“A cidade e as serras”, de Eça de Queirós: uma aula de História

5 de julho de 2017

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Um dos livros obrigatórios da Fuvest 2018, “A cidade e as serras”, do escritor português Eça de Queirós, possibilita um interessante trabalho interdisciplinar com Língua Portuguesa e História ao traçar um panorama da sociedade europeia burguesa do final do século XIX, em plena Belle Époque e Segunda Revolução Industrial. Publicado em 1901, sem ter recebido a última revisão do escritor que falecera pouco antes, é considerada a sua obra mais importantes. Com fina ironia, Eça de Queirós contrapõe a urbana e cosmopolita Paris à rural e decadente Tormes, em Portugal (foto acima).

A obra e sua época

Eça de Queirós (1845-1900) é considerado o maior romancista português do século XIX. Suas obras apresentam uma forte sátira aos costumes burgueses, à aristocracia decadente, ao moralismo e à mediocridade da sociedade portuguesa da época.

Em A cidade e as serras, Eça de Queirós confronta dois mundos: o moderno e industrial, representado pela cidade, a “civilização”, e mundo rural (serras), “atrasado” e primitivo. O escritório de Jacinto é o símbolo da modernidade tecnológica, exibindo uma parafernália de instrumentos de comunicação, biblioteca abarrotada de livros de todas as ciências – resultado de sua ânsia em adquirir todas as novidades do conhecimento e da tecnologia, em comprar as melhores bebidas e comidas, em participar de todas as atividades da cidade.

O narrador-personagem, Zé Fernandes, é quem conta a história do amigo Jacinto. A narrativa se desdobra entre os anos 1880 e 1887 e, nos trechos selecionados, passa-se em Paris. A capital francesa era, então, considerada a capital da Europa e o centro do mundo. Paris fervilhava de novidades: telégrafo, telefone, água encanada, rede de esgoto, tubulação de gás, transporte público, ruas movimentadas, população numerosa, grandes lojas. Portugal, no entanto, terra-natal dos personagens, mantinha-se um país agrário e decadente.

Zé Fernandes e Jacinto são conterrâneos, de Tormes, Portugal. Depois de sete anos sem se verem, eles se encontram. Jacinto continua morando em Paris, no mesmo endereço: Campos Elíseos, n. 202.  É o ano de 1887, e Jacinto parece feliz encarnando o espírito burguês do século XIX. A rapidez das transformações tecnológicas é alucinante e surpreende Zé Fernandes que encontra o amigo cercado de outras novidades: o edifício de Jacinto é equipado com um elevador, apesar de ter somente dois andares, e em seu escritório ele possui telefone, telégrafo, fonógrafo, máquina de escrever, máquina de calcular e jornais internacionais recentes.

Eça de Queirós

Eça de Queirós (1845-1900), retratado por Rafael Bordalo Pinheiro.

Contexto histórico

Final do século XIX, época da chamada Belle Époque marcada pela vida cosmopolita das grandes capitais europeias, pelo clima intelectual e artístico e pelas profundas transformações culturais que se traduziam em novos modos de pensar e viver o cotidiano. A expansão industrial, novas invenções e descobertas inauguravam a Segunda Revolução Industrial.

A descoberta da conversão do ferro em aço abriu a era das grandes usinas siderúrgicas. A produção do aço, em larga escala e abaixo custo, levou à substituição do ferro nos armamentos, nas máquinas e na construção possibilitando erguer os primeiros arranha-céus, equipados com elevadores (1884, primeiro arranha-céu).

Novas fontes de energia, a eletricidade e o petróleo, mudaram o modo de vida ao serem aplicadas na iluminação urbana, nas indústrias, nos veículos (bondes, metrôs, locomotivas, carros etc.). O primeiro metrô foi o de Londres, inaugurado em 1863, usando trens a vapor e, a partir de 1890, trens elétricos. Seguiram-se os metrôs de Chicago (1892), Budapeste (1896), Boston (1897), Paris (1900) e Berlim (1902).

A invenção do telégrafo (1844) revolucionou a comunicação. Em 1858, na Europa, já havia 160 mil quilômetros de fios estendidos, inclusive em cabos submarinos (1851). Junto com a invenção do telefone (1876) e do rádio (1901) encurtou ainda mais as distâncias.

A imprensa também se beneficiou dessas novidades, que permitiam uma divulgação mais rápida das notícias, e ainda da invenção da rotativa (1845), da máquina de escrever (1867) e da linotipo (1884), máquina com teclado que permitiu compor rapidamente uma página a ser impressa.

