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1932: A guerra dos paulistas contra Getúlio Vargas

4 de julho de 2019

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Em julho de 1932, São Paulo, o estado mais rico do país, pegou em armas para destituir o presidente Getúlio Vargas acusando-o de ditador e exigindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. O governo federal, em contrapartida, divulgou que São Paulo pretendia se separar do Brasil, isolando o levante e colocando o resto do país contra a luta dos paulistas.

O conflito armado, que durou três meses, é considerado um dos mais importantes da história política brasileira ocorrido na chamada Era Vargas (1930-1945). Contou com 200 mil voluntários paulistas dos quais estima-se que 40 mil efetivamente combateram nas fileiras do Exército Constitucionalista.

A mobilização da sociedade foi praticamente geral: estudantes, intelectuais, políticos, industriais, comerciantes e outros segmentos das camadas médias participaram dos combates. Mulheres de todas camadas sociais trabalharam no esforço de guerra.

Antecedentes da guerra paulista

O estado de São Paulo havia sido a principal base política do regime da Primeira República alternando com Minas Gerais na indicação do presidente da República na chamada “política do café com leite”. Era, também, o estado mais rico do país cuja economia dependia, basicamente, das exportações do café paulista.

Em 1930, a elite paulista sofreu dois reveses que mudaram, definitivamente o cenário político e econômico do estado.

O primeiro foi a vitória do golpe de 1930 que colocou no poder Getúlio Vargas, depôs o paulista Júlio Prestes, recém-eleito presidente da República, e pôs fim à autonomia de São Paulo. Vargas fechou as câmaras estaduais e substituiu os presidentes dos estados por interventores nomeados por ele. Para São Paulo foi designado o tenente João Alberto Lins de Barros a quem a oligarquia paulista tratava pejorativamente como “forasteiro e plebeu” ou ainda por “pernambucano”.

O segundo revés foi a grave crise econômica, em consequência da Grande Depressão de 1929, que derrubou os preços internacionais do café. A crise provocou, também, uma forte queda na renda e no consumo mundial, prejudicando ainda mais as vendas de café. As exportações do produto, que chegaram a US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. A cotação da saca no mercado internacional, caiu quase 90% em um ano. A crise arruinou a oligarquia paulista. Os negócios encolhem e provocam o fechamento de empresas, fábricas e do comércio.

Para enfrentar a crise, Vargas criou, em 1931, o Conselho Nacional do Café que passou a dirigir todos os negócios referentes ao café. Tirou, assim, de São Paulo a autonomia sobre a economia cafeeira até então exercida pelo Instituo do Café do Estado de São Paulo.

A perda do controle político do estado e a ruína provocada pela crise econômica fizeram crescer, entre os paulistas, a animosidade contra o governo federal manifestada em passeatas e comícios nos quais se clamava pela convocação de eleições para uma Assembleia Constituinte.

O clima de animosidade em São Paulo

Manifestações paulistas

Manifestações populares contra o governo de Getúlio Vargas na rua 15 de Novembro, no centro da capital paulista.

Os paulistas rejeitaram todos os interventores nomeados por Vargas para governar o estado. Em menos de dois anos (de outubro de 1930 a maio de 1932) foram quatro interventores nomeados para São Paulo.

Junto ao ressentimento contra o governo federal, ganhou força entre os paulistas um sentimento de orgulho regional como expressado pelo escritor Oswald de Andrade: “São Paulo é a locomotiva que puxa os vagões velhos e estragados da federação!

No aniversário da cidade, em 25 de janeiro de 1932, um grande comício na Praça da Sé reuniu cerca de 200.000 pessoas. Vargas foi acusado de não cumprir sua promessa de realizar eleições para uma Assembleia Constituinte e de prolongar seu governo provisório para implantar uma ditadura.

Vargas procurou contornar a situação: em fevereiro apresentou o novo Código Eleitoral e, em maio, marcou as eleições a serem realizadas em 1933. Esse recuo, contudo, não conseguiu estancar a exaltação dos paulistas e, na última semana de maio um fato precipitou os acontecimentos.

