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10 erros comuns sobre as culturas indígenas do Brasil

16 de abril de 2019

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Há mais de dez anos que o ensino da história e da cultura dos povos indígenas no Brasil é conteúdo obrigatório nas escolas públicas e particulares (Lei 11.465/08). No entanto, o tema ainda é tratado de forma periférica e pontual pela maioria dos professores e dos livros didáticos o que contribui para manter ou mesmo reforçar equívocos, estereótipos e preconceitos.

Perdura a concepção que os indígenas são populações em extinção, vítimas do extermínio e da “aculturação”, restando alguns “índios puros”. Daí a ideia distorcida de que só possível pensar em índios no período colonial e mesmo assim sem relevância para o estudo da história. Eles aparecem na aula e nos manuais escolares antes e depois do “descobrimento” do Brasil e nas comemorações do Dia do Índio, e depois “desaparecem” do currículo e das salas de aula.

Vamos falar sobre os dez erros, mentiras e estereótipos mais comuns sobre as culturas indígenas. São eles:

  1. “Os índios estão em extinção”
  2. “É tudo índio”
  3. “Índio com roupa e celular não é mais índio”
  4. “A cultura indígena é atrasada”
  5. “Os índios são preguiçosos e não gostam de trabalhar”
  6. “O índio só fez a extração do pau-brasil”
  7. “Tem muita terra para pouco índio”
  8. “Os índios têm muitos privilégios”
  9. “Lugar de índio é no mato”
  10. “Os índios não construíram nenhuma obra admirável”

Comentamos abaixo cada um desses itens. Ao final, apresentamos uma sugestão de material (livros, vídeos, brincadeiras) para trabalhar as culturas indígenas em sala de aula.

Erro 1: “Os índios estão em extinção”

Eles não estão em extinção, mas ao contrário, é uma população que vem crescendo nos últimos anos. A ideia de extinção é uma representação convencional que predominou, inclusive, na historiografia até a década de 1980. John Monteiro, um dos principais autores que renovou os estudos da História e Culturas Indígenas, lembra que os estudos acadêmicos tradicionais consagraram duas noções: a dos indígenas como sujeitos não históricos e/ou sem história por serem ágrafos; e outra que os representa como populações em extinção.

A demografia indígena é tema de interesse dos pesquisadores, mas ainda com muitos pontos divergentes. As estimativas sobre os contingentes populacionais que, no século XVI, habitavam o território que hoje compõem o Brasil variam de 2 a 8 milhões de pessoas, pertencentes a 1.000 ou 1.400 povos diferentes. A maioria estava concentrada na Amazônia incluindo áreas da floresta hoje pertencentes ao Peru, Equador e outros países.

A população originária caiu de milhões para milhares. Em 1991 eram 294 mil indivíduos vivendo nas Terras Indígenas. O censo de 2006 mostrou um crescimento demográfico: 345 mil indígenas aproximadamente distribuídos em 215 etnias.

O censo de 2010 (IBGE-2012) revelou um súbito aumento demográfico: 817.963 pessoas se autodeclararam índias, pertencentes a 305 etnias e falantes de 274 idiomas. Este Censo revelou que em todos os Estados da Federação, inclusive do Distrito Federal, há populações indígenas. O forte crescimento populacional se explica mais pela mudança na autoidentificação étnica do que no crescimento vegetativo (por nascimento).

Importante observar que a autodeclaração indica uma mudança na percepção e na valorização da origem étnica. Os povos indígenas não querem (e nem devem) ser identificados como caboclos ou pardos, mas pela etnia que pertencem. Essa postura acarreta revisões de versões históricas já consagradas, como a do desaparecimento de determinados povos.

A autodeclaração é defendida pela Constituição de 1988 e pela Convenção no 169 sobre Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil em 2000. As populações indígenas têm o direito de escolher seus próprios caminhos para o futuro. Esse princípio consta ainda na Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas.

Erro 2: “É tudo índio”

O termo índio é ambíguo. Surgiu na época das navegações quando o objetivo maior era a busca de um caminho para a Índia. Os navegadores europeus chamaram de “índios” a população nativa da América, da Indonésia e da Índia.

