A cama de Gonçalo Pires, a vida em São Paulo no XVII

27 de março de 2015

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A vida dos colonos portugueses no Brasil entre os séculos XVI e XVIII foi, em geral, de grande simplicidade e desconforto. Em São Paulo, capitania pobre onde faltava quase tudo, a situação era ainda mais precária. Um episódio curioso ocorrido na vila de São Paulo, em 1620, ilustra de forma cômica aspectos da vida colonial. O fato, conhecido como  o caso da cama de Gonçalo Pires, foi narrado por Belmonte em sua obra “No tempo dos bandeirantes”, publicada em 1939.

Belmonte: o ilustrador de nossa história

Belmonte

Benedito Bastos Barreto, conhecido como Belmonte

Belmonte, pseudônimo de Benedito Bastos Barreto (1896-1947), foi caricaturista, cartunista, ilustrador, cronista, romancista e, inclusive, pesquisador da história de São Paulo.

Seus trabalhos foram publicados nos jornais Folha da Noite e Folha da Manhã, e nas revistas Careta, Fon-Fon! e O Cruzeiro.

Em 1925, Belmonte criou o personagem Juca Pato, um sujeito mal-humorado, baixinho, de óculos e careca “por tanto levar na cabeça”, cujo lema era “podia ser pior”, e que reclamava do custo de vida, da burocracia e da corrupção dos governantes. Juca Pato sintetizava a figura do homem comum, trabalhador e honesto da classe média paulistana em suas aspirações e frustrações.

A popularidade do personagem de Belmonte, foi tamanha que, nos anos 1930, seu nome aparece associado a cigarros, cadernos escolares, balas, cavalos de corrida e até a marchinhas de carnaval. Entre os anos 1929 e 1937, Belmonte ilustrou cinco livros infantis de Monteiro Lobato. Sua versão para as personagens infantis passou a encarnar as criações do escritor.

A qualidade de seu desenho documental aparece, também, em outras obras como Povos e Trajes da América Latina, de Egon Schaden, História do Brasil para Crianças e Bandeira das Esmeraldas, ambas de Viriato Corrêa.

“No tempo dos bandeirantes”

Para escrever No tempo dos bandeirantes (1939), Belmonte recorreu a testamentos e atas da Câmara do município de São Paulo, além de autores estrangeiros e livros raros. Retratou aspectos da vida cotidiana dos paulistas do século XVII: suas casas, a limpeza das ruas, as festas e procissões, a medicina, a escravidão indígena, além de episódios curiosos como o caso da cama de Gonçalo Pires que reproduzimos a seguir.

Ele justifica sua pesquisa afirmando:

“Este livro não é, propriamente, um livro de História, infalível e definitivo. (…) Pareceu-me, contudo, quando o planejei, o escrevi e o ilustrei, que um livro deste gênero poderia ser útil aos espíritos curiosos das tradições de sua terra, aos literatos que desejem tratar do seiscentismo paulista (…). Quanto aos historiadores, estou certo de que perdoarão o humorista curioso que, com tanta sem-cerimônia, mas com a melhor das intenções, lhes invadiu os domínios”. (BELMONTE, 1948)

As ilustrações de Belmonte para essa obra tornaram-se referência para muitos desenhistas e para o público em geral, apesar do traço demasiadamente heroico de seus bandeirantes. É dele o desenho em preto e branco que ilustra o artigo.

tempo dos bandeirantes

“No tempo dos bandeirantes”, de Belmonte, edição de 1948.

A pobre capitania de São Vicente

O relato e os desenhos de Belmonte dizem respeito aos colonos de São Paulo, tradicionalmente associados aos bandeirantes, um dos grandes mitos da historiografia brasileira. Chamados por Saint-Hilaire de “raça de gigantes” e descritos por Oliveira Viana como homens instruídos e ricos mercadores, os bandeirantes eram, na verdade, aventureiros rústicos, modestos lavradores e pequenos mercadores como constatou Alcântara Machado, em 1929.

