10 aspectos importantes da Guerra Fria: capitalismo x comunismo

7 de novembro de 2018

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A Guerra Fria marcou gerações pela intensa competição entre ideologias e sistemas rivais: o capitalismo liberal e o comunismo. Ambos se colocavam como universalmente válidos,  na medida em que seus defensores acreditavam que cada um fornecia um modelo amplamente aplicável para organizar as sociedades em todos os lugares do mundo. Dado esse caráter universalista, a mera existência de um colocava um desafio fundamental à legitimidade do outro. Durante meio século, o mundo viveu a tensão dessa disputa cujos ecos ainda são ouvidos nos tempos de hoje.

1. O que foi a Guerra Fria

A Guerra Fria foi um período de tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética que se estendeu entre o fim da II Guerra Mundial (1945) e a caída do muro de Berlim (1990). Essa tensão envolvia a disputa pela liderança mundial entre dois sistemas econômicos e sociais opostos: o capitalismo (sustentado pelos EUA) e o comunismo (sustentado pela URSS).

O termo “fria” refere-se ao fato de nunca ter ocorrido um confronto armado oficial entre os dois países. Os enfrentamentos se davam através de guerras periféricas entre países que orbitam na hegemonia americana ou soviética. Nessas guerras, tantos os EUA quanto a URSS intervinham oferecendo financiamento, treinamento militar, estratégias de guerra e armas para facções locais e, algumas vezes, inclusive, enviando tropas.

Dependendo da facção vitoriosa, o país era alinhado ou caía sob domínio dos EUA (com regime capitalista) ou da URSS (com regime comunista). Estes enfrentamentos mataram milhões de pessoas e arruinaram economias que, em alguns casos, não conseguiram se recuperar. Apesar de ser, oficialmente, uma guerra “fria”, este período acumulou consequências tão severas quanto uma guerra mundial.

2. Capitalismo x Comunismo

A Guerra Fria foi, também, uma guerra ideológica uma vez que capitalismo e comunismo são dois sistemas políticos, econômicos e sociais antagônicos, baseados em princípios opostos de direção e organização da sociedade.

As diferenças fundamentais entre capitalismo e comunismo tem a ver com a propriedade – privada ou coletiva – conforme se descreve abaixo:

O capitalismo se baseia no direito à propriedade privada que permite ao dono dos meios de produção concentrar a mais-valia (“lucros”). Defende mercado livre e a livre concorrência baseada na não intervenção do Estado na economia. O Estado deve garantir os direitos individuais e a propriedade privada. Incentiva o consumismo, o mérito e a iniciativa individual.  Critica o comunismo pela falta de liberdade e de incentivo ao enriquecimento individual, pela excessiva centralização do poder que conduz a ditaduras e regimes autoritários.

O comunismo se baseia na propriedade coletiva dos meios de produção e na distribuição equitativa das riquezas. O Estado intervém e planifica a economia para garantir a igualdade de oportunidades e a redistribuição das riquezas. Incentiva o coletivismo, a inclusão social e a solidariedade social. Valoriza a diversidade. Critica o capitalismo pela exploração da classe trabalhadora em benefício de uma minoria que acumula a maior parte do capital, pela profunda desigualdade social e não atender os mais oprimidos.

No período da Guerra Fria, as diferenças e divergências entre capitalismo e comunismo eram bem claras e definidas, como mostrado acima. Na atualidade, porém, os dois sistemas incorporaram alguns elementos entre si de maneira que, mesmo permanecendo antagônicos, desdobraram-se em outros modelos.

Infográfico com as diferenças entre comunismo e capitalismo para compartilhar

Infográfico para compartilhar

3. O mundo dividido em blocos e mundos

As tensões da Guerra Fria não se limitaram aos EUA e URSS mas envolveram os blocos de países liderados, cada um, por uma dessas potências. Nesse contexto, surgiu a chamada teoria dos mundos segundo a qual o cenário internacional estava dividido em Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo.

