Aristóteles e a sedutora Filis: uma lenda misógina medieval

11 de janeiro de 2017

0
compartilhamentos

A sociedade medieval foi masculina, guerreira e misógina, isto é, nutriu um desprezo generalizado pelas mulheres. Lógico que existiram exceções, e muitas. Não devemos pensar nas mulheres medievais como um grupo compacto e homogêneo oprimido pelos homens. Muitas mulheres romperam os costumes e exerceram os direitos de um senhor feudal, camponesas e artesãs executaram tarefas ao lado dos homens, e existiram mulheres comerciantes que se envolveram em operações financeiras, inclusive com a usura.

Mas o estigma do pecado original tão presente nos textos dos pensadores e teólogos da era medieval reforçava a misoginia. Santo Agostinho, grande representante do pensamento cristão, considerava a sujeição feminina na ordem natural das coisas. O homem deveria ser governado apenas pela sabedoria divina, enquanto que a mulher, deveria ser governada pelo homem. A razão viril deveria governar o corpo pois o desejo, obra do diabo, destruía o homem.

A mulher, inspiradora do desejo, era a causa do desespero e da perdição da humanidade, o princípio de todos os males. São Jerônimo afirmava que a mulher pendia naturalmente para o prazer, não para a virtude. Sedutora e seduzida, ela é considerada frágil, perigosa, astuciosa, inconstante, traidora, infiel e fútil. A sensualidade feminina era o pecado mais reprovado pelos religiosos na sociedade medieval. Para eles, o pecado da luxúria residia unicamente no corpo feminino.

É nesse contexto que nasceu a lenda, burlesca e erótica, sobre o filósofo grego Aristóteles e a bela jovem indiana Filis. A versão abaixo é uma adaptação baseada, em grande parte, na narrativa de Lope García de Salazar (1399-1476), nobre cronista de Viscaya, região do País Basco, Espanha.

A história de Aristóteles e Filis

Aristóteles já era um filósofo famoso quando foi chamado à Macedônia para ser tutor daquele que seria conhecido como Alexandre, o Grande. A missão do velho sábio era passar todo o conhecimento ao jovem príncipe macedônio.

Em uma de suas expedições à Índia, Alexandre se apaixonou por uma mulher belíssima chamada Filis e a trouxe para o palácio. Os encontros entre os apaixonados eram cada vez mais constantes e prolongados, levando Alexandre a negligenciar seus deveres e estudos.

Percebendo isso, Aristóteles advertiu o jovem príncipe pedindo-lhe que deixasse Filis ou reduzisse seus encontros com a moça para se dedicar mais aos exercícios da virtude e às responsabilidades do governo. Alexandre, como um bom discípulo, acatou o conselho do mestre e se afastou da amante.

Filis, sentindo seu amor roubado pelo velho mestre, decidiu vingar-se dele.  Vestida com roupas leves e transparentes, pés descalços, cabelos soltos e enfeitados com flores e uma tiara de ouro, Filis passeou pelos jardins, diante da janela de Aristóteles. Fez isso dia após dia, dançando e cantando canções de amor, deixando ver suas belas curvas, até dobrar o filósofo, que acabou completamente fascinado pelas insinuações sensuais da jovem.

Enlouquecido de amor e desejo, Aristóteles declarou-se a Filis. Fingindo-se encantada pelo velho mestre, Filis exigiu-lhe uma prova de amor para se entregar: que Aristóteles engatinhasse até ela e deixasse ser selado e cavalgado por ela. Assim justificou a jovem o seu estranho pedido:

– Senhor, quero isso porque os homens têm o costume de desprezar as mulheres depois de atendidos seus desejos. Assim, saberei que não está me iludindo. E se quiser me ludibriar depois de cumprida a sua vontade que eu possa dizer que lhe cavalguei como um cavalo.

Pensando que estavam a sós no jardim, Aristóteles atendeu o pedido da jovem e, colocando-se de quatro, deixou-se selar e Filis subiu às suas costas.