Outras invenções e descobertas da época foram: fotografia (1839), elevador mecânico (1852), bonde elétrico (1873), fonógrafo (1877), bacilo da tuberculose (1882), vacina contra a raiva (1885), automóvel (1885), fogão elétrico de cozinha (1893), bacilo da peste bubônica (1894), raio X (1895), cinema (1895), submarino (1898), mosquito transmissor da febre amarela (1900) e balão dirigível (1900).

Ao cidadão “civilizado” não bastava, porém, só a tecnologia, era também importante a erudição intelectual como transparece na enorme biblioteca de Jacinto, de mais de trinta mil volumes de ciências e humanidades. Em Paris, andavam em voga as teorias positivistas, das quais Jacinto era um entusiasta.

Zé Fernandes admira-se com as modernidades que tanto entusiasmam Jacinto, mas não deixa de carregar um tom irônico em seus comentários, mostrando o ridículo da pretensa superioridade dos parisienses. Assim, por exemplo, o episódio do telégrafo que transmite a informação de que “a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria”. Zé Fernandes, pergunta a Jacinto “se o prejudicava diretamente aquela avaria da Azoff”. A resposta do entediado Jacinto é: “Da Azoff?… A avaria? A mim… Não! É uma notícia”.

O episódio é muito significativo e ainda atual: o homem mergulhado em informações de todos os lugares do mundo – através do telégrafo, imprensa, telefone etc. – muitas sem nenhuma relação aparente entre si, torna-se um mero espectador que não pode tomar nenhuma atitude.

A modernidade, contudo, tem seu custo social: os inúmeros impactos ambientais causados pelo desmatamento, emissões de carbono, a poluição dos rios. O despejo de esgoto doméstico e industrial nas águas causou sérios desequilíbrios ao regime de águas e intenso mau cheiro. Isso transparece no romance na coleção de águas diversas que Jacinto possui e que justifica “é por causa das águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de micróbios”.

Ressaltando com ironia os problemas da vida urbana, a futilidade reinante em Paris, em seu jogo de aparências que tornam a pessoa infeliz e entediada o romance acaba por mostrar a superioridade da vida tranquila e simples das serras em relação à cidade, cheia de agitação fútil. Ao final, Jacinto, insatisfeito e apático com a vida que levava em Paris deixa a cidade e vai viver no campo.

“A cidade e as serras”, de Eça de Queirós, trechos para download AQUI.

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Na aula de História

 “A cidade e as serras” permite um trabalho significativo sobre a sociedade europeia no final do século XIX destacando o contraste entre as inovações e a vida burguesa da época com as permanências de padrões rurais e provincianos. Importante lembrar que, a despeito das novidades tecnológicas e da vida cosmopolita das grandes capitais europeias, a Europa não era plenamente urbanizada no final do XIX, mas, ao contrário, permanecia predominantemente rural.

Sugerimos inserir a obra como documento histórico na aula sobre Segunda Revolução Industrial, final do século XIX. É interessante pedir para os alunos pesquisarem sobre as invenções e descobertas da época ressaltando como elas interferiram em diferentes aspectos da vida humana.

Selecionamos dois trechos de “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós, sugerindo questões para discutir com os alunos.

Trecho I

  1. Em que época se passa a narrativa?
  2. Jacinto e Zé Fernandes moram em dois mundos diferentes. Como esses mundos estão caracterizados no texto?
  3. Que invenções e modernidades urbanas o texto menciona?
  4. A que classe social provavelmente pertence Jacinto?
  5. Como Jacinto se sente perante as novidades?
  6. Porque ele associa civilização à cidade? Você concorda com essa ideia?
  7. Ao se referir à população de Paris, o personagem menciona a “solidariedade humana” e “dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização”: que crítica o autor faz neste comentário?
  8. Que modificações ocorreram nas cidades em função do grande crescimento populacional?

Trecho II

  1. Quais são as novidades tecnológicas apresentadas nesse trecho?
  2. Em que medida essas novidades revolucionaram a comunicação?
  3. A rapidez das informações significa, necessariamente, maior consciência e participação social? Explique. Isso vale para os dias atuais?
  4. Entre os livros na biblioteca de Jacinto, qual deles é a obra que melhor reflete o pensamento econômico do século XIX? Por que?
  5. Que elementos nos dois trechos refletem o gosto burguês de Jacinto?
  6. Que impacto ambiental é denunciado neste trecho? Isso ainda ocorre?

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