Primeiro Mundo: liderado pelos EUA, se caracterizou por ter um sistema capitalista misto, isto é, em que existem investimentos privados e também investidos públicos. O sistema político predominante é a democracia parlamentarista. Consolida-se a sociedade de consumo e a economia de bem-estar social. No Primeiro Mundo estão países desenvolvidos: EUA, Europa Ocidental, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Taiwan e Japão.

Segundo Mundo: liderado pela URSS, caracterizou-se pelo sistema econômico socialista, que limita ou impede investimentos privados. A capacidade de consumo é pequena, porém existe menor diferença entre as camadas mais rica e as mais pobres. A exceção é geralmente a classe política. No Segundo Mundo estão, além da URSS, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã e Cuba. O termo Segundo Mundo caiu em desuso com o colapso do bloco soviético.

Terceiro Mundo: abrangia os países que se posicionaram neutros na Guerra Fria, isto é, não se alinharam nem com o capitalismo nem com o comunismo. Parte dos países do Terceiro Mundo sofreram as guerras periféricas e caíram sob domínio de ditaduras sustentadas pelo governo soviético ou pelo americano. Esses conflitos deixaram efeitos locais que persistiram depois da Guerra Fria criando economias dependentes das potências. No Terceiro Mundo estão: países da América Central e do Sul (incluindo o Brasil), da África, do Oriente Médio, Índia. Atualmente, a expressão está associada a países com um desenvolvimento econômico limitado.

Primeiro, segundo e terceiro mundo.

Situação mundial por volta de 1975: países do Primeiro Mundo (azul), Segundo Mundo (vermelho) e Terceiro Mundo (verde).

4. A divisão da Alemanha e o Muro de Berlim

Visto que a Alemanha foi derrotada na Segunda Guerra Mundial, os aliados lhe impuseram uma série de condições entre as quais a ocupação de seu território pelo Reino Unido, Estados Unidos, França e União Soviética. Em 1949, foram criadas duas Alemanhas:

  • República Federal da Alemanha (RFA), do lado ocidental, sob influência norte-americana, britânica e francesa.
  • República Democrática Alemã (RDA), do lado oriental, sob influência soviética.

Berlim, a capital alemã, situada do lado oriental, ficou dividida em duas partes: Berlim Ocidental e Berlim Oriental, cada parte alinhada respectivamente à RFA e RDA. A cidade foi dividida com uma cerca fortemente vigiada.

Em 1961, a URSS determinou a construção de um muro de concreto de 3 m de altura e 113 km de extensão separando a parte oriental da ocidental. Foram instaladas grades de aço e redes eletrificadas, além de torres de vigilância policial e minas explosivas. O Muro de Berlim, também chamado de “muro da vergonha” tornou-se um dos símbolos da Guerra Fria.

5. As guerras periféricas da Guerra Fria

EUA e URSS nunca entraram em confronto militar direto, mas estiveram por trás de muitas guerras, intervenções e golpes de estado durante a Guerra Fria. Nessas guerras periféricas, as potências capitalistas e comunistas mediam suas forças e procuravam ganhar novos territórios para seu bloco. Veja o quadro abaixo.

6. A Guerra Fria na América Latina

Na América Latina, o Departamento de Defesa dos EUA manteve, no Panamá, entre 1946-84, a Escola das Américas, com o objetivo de ensinar a “formação contrainsurgência comunista”. A escola treinou vários ditadores latino-americanos, gerações de seus militares e, nos anos 1980, incluiu o uso de tortura em seu currículo.

Na Escola das Américas se graduaram mais de 60 mil militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Entre generais latino-americanos graduados na Escola das Américas estamos alguns de especial relevância pelos seus crimes contra a humanidade, entre eles:

  • Hugo Banzer (ditador da Bolívia, 1971-78),
  • Leopoldo Fortunato Galtieri (ditador da Argentina, 1981-82),
  • Manuel Noriega (ditador do Panamá, 1983-89),
  • Juan Velasco Alvarado (ditador do Peru, 1968-75)

O Brasil enviava regularmente militares para treinamento na Escola das Américas. Pesquise a respeito aqui.