Os índios nunca se chamaram assim, de forma tão genérica. Tinham nomes diferentes para designarem a si mesmo e a outros povos.  Assim, por exemplo, Tupi significa “o ancestral”, Tupinambás, “os antecedentes do ancestral”, Tupiniquins, “os galhos do ancestral”, Guajajaras, “bons caçadores de caranguejos”, Guarulhos, “os barrigudos”, Nhambiquaras, “orelhas furadas”.

Não existe absoluto em termos culturais. Não existe o índio, o africano, o europeu, o asiático etc. Quando tratamos de indígenas estamos lidando com povos que, apesar de alguns traços culturais e históricos em comum, possuem grandes diferenças culturais. Cada povo tem a sua língua, sua religião, sua arte, sua ciência, sua dinâmica histórica própria.

Atkas Miller, 1519

Uma das mais antigas representações europeias dos indígenas brasileiros, incluída no Atlas Miller de 1519.

A diferença entre a língua Macuxi e a Ingaricó, ambas do tronco linguístico Karib, é comparável à diferença existente entre o português e o espanhol, ou seja, é possível estabelecer um nível mínimo de comunicação. No entanto, entre povos vizinhos no Rio de Janeiro, os Tupinambá e os Goitaká era impossível a comunicação pois suas línguas eram de troncos diferentes (Tupi e Macro-Jê, respectivamente); as diferenças podem ser comparáveis a existente entre o alemão e o português.

Daí entender que a denominação “Dia do Índio” (19 de Abril) é equivocada e estereotipada, em nada contribuindo para a reflexão dos valores culturais dos povos indígenas e a importância da preservação e do respeito a esses valores. Criada pelo decreto-lei 5.550/1943, a data se consagrou no calendário escolar e merece ser renomeada como “Dia dos Povos Indígenas no Brasil”.

Erro 3: “Índio com roupa e celular não é mais índio”

Esse equívoco está relacionado à ideia (também errada) de que existe “índio puro” e “índio aculturado” ou pior, “ex-índio”. É tão absurdo quanto pensar que um imigrante japonês perdeu sua ascendência étnica porque substituiu o hashi (pauzinhos) pelo garfo e faca. Da mesma maneira, se você vestir um cocar Kaiapó, isso não o torna um Kaipó, e nem vira um gaúcho se tomar chimarrão.

Cultura não é uma coisa estática, impenetrável e congelada no tempo. A cultura está em constante transformação, se inter-relacionando com o ambiente, as circunstâncias, outras culturas e consigo mesma. Cultura não é algo que se perde, é algo que se transforma constantemente.

Nós não falamos mais o português de Machado de Assis. Do final do século XIX para hoje, desapareceram palavras, outras mudaram de significado e surgiram muitas outras. Não somente a língua, mas também costumes, valores, moda, hábitos alimentares, interesses e até a nossa percepção de tempo e distância são muito diferentes da época de Machado de Assis.

Nossa cultura mudou, estamos sempre incorporando elementos de outras culturas e achamos isso natural. No entanto, muitos se surpreendem quando vêm um índio de jeans e usando um computador achando que ele não é mais “índio de verdade”.

Tecnologia na cultura indígena

A tecnologia moderna tem sido uma aliada para o registro, a preservação e a divulgação da cultura indígena.

Os povos se influenciam mutuamente. O resultado da relação entre culturas, da troca que se dá entre elas se chama interculturalidade.

A interculturalidade não é apenas a mera transferência de elementos de uma cultura para outra. É uma construção conjunta de novos significados, onde novas realidades são construídas sem que isso implique abandono das próprias tradições. As populações indígenas têm o direito de entrar em contato com outras culturas e tomar emprestado aquilo que pode lhes servir para viver melhor, se comunicar melhor e isso inclui tecnologia, língua, trajes, veículos etc.

O problema é que, historicamente, não foi dado aos indígenas a liberdade de escolha. O colonizador impôs sua cultura, religião e língua às populações indígenas. As relações foram assimétricas (e abusivas) em termos de poder não deixando margem para a escolha.

Erro 4: “A cultura indígena é atrasada”

Estamos tão viciados em medir os povos pela nossa régua, isto é, compará-los a partir de nosso mundo tecnológico e valores sociais que aquilo que não se encaixa é depreciado. Os povos indígenas produziram saberes, ciências, arte refinada, literatura, poesia, música, religião.

