“Até tu, Brutus?” – o assassinato de Júlio César

12 de janeiro de 2019

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Em 15 de março de 44 a.C., Júlio César foi assassinado durante a reunião do Senado, em Roma. Ele estava com 55 anos de idade, e gozava de grande popularidade entre suas legiões e o povo romano.

Cinco anos antes, prestigiado por suas conquistas na Gália, Júlio César atravessou o Rubicão com suas legiões decidido a enfrentar Pompeu seu adversário político (11/1/49 a.C.). Eliminado Pompeu, o caminho estava aberto para César assumir o comando de Roma com plenos poderes. O Senado concedeu-lhe, em 46 a.C., o título de ditador, a mais alta magistratura extraordinária da República Romana.

César modernizou a administração de Roma e fez reformas políticas e sociais (extensão do direito de voto, concessão de terras aos legionários, novo calendário por exemplo) que lhe deram maior prestígio político. Em 44 a.C., o Senado nomeou-o ditador perpétuo (o cargo era, até então, temporário).

Provocações, conspiração e assassinato

Os poderes de César incomodaram seus inimigos que passaram a buscar motivos para derrubá-lo do poder. Seu relacionamento com Cleópatra, a rainha do Egito com quem tivera um filho, Cesário, era motivo de escândalo. Ao lado da amante, César aceitara, por um momento, o título de “filho de Amon” provocando rumores de estava traindo Roma com uma “bárbara”.

Relevo de Cleópatra e filho

Relevo de Cleópatra e Cesarião, seu filho com Júlio César, Templo de Dendera, Egito. Nascido em 47 a.C., Cesarião passou seus dois primeiros anos em Roma, onde ele e sua mãe eram convidados oficiais do governo romano, ou seja, de Júlio César. Mas quando o ditador foi assassinado, retornaram ao Egito. Cesarião morreu em 30 a.C., em Alexandria, onde foi executado por ordem de Otávio.

Em 15 de fevereiro de 44 a.C., outro escândalo: por ocasião da festa da Lupercália, Marco Antônio, o fiel comandante de cavalaria, colocou na cabeça de César o diadema dos reis gregos. A multidão protestou e o ditador retirou a coroa mandando-a para o templo de Júpiter.

Não adiantou: a coroa na cabeça foi interpretada pela oposição senatorial como sinal de que César pretendia ser aclamado rei de Roma e que isso aconteceria na próxima reunião do Senado marcada para os idos de março (metade do mês) de 44 a.C. Um grupo de senadores aristocratas conspirou a morte do ditador, entre eles estava Marcus Junius Brutus, sobrinho de César, e Cássio, o ex-chefe da frota de seu inimigo Pompeu.

César foi alertado por amigos que corria risco de vida, inclusive por sua esposa Calpúrnia que tentou convencê-lo de não ir ao encontro dos senadores. Mas ninguém conseguiu detê-lo.

Ao chegar ao Senado, os conspiradores já estavam todos reunidos à sua espera. Segundo Plutarco e Suetônio, os senadores se aproximaram e um deles provocou César agarrando-o pela toga. Era o sinal. Plutarco relata que cerca de 60 homens participaram do assassinato e que César teria sido esfaqueado 23 vezes. Seu corpo caiu aos pés da estátua de Pompeu, o antigo rival que ele havia derrotado poucos anos antes.

Brutus e as palavras finais de César

Entre os conspiradores que assassinaram César estava Marcus Junius Brutus. O ditador tinha grande consideração por este senador, filho de Servília, uma conhecida patrícia que fora amante de César quando jovem. É provável, inclusive, que Brutus fosse filho de César.

Segundo Suetônio, ao ver Brutus entre os assassinos, César disse suas últimas palavras, em grego (a língua da elite romana); “Kai su teknon” (Até tu, criança?), que os cronistas latinos verteram para “Tu quoque, mi fili” (Você também, meu filho).  Contudo, Suetônio e Plutarco têm dúvidas se César teria dito algo naquele trágico momento.

Tu quoque, mi fili” foi interpretada como uma expressão de desgosto e tristeza de César ao se ver traído por alguém que ele tanto prezava. Poderia, também, ser interpretada ao contrário, como uma maldição ao traidor no sentido de: “Esse também será o seu destino”.

Já a célebre versão “Até tu, Bruto” que César teria dito antes de morrer é uma licença poética do dramaturgo inglês William Shakespeare que colocou essa fala em sua peça teatral Júlio César, de 1599. No Ato III, cena I, Júlio César ao ver Bruto entre os assassinos lhe diz “Et tu Brute? Então, que morra César“.

Seja como for, ao se ver cercado, César se cobriu com sua toga e se deixou esfaquear.

A morte de César

A morte de César, óleo de Vincenzo_Camuccini, 1798.

Herança de César

Os assassinos fugiram do local deixando o corpo de César banhado em sangue jogado no chão. Três escravos levaram o cadáver para sua casa. A notícia do crime se espalhou pela cidade e a população ficou enfurecida. Exigiu que, seguindo a tradição, o corpo de César fosse cremado em um lugar público.

Durante o funeral, cresceu a revolta popular. O povo compareceu em massa jogando, na pira funerária, objetos pessoais, móveis e até roupas para alimentar as chamas.  O fogo acabou ficando muito alto e se espalhou danificando o Fórum e atingindo casas vizinhas. A multidão atacou as casas dos conspiradores que fugiram da cidade. Brutus, perseguido por Marco Antonio e Otávio, fugiu para a Grécia, e acabou se suicidando em 42 a.C.

Em seu testamento, César havia nomeado seu sobrinho-neto Otávio como sucessor, dando-lhe o posto de chefe da família, isto é, herdeiro do nome de César, além de lhe deixar sua gigantesca fortuna. Otávio, que tinha apenas 18 anos quando César morreu, prometeu vingá-lo. Ele acabou se mostrando um político habilidoso e um chefe militar eficiente. Em quinze anos preparou o caminho de sua ascensão ao poder vindo a se tornar, em 27 a.C., o primeiro imperador de Roma.

O nome de Júlio César permaneceu surpreendentemente vivo, na memória popular e na língua de diversas nações europeias. Os títulos de Kaiser e Czar são derivações do nome de César para designar o soberano na Alemanha e na Rússia.

Fonte

  • PLUTARCO. Alexandre e César. Vidas Paralelas. São Paulo: Escala, 2000.
  • SUETÔNIO. Vida dos 12 Césares. São Paulo: Martin Claret, 2012.
  • MENDONÇA, Antônio da Silveira & FONSECA, Ísis Borges Belchior da. César por Suetônio e Plutarco. São Paulo: Estação Liberdade, s/d.
  • SHAKESPEARE, William. Júlio César. Oficina de Teatro: Virtual Books, 2000 (Coleção Ridendo Castigat Mores).

 

 

 

 

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