No dia 23 de maio de 1932 uma manifestação terminou em confronto com as forças legais e foram mortos quatro estudantes no centro da cidade de São Paulo. A ingrediente que faltava: mártires. Suas mortes acrescentou o ingrediente que faltava: mártires.

Do MMDC ao Nove de Julho

Cartão postal MMDC

Cartão postal com as fotos dos estudantes mortos e a sigla MMDC. Nos medalhões, na parte superior, as datas cívicas: 23 de Maio e 9 de Julho de 1932.

Dos nomes dos estudantes – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – extraiu-se a sigla MMDC que batizou a primeira milícia civil encarregada dos preparativos para a guerra.

O MMDC ganhou o apoio de diversos setores da sociedade paulista incluindo o Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático, o jornal O Estado de S. Paulo, a Força Pública de São Paulo e unidades do Exército.

Começou-se a tramar o movimento armado visando à derrubada do governo de Getúlio Vargas e a proclamação de uma nova Constituição para o Brasil.

Na noite de 9 de julho de 1932 eclodiu, na capital paulista, a Revolução Constitucionalista liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, o mesmo do levante de 1924, e com a participação de vários remanescentes do movimento de 1930, como os militares Bertoldo Klinger e Euclides Figueiredo.

Os revolucionários tomaram as principais estações ferroviárias, quartéis, prédios públicos, a companhia telefônica, a sede dos correios e telégrafos, estações de telégrafo, a Rádio Educadora Paulista, Rádio Record PRA-R e Rádio Cruzeiro do Sul, e também os principais jornais paulistanos e o aeródromo do Campo de Marte.

O levante rapidamente repercutiu em várias cidades do interior do estado onde os revolucionários tomaram pontos estratégicos como pontes, portos, estradas, aeródromos. No dia seguinte, o levante estourou no então estado do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul) com adesão do exército e da Força Pública mato-grossense. Nos dias seguintes, também houve mobilizações no Rio Grande do Sul.

O esforço de guerra

Cartazes paulistas

Cartazes convocando voluntários – enfermeiras e soldados – para a revolução. Um bandeirante gigante, ícone paulista, aprisiona um pequenino Getúlio Vargas sob o lema “Abaixo a ditadura”.

Nos poucos meses de conflito, São Paulo viveu um verdadeiro esforço de guerra. Fábricas se adaptaram à indústria de guerra, colônias de imigrantes italianos e sírios prestaram socorro aos feridos, mulheres costuraram fardas para os soldados.

A população se uniu na campanha Ouro para o Bem de São Paulo que recebeu por volta de 90 mil alianças de casamento e outras joias para serem derretidas.

Alistaram-se 200 mil voluntários que se somaram aos 10 mil homens da Força Pública Paulista, sendo que desse total, cerca 53 mil efetivamente combateram nas fileiras do Exército Constitucionalista. Mas as tropas federais eram bem mais numerosas, aproximadamente 100 mil homens ao fim do conflito, e melhor equipadas.  Para se ter uma ideia do volume de combatentes envolvidos na Revolução Constitucionalista de 1932, doze anos depois, a FEB (Força Expedicionária Brasileira) mandou para a guerra na Itália cerca de 25 mil homens.

Muitos voluntários levaram suas armas pessoais. Engenheiros da Escola Politécnica (hoje EPUSP) e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desenvolveram armamentos para suprir as tropas paulistas.

Voluntários paulistas a espera do embarque

Voluntários paulistas na estação ferroviária de Aparecida à espera do embarque para a frente de combate, 1932.

Os blindados paulistas

Foram fabricados seis trens blindados. A blindagem era extremamente resistente feita com peças de madeira de faveiro e revestida com grossas chapas de aço. Os vagões não tinham portas ou janelas, sendo a entrada por meio de um pequeno buraco no chão dos vagões. Pequenas aberturas permitiam a entrada de ar e a visualização externa. A comunicação entre os vagões e o maquinista era feita por telefone.