A capitania de São Vicente, polo irradiador do bandeirantismo, não possuía condições favoráveis à colonização. Os primeiros engenhos não conseguiram competir com os pernambucanos, em parte devido ao solo, e também pela distância que tornava mais oneroso o transporte do produto e implicava maiores riscos na travessia marítima.

O insucesso do açúcar vicentino promoveu o deslocamento dos colonos para os campos de Piratininga, onde o clima, a vegetação e as inúmeras aldeias indígenas viabilizavam os estabelecimentos agrícolas. A rápida ocupação do território se realizou com o cultivo de trigo, algodão, vinha e frutas mediterrâneas. A economia paulista baseou-se, assim, em produtos de subsistência e na criação de gado.

O bandeirantismo resultou, portanto, da marginalização econômica da capitania de São Vicente, que incentivou seus habitantes a buscarem alternativas fora da agricultura de exportação. A mão de obra empregada nas propriedades agrícolas paulistas foi a indígena escravizada. As guerras ou assaltos contra os guaranis rendiam escravos que levados para as propriedades paulistas.

A presença indígena na vila de São Paulo, bem como a pobreza e precariedade da vida paulista estão como pano de fundo no relato de Belmonte em  “O caso da cama de Gonçalo Pires”. A narrativa contribui para desmontar a visão heroicizada do povo de São Paulo. Vivia-se, então, naquele início do século XVII, de modo simples, sem conforto, em habitações rudimentares, onde faltava quase tudo. Os poucos objetos que os colonos possuíam viravam preciosa herança para os filhos, como o caso relato por Belmonte.

Para download do texto, das questões e respostas, inscreva-se abaixo

A cama de Gonçalo PIres, Belmonte

Ilustração de Belmonte para o capítulo “A cama de Gonçalo Pires”, em “No tempo dos Bandeirantes”, 1948

Questões para interpretar e discutir o texto

(Essas questões acompanham o texto para download junto com as respectivas respostas)

  1.  Em que século e onde se passa esse relato?
  2. Que problema tanto preocupava os homens-bons da vila de São Paulo?
  3. Por que o texto se refere aos homens-bons e não a toda população da vila de São Paulo?
  4. Qual era a função da Câmara Municipal? Quem a compunha?
  5. Com tanta madeira na Colônia, por que não havia camas na vila? Por que a cama de Gonçalo Pires precisou vir de Portugal?
  6. Como explicar a presença de indígenas servindo os oficiais da Câmara?
  7. O que a decisão do juiz nos faz pensar sobre o sistema colonial?
  8. Como você avalia a atitude de Gonçalo Pires?
  9. Identifique e explique o anacronismo cometido pelo autor ao final do texto.

Fonte

  • BELMONTE. No tempo dos bandeirantes. São Paulo: Melhoramentos, 1948.
  • VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
  • Ilustração de abertura: Rodval Matias para a coleção “História em Documento“, de Joelza Ester Domingues, São Paulo: FTD, 2004.

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[…] As ilustrações que fez para seu livro No tempo dos Bandeirantes (1939) tornaram-se referência para muitos desenhistas e para o público em geral, apesar do traço demasiadamente heroico de seus bandeirantes. Para escrever essa obra, Belmonte recorreu a testamentos e atas da Câmara, além de autores estrangeiros e livros raros. Retratou aspectos da vida cotidiana dos paulistas do século XVII: suas casas, a limpeza das ruas, as festas e procissões, a medicina, a escravidão indígena, além de episódios curiosos como o caso da cama de Gonçalo Pires. […]

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[…] O famoso episódio da história paulistana sobre a cama de Gonçalo Pires (veja aqui), que para nós mais parece uma anedota, revela que em 1620 a vila de São Paulo não dispunha de […]

Maria José
Maria José
5 anos atrás

Otimo texto, adorei!
Irei trabalhar com meus alunos dos 7 e agora de forma mais saborosa esse assunto. Valeu!

Rozalina de Souza Arruda
Rozalina de Souza Arruda
5 anos atrás

Gostei! pensei em um teatrinho…..

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[…] A cama de Gonçalo Pires, a vida em São Paulo no século XVII. […]

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