A partir de 1954 e, principalmente após a Revolução Cubana (1959), os serviços de inteligência dos EUA participaram de golpes de estado contra governos latino-americanos de esquerda ou contrários aos interesses políticos e econômicos daquela potência.

Em 1961, o presidente Kennedy criou a Aliança para o Progresso, para abrandar as tensões sociais e auxiliar no desenvolvimento econômico das nações latino-americanas, além de conter o avanço comunista no continente americano. A Aliança ofereceu ajuda técnica e econômica a vários países. Mas, como programa não alcançou os resultados esperados, foi extinto em 1969 pelo presidente Richard Nixon.

7. A corrida tecnológica, armamentista e espacial

As guerras periféricas permitiram às grandes potências medirem suas capacidades militares. O desenvolvimento da energia nuclear estava associado a essa disputa tecnológica e armamentista, assim como a exploração do espaço.

A disputa entre EUA e URSS pela supremacia tecnológica, armamentista e espacial levou ambos países a um enorme gasto com pesquisas e produção de equipamentos. Um procurava superar o outro em tecnologia e potência bélica. Enquanto um país fabricava um foguete para chegar à Lua, o outro preparava outro foguete para levar um homem à Lua. Enquanto um inventava um míssil balístico intercontinental, o outro lançava um míssil antimíssil. Um lançava uma sonda espacial para Vênus e, no ano seguinte, outro lançava para Marte.

Veja no quadro abaixo, o resultado dessa corrida.

8. A China comunista, fora da influência soviética

Em 1949, o Exército Vermelho (comunista) de Mao Tsé-Tung venceu o exército nacionalista de Chiang Kai-Chek (apoiado pelos EUA) e fundou a República Popular da China, com apoio da URSS.

Em 1958, Mao rompeu com a URSS e lançou a campanha do Grande Salto para Frente, com o objetivo de tornar a China um país desenvolvido em tempo recorde. O projeto visava aumentar a produção industrial e agrícola, contudo, não obteve sucesso.

Em 1966, Mao anunciou a Revolução Cultural, uma ampla campanha ideológica  que transformou a juventude chinesa na “guarda vermelha” percorrendo o país divulgando o  pensamento maoista.

A Revolução Cultural perdeu fôlego após o falecimento de Mao, em 1976, e foi encerrada em 1978. Desde então, a China iniciou um processo de abertura econômica que ainda está em curso. O país continua sendo governado pelo Partido Comunista.

9. A propaganda ideológica

A Guerra Fria sendo, também, uma guerra ideológica ela envolveu uma ampla campanha de propaganda em que cada lado enaltecia seu sistema e repudiava o outro. Todos os meios foram utilizados para isso: cartazes, folhetos, revistas, jornais, programas de rádio e TV, filmes, desenhos animados, livros didáticos e até histórias em quadrinhos.

Os países capitalistas exaltavam a liberdade de expressão, a facilidade de consumo e as oportunidades de enriquecimento oferecidas a todos. Denunciavam que no comunismo não havia liberdade, o Estado tudo controlava tudo e a população vivia infeliz e sem motivação.

A propaganda soviética denunciava as enormes desigualdades sociais, a miséria, o desemprego e a decadência moral (prostituição, drogas, pornografia etc.) do mundo capitalista. Ressaltava a superioridade do regime comunista, em que o Estado garantia emprego, educação e moradia para o cidadão.

A propaganda e a guerra ideológica provocaram, em ambos os lados, a perseguição de cidadãos que não se alinhasse ao sistema acusado de subversão e traição. Nos EUA, a campanha anticomunista levantou suspeitas contra muitos artistas. O Comitê de Atividades Antiamericanas chegou a elaboração a Lista Negra de Hollywood com nomes de roteiristas, atores, diretores, músicos e demais artistas considerados simpatizantes do comunismo ou com ligações com a URSS e, por isso, foram boicotados e perderam empregos.