O trem levava soldados com metralhadoras e canhões de 75 mm. Um mecanismo permitia travar os vagões no solo durante os tiros de canhão. Dois grandes holofotes iluminavam as trincheiras inimigas à noite, utilizando a energia da própria locomotiva.

O surgimento do blindado sempre causava pânico e debandada dos soldados federais. O blindado conseguia varrer qualquer resistência a dezenas de metros sem sofrer qualquer dano. Tampouco as tropas federais conseguiram cercar ou descarrilhar o trem dado sua amplitude de fogo.

Foram produzidos, também, outros veículos blindados como carros, tratores e lanchas. Possuíam torres giratórias equipadas com metralhadoras leves Hotchkiss 7mm

O Exercito Federal possuía um único blindado, o tanque francês Renault FT-17, tendo sido empregado apenas em missões de reconhecimento.

Trem blindado TB-6

Trem blindado TB-6 apelidado “Fantasma da Morte”. Na frente pode-se ver o canhão 75mm. Lorena, setembro de 1932.

Tanque 1932

Tanques usados pelos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932.

Bombardeios aéreos

Durante a revolução, o governo federal fez uso de dez bombardeios aéreos do Grupo de Aviação do Exército, comandado pelo major-aviador Eduardo Gomes. Ele foi responsável pelo bombardeio à estação ferroviária de Campinas em 18 de setembro de 1932. Outras cidades bombardeadas pela aviação do governo federal foram Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Lorena e Guaratinguetá.

Os revolucionários também possuíam aviões. “Agentes do governo de São Paulo compraram, em segredo, no Chile, dez aviões de combate; em seguida, contrataram pilotos norte-americanos, que conseguiram aterrissar clandestinamente no meio do mato, em Mato Grosso, e depois de inúmeras peripécias entregaram a compra aos rebeldes” (SCHWARCZ e STARLING, 2015, p. 365).

Ocorreram combates aéreos com aviões foram abatidos sobre as cidades de Queluz, Mogi-Mirim e Casa Branca.

Grupo de Aviadores, 1932

Grupo de aviadores no aeródromo Campo de Marte, em São Paulo, setembro de 1932.

Trincheira, 1932

Trincheira paulista nos arredores de Amparo, 1932.

O isolamento dos paulistas e o fim do conflito

Ao iniciar o levante, os paulistas acreditavam possuir o apoio de outros estados, principalmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Julgavam que as forças revolucionárias apenas marchariam para a capital federal sem enfrentarem resistência significativa. No entanto, os governos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, embora apoiassem a luta pela constitucionalização, decidiram manter-se leais ao Governo Provisório.

A publicidade do governo federal de que São Paulo pretendia se separar do Brasil surtiu efeito: os revolucionários lutaram sozinhos enfrentando três frentes de combate: o vale do Paraíba, a divisa com Minas Gerais e com o Paraná.

Com as fronteiras fechadas pelas tropas legais, não havia como receber armamentos de fora do país. O porto de Santos também sofreu o bloqueio pela Marinha do Brasil que chegou apreender um navio que trazia armamentos dos Estados Unidos para os paulistas.

Isolado e com pouco armamento e munição, o movimento paulista fracassou. Em 1º de outubro de 1932 foi assinada a rendição que pôs fim à Revolução Constitucionalista.

Consequências

Vargas ordenou a prisão dos rebeldes, a expulsão dos oficiais do Exército, o exílio dos líderes para Portugal e a cassação dos direitos civis dos principais implicados no levante.

O número de mortos é estimado em 2.000 combatentes entre os paulistas, desconhecendo-se o número de baixas civis. O Mausoléu ao Soldado Constitucionalista, em São Paulo, abriga os despojos de 713 combatentes além dos corpos dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (o MMDC). As Forças Armadas Brasileiras tiveram 1.050 mortos e 3.800 feridos.

