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Ascensão e queda do Império africano de Songhai

24 de março de 2019

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Ao fim de longa evolução de cerca de oito séculos, os songhai, estabelecidos nas duas margens do rio Níger erigiram um poderoso Estado e unificaram grande parte do Sudão, permitindo o desabrochar de brilhante civilização.

No início do século VIII,  fundaram Gao, a  capital do Estado songhai que logo prosperou graças ao comércio transaariano servindo como ponto de passagem de importante rotas provenientes do Marrocos, Egito e o que hoje corresponde à Tunísia, tendo também conexão com a região das florestas, ao sul. A cidade servia, assim, de de ponto de ligação entre o mundo mediterrâneo e a África subsaariana.

No mercado de Gao negociava-se sal, ouro, âmbar, goma arábica, peles de leopardos e escravos. Em troca dessas exportações, o Songhai recebia do Marrocos produtos manufaturados: joias, tecidos, espelhos, objetos de couro, trigo, cavalos etc.

Não muito longe dali, Tombuctu (ou Timbuctu), fundada pelos tuaregues por volta de 1100, era outro importante centro do comércio transaariano, ponto de encontro de caravanas, além de importante centro religioso e intelectual.

Evento de importância capital, foi a conversão do soberano songhai ao Islã em 1019 o que estreitou os laços com a África islâmica. A população, contudo, permaneceu fiel às suas crenças e práticas religiosas tradicionais.

Por volta do ano 1300, o Songhai passou para o controle do império de Mali como reino tributário. O mansa Kanku Mussá (1312-1337), soberano de Mali, construiu uma mesquita em Gao.

Nasce o Império Songai

A partir da segunda metade do século XIV, o Império do Mali entrou num lento processo de enfraquecimento devido a ataques estrangeiros, rebeliões internas e rivalidades palacianas. Pouco a pouco, os soberanos de Mali foram perdendo o controle sobre seus vastos domínios com diferentes povos. Foi nesse contexto que Songhai se libertou de Mali, o que ocorreu sob o reinado de Sunni Ali Ber (1464-1492).

Sunni Ali, um dos grandes reis-guerreiros da História, recuperou a independência de Songhai e expandiu seus domínios incorporando diversas províncias. Para tal, contou com um exército disciplinado e bem treinado, chefiado por homens competentes e, sobretudo por uma cavalaria poderosa. Subjugou Tombuctu em 1468, e Djenné, em 1470.  Atacou os tuaregues expulsando-os para o norte do Sahel. Empreendeu várias expedições contra os dogon, os mossi e os bariba.

Sunni Ali Ber

Sunni Ali Ber. Pintura de Leo Dillon, para uma série patrocinada pela Anheuser-Busch de pinturas de grandes líderes africanos

Após a sua morte, o império se viu mergulhado em disputas e conflitos até ser novamente centralizado por Askia Muhamad, o Grande (1493-1528), de origem soninke que deu início a uma nova dinastia muçulmana. Apesar de iletrado, era muçulmano fervoroso e político sagaz. Askia alinhou-se firmemente com os habitantes das cidades islâmicas, especialmente os estudiosos de Tombuctu, e isso levou tanto a um florescimento da literatura e dos escritos históricos quanto a uma burocracia poderosa e bem treinada para o seu reino.

Askia consolidou o império fundado por Soni Ali expandindo-o a seus limites máximos que abrangia as regiões dos atuais Mali, Níger, Senegal, Guiné, Gâmbia e Burkina Faso, totalizando 1,4 milhão de km2.  Estendeu as fronteiras do império estendiam-se ao norte através do deserto até as minas de sal de Taghaza, trazendo ambas as extremidades da rede de comércio transsaariana sob seu controle. Embora fosse um muçulmano devoto, não forçou a islamização da população nem dos povos dominados. Essa diplomacia garantiu-lhe alianças bem escolhidas e tratados negociados de forma inteligente.

Askia Muhammed Toure. Pintura de Leo Dillon realizada para a mesma série.

“O Império Songhai foi profundamente original quanto à organização política e administrativa. A forte estruturação do poder, a centralização sistemática e o absolutismo real são características que atribuíram uma coloração moderna à monarquia de Gao, distinguindo-a do sistema tradicional de federação de reinos vigente nos impérios de Gana e Mali.”

A monarquia de Gao (…) fundava-se nos valores islâmicos e consuetudinários. Segundo os antigos costumes sudaneses e songhai, o toi (rei) era o pai do povo, dotado  de poderes semissagrados, fonte de fecundidade e prosperidade. Já a tradição islâmica estipulava que o monarca de Gao, muçulmano desde o século XI, devia governar segundo os preceitos do Corão. Essas duas tradições combinavam-se; dependendo da personalidade do soberano, predominava uma ou outra.” (SILVERIO: 2013, cap. 4, p. 456).

Império Songhai

No século XVI, o Imperio Songhai atingiu sua extensão máxima abrangendo as regiões dos atuais Mali, Níger, Senegal, Guiné, Gâmbia e Burkina Faso.

O império prosperou econômica e intelectualmente. O vale do Níger foi intensamente cultivado e ali vivia uma densa população rural. Havia segurança e a fome era rara. O Islã não enraizou no campo: os camponeses mantiveram os valores locais e as crenças tradicionais.

