Visão de futuro: como Albert Robida e outros imaginaram o séc. XXI

17 de agosto de 2017

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Artistas do século XIX deixaram imagens futuristas surpreendentes sobre como imaginavam o mundo no século XXI. A época em que viveram, a segunda metade do século XIX, foi marcada por avanços técnicos e científicos em todos os campos da ciência (veja quadro abaixo). Nas grandes cidades exaltavam-se as novidades como sinal de progresso e de “civilização”. Um clima de otimismo no futuro difundiu-se nas sociedades urbanas industriais, especialmente com a aproximação do novo século e os preparativos para a grandiosa Exposição Mundial de 1900, em Paris onde o público pode ver, pela primeira vez, o que havia de mais recente em ciência e tecnologia.

Descobertas e invenções do século XIX

A chamada Segunda Revolução Industrial (c. 1850/70 a 1920/30) foi marcada por uma série de avanços técnicos e científicos que impulsionaram a produção industrial. A descoberta da conversão do ferro em aço abriu a era das grandes usinas siderúrgicas. O aço substituiu o ferro nos armamentos, nas máquinas e foi usado no ramo da construção, em pontes, viadutos e arranha-céus (o primeiro construído em 1884).

Novas fontes de energia – a eletricidade e o petróleo – abriram caminho para uma revolução nos meios de transporte, nas comunicações e na vida urbana. Lâmpadas elétricas iluminaram ruas, estenderam a jornada de trabalho nas fábricas e ampliaram o lazer noturno nas grandes cidades com teatros, restaurantes, bailes, óperas e o cinema (inventado em 1895).

Ferrovias encurtaram distâncias unindo áreas urbanas e rurais. Nas cidades, bondes elétricos e metrôs (o primeiro inaugurado em Londres, em 1863) ligaram o centro à periferia. A invenção do telefone, telégrafo sem fio, cabo submarino e rádio revolucionou as comunicações.

Nos Estados Unidos, os inventores Thomas Edson e Nikola Tesla disputavam qual o melhor sistema de transmissão de energia elétrica, se a corrente contínua ou a corrente alternada.

Descobertas na química e na biologia alteraram a relação do homem com a natureza com a invenção de inseticidas, adubos e explosivos (usados na construção de canais, túneis, estradas etc). Na medicina, a descoberta da anestesia, de vacinas e do bacilo da tuberculose e da peste bubônica revolucionaram a vida humana contribuindo para sua longevidade e o crescimento demográfico.

O século XIX imagina o século XXI

O clima de transformações aceleradas incendiou a imaginação de desenhistas, pintores e escritores. Os avanços científicos estimularam Júlio Verne (1828-1905) a escrever obras que inauguraram o gênero de ficção científica, entre elas, Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865), Vinte Mil Léguas Submarinas (1870) e Volta ao mundo em oitenta dias (1873) – em que os personagens pilotam submarinos e máquinas voadoras para viajar ao centro do planeta ou à Lua.

Albert Robida (1848-1926), escritor, caricaturista e ilustrador francês seguiu na mesma linha. Escreveu e ilustrou uma trilogia de romances futuristas em que imaginou o mundo no ano 2000 transformado pela tecnologia: Le vingtième siècle (“O século XX”, 1883), La guerre au vingtième siècle (“A guerra no século XX”, 1887) e La vie électrique (“A vida elétrica”, 1890).

Em sua visão futurista, Robida alerta sobre doenças criadas pelo homem, a poluição do ar e dos rios, guerra com gases venenosos e mísseis acionados à distância (La guerra au vingtième siècle). Para diminuir os danos à saúde, ele projeta a criação de parques em toda a Europa onde as inovações técnicas seriam proibidas e onde os moradores da cidade poderiam se recuperar e restabelecer o contato com a natureza.

Em La vie électrique ele deixa claro a posição das mulheres no futuro:

“As mulheres agora são iguais aos homens, recebem a mesma educação e o direito de voto, têm os mesmos direitos políticos e sociais. (…) Tanto homens como mulheres estão febrilmente ocupados com seu trabalho. (…) Ela abre uma loja, funda um jornal ou um banco (…).

O téléphonoscope imaginado por Robida em La vie életrique era um aparelho de videofone e televisão de tela plana que transmitia, 24 horas por dia, as últimas notícias, a programação teatral, cursos e teleconferências e ainda com possibilidade de interação do usuário.

Noticiário transmitido pelo téléphonoscope, Albert Robida

Pessoas assistem ao noticiário de uma guerra na África transmitida pelo téléphonoscope. Albert Robida, “La vie életrique”, 1890.

Ttéléphonoscope e o risco de pornografia, Albert Robida

Risco do téléphonoscope: a mulher esqueceu de desligá-lo e os homens puderam vê-la se despindo. A imagem evoca as atuais redes sociais e a pornografia via webcam. Albert Robida, “La vie életrique”, 1890.

Curso à distância por meio do téléphonoscope, Albert Robida.

Mulher assiste a um curso à distância por meio do téléphonoscope. Albert Robida, “La vie électrique”, 1890.

Por volta de 1882, Albert Robida imaginou como seria a saída do público do teatro, em Paris, no ano 2000, e criou a gravura Le sortie de l’opera en l’na 2000. Uma visão futurista dos percursos aéreos sobre a cidade de Paris. Diferentes tipos de veículos, incluindo ônibus e limousines, patrulhas da polícia rondando os céus, mulheres são também vistas dirigindo suas próprias aeronaves. O automóvel só seria oficialmente criado em 1885 e o avião ainda mais tarde, em 1903, portanto muito depois do desenho futurista de Robida. Um futuro imaginado com máquinas fabulosas, mas onde as pessoas continuam usando a moda do final do século XIX e se divertindo com o mesmo tipo de entretenimento.