As religiões indígenas foram (e ainda são) consideradas como um conjunto de superstições por católicos e evangélicos revelando uma visão etnocêntrica e preconceituosa. Há muito desconhecimento sobre as religiões indígenas especialmente quando se tenta fazer analogias com o cristianismo. É o caso do Tupã que os jesuítas, no século XVI, associaram ao Deus cristão, mas que estava longe de corresponder a essa associação. Tupã era uma figura secundária na cosmogonia Tupi mais próximo a um demônio, temido por lançar raios e trovões e, consequentemente, por provocar a morte e a destruição (LARAIA: 2005, p. 11). Os sentimentos indígenas para com essa entidade eram (e são) mais de medo do que veneração. O erro se perpetuou nas missões jesuíticas criando mais uma dificuldade para a catequese dos indígenas e ainda está presente em muitos livros didáticos.

Os conhecimentos indígenas sempre foram desprezados e, no entanto, eles têm muito a ensinar sobre plantas medicinais, agricultura, reflorestamento, pesticidas e fertilizantes naturais, comportamento animal, manejo da pesca, astronomia etc.

Muitos povos indígenas realizaram melhoramento genético de plantas cultivadas. A mandioca foi domesticada pelos índios por volta de 7000 a.C. segundo o arqueólogo Donald Lathrap que fala em uma “civilização da mandioca”.  Durante milênios, através de experimentos genéticos, os índios diversificaram a espécie. Só na região do Uapés, afluente do rio Negro, no Amazonas, a antropóloga Janete Chernella (1986) identificou 137 cultivares diferentes entre os Tukano, algumas ignoradas pelas universidades.

Os índios têm seu próprio sistema de Justiça, um corpo de regras e códigos, direitos e deveres entre os indivíduos da comunidade. Segundo Márcio Rosa da Silva: “Quando uma regra é rompida, existem maneiras institucionalizadas para resolver o conflito. Mesmo não sendo leis escritas, as normas são transmitidas oralmente de geração em geração. Os Ingarikó, povo da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, ao pé do Monte Roraima, têm quatro instâncias para tentar resolver seus conflitos. A primeira é a família. Se o problema não for resolvido na esfera privada da unidade familiar, é levado ao Tuxaua, uma espécie de cacique. Se ele não puder dar solução, chama-se o Esak, um líder religioso e guardião da cultura Ingarikó. A quarta instância é o Pukkenak, líder máximo dos Ingarikó, com poderes políticos e religiosos.”

O preconceito em relação aos saberes indígenas não nos tem permitido usufruir desse legado cultural acumulado durante milênios. Muitos erros poderiam ter sido evitados, se o colonizador tivesse confiado nas taxonomias indígenas. No ano de 1985 aconteceu um grave acidente em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, perto da aldeia guarani de Sapukai. Choveu muito e as águas pluviais provocaram deslizamentos de terras das encostas da Serra do Mar, destruindo o Laboratório de Radioecologia da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, construída em 1970 num lugar que os índios tupinambás, há mais de 500 anos, chamavam de Itaorna. O prejuízo foi calculado na época em 8 bilhões de cruzeiros. Os engenheiros responsáveis pela construção da usina nuclear não sabiam que o nome dado pelos índios continha informação sobre a estrutura do solo, minado pelas águas da chuva. Só depois do acidente descobriram que Itaorna, em língua tupinambá, quer dizer “pedra podre”.

Erro 5: “Os índios são preguiçosos e não gostam de trabalhar”

Em agosto de 2018, o então candidato à vice-presidência, general Hamilton Mourão fez o seguinte comentário: “Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense”.  Mesmo se identificando como indígena, o general reproduziu o preconceito que há mais de 500 anos pesa sobre as populações indígenas.

Escravizados no período colonial, os índios resistiram ao trabalho e por isso foram considerados “preguiçosos”, “insolentes” e “selvagens” pelo colonizador. A difusão da mão de obra escrava africana reforçou o estereótipo do indígena incapaz, traiçoeiro, desordeiro e preguiçoso. Essa imagem negativa ainda persiste na discriminação que hoje eles sofrerem para se colocarem no mercado de trabalho formal onde só conseguem ocupar vagas mal remuneradas como boias-frias, carpinteiros, empregados domésticos etc.