10. Fim da Guerra Fria

A Guerra Fria começou a se desmantelar quando reformas radicais ocorreram no bloco soviético. Em 1985, Mikhail Gorbatchov assumiu o poder na URSS e lançou as políticas reformistas da glasnot (transparência) e da perestroika (reestruturação). Gorbatchov implantou uma política interna de descentralização e abertura política e econômica estimulando a abertura de empresas privadas e a entrada de capital estrangeiro. Decretou o fim da censura à imprensa e às artes, a liberdade religiosa, a libertação de presos políticos e o combate à corrupção e aos privilégios dos altos funcionários do governo.

No âmbito internacional, o líder soviético desencadeou uma ofensiva diplomática em prol da paz e do desarmamento, e anunciou a suspensão dos testes nucleares subterrâneos da URSS.

A grande virada da política externa soviética ocorreu no segundo semestre de 1989 quando teve início a desagregação do bloco soviético. Os regimes socialistas foram varridos da Europa Oriental, sem que houvesse resistência interna ou externa significativa. Neste processo, ocorreu:

  • Extinção do governo comunista na Hungria, Polônia, Romênia e Checoslováquia.
  • Queda do muro de Berlim (1989).
  • Reunificação da Alemanha (1990).
  • Extinção da URSS (1991), desmembrada em 15 países: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Estônia, Letônia, Lituânia, Armênia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão.
  • Desmembramento da Checoslováquia em 2 países: República Checa e Eslováquia.
  • Desmembramento da Iugoslávia em 6 países: Eslovênia, Croácia, Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia e Montenegro.

Na última década do século XX, restavam como países comunistas: Cuba, Coreia do Norte, Vietnã e China. O mundo pós Guerra Fria não era mais bipolar, mas unipolar tendo os Estados Unidos como a única superpotência remanescente. Há quem preveja um retorno da bipolaridade no século XXI, tendo a China (e não mais a Rússia) como o segundo polo de hegemonia mundial.

O fim da Guerra Fria foi visto por muitos como a vitória da democracia e do capitalismo e a derrota do socialismo e do comunismo. Mas a história tem apresentado outros desafios aos “vencedores” como as crises cíclicas do capitalismo e a enorme desigualdade de renda em todo planeta.

O historiador marxista Eric Hobsbawn (1917-2012), questionado sobre a “derrota” do socialismo comentou:

“A causa a que devotei boa parte da minha vida não prosperou. Eu espero que isto me tenha transformado em um historiador melhor, já que a melhor história é escrita por aqueles que perderam algo. Os vencedores pensam que a história terminou bem porque eles estavam certos, ao passo que os perdedores perguntam por que tudo foi diferente, e esta é uma pergunta muito mais relevante.” (Eric Hobsbawm)

Fonte

  • ARBEX JR., José. Guerra Fria, terror de Estado, política e cultura. São Paulo: Moderna, 1997.
  • FENELON, Déa R. A guerra fria. São Paulo: Brasiliense, 1983. Coleção Tudo é História.
  • HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos, o breve século XX, 1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • REIS FILHO, Daniel Aarão. URSS: O socialismo real (1921-1964). São Paulo: Brasiliense, 1983. Coleção Tudo é História.
  • OVERY, Richard. Atlas histórico do século XX. Madri, Espanha, ediciones Akal, 2009.
  • VISENTINI, Paulo G. Fagundes e PEREIRA, Analúcia, Danilevicz. História do mundo contemporâneo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
  • BERSTEIN, Serge e MILZA, Pierre (dir.). História do século XX. V. 2: 1945-1973, o mundo entre a guerra e a paz. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.
  • ______________. V. 3: De 1973 aos dias atuais, a caminho da globalização e do século XXI. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.

 

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