“Arena conta Tiradentes”, o teatro político

12 de abril de 2016

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A peça teatral Arena conta Tiradentes, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri desafiou os críticos e os historiadores ao conciliar um teatro político de esquerda a um herói mitificado da história brasileira. Estreado em 21 de abril de 1967, em São Paulo, SP, Arena conta Tiradentes era o resultado de uma transformação que acontecia nos palcos desde a década anterior e que ganhava contornos revolucionários com a implantação da ditadura militar. (Foto de abertura: José Wilker (1944-2014) como Tiradentes, no filme“Os Inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade, 1972, que, tal como a peça “Arena conta Tiradentes” tem cenas e diálogos com duplo sentido em alusão à ditadura militar.)

(No final do artigo, faça o download do texto da peça “Arena conta Tiradentes”)

O grupo Teatro de Arena

Fundado em 1953 na cidade de São Paulo, o Teatro de Arena nasceu com a proposta de levar aos palcos autores nacionais, usando uma linguagem popular e montagens despojadas, de baixo custo. Esses elementos rompiam com o teatro em voga na época, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), cujo repertório era estrangeiro, com uma linguagem teatral britânica e produções sofisticadas.

Importantes nomes da dramaturgia brasileira destacaram-se no Teatro de Arena, entre eles Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho (o Vianinha), Flávio Migliaccio e Augusto Boal.

Na década de 1960, o grupo encenou peças musicais com forte influência do teatro de Bertolt Brecht, que utilizavam temas históricos como alegoria do presente pregando a luta contra a ditatura. Arena conta Zumbi (1965), com música de Edu Lobo, e Arena conta Tiradentes (1967), ambos de Boal e Guarnieri, fazem parte do repertório musical. Havia um personagem especial, o Coringa, que preenchia vários papeis: narrador, entrevistador, juiz ou outro. Além disso, os atores revezavam-se representando diversos personagens.

A forte repressão da ditadura militar que culminou com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, impediu a continuidade destas experiências. O Teatro de Arena parou suas atividades em 1972. Boal foi preso e exilado retornando ao Brasil com a anistia em 1984.

Grupo do Teatro de Arena

Grupo do Teatro de Arena tendo, ao centro, Augusto Boal (de casaco claro) e Gianfrancesco Guarnieri (de casaco escuro), c.1968-1970.

“Teatro do oprimido”: o teatro subversivo

No exílio, Boal desenvolveu as bases teóricas do “teatro do oprimido”, uma metodologia que une teatro e ação social e que tornou seu trabalho conhecido internacionalmente. Com influência de Bertolt Brecht, Paulo Freire e Karl Marx, o teatro do oprimido vincula-se ao teatro de resistência com características de militância política.

Boal define a sua criação:

“O Teatro do Oprimido é o teatro na acepção mais arcaica da palavra: todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-atores (…). Creio que o teatro deve trazer felicidade, deve ajudar-nos a conhecermos melhor a nós mesmos e ao nosso tempo. O nosso desejo é o de melhor conhecer o mundo que habitamos, para que possamos transformá-lo da melhor maneira. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. Pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperarmos por ele.” (BOAL, 1997.)

O teatro do oprimido propunha subverter a lógica tradicional do teatro – atores no palco, espectadores na plateia – interagindo os dois e levando à mobilização do público.  Com isso, Boal traçava uma analogia entre artes cênicas e a vida política, isto é, romper a dualidade que ainda pauta a vida social e política que divide as pessoas entre as que sabem e as que não sabem, as que têm o direito de agir e as que não têm.

“Arena conta Tiradentes”

Assim justificou Boal o uso, no teatro, de um personagem da história brasileira mitificado como “mártir da independência”:

“Feliz o povo que não tem heróis, cantou Bertolt Brecht. Concordo. Porém, não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes.” (BOAL, 1977, p. 223.)

