A queda dos Templários e a maldição de Jacques de Molay

8 de julho de 2018

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“Todos vocês serão amaldiçoados até a 13ª geração”, foi a maldição lançada por Jacques de Molay, o último mestre templário, enquanto o fogo consumia seu corpo. Era o fim da mais poderosa ordem de cavaleiros surgida durante as Cruzadas. Como entender que, em poucos anos, os prestigiados monges guerreiros da Ordem do Templo, defensores da cristandade, se tornaram inimigos do Estado e do papa?

Fortalezas templárias no Oriente

Fortalezas templárias no Oriente destacando os pontos mais importantes: Jerusalém, Acre e Chipre. A data entre parêntesis é o ano em que a fortaleza foi perdida para os muçulmanos.

Surgida em 1119, em Jerusalém, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou simplesmente Templários, tinha por missão proteger os locais santos de Jerusalém e os peregrinos cristãos que para lá viajavam. Lutando ao lado de reis durante das cruzadas derrotou as forças muçulmanas, inclusive na Península Ibérica. Paralelamente, acumulou uma enorme fortuna a ponto de emprestar dinheiro a reis e príncipes europeus tornando-se, em muitos países, a percursora dos bancos,  inclusive na Suíça.

O patrimônio da Ordem do Templo incluía mosteiros, fortalezas, terras aráveis, moinhos além muito ouro e prata guardados nos cofres de suas sedes espalhadas pela Europa. Os templários tinham ainda seus próprios navios nos quais transportavam artigos de luxo do Oriente para a Europa (sedas e especiarias). Tamanha riqueza pode ter contribuído para a ruína dos Templários. Ao final do século XIII, contudo, o destino dos templários começou a mudar.

As derrotas militares

Jerusalém foi sede da Ordem do Templo desde sua fundação, em 1119 até a queda da Cidade Santa, tomada por Saladino em 1187. A sede templária foi, então, transferida para São João de Acre onde permaneceu pouco mais de um século, até nova derrota para os muçulmanos em 1291. A queda de Acre, o último estado cristão na Terra Santa, foi um golpe para os cristãos e os templários, que haviam jurado defender os locais sagrados.

A ordem transferiu sua sede para a ilha de Chipre, a terra cristã mais próxima. Foi em Chipre que viveu Jacques de Molay, o último mestre da ordem, eleito em 1293. Em 1303, Chipre também foi perdida assim como a ilha de Rodes, e os cristãos expulsos do Oriente. O período das Cruzadas havia terminado.

Os Templários caem em desgraça

A perda da Terra Santa abalou o prestígio dos Templários e fez crescer a animosidade contra a ordem, especialmente pela vida de luxo e abundância de alguns templários, em contradição ao voto de pobreza. Em suas propriedades na Europa, cobravam taxas, banalidades, fretes, direitos etc. Possuíam um poder militar equivalente a 15 mil homens, treinados em combate – uma força que estava submetida unicamente ao papa. A presença dos templários como jurisdição pontifícia afrontava a soberania real limitando o poder do rei em seu próprio território.

A situação ficou particularmente ruim para os templários a partir de 1305 quando Clemente V foi eleito papa e aliou-se a Filipe IV, o Belo, rei da França. O novo papa comprometeu-se a retirar a excomunhão da família real francesa, colocada pelo papa anterior.

O papa e o rei, pensando em formar uma nova cruzada, propuseram juntar as duas ordens de monges guerreiros – templários e hospitalários – tendo por líder absoluto Filipe IV. O mestre templário Jacques de Molay rejeitou a ideia de fusão e se recusou a condecorar o rei francês como honorário da Ordem do Templo.

Difamação, prisão e tortura dos Templários

Filipe IV começou uma campanha difamatória contra os Templários acusando-os de heresia. Segundo alguns historiadores, o rei teria obtido autorização do papa para prender os templários na França.

