação do hilota em Esparta.

Por esses motivos, identificar as diferenças entre Atenas e Esparta em sala de aula é uma oportunidade para desenvolver, nos estudantes, um conjunto de habilidades (comparar, relacionar, interpretar e avaliar) além de trabalhar conceitos importantes como oligarquia, escravidão, servidão e cidadania.

Trabalhando as diferenças de Atenas e Esparta em sala de aula

O trabalho proposto deve ser realizado em três etapas.

Na primeira etapa, os alunos divididos em 8 grupos recebem uma ficha por grupo. Cada ficha traz um texto que trata um tema específico sobre Atenas e Esparta:

  1. Localização e População
  2. Cidadania
  3. Igualdade entre os Cidadãos
  4. Governos e Experiências Políticas
  5. Economia
  6. Educação do Cidadão
  7. Trabalho compulsório
  8. Papel das mulheres

Os grupos devem ler o texto, extrair as ideias principais – o que é específico de cada cidade e o que é comum entre elas – e escrever essas ideias na tabela que acompanha o texto.

Para o download das fichas com texto e tabela, preencha os campos abaixo.

Na segunda etapa, os grupos expõem suas anotações. Nesse momento, poderá ocorrer intervenções dos alunos que estão assistindo, pois entre as oito fichas há elementos se repetem ou se complementam. Por exemplo, os hilotas de Esparta são mencionados na ficha 5 (Economia) e na 7 (Trabalho compulsório).  Essas intervenções devem ser estimuladas para que os alunos percebam que os temas não são estanques, mas dialogam entre si.

Durante essa etapa, é importante que os alunos anotem ou recebam as observações apresentadas pelos demais grupos. Essas anotações serão importantes para a terceira etapa.

A terceira etapa consiste em um grande fórum de debates em que os alunos poderão exercitar a exposição oral e a argumentação fundamentada. O professor explica à turma:

Para essa etapa, imagine que você é um embaixador que representa Atenas ou Esparta. Como tal, você tem a responsabilidade de promover sua cidade-estado, engrandecendo-a perante a rival e mostrando os benefícios em viver na sua cidade. Porém, você deve fazer isso com tato diplomático que cause o mínimo de atrito com o embaixador da cidade rival. Depois de apresentarem suas defesas, cada embaixador vai passar por uma sabatina feita pelos juízes do Tribunal do Olimpo.

A classe é dividida em três grupos: Atenienses, Espartanos e os juízes do Tribunal do Olimpo.

Os grupos de Atenas e Esparta devem preparar, cada um, a defesa de sua cidade, de seus valores e instituições sobre 4 temas:

  1. A vida política do cidadão (fichas 2, 3 e 4)
  2. Viver na minha cidade (ficha 1 e 5)
  3. A educação do cidadão (ficha 6)
  4. Os excluídos da cidadania: mulheres, escravos e estrangeiros (fichas 7 e 8)

Os juízes do Tribunal do Olimpo devem preparar uma pergunta “secreta” para cada grupo. O objetivo da pergunta é provocar o grupo sobre um assunto polêmico que pode ser uma contradição ou uma fragilidade do sistema político, econômico ou social da cidade. A pergunta será feita depois da apresentação de cada grupo.

O Tribunal do Olimpo sorteia o tema a ser exposto (o mesmo tema para os dois grupos). Cada grupo tem 10 minutos (máximo) para fazer sua apresentação oral.  Os juízes devem ficar atentos se a argumentação apresentada por cada grupo está correta e se há respeito entre os embaixadores.

Terminada a apresentação, o Tribunal lança as perguntas (uma para cada grupo) e dá 5 a 8 minutos para os grupos preparem sua resposta.

Ao final, os juízes se reunem com o(a) professor(a) e decidem qual grupo se saiu melhor na apresentação.

Fonte

  • AUSTIN, M.; NAQUET, Pierre-Vidal. Economia e sociedade na Grécia antiga. Lisboa: Edições 70, 1995.
  • CARDOSO, Ciro Flamarion. A Cidade-Estado Antiga. São Paulo: Ática, 1987.
  • ___________. Sete Olhares sobre a Antiguidade. Brasília: UnB, 1994.
  • FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa: Edições 70, 1988.
  • ___________. (org.) O Legado da Grécia. Uma nova avaliação. Brasília: Ed. UnB, 1998.
  • LLOYD-JONES, Hugh. O mundo grego. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
  • MOURA, José Francisco de. Imagens de Esparta. Xenofonte e a ideologia oligárquica. Rio de Janeiro: Fábrica de Livros, 2000.
  • VERNANT, Jean-Pierre (org.). O homem grego. Lisboa: Presença, 1988.
  • ___________; NAQUET, Pierre-Vidal. Trabalho e escravidão na Grécia antiga. Campinas, SP: Papirus, 1989.
  • VEYNE, Paul. O império greco-romano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
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