Os índios trabalham e muito, sem folgas semanais, sem férias.  Caçar, pescar, preparar o solo, plantar, colher, manejar, construir sua casa, derrubar a árvore e fabricar seu barco e instrumentos de trabalho etc. são tarefas de demandam muitas horas e dias de trabalho contínuo. A pesca e a caça exigem longos períodos de afastamento da residência por parte de um ou vários membros, o que sobrecarrega o trabalho dos que ficam na aldeia cuidando da roça, por exemplo.

Importante lembrar que a ética do trabalho dos indígenas é diferente daquela da “sociedade dos brancos”. Para os indígenas, a finalidade do trabalho é prover o sustento da comunidade, transmitir e elaborar a tradição. Deste modo, exercer certo trabalho é menos importante do que o modo como ele é exercido. Além disso, a lógica indígena tradicional não se interessa em acumular e auferir lucro, como é a lógica da sociedade capitalista. Isso muda completamente sua predisposição ao trabalho. O índio usufrui mais e deseja menos.

Porém, a cultura indígena não está congelada, como já foi dito, e algumas etnias estão buscando integrar sua cultura tradicional a um novo meio de vida. É o caso do povo Paumari, no sudoeste do Amazonas, pioneiro no manejo sustentável de pirarucu, o maior peixe de escamas de água doce do mundo e que chegou a estar ameaçado de extinção. Desde 2009, os Paumari fazem o manejo de 23 lagos, e no final de setembro de 2014 realizaram a pesca de 3.523 kg de pirarucu legalizados pelo Ibama. Hoje a pesca do pirarucu é a principal fonte de receitas dos Paumari e motivo de orgulho da aldeia.

Outro exemplo de geração de renda aliado à sustentabilidade e à cultura vem da etnia Kisêdjê, da Terra Indígena Wawi, anexa ao Parque Indígena do Xingu. Desde 2011 a comunidade participa de um projeto para produção e comercialização de óleo de pequi. Em 2013 foram produzidos 170 litros do óleo na mini usina construída na aldeia Ngohwêrê. O projeto conta com o apoio técnico do ISA – Instituto Socioambiental e financeiro e organizacional do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek.

Erro 6: “O índio só fez a extração do pau-brasil”

De fato, os indígenas foram a mão de obra para o escambo do pau-brasil no chamado período pré-colonial. Mas não se limitaram a isso. Eles trabalharam na lavoura canavieira como escravos, ensinaram os caminhos dos sertões aos bandeirantes, coletaram as drogas do sertão (cacau, castanha-do-pará, guaraná, pau-cravo, urucum etc)  para as missões jesuíticas, ajudaram os portugueses a expulsar os franceses da Baia da Guanabara e os holandeses de Pernambuco, lutaram na Cabanagem, na Guerra do Paraguai e na Guerra do Contestado ao lado de brancos e mestiços.

Acima de tudo, os indígenas resistiram à ocupação de suas terras (Aimoré, Potiguara, Tupinambá, Cariri, Manau, foram, por exemplo, grupos indígenas que abriram guerras contra os portugueses), pegaram em armas na Guerra Guaranítica, enfrentaram a expansão da cafeicultura e das ferrovias – enfim, eles foram partícipes na história brasileira.

A presença indígena na história e na formação da sociedade brasileira é marcante. A cultura indígena faz parte de diversos aspectos de nossa vida:

  • Nomes de lugares: Paraná, Maracanã, Ipanema, Ibirapuera, Goiás, Piauí, Curitiba, Tocantins, Iguaçu etc.
  • Vocabulário: sapé, cipó, caiçara, pipoca, caipira, jacaré, biboca, arapuca, cacimba, jabá, tatu etc.
  • Expressões: chorar as pitangas, estar jururu, ficar na pindaíba, nhenhenhém etc.
  • Costumes: dormir na rede, banho diário, andar descalço etc.
  • Técnicas: a pesca por tarrafa, a coivara dos campos, o mutirão, a tecelagem do algodão, a navegação fluvial em pirogas e no mar jangada etc.

Os indígenas apresentaram aos colonizadores os frutos da terra, desconhecidos, então por eles: mandioca, milho, batata-doce, amendoim, abóbora, abacaxi, caju, pimenta, mamão. Ensinaram os portugueses a manipularem alimentos e preparem iguarias como pirão de peixe, tapioca, beiju, mingau de fubá, angu, paçoca, canjica, bebidas como o guaraná e o mate.