Na madrugada do dia 13 de outubro de 1307, em uma operação sigilosa, a guarda real prendeu o mestre Jacques Molay e todos os templários em território francês. O rei Filipe IV foi ainda mais longe na perseguição: enviou cartas aos monarcas de Portugal, Espanha e Inglaterra pedindo que fizessem o mesmo. Todos recusaram, afinal a Ordem do Templo estava protegida pela imunidade sancionada pelo papa, e não poderia ser submetida à justiça secular.

Filipe IV entregou os templários ao Grande Inquisidor da França. Durante sete anos, submetidos a interrogatórios brutais e sessões de tortura, alguns confessaram heresias e idolatria: negação da Santa Cruz, negação de Jesus Cristo, beijos obscenos, sodomia e adoração de um ídolo chamado de Bafomé, associado ao Diabo. Dos 138 templários presos, 38 morreram sob tortura.

Selo templário

O selo templário de dois cavaleiros montando o mesmo cavalo foi interpretado, pelos inquisidores como sinal de homossexualismo e, portanto, de sodomia.

Jacques De Molay nunca confessou as acusações. Mesmo após três julgamentos, o mestre templário não denunciou seus companheiros e não revelou o local onde estavam guardadas as riquezas da Ordem.

O papa enviou dois cardeais para Chinon, onde os líderes templários estavam presos, para ouvirem as testemunhas e os réus. Nesta oportunidade teria sido escrito o chamado pergaminho de Chinon, supostamente datado de 20 de agosto de 1308, no qual o papa Clemente V absolvia o mestre Jacques de Molay e os demais líderes templários das acusações de heresia feitas pela Inquisição. O documento, contudo, nunca foi oficialmente publicado.

O rei Filipe IV, para legitimar sua atitude em nome do povo e para impressionar o papa convocou, em 1308, a assembleia dos Estados Gerias, em Tours. A assembleia aprovou a condenação dos templários. O papa recuou.

A extinção da Ordem do Templo e a execução dos líderes

Na abertura do Concílio de Viena (1311-12), o papa Clemente V afirmou que, com base nos inquéritos realizados pela própria Igreja, bem como nos inquéritos civis, não havia prova concreta de culpabilidade dos templários. A notícia chegou ao rei Filipe IV e ele rapidamente viajou a Viena acompanhado de seu filho Luís X, rei de Navarra e da guarda real. O resultado do concílio foi a bula Vox clamantis (22 de março de 1312) que extinguiu a Ordem do Templo e transferia seus bens para os hospitalários.

Concilio de Viena

Concílio de Viena no qual o papa extinguiu a Ordem do Templo, em 1312. Ao lado do papa estão Filipe IV, rei da França e seu filho Luís X, rei de Navarra. Em primeiro plano, à direita, soldados da guarda real francesa.

Ainda restavam os prisioneiros – o que fazer com eles? O rei da França pressionou o papa para uma decisão definitiva. Em 1314, já em estado terminal de sua doença (câncer intestinal) que o impedia de sair do leito, Clemente V ordenou que uma comissão de bispos tratasse da questão.

Em 18 de março de 1314, diante dos líderes templários, os bispos leram a decisão: os prisioneiros ficariam em regime de prisão perpétua sob custódia apostólica. Jacques de Molay e Geoffroy de Charney, contudo, levantaram-se bradando sua inocência, mesmo com sua assinatura forjada na acusação. Segundo a justiça da época, declarar inocência depois de ter se confessado culpado significava ter mentido aos juízes da Inquisição – uma falta gravíssima. Ambos foram entregues à justiça real.

Filipe IV ordenou que fossem levados à fogueira naquele mesmo dia. O cadafalso foi erguido no adro da Igreja de Notre-Dame, em Paris. Amarrado à fogueira, Jacques de Molay proferiu as últimas palavras lançando a célebre maldição: “Vocês todos serão amaldiçoados até a décima terceira geração”.

A maldição lançada por Jacques de Molay

Amarrado na estaca com o fogo começando a arder sob seus pés, Jacques de Molay gritou em direção ao rei Filipe IV, o Belo: “Todos vocês serão amaldiçoados até a 13ª geração”. Quarenta e dois dias depois, morreu o papa Clemente V (20 de abril de 1314). O rei Filipe IV, teve um derrame cerebral fulminante em novembro daquele ano, seis meses depois da morte do mestre templário (29 de novembro de 1314).