As grandes cidades de Gao, Tombuctu e Djenné mostraram-se mais ativas do que nunca. Uma população cosmopolita de árabo-berberes, mossi, haussa, manden (Wangara), soninke, fulbe etc. ali vivia tendo a língua songhai como vínculo comum.

Tombuctu

Tombuctu, apelidada de “cidade dos 333 santos”, foi capital intelectual e religiosa, e centro de difusão do islamismo na África subsaariana nos séculos XV e XVI.

Urbana e aristocrática, a fé islâmica acabou sofrendo adaptações originando um islamismo negro-africano tolerante. Nos séculos XV e XVI, o Sudão nigeriano teve um florescimento intelectual. A universidade mais célebre foi a de Tombuctu. Essa cidade possuía cerca de 124 escolas corânicas frequentada por cerca de 20.000 estudantes para 80.000 habitantes. Seus estudantes vinham de todas as regiões do Sudão e do norte do continente. Recebia professores e sábios de vários pontos do mundo islâmico. Para Tombuctu foram os eruditos mouros expulsos da Espanha.

Nas escolas islâmicas de Tombuctu, Djenné e Gao aprendia-se além de teologia, linguística, literatura, filosofia grega, direito, matemática, astronomia, medicina e outras ciências. Havia intenso intercâmbio com as universidades do Cairo e de Damasco.

Foi nessa altura que o império sofreu um revés definitivo: o ataque dos exércitos do sultanato do Marrocos.

Batalha de Tondibi e a queda de Songhai

No norte do continente africano, o sultanato Saadiano, no Marrocos, estava no auge do seu poder. Em 4 de agosto de 1578, as forças do sultão marroquino, à frente de 50 mil homens haviam vencido as tropas portuguesas com 16 mil homens comandadas pelo rei D. Sebastião, em Alcácer-Quibir. A vitória, porém, esgotou do país deixando o Marrocos à beira da falência.

Em busca de novos recursos para o seu reino, o sultão Ahmad al-Mansur Saadi voltou sua atenção para o Império Songhai onde cobiçou apoderar-se das fabulosas minas de ouro.

Embora seus conselheiros tenham advertido que era ilegal travar uma guerra contra outra nação muçulmana, ele rejeitou suas objeções. Em outubro de 1590, ele despachou uma força de 1.500 cavaleiros e 2.500 guerreiros de infantaria, muitos dos quais equipados com arcabuzes. O comando foi confiado ao paxá Djudar, um eunuco espanhol nascido como Diego de Guevara que havia sido capturado quando criança.

O exército saiu de Marrakech em 29 de outubro de 1590 acompanhado por uma expedição de apoio de 8.000 camelos, 1.000 cavalos de carga e 600 trabalhadores. Levaram também oito canhões ingleses.

Após uma viagem de quatro meses, Djudar chegou ao território de Songhai com poucas perdas. Suas forças capturaram, saquearam e arrasaram as minas de sal em Taghaza e seguiram em direção a Gao, capital Songai.

Em 12 de abril de 1591, os exércitos se encontraram perto de Tondibi, a uns 50 km ao norte de Gao. Embora Songhai tivesse uma poderosa cavalaria, não dispunha de armas de fogo. Lutava com espadas, lanças e dardos. A estratégia de provocar o estouro de uma boiada formada por 1.000 animais para derrubar a infantaria marroquina não funcionou: o gado foi desbaratado pelo barulho dos tiros e o estrondo dos canhões.

Cavalaria songhai

Cavalaria songhai

A cavalaria Songhai foi massacrada pelas armas de fogo dos marroquinos. Djudar entrou em Gao e saqueou a cidade, mas encontrou pouco riqueza. Seguiu para Tombuctu e Djenné saqueando-as também.

O Império Songhai desmoronou e nunca mais se ergueu. No entanto, o Marrocos mostrou-se incapaz de exercer um controle firme sobre a área devido à vastidão dos domínios Sonhai e às dificuldades de comunicação. Uma década de combates esporádicos começou e o terrritório acabou se dividindo em dezenas de reinos menores.

Os Songhai sobreviventes estabeleceram o Reino Dendi que perduraria até que os colonizadores franceses  o conquistassem em 1901. O Songhai ainda perdura nas tradições e na língua hoje falada por três milhões de pessoas.

Fonte

  • ABITBOL, Mohamed. “O fim do Império Songai”. In: OGOT, Bethwell Allan (dir.). História Geral da África. A África do século XVI ao XVIII, v. V. São Paulo: Cortez, 2011, cap. 11.
  • SILVERIO, Valter Roberto. Síntese da coleção História Geral da África: Pré-História ao século XVI. Brasília: Unesco, MEC, UFSCar, 2013, cap. 4, p. 453 a 459.
  • __________. Síntese da coleção História Geral da África: século XVI ao XX. Brasília: Unesco, MEC, UFSCar, 2013, cap. 5, p. 71 a 76.
  • CONRAD, C. D. Empires of medieval West Africa: Ghana, Mali and Songhay. Reino Unido: Chelsea House Publishers, 2009.
  • WESTENFELDER, F. The exploits of Fuck Pasha: the conquest of the Songhai Empire. Soldiers of Misfortune.
  • TESFU, Julianna. Songhai Empire (ca. 1375-1591). Black Past. 29 jun 2008.
  • MICHEL, Jonathan. The invasion of Marocco in 1591 and the Saadian Dynasty. University of Pennylvania. African Studies Center. 1 dez 1995.

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