A medicina indígena salvou a vida de muitos colonizadores: quinina para febre e a malária, a copaíba para curar feridas, o curare usado como anestésico, a catuaba como tônico e fortificante, a semente de sucupira para inflamação das articulações etc. O conhecimento indígena tem despertado o interesse de pesquisadores nacionais e estrangeiros para fabricação de remédios e cosméticos.

Erro 7: “Tem muita terra para pouco índio”

A Constituição de 1988 reconheceu aos índios os “direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (Art. 231), e estabeleceu o prazo de cinco anos para a demarcação de todas as Terras Indígenas.

O termo “direitos originários” significa que eles antecedem à própria Constituição. A demarcação é apenas o reconhecimento desse direito pré-existente e seu objetivo é garantir materialmente o direito indígena à terra. A noção de território é o fundamento da existência do povo, pois somente em seu território é possível a prática plena de sua cultura.

As Terras Indígenas são aquelas tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas do Brasil, “habitadas em caráter permanente, utilizadas para as suas atividades produtivas, e imprescindíveis à preservação dos recursos naturais necessários para o seu bem-estar e sua reprodução física e cultural, de acordo com seus usos, costumes e tradições”. São consideradas sagradas, nelas estão sepultados seus ancestrais, nelas se originam seus mitos, e elas sustentam toda sua cultura e o seu modo de vida, que são a marca da identidade singular de cada povo.

As Terras Indígenas são bens da União, inalienáveis e indisponíveis, ou seja, os indígenas têm o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, mas não podem efetuar nenhum negócio jurídico que acarrete a transferência da titularidade de direitos sobre estas terras, e nem permitir a exploração dos recursos naturais.

Os que contestam o reconhecimento das Terras Indígenas argumentam que elas ocupam 13% do território e onde vivem 700 mil pessoas (ISA, 2018) – é “muita terra para pouco índio”, dizem eles. Na Amazônia Legal (área que engloba nove estados na bacia amazônica) situam-se 98% das terras indígenas do país em mais de 400 áreas, ocupando cerca de 21% da Amazônia.

Examinando mais de perto essa questão nas diversas regiões do país, chegamos a outras conclusões.  No Mato Grosso do Sul, onde o conflito entre indígenas e produtores rurais tem se exacerbado, as 56 terras indígenas onde vivem cerca de 90 mil indígenas corresponde apenas 2,28% de seu território.  Em contrapartida, 17% dos imóveis rurais do Mato Grosso do Sul ocupam 80% de toda área rural do estado, o que mostra a grande concentração de terras nas mãos de poucos proprietários.

Os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm atualmente 141 terras indígenas, que ocupam 400 mil hectares da região, o equivalente a 0,7% da área somada dos três estados – uma porcentagem de terras insignificante, mas onde vivem, aproximadamente, 60 mil pessoas, segundo dados do ISA.

O Brasil tem uma área de cerca de 851 milhões de hectares. Destes, 230 milhões de hectares são ocupados pela pecuária e 64 milhões por agricultura intensiva, totalizando 34,5% do território ocupado com agropecuária. Há, ainda os milhões de hectares de terra improdutiva. Vê-se, portanto, que os 13% de terras demarcadas como Terras Indígenas estão longe de prejudicar o agronegócio, as empreiteiras e indústrias.

No entanto, grande parte das Terras Indígenas são cortadas por estradas, ferrovias, linhas de transmissão ou têm porções inundadas por usinas hidrelétricas. São invadidas por garimpeiros, madeireiros, grileiros, fazendeiros, pecuaristas etc. Frequentemente, os índios colhem resultados perversos do que acontece mesmo fora de suas terras, nas regiões que as cercam: poluição de rios por agrotóxicos, desmatamentos etc.

Carvoaria, Maranhão

Carvoaria nas imediações da Terra Indígena Araribóia, habitada pelos índios Guajajara, no Maranhão. A derrubada ilegal de árvores para serrarias e carvoarias já desmatou 46% da cobertura florestal do Maranhão. Foto Clara Roman – ISA, 2018.

Erro 8: “Os índios são sustentados pelo governo”

Existe uma crença antiga de que índio recebe um salário do governo para se sustentar.  Isso é mentira.