Nos quatorze anos seguintes, os três filhos do rei, seus sucessores no trono, vieram a falecer, encerrando a linhagem direta de três séculos da Dinastia Capetíngia.

A maldição tenha ou não acontecido, ela sustentou lendas e versões sobre a história dos templários. Serviu de base para a obra “Os reis malditos”, série de romances históricos, em sete volumes, de Maurice Druon, escritos entre 1955 e 1977. A obra inspirou dois seriados de TV, com o mesmo nome, um de 1972 e outro de 2005. Veja uma cena abaixo.

“Reis Malditos” (2005). Cena de Jacques de Molay (Gerard Depardieu) na fogueira

A maldição continuou ecoando nos séculos seguintes. Quatro século depois, quando o rei Luís XVI, um descendente de Filipe IV, foi guilhotinado, em 1793, um homem não identificado se aproximou do cadafalso e, mergulhando a mão no sangue do monarca, sacudiu-a no ar e gritou: “Jacques de Molay, foste vingado!”. Pode ser mais uma entre as numerosas lendas que envolvem os templários. O episódio está no romance Holy Bood, Holy Grail, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, 1983; lançado, no Brasil, com o título O Santo Graal e a linhagem sagrada, editora Nova Fronteira, 1993.

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Arquivos destruídos alimentam as lendas dos Templários

O arquivo central dos Templário ficou na ilha de Chipre, último reduto da Ordem. Em 1571, os turcos otomanos que invadiram e tomaram a ilha destruíram todos documentos. O que restou a respeito dos Templários foram documentos escritos por seus algozes ou por cronistas que viveram muitos anos depois dos acontecimentos.

Sem informações confiáveis, cresceram as lendas e as versões sobre a história da Ordem do Templo. Uma delas, faz ligação entre os templários e a maçonaria; contudo a mesma foi fundada em 1717, quatro séculos após a extinção dos templários. Algumas sociedades secretas como Rosacruzes e a Ordem do Templo Solar (fundada em 1984) proclamam-se como sucessores dos templários.

Aos templários foi atribuída, também, a posse de documentos secretos que teriam sido descobertos por eles nos subterrâneos do Templo de Salomão. Outros associam os templários a práticas de alquimia, de bruxaria ou de conhecimentos esotéricos e afirmam que seus símbolos e selos guardam mensagens ou códigos secretos.

Há lendas que dizem que os templários eram guardiões do Santo Graal (que teria sido escondido por eles na Escócia ou no norte da Espanha) e da Arca da Aliança. No entanto, os extensos documentos da inquisição sobre os templários nunca fizeram uma única menção dessas supostas relíquias das quais não existem qualquer prova de terem sequer existido.

A crença da “sexta-feira 13” é atribuída à história dos templários, em alusão ao dia que eles foram presos em Paris. De fato, o 13 era considerado número de azar, mas a associação dele com a sexta-feira foi uma invenção nascida no início do século XIX.

A lenda do imenso tesouro perdido dos templários, já motivou numerosas expedições à sua procura. Afirma-se que o suposto tesouro foi encontrado em Rennes-le-Château, sudoeste da França, no século XIX. Apesar do local da descoberta e da natureza precisa do tesouro nunca terem sido revelados, a cidade ainda hoje atrai milhares de visitantes e aventureiros que buscam desvendar o mistério do tesouro templário.

Recentes especulações sobre os templários aumentaram ainda mais pelas referências a eles em livros como “O pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco (1988) e “O Código da Vinci”, de Dan Brown (2003), e em filmes como “Indiana Jones e a Última Cruzada” (direção de Steve Spielberg, 1989) e a “A Lenda do Tesouro Perdido” (direção de Jon Turteltaub, 2004).

“Indiana Jones e a última cruzada” (1989). Cena do Graal e o cavaleiro templário

O pergaminho de Chinon

Pergaminho de Chinon.

Pergaminho de Chinon localizado em 2002 pela a historiadora Bárbara Frale nos arquivos do Vaticano.

Em 2002, a historiadora Bárbara Frale localizou nos arquivos do Vaticano o original pergaminho de Chinon, produzido em 1308, no qual o papa Clemente V absolveu secretamente os líderes da Ordem do Templo. A condenação e morte na fogueira foi, portanto, teria sido responsabilidade do rei Filipe IV e não do papa e da Igreja, como se supunha.

Contudo, paira uma grande dúvida sobre a data exata do texto. A datação por métodos modernos consegue comprovar a data em que o couro da capa foi preparado, mas não a data em que o texto foi escrito. Há quem sustente que o documento tenha sido produzido após 1314, com a finalidade de atenuar a provável exposição da crueldade papal. O pergaminho foi liberado ao público e a descobridora escreveu um livro a respeito, editado no Brasil em 2005.

O destino dos Templários em Portugal

Os templários estavam no Condado Portucalense antes mesmo do reconhecimento oficial da Ordem (1128). Desde 1126, eles lutavam para expulsar os muçulmanos da península Ibérica, o que lhes rendeu doações em castelos e terras. Em 1160, a Ordem estabeleceu a sua sede em Tomar.

O processo de queda dos templários em Portugal iniciou-se com a recepção da bula Regnan in coelis, de 12 de agosto de 1308, em que o papa Clemente V informava os reis cristãos do processo movido contra a Ordem do Templo. Pouco depois, a bula Callidi serpentis vigil, de dezembro de 1310, o pontífice decretou a detenção dos templários.

Diante dessas medidas, D.Dinis I, rei de Portugal, se esforçou para evitar a transferência do patrimônio dos templários para a ordem dos hospitalários. Finalmente, em 15 de março de 1319 conseguiu obter do papa João XXII a autorização para constituir a Ordem de Cristo para a qual foram transferidos os bens dos templários no país. A Ordem de Cristo sediou-se também em Tomar.

Acredita-se que a Ordem de Cristo tenha sido um dos últimos redutos, na Europa, onde os templários continuaram a existir. Há quem afirme que sua esquadra e seus conhecimentos náuticos tenham servido para impulsionar as navegações portuguesas. O infante d. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral entre outros, foram membros da Ordem de Cristo, ou seja, herdeiros dos templários. A esquadra de Vasco da Gama levava a cruz templária nas velas dos navios.

Como escreveu Umberto Eco:

“os templários sempre estão por trás de tudo” (O Pêndulo de Foucault).

Fonte

  • BARBER, Malcolm. The new knigthood: a history of the Order of the Temple. Cambridge: University Press, 1995.
  • BURMAN, Edward. Templários, Os Cavaleiros de Deus. Rio de Janeiro: Record / Nova Era, 2005.
  • DA COSTA, Ricardo. “D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312). O processo de formação da identidade nacional em Portugal”. In: Cultura e imaginário no Ocidente Medieval. Arrablades – Cadernos de História. Série I. Niterói: UFF, 1996, p. 90-95.
  • DA COSTA, Ricardo. El fin de los templários y de las cruzadas y el beato Ramin Llull. Site Idade Média.
  • DEMURGER, Alain. Auge y caída de los Templarios (1118-1314). Barcelona: Ed. Martínez Roca, 1990.
  • DEMURGER, Alain. Os Templários, uma cavalaria cristã na idade Média. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.
  • FRALE, Bárbara. Os templários e o pergaminho de Chinon encontrado nos arquivos secretos do Vaticano. São Paulo: Madras, 2005.
  • LE GOFF, Jacques. Mercadores e banqueiros da Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
  • Los Templarios y su época (1095-1314). Site de Jose Maria García Nozal.
  • MONTAGNAC, Élize de. História dos cavaleiros Templários. São Paulo: Madras, 2005.
  • PERNOUD, Regine. Os Templários. Lisboa: Publicações Europa-América. 1974.
  • READ, Piers Paul. Os templários: a história dramática dos cavaleiros templários, a mais poderosa ordem militar dos cruzados. São Paulo: Imago, 2006.

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