– Relincha! Relincha! – gritava Filis batendo o chicote nas nádegas do filósofo.

Nesse momento, Alexandre, que já havia sido alertado por Filis, saiu de trás de um esconderijo e gritou perplexo:

– O que é isso, mestre honrado?

Outras pessoas que o acompanhavam riram da cena aumentando ainda mais a vergonha do filósofo apanhado em flagrante.

Constrangido e humilhado, Aristóteles ainda deu uma última lição ao aprendiz:

– Se um homem velho e sábio foi enganado por uma mulher por causa do amor, veja que eu lhe ensinei bem, pois o mesmo poderá acontecer com você, um jovem. O que é a razão para impedir Eros? De nada serve a idade, a reputação ou o conhecimento.

Filis cavalga Aristóteles. Aguamanil, século XIV.

Filis cavalga Aristóteles. Aguamanil,, recipiente para derramar água na lavagem das mãos, Países Baixos, final do século XIV, bronze, 33 cm de altura. Coleção Robert Lehman.

A moral (medieval) da história

É bem clara a mensagem moralizadora da história medieval: advertir os homens do poder ameaçador das mulheres. Se até o mais sábio dos homens foi reduzido a um animal pela luxúria e artimanhas de uma mulher, imagine o que sofreriam os homens comuns em suas mãos. A historieta reforçava outros exemplos semelhantes como Adão e Eva, Sansão e Dalila. A mulher levava o homem ao pecado, destruía reputações e lançava-os aos perigos da carne, a pecaminosa luxúria.

A moral cristã medieval desconfiava ou mesmo repudiava o prazer físico. O casamento não deveria ser realizado pelo desejo de copular, mas pelo dever da procriação.  O ato sexual para obtenção de prazer devia ser evitado. O prazer, segundo os moralistas, mantinha o espírito prisioneiro do corpo, impedindo-o de se elevar em direção a Deus. Daí que se recomendava ao homem casado não tratar sua esposa como se fosse prostituta, e nem a mulher, tratar o marido como seu amante.

A mentalidade misógina medieval era clara: o desejo, obra do diabo, destrói o homem. A mulher, inspiradora do desejo, é por excelência agente do mal, causa do desespero, da humilhação, da morte e da danação eterna do sexo masculino. Um monge cluniacense do século XII concluía sobre os vícios femininos:

Toda mulher se alegra ao pensar no pecado e ao praticá-lo.

Nenhuma é boa, se alguém assim acha

Porque a mulher boa é coisa ruim

E quase nada de bom existe nela

(Apud MACEDO, José Rivair. A mulher na Idade Média, p. 44.)

Há quem veja na lenda um certo fetichismo da mulher dominadora. Mas o fetichismo é aparente: ao sábio é dado uma tarefa para obter a recompensa, e a tarefa se torna a recompensa da mulher.

As fontes escritas e iconográficas

A lenda de Aristóteles e Filis popularizou-se e ganhou numerosas versões como as de Jacques de Vitry, teólogo e cardeal da França do século XIII, de John Herold, frade dominicano do século XIV, e de López Garcia de Salazar, cronista vizcaino do século XV. O mais antigo sucesso conhecido da lenda é o poema Li Lai Aristoteles (c.1220-1240), de Henri d’Andeli, clérigo e escritor francês que pode ter servido de modelo para versões posteriores. Há, contudo, muitos fragmentos anônimos ainda mais antigos.

A popularidade da lenda é atestada pela farta iconografia que inspirou, sob diversas formas: gravuras, xilogravuras, litogravuras, tapeçaria e óleo, além de relevos e até objetos utilitários, como se poder ver nas ilustrações desse artigo. Em todas imagens, a mensagem é clara: a mulher dominadora subjuga, castiga, flagela e humilha o homem até mesmo o maior de todos os sábios.