Os indígenas são cidadãos plenos, e têm direitos aos benefícios sociais e previdenciários do Estado Brasileiro como aposentadoria por idade ou por invalidez, salário maternidade por 120 dias, auxílio doença, pensão por morte, benefício de prestação continuada ao idoso ou pessoa com deficiência, e Bolsa Família.

Quanto aos benefícios sociais, indígenas são considerados pelo INSS “segurados especiais” para fins de acesso ao salário maternidade, aposentadoria por idade, auxílio doença, auxílio acidente, aposentadoria por invalidez, pensão por morte e auxílio reclusão.

São considerados pelo INSS “segurados especiais” por serem trabalhadores rurais que produzem em regime de economia familiar, sem utilização de mão de obra assalariada da mesma maneira que os agricultores “brancos”, os seringueiros e os pescadores artesanais.

Na área da educação, os indígenas têm direito a uma educação diferenciada, intercultural e bilíngue que assegure a aprendizagem aos conhecimentos indígenas. Os indígenas podem elaborar seus próprios currículos e rotinas escolares com gestão indígena. Ainda faltam professores indígenas assim como materiais didáticos específicos, alimentação (sendo que poucas vezes esta é, de fato, diferenciada) e infra-estrutura adequada às escolas.

Em relação à saúde, os indígenas são atendidos pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), que é parte do SUS que atende aos não indígenas. Essa distinção tem o objetivo de respeitar questões culturais a fim de que os profissionais da saúde atuem em consonância com as práticas tradicionais indígenas. No entanto, poucos postos funcionam bem. Faltam profissionais especializados, equipamentos e até remédios.

Outra crença é que índio não pode ser preso e está proibido de comprar bebidas alcoólicas constituindo crime propiciar o uso e a disseminação de bebidas alcoólicas entre índios. Isso está estabelecido pelo Estatuto do Índio (Lei 6.001/73) que ainda está em vigor. Entretanto, no entendimento da Funai, a Constituição de 1988, a lei máxima, revoga o Estatuto, e reconhece o direito dos indígenas à cidade plena. Mas muitos juristas ainda embasam suas decisões no Estatuto do Índio.

Em relação aos delitos, a lei para os indígenas é a mesma que a nossa. Índios podem ser e são presos quando roubam, praticam atos de violência, cometem assassinatos etc.

Erro 9: “Lugar de índio é no mato”

Lugar de índio é onde ele quiser viver: na aldeia ou em um condomínio na cidade.

A maioria dos indígenas vive na zona rural mas há um número significativo vivendo nas cidades e esse número tende a aumentar. Segundo o IBGE, em 2010, do total da população indígena, 817.963 indígenas, viviam na zona rural 502.783 (61,4%) e, nas zonas urbanas, 315.180 (38,5%). A Funai também registra 69 referências de índios ainda não contatados, além de existirem grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal indigenista.

A vida nas cidades é precária para os indígenas: moram na periferia e em favelas, longe de rios onde possam se banhar sem roupas e de locais para fazerem seus rituais e danças. Trabalham como pedreiros, seguranças, empregadas domésticas, catadores de material reciclável.  Ainda sofrem o preconceito e a discriminação da população urbana.

Em Manaus (AM), há cerca de 18 mil indígenas morando na periferia da cidade como os sateré-mawé, apurinã, kokama, miraña, dessana, tukano e piratapuia. Em Boa Vista (RR), são uns 10 mil índios ou descendentes, muitos deles morando no lixão da cidade. Os exemplos estão por todo país: em Porto Alegre (RS) e Chapecó (SC), são os caingangues; em Rio Branco (AC), apurinãs, kaxinawás e manchineris; em Belém (PA), jurunas e mundurukus; na cidade do Rio de Janeiro, tem a aldeia Maracanã; em São Paulo, capital, há cerca de 13 mil guaranis. A aldeia de Dourados (MS), que fica na área urbana, concentra etnias guarani-kaiowá e terena, e foi ameaçada de despejo, em 2017, por cinco mandados de reintegração de posse.

Índios do MS nas colheitas de maçã

Índios do Mato Grosso do Sul contratados para trabalhar na colheita de maçãs em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, janeiro de 2019.