Em três meses de combate, a Revolução de 32 causou um número de baixas, em ambos os lados, muito superior ao de brasileiros mortos nos oito meses de campanha militar na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial (de setembro de 1944 a maio de 1945) que somaram cerca de 2.400 soldados.

Apesar de derrotados militarmente, os paulistas não perderam sua supremacia econômica. São Paulo continuou a ser o principal fornecedor de divisas do país o que levou o governo de Vargas a buscar solução para a queda do preço do café no mercado internacional. Foi mantida a política de valorização do café por meio da compra, retenção e destruição dos estoques, além do reescalonamento das dívidas dos cafeicultores. O Bando do Brasil assumiu os bônus de guerra emitidos pelos bancos de São Paulo.

Do ponto de vista político, São Paulo teve atendida duas reivindicações: a nomeação de um interventor civil e paulista e a convocação de eleições para a Assembleia Constituinte, marcadas para 3 de maio de 1933.

Os fundos levantados durante a campanha Ouro para o Bem de São Paulo que ainda sobravam foram doados, pelo governo paulista, à Santa Casa que, com parte deles, construiu um edifício no Largo da Misericórdia, no centro da capital. O prédio, que recebeu o nome Ouro para o Bem de São Paulo, tem treze andares, o mesmo número de listras da bandeira paulista, e a forma ondulada que sugere uma bandeira ao vento.

Além do feriado estadual de 9 de Julho, a revolução é lembrada em monumentos construídos em diversas cidades do estado, em desfiles cívicos e na arquitetura urbana com o nome de ruas, avenidas e praças.

Ainda hoje a Revolução de 1932 é motivo de polêmicas quanto aos seus objetivos. Segundo a versão do governo de Vargas, o conflito não era necessário pois as eleições gerais já haviam sido agendadas para o ano seguinte. A bandeira da constitucionalização seria, na verdade, um mero subterfúgio dos velhos políticos paulistas para retomarem o poder após dele terem sido alijados com a Revolução de 1930. Pretendiam, assim, depor Vargas da presidência da República e reconduzir ao poder um representante da oligarquia paulista.

Na versão dos líderes revolucionários, Vargas era um político astuto com um plano de permanência no poder (o que de fato se realizou com o golpe de 1937). O levante de 1932 garantiu a realização das eleições de 1933, a Assembleia Constituinte e, portanto, a redemocratização do país.

Fonte

  • ABBUD, Kátia. O Bandeirante e o Movimento de 32: Alguma Relação? In: QUEIROZ, M. Isaura P. de. “O Imaginário em Terra Conquistada”. São Paulo: Ceru, 1993.
  • ANDRADE NETTO, Manoel Cândido de. 32: Bastidores da Revolução Constitucionalista. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995.
  • BORGES, Vavy Pacheco. Getúlio Vargas e a Oligarquia Paulista: História de uma Esperança e Muitos Desenganos. São Paulo: Brasiliense, 1979.
  • BORGES, Vavy Pacheco. Memória Paulista. São Paulo: Edusp, 1997.
  • BORGES, Vavy Pacheco. Tenentismo e Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1992.
  • CAPELATO, Maria Helena. O Movimento de 1932: a causa paulista. São Paulo: Brasiliense, 1981. (Coleção Tudo é História)
  • COSTA, Emília Viotti da. 1932: imagens contraditórias. São Paulo: Arquivo do Estado, 1982.
  • DONATO, Hernâni. A Revolução de 32. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.
  • HILTON, Stanley E. A Guerra Civil Brasileira: história da Revolução Constitucionalista de 1932. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
  • PAULA, Jeziel. 1932: Imagens Construindo a História. Campinas/Piracicaba: Unicamp / Unimep, 1999.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
  • VILLA, Marco Antonio. 1932: Imagens de uma revolução. São Paulo: IMESP, 2008.
  • Revolução de 1932. Arquivo Público do Estado de São Paulo. Seção Exposições Virtuais.
  • Revolução de 32. A fotografia e a política. (pdf). CPDOC/FGV

 

 

 

 

 

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