Saída da ópera no ano 2000, de Albert Robida, 1882

“Saída da ópera no ano 2000”, de Albert Robida, 1882. Damas elegantes entram no táxi aéreo (à direita), policiais patrulham o espaço aéreo (ao centro), uma dama dirige sua própria aeronave (abaixo à direita) e clientes chegam a um restaurante erguido nas alturas (embaixo à esquerda).

Outros artistas, como os franceses Jean Marc Cótè e Villemard (ou Ville-Emard), também imaginaram o futuro em que máquinas simplificariam o trabalho e o cotidiano das pessoas. Jean Marc Cótè criou gravuras futuristas em 1899 que seriam impressas, no ano seguinte, em em caixas de cigarros e charutos, em comemoração à mudança do século. Mas a fábrica de tabaco fechou antes que as imagens entrassem em circulação. Villemard, por sua vez, produziu, entre 1899 e 1910, uma série de 25 cromolitografias (cartões) que chamou En l’an 2000 ou Visions de l’an 2000.

Se alguns desenhos nos parecem, hoje, fantasiosos demais, outros são surpreendentemente proféticos chegando a prever as atuais tecnologias de comunicação e informação. Interessante observar que a visão de futuro de Albert Robida, Jean Marc Cótè e Villemard conserva elementos de seu próprio tempo, como as vestimentas, a ordem social, o trabalho e as atividades cotidianas. Um exemplo de que a obra de ficção científica é um documento de mão dupla: imagina o futuro sob o olhar do presente. Neste sentido, ela pode nos revelar subjetividades da época em que foi produzida, isto é, expectativas, impressões e valores nem sempre perceptíveis em outras fontes.

Confira nas dez imagens abaixo.

Correio aéreo, ean Marc Cótè, 1899.

Os carteiros do ano 2000 pilotariam um veículo aéreo para entregar as correspondências no alto dos edifícios. Jean Marc Cótè, 1899.

Trabalho doméstico, Jean Marc Cótè, 1899

A limpeza doméstica, no ano 2000, seria feita por equipamentos elétricos facilmente manipulados pelos empregados. Jean Marc Cótè, 1899.

Trabalho rural, Jean Marc Cótè, 1899

O trabalho rural no ano 2000 não necessitaria de empregados. O fazendeiro do futuro realizaria todas atividades por meio de alavancas e botões que acionariam máquinas elétricas. Jean Marc Cótè, 1899.

Explorador, Jean Marc Cótè, 1899.

No ano 2000, aviões substituiriam as difíceis expedições de exploradores e aventureiros nas áreas mais remotas do planeta. Jean Marc Cótè, 1899.

Escola, Villemard, 1910.

A escola no ano 2000: o professor introduz livros no funil de um dispositivo que, acionado por um assistente, transmite o conteúdo em ondas elétricas diretamente para os fones de ouvido usados pelos alunos. “À l’École”, Villemard, 1910.

“Audition du Journal”, Villemard, 1910.

No ano 2000, as notícias não seriam lidas mas ouvidas através de fonógrafo. O casal ouve o noticiário do “Diário do século XXI” gravado no cilindro fonográfico. “Audition du Journal”, Villemard, 1910.

“Chauffage au Radium”, Villemard, 1910.

O aquecimento residencial, no ano 2000, não usaria lenha, mas o rádio, um elemento radioativo. Essa é, possivelmente a primeira ideia de uso da energia nuclear com fins pacíficos. “Chauffage au Radium”, Villemard, 1910.

“Madame à sa toillete”, Villemard, 1910.

A toalete feminina no ano 2000 seria feita por meio de máquinas. Acionando um painel lateral e pedais, a mulher controla uma série de braços mecânicos que servem para pentear e maquiar. No fundo, uma banheira equipada com uma escova mecânica. “Madame à sa toillete”, Villemard, 1910.

Correspondance, Villemard, 1910.

A comunicação no ano 2000 se daria em tempo real por meio de um equipamento que transmitiria imagem e áudio. Um homem, assistido por um operador telegrafista, fala através de um telefone com uma mulher que vê projetada em uma tela. “Correspondance cinéma-phono-télégraphique”, Villemard, 1910.

Dictant son courrier, Villemard, 1910.

No ano 2000, a carta não seria mais ditada à secretária. O patrão, sentado em sua mesa, gravaria sua carta em um equipamento capaz de verter a voz em texto e imediatamente seria transcrito para o papel através de um dispositivo semelhante a uma máquina de escrever. “Dictant son courrier”, Villemard, 1910.

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Mara Eugenia
Mara Eugenia
4 anos atrás

Ele foi praticamente um Nostradamus, acertou muita coisa.

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[…] Albert Robida e sua visão de futuro […]

Eduino de Mattos
Eduino de Mattos
2 anos atrás

Joelza, OBRIGADO, (sou técnico em telecomunicações) PREVISÃO ANO

2000, acho que a que mais se aproxima É A PENÚLTIMO DESENHO, pois hoje com os meios de comunicações na WEB, retrata bem esta visão.

Joaquim Augusto Domingues
Joaquim Augusto Domingues
2 anos atrás

Muito interessante. É curioso viver na época em que as pessoas, no passado, imaginavam como seria o futuro. Chega a ser hilário, mas devemos o respeito àqueles que sonharam como seríamos e viveríamos. Publicação excelente, mas ressalto também a importância das obras de Júlio Verne, esse sim o verdadeiro profeta da tecnologia.

Tania
Tania
2 anos atrás

Seria interessante nós fazermos um desenho de como sera daqui a 100 anos…

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