Apesar de buscar melhores condições de vida na cidade, a maioria dos indígenas vive em situação de pobreza, tem dificuldade de conseguir emprego e a principal renda vem do artesanato. Os indígenas que migram da aldeia para as áreas urbanas enfrentam problemas com documentação. Sua carteira de identidade indígena – muitas vezes o único tipo de identificação que possuem – não é aceita na hora de abrir contas em bancos, fazer compras ou mesmo acessar serviços públicos.

Mesmo com todas as dificuldades, há um número crescente de indígenas ingressando em universidades públicas e privadas. Em 2018, havia 48 instituições do ensino superior em diversos estados do país que reservavam vagas para indígenas.

As eleições de 2018 tiveram 124 candidatos de origem indígena para cargos eletivos variados: 2 à vice-presidência (General Mourão, do PRTB, ede Sonia Guajajara, do Psol),2 a governador, 1 a vice-governador, 2 ao Senado, 39 à Câmara de Deputados e 78 às Assembleias Legislativas estaduais.

Segundo a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), é preciso uma maior representação destes povos na política:

“O foco é que os nossos povos não atuem mais como meros coadjuvantes nesse processo de eleição. Por isso, conclamamos a todos os povos indígenas do Brasil para que a partir de agora, iniciem suas discussões no âmbito local e regional sobre a necessidade de lançarmos cada vez mais indígenas candidatos”.

Erro 10: “Os índios não construíram nenhuma obra admirável”

Não reconhecer o patrimônio cultural indígena é condenar estes povos ao esquecimento. Os povos indígenas deixaram um grande e diversificado legado cultural. São práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – incluindo os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades indígenas reconhecem como parte integrante de suas identidades e culturas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) destaca como Patrimônio Cultural do Brasil os seguintes bens culturais dos povos indígenas:

– Modo de fazer Bonecas Karajá (ritxòkò): os saberes e práticas do povo Karajá para a confecção das ritxòkò,  bonecas de cerâmica que, mais do que objetos lúdicos, são meios de socialização das crianças e de representações culturais.

– Pintura e decoração das ritxòkò: a pintura e a decoração das cerâmicas Karajá estão associadas à pintura corporal desse povo e são indicativos de gênero, idade e estatuto social. Trata-se, portanto, de formas de expressão artística e cosmológica.

Bonecas karajá

A pintura, decoração e modo de fazer das “ritxòkò”, as bonecas de cerâmica dos índios Karajá, constituem patrimônio cultural indígena.

– Sistema agrícola tradicional do rio Negro:  abrange as plantas cultivadas, os espaços, as redes de circulação, a cultura material, os sistemas alimentares, os saberes e a sustentabilidade do modo de produzir que garante a conservação da floresta.

– Ritual Yaokwa do povo indígena Enawene Nawe: é a principal cerimônia do calendário desse povo que habita a Terra Indígena localizada na região noroeste do Mato Grosso. Parte do ritual acontece na saída dos homens para a pesca coletiva de barragem. O ritual Yaokwa foi incluído pela Unesco, em 2011, na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial que Requer Medidas Urgentes de Salvaguarda.

– Tava, lugar de referência do povo Guarani-Mbyá: Tava é como os guaranis chamam o sítio de São Miguel Arcanjo, no Rio Grande do Sul, patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan e da humanidade pela Unesco. Para os indígenas, este é o local onde viveram seus antepassados que construíram as estruturas de pedra a pedido de Nhanderu. As estruturas de pedra são importantes para ensinar os jovens sobre seus antepassados, a trajetória dos Guarani e sobre a possibilidade de se tornar imortal e alcançar Yvy Mara Ey (a Terra sem Mal).

– Cachoeira de Iauaretê: a “cachoeira das onças”, em nheengatu, é lugar sagrado dos povos indígenas que habitam a região banhada pelos rios Uuapés e Papuri, afluentes do rio Negro, no estado do Amazonas. As pedras, lajes e paranás da cachoeira simbolizam episódios de guerras, perseguições, mortes e alianças descritos nos mitos de origem e nas narrativas históricas destes povos. Locais onde ocorreram fatos marcantes relacionados à criação da humanidade, das plantas, dos animais e das etnias.

– Arte Kusiwa do povo indígena Wajãpi: trata-se da pintura corporal e da arte gráfica dos Wajâpi, do Amapá, um sistema de representação que sintetiza seu modo de conhecer, conceber e agir sobre o universo. Em 2003, a arte Kusiwa recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

arte Kusiwa

A arte Kusiwa do povo indígena Wajãpi, do Amapá.

**Material para usar em sala de aula**

Relatos de viagem, costumes e lendas indígenas

  • MAGALHÃES, general Couto de. O Selvagem. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975.
  • MAGALHÃES, general Couto de. Viagem ao Araguaia. São Paulo: Editora Três, 1974.
  • STRADELLI, Ermano. Lendas e notas de viagem. A Amazônia de Ermano Stradelli. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
  • RAPONI, Lívia (org.). A única vida possível. São Paulo: Unesp, 2016.
  • GARCIA, Wilson Galhego. Nhande rembypy. Nossas origens. Edição bilíngue português-guarani. São Paulo: Unesp, 2003.
  • SÁEZ, Oscar Calavia. O nome e o tempo dos Yaminawa. São Paulo: Unesp, 2006.
  • KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Do Roraima ao Orinoco. São Paulo: Unesp, 2006.

Vídeos no YoutTube

Para os pequenos

 Fonte

  • ARAÚJO, Ana Valéria et alii (org). Povos indígenas e a lei dos “brancos”: o direito à diferença. Série Via dos Saberes n. 3. Edições MEC/Unesco, 2006
  • CHERNELLA, Janet M. Os cultivares de mandioca na área do Uaupés (Tukano). In: Suma Etnológica Brasileira. Edição atualizada do Handbook of South América Indians. Coordenação Berta G. Ribeiro. Vol. 1 – Etnobiologia, Petrópolis. Vozes. 1986. p. 151 a 158.
  • FUNARI, Pedro Paulo e PIÑON, Ana. A temática indígena na escola: subsídios para os professores. São Paulo: Contexto, 2014.
  • LARAIA, Roque de Barros. As religiões indígenas: o caso tupi-guarani. Revista USP, São Paulo, n.67, setembro/novembro 2005.
  • MONTEIRO, John Manuel. “A dança dos números: a população indígena do Brasil desde 1500”. In: Revista Tempo e Presença, CEDI, Ano 16, n. 273, pp. 16-17, 1994.
  • MONTEIRO, John. Os índios na História do Brasil. Centro de Pesquisa em Etonologia Indígena. Unicamp.
  • Povos indígenas no Brasil. Pib Socioambiental.
  • SILVA, Aracy Lopes da; GRUPIONI, Luís Donizete Benzi (orgs.). A temática indígena na escola: novos subsídios para os professores de 1º e 2º graus. São Paulo: Global; Brasília: MEC/MARI/UNESCO, 2004
  • RAJÃO, Raoni; RITTL, Carlos. O agronegócio brasileiro é uma potência, mas se tornou uma ameaça. Agencia Envolverde Jornalismo. 22 fev 2018.
  • Muita terra para pouco índio? ISA. Terras indígenas no Brasil.
  • ROSA DA SILVA, Márcio. Diálogo com sistemas de Justiça indígenas como forma de resolução de conflitos. Consultor Jurídico, 6 mar 2017.

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Orides Maurer Junior
5 anos atrás

Ótimas observações sobre a temática indígena.

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[…] foi uma cidade maia, erguida em plena selva tropical, na atual Belize. Foi ocupada entre 600 a.C. e 900 d.C. por uma […]

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[…] os maias, era costume os nobres inclusive o rei, disputarem o jogo de bola com prisioneiros de guerra. […]

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[…] 10 erros comuns sobre a cultura indígena. […]

Antonio Evandro Cordeiro
Antonio Evandro Cordeiro
3 anos atrás

Sobre a mesopotâmia !!

Victor Hugo Pinheiro Cunha
Victor Hugo Pinheiro Cunha
2 anos atrás

Eu só acho que índio é uma palavra apropriada em bom português bem distinta de indiano por exemplo, talvez em inglês indian seja a mesma palavra para american indian e hindi indian, mas em português obviamente não… ìndio é sempre usado para o nativo americano… Ameríndio? Redundante. Acho quase tão esquisito chamar um índio de indígena quanto chamar um negro de negróide ou um branco de .. latino, caucasiano, eslavo, galego germânico… bah… Mas… O resto do texto está ótimo!

Joelza Ester
Joelza Ester
2 anos atrás

Obrigada pela contribuição.!

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