Os autores basearam-se nos Autos da Devassa e alguns trechos foram fielmente reproduzidos na peça. O termo “inconfidência” presente nessa fonte, foi cunhado pelos inimigos da trama, já que significa “infidelidade”. Hoje, os historiadores se referem a este episódio como “Conjuração mineira”. Tal como se vê nos Autos, Tiradentes é um participante sem interesses pessoais e sem papel destacado de liderança na conspiração. É um entusiasta que se contrapõe aos demais inconfidentes que aderiram ao movimento preocupados com suas fortunas ameaçadas pela Coroa. O historiador Maxwell, em trabalho posterior ao texto teatral, concluiu “Na verdade, o alferes provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais amplos do movimento.” (Maxwell, 1978, p. 216).

Em vez de mártir, Tiradentes é apresentado como herói revolucionário que luta pela derrubada de um regime de opressão e pela implantação de um regime capaz de promover a felicidade de seu povo. No texto teatral, as falas de Tiradentes são anacrônicas, pois construídas com frases dos anos 1960 contra a ditadura: “culpado é quem suporta humilhação sem se revoltar”, “maior traição é não trair quem trai o povo”. O recado à plateia era claro: não aceitar a opressão e levantar-se contra ela.

Gianfrancesco Guarnieri em "Arena conta Tiradentes",1967.

Gianfrancesco Guarnieri (à esquerda), no papel de Coringa, encenando “Arena conta Tiradentes”, 1967.

A inconfidência é caracterizada como um movimento de intelectuais, de “gente na maioria em cima do muro, pronta pra pular pra qualquer lado”. O povo estava ausente das discussões, o que é destacado na fala de Joaquim Silvério dos Reis: “O povo não se reúne na casa do ouvidor Gonzaga e muito menos na do Tenente-Coronel. E graças a Deus não vai mesmo. Já imaginou esse povaréu de mazombos tomando conta disso? Virgem Nossa Senhora, não quero nem pensar. Pois não estavam falando em libertar os escravos? Com o tempo, eles vão acabar falando de reforma agrária…”

Silvério justifica sua traição em clara alusão às delações feitas durante a ditadura: “Traição aqui entre nós está institucionalizada. É legal e até dá lucro. A Coroa não quer gastar dinheiro aqui pra manter uma polícia secreta. Qual a solução? Transformou cada cidadão num delator em potencial.”

Ironicamente, a peça fez uma profecia ao criticar a postura contemplativa da esquerda que, em 1967, perdia-se em longas discussões políticas enquanto “os soldados estão as ruas. Estão na rua pra prender. E ninguém sabe. Todos pensam em se defender. Mas todos serão presos, um a um, e ninguém sabe”. Naquele mesmo momento estava-se elaborando o AI-5 que acabaria com as atividades do Teatro de Arena e de outros grupos de teatro político como o Teatro Oficina (SP) e o Opinião (RJ) com a prisão de atores e diretores.

Ficha técnica de “Arena conta Tiradentes”

  • Autoria: Augusto Boal (1931-2009) e Gianfrancesco Guarnieri(1934-2006).
  • Estreia: 21 de abril de 1967.
  • Direção teatral: Augusto Boal.
  • Direção musical: Théo de Barros.
  • Elenco: David José (Tiradentes), Gianfrancesco Guarnieri (Coringa), Antônio Fagundes, Célia Helena, Dina Sfat, Jairo Arco e Flexa, Sylvio Zilber, Vânia Sant’Ana e Yara Amaral.
  • Trilha sonora: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sidney Miller e Théo de Barros.
  • Cenografia e figurinos: Flávio Império.
Arena conta Tiradentes

Gianfrancesco Guarnieri como Coringa no papel de juiz; ao fundo David José no papel de Tiradentes.

Faça o download do texto em PDF

O texto para download traz trechos da peça “Arena conta Tiradentes” que permitem uma encenação curta ou a leitura dramática da peça.

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