Aspectos da vida social no Brasil Colônia

27 de março de 2015

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Como trabalhar a vida social do Brasil Colônia em sala de aula? Os textos a seguir são fragmentos de importantes estudiosos que tratam de aspectos variados do cotidiano colonial. Podem servir ao professor ou ao aluno de ponto de partida para um estudo mais aprofundado sobre o tema. As aquarelas, todas da primeira metade do século XIX servem, também, de documentos históricos e permitem confrontar as informações das imagens com as dos textos.

 Texto 1: São Paulo nos séculos XVI a XVIII

Debret_familia pobre

Família pobre em casa, Debret, 1827.

Entre os séculos XVI e meados do XVIII, a pobreza de São Paulo, tantas vezes enfatizada pelos estudos que se dedicaram à época colonial, certamente se contrapõe à prosperidade de outras regiões, como por exemplo, a zona açucareira. Porém, no que toca ao conforto doméstico e à decoração dos interiores, essas diferenças devem ser matizadas, uma vez que a precariedade do mobiliário e dos ambientes domésticos era comum a toda a Colônia, salvo algumas poucas  exceções (…). No geral, a modéstia do mobiliário fica evidente nos depoimentos colhidos (…). Poucas cadeiras, uma ou duas mesas com seus bancos, além de algumas caixas e baús é o que se encontra na maior parte das vezes, por exemplo, nos inventários paulistas.

(…) O famoso episódio da história paulistana sobre a cama de Gonçalo Pires (veja aqui), que para nós mais parece uma anedota, revela que em 1620 a vila de São Paulo não dispunha de uma cama digna de dar repouso ao ouvidor que estava para chegar. (…) As atas da Câmara de São Paulo, quase dez anos após o ocorrido, ainda registravam os resultados do conflito que se armou entre o proprietário da bela cama e o restante dos moradores da vila.

Em geral, as redes assumiam também a função de cadeiras, mas era particularmente comum sentar-se direto no chão, nos estrados ou em esteiras. Bancos, tamboretes e bofetes ou bufetas também serviam de móveis de descanso ou de serviço ao longo de todo período colonial, quase sempre toscos.

ALGRANTI, Leila Mezan. Famílias e vida doméstica. In: MELLO E SOUZA, Laura de (org.) História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.104 a 107.

  Texto 2: Alimentação, mobiliário e vestuário

Post_ engenho_Barlaeus, 1648

Engenho e casa-grande, detalhe, Frans Post, 1648.

Mesmo os fazendeiros ricos alimentavam-se mal, comendo em excesso dura carne-seca. Só uma vez ou outra degustavam frutos. Mais raramente ainda legumes. A falta de boa comida era compensada pelos excessos de doces: goiabadas, marmeladas, doces de caju e mel de engenho e cocadas. Na passagem de um padre, abriam-se, com esforço, as despensas e matavam-se os animais de criação: patos, leitões e cabritos.

(…) A abundância registrada em alguns engenhos não era a norma. Os que se davam ao luxo de mandar vir alimentos do Reino consumiam víveres malconservados. O senhor de engenho sofria com doenças do estomago, atribuídas pelos doutores da época não à precária alimentação, mas aos “maus ares” do trópico. A saúva, as enchentes ou a seca dificultavam ainda mais o suprimento de alimentos frescos.

(…) No interior das verdadeiras fortalezas de adobe e taipa, que eram as casas-grandes, vigia a simplicidade e até o desconforto. O mobiliário era pobre e escasso: camas, baús, móveis e cabides. Todas peças toscas, feitas pelo carpinteiro do engenho. Alguns preferiam a doçura das redes, solução refrescante nas noites quentes. Varandas entaladas no meio da fachada principal e pequenos alpendres davam ao senhor de engenho a vista sobre sua terra, cana e gente. Pavimentos térreos, verdadeiros depósitos fechados, iluminados por pequenas frestas nas paredes, permitiam-lhe se defender melhor do inimigo.

(…) À rigidez da casa opunha-se, em dias de festa, o exagero das vestimentas: “vestem-se, e as mulheres e os filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisso tem muito em excesso (…) os guiões e selas dos cavalos eram das mesmas sedas que iam vestidos”, comentava um enlevado Cardim, na fase de expansão canavieira.

Os casamentos festejavam-se, segundo ele, com banquetes, touradas, jogos de canas e argolinhas e vinho de Portugal. Muitos batizavam seus engenhos com o nome de santos protetores: São Francisco, São Cosme e Damião, Santo Antônio. Outros tinham nomes africanos como Maçangana. Outros ainda lhes davam nomes de frutas e árvores: Pau-de-Sangue, Cajueiro-de-Baixo, Jenipapo.

DEL PRIORE, Mary e VENÂNCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p.46-48.

Texto 3: Vestir, morar e comer entre os escravos

Guillobel, interior casa de negros

Interior de casa de negros, Joaquim Cândido Guillobel, 1814.

Como sabemos, a morada dos escravos era chamada senzala, palavra de origem quimbundo que significa residência de serviçais em propriedade agrícola, ou morada separada da casa principal. No século XIX existiam nas grandes propriedades rurais dois modelos de senzalas. A primeira, estilo barracão, consistia de uma única construção retangular e alongada, internamente repartida em vários cubículos. (…) Geralmente existia um barracão para homens e outro para mulheres, mas havia também compartimentos em que eram alojados casais com filhos. Estas senzalas eram trancadas à noite pelos feitores, uma medida em geral insuficiente para impedir as fugas, mas importante para estabelecer a disciplina, porque determinava o horário de recolher-se à noite e de começar a trabalhar ao amanhecer.

O segundo modelo era formado por barracos separados, construídos com paredes de barro batido e cobertas de sapê ou telhas de cerâmica. Eram construídas pelos próprios cativos. Nessas habitações eles tinham a oportunidade de organizar o espaço e dotá-lo de elementos culturais aprendidos na África. Os escravos deviam valorizar bastante a construção do próprio barraco, porque lá era possível dispor de maior privacidade e liberdade para sua vida doméstica. Ali era possível cozinhar a própria comida e alimentar-se longe da vista do senhor.

(…) No interior das senzalas havia uns poucos objetos de uso pessoal, um baú para guardar as roupas, camas rudimentares ou esteiras para dormir, às vezes alguns tamboretes, panelas e pratos de barro e fogão a lenha. Nas regiões de mineração, os escravos moravam em choupanas chamadas de ranchos. Eram habitações simples que podiam ser facilmente desmontadas e transportadas para outros locais, conforme a necessidade de deslocamento da exploração mineradora.

(…) As vestimentas dos escravos eram extremamente precárias. Os senhores de engenho costumavam distribuir roupas prontas e tecidos duas vezes ao ano, no início e no fim do período de corte e moagem da cana. No século XVIII, fornecia-se um par de camisas e calças para os homens e saias de algodão cru para as mulheres. (…) Em Minas Gerais o trabalho de exploração do ouro e do diamante exigia pouca roupa. Como passava a maior parte do dia com as pernas mergulhadas na água, o escravo mineiro geralmente vestia calção curto e usava o costumeiro chapéu. Do ponto de vista do senhor, o pouco vestuário favorecia o controle, pois dificultava a ocultação de ouro ou alguma pedra preciosa.

(…) Além de vestir e cuidar dos que adoeciam, os senhores deviam alimentar seus cativos. Mas nem sempre cumpriam satisfatoriamente seus “deveres” e, muitas vezes, a falta de alimentos ou a sua péssima qualidade podia desencadear reações violentas dos cativos. (…). Foi a precária alimentação uma das causas principais da curta expectativa de vida dos cativos e das camadas mais pobres da população livre. Ao longo do período colonial e imperial, diversas leis e decretos foram criados para obrigar os senhores a fornecer alimentação suficiente ou reservar parte de suas terras ao cultivo de gêneros de subsistência, em particular a mandioca. (…) Em alguns engenhos os escravos dependiam exclusivamente da ração fornecida pelos senhores. Em outros permitia-se que os escravos preparassem o próprio alimento em suas senzalas. Mas, comumente, os engenhos combinavam as duas formas.

O acesso a uma roça era outro meio de ampliarem as fontes de sustento. Em muitas propriedades permitia-se aos escravos cultivarem suas próprias roças e disporem dos produtos como bem entendessem. Nas minas muitos senhores permitiam aos escravos cultivar hortas e criar porcos e aves domésticas nos dias em que não estavam no garimpo. O cultivo de roças aliviava parcialmente os mineiros dos gastos com comida e isso era importante numa região em que a maior parte dos alimentos vinha de fora. Do ponto de vista dos senhores, a concessão de espaços para cultivo era uma forma de obter a cooperação dos escravos. Mas para estes era a oportunidade de diversificar os alimentos que levavam para a senzala e, quando possível, acumular algum dinheiro com a venda do excedente da produção. Com esse dinheiro era possível começar a pensar na própria alforria e na dos filhos. A roça também servia como forma de mobilização da comunidade em torno do direito ao acesso à terra. Importante observar que, ao ampliar as fontes de sustento, os escravos abriram a possibilidade de melhorar a qualidade da comida e conferir-lhe um sentido cultural próprio, preparando-as com receitas relembradas da África.

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ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de & FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006, p. 78 a 82. Disponível em http://www.ceao.ufba.br/livrosevideos/pdf/uma%20historia%20do%20negro%20no%20brasil_cap03.pdf

 Texto 4: Pernambuco e Bahia

Debret senhora de algumas posses em seu lar

Senhora de algumas posses em seu lar, Debret, 1827.

(…) terra de alimentação incerta e vida difícil é que foi o Brasil dos três séculos coloniais. A sombra da monocultura esterilizando tudo. Os grandes senhores rurais sempre endividados. As saúvas, as enchentes, as secas dificultando ao grosso da população o suprimento de víveres.

O luxo asiático, que muitos imaginam generalizado ao norte açucareiro, circunscreveu-se a famílias privilegiadas de Pernambuco e da Bahia. E este mesmo um luxo mórbido, doentio, incompleto. Excesso em umas coisas, e esse excesso à custa de dívidas; deficiências em outras. Palanquins forrados de seda, mas telha-vã nas casas-grandes e bichos caindo na cama dos moradores.

(…) A própria Salvador da Bahia, quando cidade dos vice-reis, habitada por muito ricaço português e da terra, cheia de fidalgos e de frades, notabilizou-se pela péssima e deficiente alimentação. Tudo faltava: carne fresca de boi, aves, leite, legumes, frutas; e o que aparecia era da pior qualidade ou quase em estado de putrefação. Fartura só a de doce, geleias e pasteis fabricados pelas freiras nos conventos: era com que se arredondava a gordura dos frades e das sinhás-donas.

Má alimentação nos engenhos e péssima nas cidades: tal era a alimentação da sociedade brasileira nos séculos XVI, XVII e XVIII.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. São Paulo: Global, 2005, p. 100 a 102.

  Texto 5:  Impressões de um estrangeiro no início do século XIX

Rugendas_casa de fazendeiro1,1825

Casa de fazendeiro, Rugendas, 1825.

A casa do colono abastado tem apenas um andar; as paredes são de taipa e algumas vezes caiadas. Os alicerces, que se erguem a mais ou menos dois pés acima do solo, são formados de blocos de granito bruto. O telhado, recoberto de largas telhas convexas, ultrapassa de 8 a 12 palmos os muros do edifício e é suportado por vigas de madeira. Em torno da casa, estende-se uma varanda (…). Entra-se primeiramente numa grande peça que serve, em geral, de sala de jantar para todos os moradores da casa.

(…) As portas e as janelas são grandes, de madeira muito pesada; não há vidraças. Os móveis se reduzem, comumente, a grandes baús nos quais se guardam as vestimentas e as roupas e que servem, ainda, muitas vezes, de assento ou de leito. Há, também grandes mesas.  (…) O soalho, bem como teto, reveste-se de esteiras de palha; os escravos as trançam, sendo em seguida pintadas de cores vivas (…)

(…) A indumentária do homem consiste em uma camisa de algodão e uma calça do mesmo tecido. Andam descalços, embora com grandes tamancos muitas vezes munidos de esporas, de modo a estarem sempre prontos a montar a cavalo, pois é raro que o colono faça a pé o mais curto trajeto. No interior da residência as senhoras usam apenas um camisolão de algodão branco e, em chegando um estrangeiro, envolvem-se em um grande xale do mesmo tecido.

RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil (1835). São Paulo: Martins, Edusp, 1972, p. 113-4.

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