Outras lendas similares, de mulheres seduzindo grandes figuras da história, ganharam força no final da Idade Média. Tal foi o caso da fábula medieval francesa sobre o poeta romano Virgílio.  Conta-se que o poeta caiu de amor pela filha do imperador Augusto. Pensando que ela compartilhava sua paixão, ele marcou um encontro às escondidas. Na noite combinada, a jovem lançou um cesto pela janela para erguer Virgílio até seu quarto, no alto de uma torre. Mas ergueu-o apenas na metade deixando o poeta balançar desamparadamente por toda noite. Na manhã seguinte, uma multidão se reuniu divertindo-se de sua situação e zombando de sua loucura. Mais uma lição moral sobre as artimanhas da mulher e o perigo da luxúria.

Com tantas histórias desse tipo (e Bocage é farto em exemplos) suspeita-se que, afinal, os padres devem ter tido muita dificuldade em convencer os fiéis a evitarem o desejo e fugirem das mulheres sedutoras. A força do desejo superava o medo da perdição.

Filis cavalga Aristóteles, 1513

Filis cavalga Aristóteles, xilogravura, Hans Baldung Grien, 1513

Filis cavalga Aristóteles, relevo, madeira, século XV.

Filis cavalga Aristóteles, relevo, madeira, século XV.

Filis cavalga Aristóteles, desenho, Jan de Beer (1450-1536).

Filis cavalga Aristóteles, desenho, Jan de Beer (1450-1536).

Filis cavalga Aristóteles, desenho, Lucas van Leyden, c. 1515

Filis cavalga Aristóteles, desenho, Lucas van Leyden, c. 1515, Biblioteca Nacional,, Paris.

Virgílio zombado pela multidão.

O poeta Virgílio suspenso em um cesto é zombado pela multidão. Xilogravura, Lucas van Leyden, séc. XVI.

Fonte

  • SALAZAR, López García de (1399-1476). Libro de las Bienandanzas e Fortunas. Obra completa, edição de Ana María Marín Sánchez. A narrativa de Aristóteles e Filis encontra-se no Livro V, capítulo intitulado: De cómo Aristóteles fue engañado por una doncella por consejo de Alejandro porque le criticaba su mucha relación con las mujeres”.       
  • Aristote sous Phyllis ou le philosophe et la courtisane. Revista digital Philalethe Net.
  •  MINOWA, Yuko, MACLARAN, Pauline & STEVENS, Lorna. Visual representations of violent women. Journal Visual Communication Quarterly. V.21,2014.
  • MACEDO, José Rivair. A mulher na Idade Média. São Paulo: Contexto, 1992.
  • PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das catedrais. Lisboa: Gradiva, 1984.
  • _________. A mulher nos tempos das Cruzadas. Campinas, SP: Papirus, 1993.
  • POWER, Eileen. Les femmes au Moyen Age. Paris: Aubier-Montaigne, 1979.

Compartilhe

Comentários

Subscribe
Notify of
guest
4 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Ana Carolina Rodrigues
Ana Carolina Rodrigues
3 anos atrás

Quando lemos uma história como essa, o primeiro pensamento é: “como eram retrógados naquela época”.

Mas continuamos até hoje com o mesmo pensamento ao culpar as mulheres pelos desejos dos homens, afinal, são suas saias, vestidos e decotes os culpados pelos assédios e estupros…..

Fernando jose da silva
Fernando jose da silva
3 anos atrás

Bom dia,
Gostaria de agradecer a professora e a todos que dispõe um material como esse para nosso deleite histórico.
Obrigado,

Rodrigues Vanzuita
2 anos atrás

Como já disse o poeta Otacílio, “mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”. Na idade média os homens culpavam as mulheres por tudo, hoje as feministas culpam os homens por todas as mazelas do mundo. Estamos empatados!

Icaro da Silva
Icaro da Silva
2 anos atrás

Interessante saber as raízes do machismo na sociedade ocidental.

Outros Artigos

Últimos posts do instagram

Fique por dentro das novidades

Insira seu e-mail abaixo para receber atualizações do blog: